sábado, 31 de janeiro de 2026

Amaggi compra fertilizante de empresa acusada de lucrar com ocupação de Israel na Palestina

A AMAGGI, gigante brasileira da soja, recebeu ao menos duas cargas de insumos usados na produção de fertilizantes da empresa israelense ICL, denunciada por um centro de pesquisa de Israel por supostamente extrair recursos de terras palestinas ocupadas ilegalmente por esse país e alvo de campanhas de boicote promovidas por organizações da Palestina e de outros países.

Informações obtidas pela Repórter Brasil mostram que um navio com duas cargas da ICL com destino à empresa brasileira atracou no Porto de Itacoatiara, no Amazonas, no dia 15 de janeiro. A embarcação, que saiu do Porto de Ashdod, na costa do Mar Mediterrâneo, no Sul de Israel, foi monitorada pela reportagem a partir de sites de rastreamento de navios.

Os carregamentos enviados à Amaggi eram compostos por 34 mil toneladas de cloreto de potássio e 11,3 mil toneladas de superfosfato simples, matérias-primas da fabricação de fertilizantes. Em 2025, insumos para fertilizantes foram os principais produtos importados de Israel pelo Brasil, segundo dados de comércio exterior brasileiro.

Dados alfandegários acessados pela Repórter Brasil indicam existir um histórico recente de importação desse tipo de produto de empresas do grupo ICL pela companhia brasileira.

Além de ser denunciada pelo centro de pesquisa israelense por explorar minerais em territórios palestinos ocupados por Israel, a ICL é associada, por uma organização palestina, a riscos ambientais recorrentes e disputas de terras que afetam comunidades beduínas no Sul israelense.

A empresa, ainda, é alvo de campanhas de boicote por um movimento da sociedade civil da Palestina com base em uma investigação do portal australiano ABC, de 2024, que revelou que a ICL fornecia fósforo branco para projéteis militares dos Estados Unidos – país que, por sua vez, é fornecedor desse tipo de material bélico ao governo de Israel, acusado de cometer genocídio em Gaza em um processo movido pela África do Sul na CIJ (Corte Internacional de Justiça). A administração do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu rejeita as acusações.

Procurada pela Repórter Brasil, a ICL disse não operar em áreas politicamente sensíveis. “Nossa extração mineral é realizada inteiramente dentro dos termos de nossas concessões do Estado de Israel, inteiramente dentro das fronteiras israelenses, em total conformidade com todos os regulamentos aplicáveis”, completou. A empresa não se manifestou em relação aos demais questionamentos.

Já a Amaggi afirmou que “preza por sua reputação, credibilidade e princípios de legalidade, ética, transparência e integridade” e que, portanto, realiza uma “completa e extensa diligência previamente a qualquer contratação com clientes e fornecedores”, que incluem análise de questões socioambientais. “A diligência relativa à ICL não demonstrou qualquer limitação que impedisse a transação comercial (aquisição de insumos) em comento”.

<><> Impactos no Mar Morto

No território onde Palestina e Israel estão localizados, no Oriente Médio, a ICL extrai potássio e fosfato em duas regiões.

Uma delas é a bacia do Mar Morto, situada na fronteira entre Israel, Jordânia e Cisjordânia, território palestino ocupado militarmente por Israel desde 1967.

Segundo o Instituto Palestino para a Estratégia Climática, organização ouvida pela Repórter Brasil, “investigações da sociedade civil e alguns especialistas da ONU têm demonstrado preocupação com o fato de que a gestão de recursos do Mar Morto algumas vezes se sobrepõe à ocupação prolongada e ao controle desigual sobre as terras e os recursos naturais palestinos, assim como a uma significativa degradação ecológica na região”.

De acordo com o centro de pesquisa israelense “Who Profits” (“Quem lucra”, na tradução para o português), que investiga as conexões entre o setor privado e a economia nos territórios palestinos ocupados por Israel, a ICL extrai potássio e outros minerais por meio do bombeamento de salmoura do Norte do Mar Morto, na Cisjordânia, para lagoas no Sul da bacia, já em território israelense.

Há muitos anos, é consenso na comunidade internacional que a ocupação israelense dos territórios palestinos a partir de 1967 é ilegal à luz do direito internacional, uma vez que violaria a Carta das Nações Unidas e diversas resoluções de sua Assembleia Geral e seu Conselho de Segurança.

