sábado, 31 de janeiro de 2026

Luiz Marques: O internacionalismo das ruas

O estudo sobre as normas impostas aos humanos é fundamental para compreender de que modo penetram nossa subjetividade. A fonte das reflexões acha-se em Nascimento da biopolítica, o curso dado por Michel Foucault no Collège de France (1978-1979), publicado postumamente em 2004.

O desafio foucaultiano é revelar o poder no interior das relações econômicas, orientado pela bússola da biopolítica: “fazer viver e deixar morrer”. As técnicas e estatísticas sobre os fenômenos de delinquência, higiene, saúde, etc. fornecem as informações úteis para estipular as normativas para o controle sobre a vida dos indivíduos. A divisória entre o liberalismo do século XIX e o neoliberalismo no século XX reside, não em se o governo e a legislação devem intervir, mas em como obter os efeitos desejados. O conhecimento ajuda o intento.

A marcha acelera a partir dos anos setenta, quando Friedrich Hayek (1974) e Milton Friedman (1976) ganham o Prêmio Nobel de Economia. O paradigma da concorrência ampla e irrestrita forja o Homo economicus. Os meios de comunicação de massas entram na onda. O Big Brother Brasil (BBB) celebra o individualismo no contexto torturante e humilhante do fratricídio, dito “um jogo”. O próprio aparelho estatal é regulado e financeirizado pelos critérios ambiciosos de rentabilização do mercado.

O termo “capital humano” aplicado às pessoas mostra que não somos mais uma força de trabalho com um preço, senão o simulacro de uma empresa cujo capital de competências guia os rendimentos. O indivíduo é o empresário de si mesmo com a obrigação de fazer escolhas para otimizar os seus ativos. Nada a ver com uma ética tradicional das virtudes. É o neoliberalismo, camarada. “Onde os fracos não tem vez”.

O desempenho governamental e as leis são avaliados sob a ótica mercadológica em um tribunal permanente contra os governos. São descartadas as análises panorâmicas do processo econômico e, idem, o planejamento. Os quesitos admitidos advêm da autovalorização do capital humano, que todos possuem, sendo o que separa os vencedores (winnners) dos perdedores (losers). “O mercado é um novo deus”, frisa Christian Laval, no ensaio Foucault, Bourdieu e a questão neoliberal.

A concentração do mal no Estado alimenta a fantasmagoria da sociedade civil virgem de poderes, crendo que a “modernização” corresponde à crise de acumulação. Ignora que a revolução de 1968 quando bombava o capital antecede 1973, o embargo petrolífero. A crise é mais profunda do que imaginam. Incide nas instituições em geral, em razão da desativação metódica de todas instâncias de participação democrática.

O economicismo não percebe o movimento da moral e costumes, e os afetos envolvidos na propagação das inovações tecnológicas no cotidiano. Não mede o impacto subjetivo provocado no caleidoscópio de expectativas sobre o futuro, no contexto de uma realidade tão líquida quanto a política de tarifaços.

Ontem, emprego, renda, bens sociais eram trocados por novos alvos: a estabilidade dos preços, o equilíbrio orçamentário comparado ao das famílias, privatização levava ao progresso. Hoje, as catástrofes solapam a governança. A emergência afrouxa a fiscalização de atos administrativos. A especulação cresce nas tragédias após o furacão Katrina em Nova Orleans.

Amanhã, certo mesmo é o reforço da indústria armamentista que prepara a tempestade perfeita (perfect storm), para breve. O sagrado dogma da desregulamentação dos mercados nacionais, com o esvaziamento dos órgãos multilaterais, transfere-se para o conjunto das conexões entre as nações.

O governo estadunidense, com aporte recente de 800 milhões de dólares para tornar seu espaço aéreo intransponível, aumenta em 50% os gastos militares para 2027 e bate na cifra impressionante de 1,5 trilhão de dólares. A União Europeia endossa a corrida insana. Em 2024 gastou 343 bilhões de euros em rearmamento e, em 2025, 392 bilhões de euros. Dinheiro que falta aos serviços prestados pelo Estado de bem-estar social.

A inserção das Big Techs no complexo financeiro-militar realoca o imperialismo fragilizado pela desindustrialização inevitável. A Inteligência artificial e as plataformas digitais ocupam, agora, o centro da guerra e da defesa. O Conselho de Segurança da ONU desaparece. O ocaso do direito internacional ecoa a beligerância. O sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores não seria possível sem um Comando Cibernético para os cortes de energia e de internet, na aventura em Caracas.

Para José Luís Fiori, no artigo “No caminho do caos” – postado no site A Terra é Redonda: “O projeto estratégico de Donald Trump representa uma aposta radical na conquista unipolar de um império militar global, capaz de impor pela força as regras do jogo e a arbitragem final dos Estados Unidos. Regras e arbítrio que poderão variar segundo os seus interesses”. O “Conselho da Paz” aposta na pacificação do Oriente Médio, com o extermínio dos palestinos.

A Justiça teve a chance de prender o “elemento” pelos crimes no Capitólio – Capitolium, templo de Júpiter na antiga Roma, nomeia prédios legislativos de relevo. Para evitar a certificação das eleições de 2020, em Washington, seguidores – visto heróis, adiante anistiados – violam a sede simbólica da institucionalização dos conflitos na democracia liberal. Uma zorra.

Na América Latina, Augusto Pinochet jacta-se da “democracia autoritária”. Na Europa, Viktor Orbán acena a “democracia iliberal”; nos EUA , Donald Trump funda a “democracia cara dura” (“hard-faced democracy”). Não é coincidência. A regra é o desrespeito às liberdades pessoais. Vide os assassinatos de norte-americanos por agentes de imigração, em Minneapolis. O trio de brutos obriga-se a conservar o substantivo porque a democracia é a chave mestra de distinção da política moderna.

No mapa-múndi, as manifestações de protesto animam a consciência anticolonialista e disseminam o espírito de luta. Mas para barrar os avanços da tirania é preciso que a práxis política transformadora sintetize o internacionalismo das ruas e a ira dos justos. A esperança vive. “Bem sabes encontrar o caminho, a fim de procurar o que amas!” (Jeremias 2:33).

¨      A ilusão da distopia. Por Ricardo L. C. Amorim

À entrada do século XXI, cresce a preocupação de que o capitalismo, em breve, não se limitará a barbaridade cotidiana, mas abandonará a própria máscara de humanidade que usou na segunda metade do século XX. Não se trata de revelar suas contradições, posto que sempre estiveram visíveis.

Mas da retomada do imperialismo, dos níveis de violência do Estado e da exploração do trabalho na forma como eram legalizados nos séculos XIX e começo do XX. A pergunta é, portanto, direta: o capitalismo, ao desregulamentar direitos e renovar a violência do Estado, voltará às formas de exploração do trabalho vistas há um século atrás?

A resposta é inequívoca: isso é impossível! Claro que há o repontar de práticas imperialistas – algumas grotescas – e a dependência permanece afundando as esperanças de nações pobres. Ao mesmo tempo, internamente à maioria dos países, se observa a ascensão da extrema-direita, utilizando o medo e a mentira para governar as ilusões daqueles aturdidos pelas transformações sociais e tecnológicas hodiernas.

O mundo, no entanto, é novo! Por exemplo, há uma remodelada geografia que abarca, desde a inédita taxa global de urbanização até mudanças na geopolítica e na divisão internacional do trabalho, ambas marcadas pela ascensão do Extremo-Oriente. Tão importante quanto, assombrosas tecnologias transferiram o reinado do capital fabril e das linhas de produção para os computadores, as redes digitais de informação e as finanças.

Como consequência dessas inovações de alto impacto econômico, uma jovem burguesia ascendeu a posição de fração dominante do capital e passou a prevalecer sobre as decisões de produção, do dinheiro, das artes e da comunicação. Uma nova oligarquia capaz de costurar alianças com a velha plutocracia, mas toda ela fruto ou dependente da tecnoestrutura. Destarte, trata-se de manifestações de uma renovada dinâmica capitalista que já remodela a vida social cotidiana e que é qualitativamente diferente dos padrões conhecidos do passado.

Tanto assim que alguns eventos irreversíveis podem ser destacados para marcar a transformação ocorrida na segunda metade do século XX e início do XXI. Se os anos do pós-guerra trouxeram paz entre às potências ocidentais e a construção do Estado de Bem-Estar Social na Europa, por outro lado, o poder de empresas multinacionais espalhadas pelo globo e a ascensão do mercado financeiro global engendraram um capitalismo onde não são os governos, mas algumas poucas companhias que dizem ‘sim’ ou ‘não’ sobre os interesses nacionais de cada país.