Em julho de 2024, a Corte Internacional de Justiça, vinculada à organização, ratificou esse entendimento, determinando a ilegalidade da ocupação, que deveria ser encerrada o mais rapidamente possível.

Diante disso, empresas que atuam nos territórios palestinos ocupados são acusadas de contribuir para a violação de direitos humanos da população local.

Em entrevista ao portal norueguês NRK em setembro do ano passado, Michael Lynk, que foi Relator Especial da ONU sobre direitos humanos nos territórios palestinos entre 2016 e 2022, afirmou: “Se, pela lei, o recurso [Mar Morto] é compartilhado entre a potência ocupante e o povo ocupado, e não existe nenhum acordo sobre o uso justo desse recurso compartilhado, e todos os benefícios dele são apropriados pela potência ocupante, então isso é ilegal”.

O NRK havia noticiado que a ICL também fornecia potássio para a Yara, gigante norueguesa de fertilizantes. Ao portal, a empresa israelense afirmou na ocasião que extraía minerais “inteiramente dentro das fronteiras de Israel”.

<><> ‘Desastre climático’

A atividade promovida pela ICL na região, além disso, tem contribuído para levar o Mar Morto a um “desastre climático”, resumiu em entrevista à AFP Nadav Tal, hidrologista e membro da EcoPeace Oriente Médio, organização que reúne ambientalistas de Israel, Jordânia e Palestina.

A entidade estima que apenas duas empresas – a Dead Sea Works, subsidiária da ICL, e companhia jordaniana Arab Potash Company – “contribuíram significativamente para o desaparecimento do Mar Morto”, com suas lagoas de evaporação industrial sendo responsáveis por “30-40% do esgotamento das águas do Mar Morto”.

Segundo a organização, a causa principal desse fenômeno é o desvio, por Israel, Síria e Jordânia, das águas do rio Jordão (parte dele, também situado na Cisjordânia) e de outros rios tributários do Mar Morto para usos domésticos e na agricultura.

A ICL e a Arab Potash Company foram procuradas para comentar os dados da EcoPeace Oriente Médio, mas não responderam.

<><> ICL tem vínculo com assentamentos israelenses ilegais, diz ONG

O centro de pesquisa israelense Who Profits, diz, ainda, que a ICL tem um histórico de fornecimento de produtos e serviços agrícolas para assentamentos israelenses localizados na Cisjordânia, também considerados ilegais segundo o direito internacional.

De acordo com a Quarta Convenção de Genebra, tratado que define as normas e leis relativas ao Direito Humanitário Internacional, a transferência de população civil de uma potência ocupante para o território ocupado caracteriza um crime de guerra.

Em sua decisão de 2024, a Corte Internacional de Justiça estabeleceu também, entre outros pontos, que Israel deveria parar de criar novos assentamentos e evacuar todos seus colonos dos territórios ocupados.

Questionada pela reportagem a respeito, a ICL não respondeu.

<><> Deslocamentos forçados de beduínos

Já em áreas do deserto de Neguev – localizado no sul de Israel e chamado de Naqab pelos palestinos –, a ICL realiza a mineração e o processamento de fosfato por meio de outra subsidiária, a ICL Rotem. “A mineração de fosfato está associada a riscos ambientais recorrentes e disputas de terras de longa data que afetam as comunidades beduínas palestinas”, aponta o Instituto Palestino para a Estratégia Climática, ouvido pela Repórter Brasil.

Os beduínos são uma comunidade tradicional pastoril formada por populações árabes muçulmanas nômades ou seminômades. No território israelense, habitam o Norte e, principalmente, o Neguev. Nessa região, boa parte de sua população vive em comunidades não reconhecidas pelo governo de Israel, e, por isso, enfrentam ameaças de despejo e demolição.

Um plano da ICL para abrir uma nova mina de fosfato próximo a cidade de Arad afetaria cerca de 100 mil residentes, segundo reportagem publicada pelo jornal The Times of Israel em agosto do ano passado. Entre os atingidos, estariam 15 mil beduínos.

Em 2017, um vazamento na fábrica da ICL Rotem despejou cerca de 100 mil metros cúbicos de fosfogesso – resíduo tóxico resultante produção de ácido fosfórico – no rio Ashalim, também no deserto de Neguev. O derramamento causou a morte de animais e impactos à flora local. Pelo danos ambientais, a ICL foi multada em cerca de 33,7 milhões de dólares, a maior multa já imposta a uma empresa no país.