Além disso, a transnacionalização de grandes capitais, inclusive bancos, ajudaram a criar poderosos mercados financeiros em dólar fora dos Estados Unidos que, depois, sustentados na desregulamentação do fluxo internacional de capitais e na desintermediação bancária do dinheiro, terminaram por unificar o mercado financeiro do planeta.

Desde ali, capitais pressionados pelos processos de concentração e centralização, comuns aos momentos de renovação tecnológica do capitalismo, encontraram oportunidades para acumular-se sem a necessidade de produção, inovação ou concorrência. Sob o porto seguro da especulação financeira em grande escala, aplicar fortunas em papéis e contratos tornou-se o padrão mínimo de rentabilidade, acelerando a financeirização da riqueza global em bases nunca imaginadas.

Naturalmente, são fenômenos que não podem retroagir e muito menos seus resultantes US$ 1,2 quatrilhão em ativos de circulação estritamente financeira podem exercer seu poder de compra na esfera real da economia mundial. Por fim, a recente redivisão internacional do trabalho trouxe para a cena mundial um colosso fabril que se tornou um titã tecnológico e militar: a China. Mas não o fez sob a ordem de instituições crentes na fé liberal ocidental.

Foi a ascensão de um herege! Com ele, uma enorme parte do mundo passou a constituir um desafio basilar e essencial à ordem capitalista ditada desde o Ocidente. Não é possível esperar, desse modo, que ressurja incólume o domínio do Norte Global, reinando de maneira unipolar e injusta sobre os povos da Terra.

É por esse motivo que se deve prestar atenção ao que John Keneth Galbraith (1982, p. 53) ensinou: “o poder vai para o fator que é mais difícil de obter ou de substituir. Em linguagem precisa, pertence àquele que tem a maior inelasticidade de oferta na margem. Essa inelasticidade resulta de uma escassez natural ou de um controle eficaz sobre a oferta por alguma ação humana ou ambos”. Não há dúvida de que o capital, isto é, a riqueza usada para gerar mais riqueza, composta geralmente por meios de produção e dinheiro, continua a ser o fator escasso por estar concentrado nas mãos de poucos.

Essa definição é condição do capitalismo. Nada de novo aqui. O que é novidade é esse fator escasso estar trocando de mãos para uma nova fração de capitalistas, diferente da anterior.

De outro modo, em razão da ascensão de novas tecnologias calcadas na microeletrônica, na programação de computadores e na comunicação via internet, o fator escasso mais valioso mudou de objeto e o poder concentrou-se em jovens empresários tão imorais e aéticos quanto qualquer grande capitalista antigo ou futuro, mas com características particulares como: vínculo ao novo ramo de negócios em espetacular ascensão; controle sobre massa nunca vista de informações sobre pessoas e empresas; capacidade para manipular narrativas sociais, favorecendo a cristalização de posturas intolerantes e acríticas; favorecimento por parte de um grande Estado gerador de tecnologia (Estados Unidos); fragilidade do antigo modo de regulação fordista; redução drástica de freios externos à avidez por riqueza e poder; posse sobre patrimônios inimagináveis no final do século XX; superexposição egótica na mídia e na hipermídia, alterando a definição de sucesso e fortuna; e mais.

Note que essa fração ascendente de capitalistas vive o lado crescente da onda tecnológica que promete alterar os processos de produção das coisas e dos serviços, permitindo, por isso, questionar tudo, inclusive as estabelecidas relações de trabalho que vigoram desde o auge do mundo fabril. Observe, portanto, que a questão não se resume a nova elite poder financiar a política cotidiana, os lobbies ou os meios de comunicação.

Há algo mais importante e profundo em transformação: trata-se de valorizar novos modelos de sucesso, inspirar ambições e espalhar a imitação da prosperidade entre jovens e adultos, produzindo ali ocultos caminhos para a naturalização de padrões comportamentais, com transformados juízos de valor e justiça sobre o mundo e os eventos (Sennett, 2006).

Desse modo, no momento, não parece haver qualquer risco de retrocesso do capitalismo contemporâneo aos padrões existentes no final do século XIX e início do XX. O avanço tecnológico, a acumulação de capital, as novas instituições, a jovem elite e, principalmente, a legitimação do “admirável mundo novo” não oferecem quaisquer sinais para um temido retrocesso histórico.