Questionada pela Repórter Brasil a respeito dos impactos socioambientais da mineração de fosfato que realiza no Neguev, a ICL não respondeu.

<><> Empresa é classificada como ‘cúmplice” do conflito no Oriente Médio

A ICL foi classificada como “cúmplice da militarização do conflito no Oriente Médio” pelo Observatório de Direitos Humanos e Empresas no Mediterrâneo, com sede na Catalunha, na Espanha. “A empresa se beneficia diretamente do conflito [na Palestina] e tem um impacto negativo na busca por uma solução pacífica e justa”, classificou a organização.

Na Catalunha, a ICL opera por meio de sua subsidiária ICL Iberia, e também é alvo de campanhas de boicote por organizações locais, que acusam a empresa de poluir cursos d’água adjacentes ao rio Llobregat, o segundo maior da região autônoma espanhola. “É por isso que apelamos ao boicote à ICL como forma de pressão e protesto contra o seu impacto negativo no território e a sua cumplicidade no genocídio na Palestina”, dizem os organizadores da ação “Boicote à ICL”.

Na COP30 em Belém, organizações palestinas também pediram o “boicote e desinvestimento” na ICL e outras empresas do agronegócio israelense que, segundo o posicionamento, “lucram com o colonialismo, os pesticidas e a apropriação de terras”.

A BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções), movimento da sociedade civil palestina que busca o “cumprimento do direito internacional e dos direitos inalienáveis do povo palestino por meio de boicotes, desinvestimento e sanções”, foi uma das organizações que pediram boicote à ICL. Segundo a organização, o grupo “minera em terras ocupadas e está envolvida diretamente no fornecimento de minerais para uso militar em crimes internacionais”, de acordo com nota enviada à Repórter Brasil.

A organização se refere ao contrato de fornecimento de fósforo branco que uma subsidiária da empresa israelense mantinha com o exército dos Estados Unidos desde 2020, conforme revelou uma investigação do portal australiano ABC publicada em 2024. À época, a ICL afirmou que o contrato estava suspenso desde o ano anterior. Questionada novamente pela reportagem a respeito, a empresa não respondeu.

O país norte-americano, por sua vez, é fornecedor desse tipo de material bélico ao governo de Israel, acusado de cometer genocídio em Gaza por uma Comissão de Inquérito da ONU, em uma ação movida pela África do Sul na Corte Internacional de Justiça e por diversas organizações internacionais de direitos humanos, entre elas, a Anistia Internacional. Tel Aviv classifica as acusações como falsas e antissemitas, e diz que seus ataques militares em Gaza visam o grupo palestino Hamas, não a população civil.

<><> Papel da Amaggi

A Amaggi é uma das maiores exportadoras de soja do Brasil. O grupo figura no top 10 das maiores empresas do agronegócio brasileiro, segundo ranking de 2025 da Revista Forbes. Representantes da empresa estiveram em diversos eventos durante a COP30 para falar do programa da companhia para impulsionar “práticas regenerativas” na agricultura.

Em nota enviada à Repórter Brasil, o Instituto Palestino para a Estratégia Climática reforçou que a Amaggi é “um ator central nos mercados globais de soja e grãos e se posiciona publicamente como líder em agricultura sustentável e regenerativa”.

A organização afirmou que a relação comercial da empresa com a ICL ilustra “uma contradição estrutural na governança climática contemporânea: os sistemas agrícolas rotulados como ‘inteligentes’ em termos climáticos podem continuar dependentes de insumos ligados à expropriação, poluição e relações coloniais em outros lugares”.

•        Justiça solta sojeiro preso por grilagem e condenado por assassinato de sem-terra

O TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região) concedeu liberdade a Debs Antônio Rosa, sojeiro no Pará condenado em primeira instância como mandante de um assassinato e preso desde maio de 2025 por suspeita de grilagem (apropriação fraudulenta) de terras públicas. A decisão beneficiou também outros seis investigados no esquema apurado pela Polícia Federal.