Diante disso, mesmo que muitos não gostem da novidade, o capitalismo continuará a avançar, assustando sempre as mentes alicerçadas em ilusórios castelos de permanência e “merecido” status social. Os ciclos de expansão econômica, sustentados em novas tecnologias, são sempre perversos, criando e destruindo, sem limite claro sobre seu desfecho. Assim, é provável, aliás, muito provável, que os temerosos de hoje sejam superados com o ingresso das novas gerações no mundo do trabalho e sua maioridade, pois aos moços, o poder atual parece ser o que sempre foi e está onde sempre esteve, sendo “normal” a vida como ela se mostra.

É preciso ter claro, no entanto, que ser impossível retroceder aos modos de exploração da mão de obra e de violência do Estado vividos no século XIX e começo do XX não é redenção ou promessa de tempos melhores. Os novos modelos empresariais, a financeirização da riqueza e a redução global dos direitos dos trabalhadores deram azo a formas inéditas de extração de valor que, eventualmente, urdirão os fios da mais incrível concentração de riqueza social já vista.

Pior, a legitimação para isso virá do mais sofisticado controle de corações e mentes criado pelo homem: um universo digital em rede, aparentemente descontrolado de informações e narrativas sem critérios de verificação e aos quais se soma, crescentemente, a fabricação de imagens e sons irreais sobre pessoas e fatos.

A eficácia desse modelo de comunicação, cuja imparcialidade é risível, já permitiu, sem detença, ressuscitar crenças que pareciam superadas, como a desconfiança na ação coletiva, o individualismo exacerbado, o empreendedorismo e o consumo como índice de sucesso.

Como resultado, observa-se, hoje, por exemplo, que o chamamento ao empreendedorismo sem capital, obra de um homem só, vendendo banalidades ou trabalho simples às plataformas digitais, seja o símbolo da nova era de submissão de todos ao capital. De outro modo, está naturalizado, nos dias que correm, que o trabalhador se apresse em entregar seu trabalho à preço vil ao capital insaciável, acreditando ser livre.

Não se trata, portanto, de voltar aos métodos de exploração e à violência do Estado de cem anos, um pouco mais, atrás. O tabuleiro onde se movem as peças atuais é diferente e não retornará ao passado, exceto como farsa.

O capitalismo que prospera hoje é infinitamente superior na forma de extrair valor aos trabalhadores, pois parece ter alcançado uma admirável fórmula que combina a exploração máxima e voluntária da mão de obra, a entrega dócil do valor produzido ao capital e a ilusão, por parte de quem realmente produz, de que esse é o modo justo das trocas e, mais importante, de que o esforço individual levará cada um a atingir posições de destaque social, principalmente na forma de riqueza.

Essa é a exata definição de poder no mundo de hoje. Não há nada, ao menos até agora, capaz de frear ou deslegitimar o desenvolvimento desse novo capitalismo e sua forma de exploração do trabalho com consequente acumulação de riqueza nas mãos de pouquíssimos. Tanto assim que mesmo a esfera mais controversa da vida social, a política, associou-se ao florescimento do novo modelo, abrindo espaço para a ascensão mundial da extrema-direita e seu secular desprezo pelo conhecimento, pela democracia, pelos pobres e pelo diferente.

O momento, consequentemente, não corporifica uma moda de curto prazo, vulnerável a reações pontuais da sociedade. Pelo contrário, a década atual parece ser a fase ascendente de uma Onda de Kondratiev, transformadora da tecnologia, da produção, das relações de trabalho e das instituições necessárias a fazer convergir forças produtivas e relações de produção.

À vista disso, sim!, o capitalismo afigura estar iniciando outra próspera fase, muito longe de qualquer crise insuperável. Os desencontros, resistências e fragilidades se assemelham mais as dores do parto de um novo modelo de acumulação que ainda não amadureceu e nem mostrou se engendrará maior bem-estar coletivo ou pior desastre social.

Em outras palavras, a humanidade está construindo um capitalismo superior ao mundo criado pela revolução industrial, mas pouco ou nada se sabe sobre o futuro. Por enquanto, o que se tem é a certeza de que o passado não voltará, mas nem por isso é possível esperar melhores dias aos “deserdados da Terra”.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

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