A desembargadora federal Solange Salgado da Silva atendeu o pedido das defesas e substituiu a prisão preventiva por medidas cautelares. Segundo o advogado de Debs, Rubens Almeida Barros, o suspeito passa a cumprir obrigações como o comparecimento periódico ao fórum, a proibição de se ausentar da comarca e o uso de tornozeleira eletrônica.

O argumento usado pela defesa para pedir a soltura foi um habeas corpus (pedido de liberdade) com a alegação de excesso de prazo da prisão preventiva. Os investigados estavam presos havia sete meses.

O inquérito da Polícia Federal foi concluído e a denúncia foi recebida em dezembro, mas, segundo apurou a Repórter Brasil, ainda faltam atos como audiência de instrução, interrogatórios e alegações finais.

Debs foi preso em 21 de maio de 2025 durante a Operação Imperium Fictum, quando a Polícia Federal cumpriu 39 mandados de busca e apreensão e nove mandados de prisão preventiva em diversos estados, incluindo Pará, Tocantins, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Ceará, São Paulo, Rio Grande do Sul e Distrito Federal.

À época, o delegado da Polícia Federal Thiago Miranda afirmou que a organização fraudava processos no Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e falsificava escrituras para se apossar de terras da União. Segundo a investigação, os suspeitos obtinham financiamentos rurais fraudulentos com garantias baseadas em terras griladas. O esquema envolvia ainda corrupção de servidores e conluio com ao menos cinco cartórios, com prejuízo estimado acima de R$ 600 milhões.

Documentos da Polícia Federal acessados pela Repórter Brasil indicam que o grupo teria acumulado patrimônio superior a R$ 1 bilhão ao transformar terras públicas em ativos privados. O grupo produzia registros e processos administrativos forjados. Segundo os investigadores, propriedades fantasmas eram vendidas a terceiros, usadas como garantia em empréstimos bancários ou registradas para valorização.

Os registros forjados, segundo os investigadores, eram lavrados em cartórios de municípios como Senador José Porfírio, Anapu e Aveiro, no Pará. A corporação também apontou que parte dos imóveis inventados recebia números de matrícula vinculados à Gleba Federal Belo Monte, área pública sob gestão do Incra localizada na região de Anapu e ainda não regularizada.

O Incra informou à PF que processos apresentados pelos envolvidos traziam códigos de unidades internas inexistentes e assinaturas que não coincidiam com os registros da instituição. Segundo a autarquia, a organização parecia ter acesso a documentos internos indisponíveis ao público, usados para simular regularizações fundiárias. O órgão chegou a enviar ofícios ao cartório de Senador José Porfírio alertando sobre a fraude, mas, de acordo com os documentos citados, não houve providências.

<><> Sojeiro também foi condenado por assassinato de sem-terra

Além das suspeitas relacionadas à grilagem, Debs já havia sido condenado em primeira instância por homicídio. Em agosto de 2024, a Repórter Brasil revelou que ele foi condenado como mandante do assassinato de José Nunes da Cruz e Silva, conhecido como Zé da Lapada, morto em outubro de 2015, em Anapu, no sudoeste do Pará.

Além de Zé da Lapada, outros seis trabalhadores rurais foram mortos na área ao longo de 2015. Segundo denúncia do Ministério Público Federal, Debs teria ameaçado a vítima menos de um mês antes do crime. O trabalhador foi morto por dois homens que estavam em uma moto. Antes de ser executado, a vítima teria sido visitada por Debs e homens armados em uma caminhonete, de acordo com a acusação do MPF.

Debs foi preso preventivamente em 2016 pelo assassinato. Em 2018, o Tribunal do Júri o condenou a dez anos de prisão em regime fechado. Contudo, ele passou a responder em liberdade após obter um alvará de soltura de 2023.

Até ser preso novamente, em 2025, Debs manteve presença em eventos ligados ao agronegócio. Em maio de 2024, promoveu uma festança para comemorar a colheita de soja contratando a dupla sertaneja Bruno & Barreto para um show na Fazenda Talismã, às margens da rodovia Transamazônica. 

Em outra reportagem, a Repórter Brasil mostrou que seu pai, Onésio José Dias Rosa, foi enviado a júri popular no Pará, acusado de matar o trabalhador rural sem-terra Cosmo Pinheiro de Castro, em Anapu. Cosmo foi morto com dois tiros dentro de um bar, um no peito e outro na nuca.

 

Fonte: Repórter Brasil

 

Nenhum comentário: