sábado, 31 de janeiro de 2026

“O que está em jogo é a nossa sobrevivência como povos”, afirma Raúl Zibechi

O ataque dos Estados Unidos à Venezuela e seu anúncio do controle político sobre o país, juntamente com a extração e venda de seu petróleo, “confirmam que na América Latina estamos em um momento de inflexão histórica, que não será de dois dias e que nos afetará como povos, não mais como governos”, afirmou Raúl Zibechi, em entrevista à Rádio Alas, na Argentina.

“Estamos diante de uma ofensiva sem precedentes. Declararam que estão dispostos a controlar a Venezuela até que o presidente ou a presidente seja quem eles quiserem. Nós, povos, precisamos de refúgios, de arcas capazes de navegar, de flutuar na tempestade, porque o que está em jogo é a nossa sobrevivência como povos”, acrescentou o jornalista e escritor uruguaio.

<<<< Eis a entrevista.

·        Estamos em diálogo com Raúl Zibechi, pois consideramos muito importante poder contar com sua análise. Como está, Raúl?

Olá, boa tarde! Como estão?

·        Preocupados, imagino que como todos, como toda a gente de bem.

Sim, a situação é muito complexa, muito dura, e não temos clareza do que vai acontecer, mesmo que tenhamos alguma ideia do que está acontecendo.

·        Você vem alertando, há muito tempo, sobre muitas dessas situações. Gostaríamos de poder contar com o seu modo de olhar os diferentes fatos que estão acontecendo no planeta.

Olha, eu, seguindo a orientação zapatista sempre, penso que estamos em meio a uma tempestade e que essa tempestade, nos próximos anos, meses, vai se agravar. A última fase da tempestade começou com o genocídio palestino, há três anos, com a situação que Gaza e o conjunto do povo palestino estão vivendo.

Há outras situações, e agora o ataque à Venezuela confirma o que estamos passando na América Latina, em um momento de inflexão histórica, de inflexão que não será de dois dias e nos afetará como povos, não mais como governos, mas como povos. Será um impacto duro, um impacto destrutivo, negativo, que não estamos em condições de enfrentar, porque a força imperial é muito poderosa, comparada com as capacidades de resistência dos nossos povos. É muito difícil dizer isso, mas penso que temos de olhar a realidade de frente e assumi-la tal como é.

·        Você sente que há formas de trabalharmos para que o impacto seja menor? Embora não possamos deter essa grande força imperial, sente que existem estratégias que podemos oferecer aos povos, para diminuir o impacto?

Primeiramente, é necessário ter clareza a respeito do volume do impacto. Depois da destruição de Gaza, dos ataques no Líbano, na Síria, no Irã, e que o Estado de Israel saiu praticamente impune desta situação, sim, há condenações, há manifestações, mas a União Europeia se propôs a se aproximar seriamente do Estado de Israel, também já firmou um pacto com o Egito pelo gás.

Agora, o governo de Trump não só ataca a Venezuela, mas destrói boa parte das instalações militares. A Venezuela tinha capacidades de defesa e sequestraram o presidente em uma operação sem perdas, de modo extraordinariamente fácil, eu diria. Algo aconteceu lá que ainda não sabemos, para que tenha sido assim. Além disso, ameaça a Petro, na Colômbia, ao México.

Estamos diante de uma ofensiva sem precedentes, desde que eu tenho memória. Declararam que estão dispostos a controlar a Venezuela até que o presidente ou a presidente seja quem eles quiserem. Nós, povos, precisamos de refúgios, de arcas, como gosto de sempre dizer, capazes de navegar, de flutuar na tempestade, porque o que está em jogo hoje é a nossa sobrevivência como povos. Para além de você, de mim, de pessoas, a sobrevivência de nossos povos.

E quando digo povos, quanto mais abaixo nos situamos: povos negros, povos indígenas, camponeses, periféricos urbanos, mais dura é a situação e menos capacidade de defesa temos, pois não possuem as mesmas capacidades das classes médias para enfrentar uma situação de tempestade sistêmica, generalizada, em que, além da tempestade política e militar, há uma tempestade ambiental que está nos afetando enormemente.

Diante disso, penso que é preciso muita clareza de que devemos ter territórios, espaços, lugares que nos referenciem como povos, lugares onde estejamos seguros, onde tenhamos as condições para sobreviver. A ofensiva só está começando e avalio que em determinado tempo, em não menos de 20, talvez 30 anos, independente de quem esteja na Casa Branca, pois se diz que Trump talvez tenha três anos de governo, a política não vai mudar, pois não depende de quem está na Casa Branca.

Temos de pensar em uma situação de longo prazo, de recolhimento. Os zapatistas falam de 120 anos, não é? Lutamos para que, dentro de 120 anos, uma menina que nascer possa escolher com liberdade o que quer ser. É disto que se trata. De pensar que estamos em um período de transição, de hegemonias, no qual os Estados Unidos decidiram se tornar fortes nesta parte do mundo, na América Latina, para manter o seu lugar imperial. Ou seja, o tema da Venezuela deve ser visto dentro do contexto dos lugares onde há ameaça, no Caribe, México, América Central, Groenlândia e Canadá. Este é todo o seu espectro.

Sendo assim, há uma necessidade das Forças Armadas, do Pentágono, da elite estadunidense, de se cercarem por uma zona segura. E essa zona segura implica o conjunto da América Latina, com seus recursos naturais, com seus povos etc., para enfrentar o crescimento da Ásia e da China, que em muitos campos superam os Estados Unidos.

Então, penso que a primeira coisa é uma compreensão mais ou menos serena, tranquila, do que está acontecendo. Hoje, nenhum Estado-nação, nenhum, nem os dois mais importantes da América Latina, o México e o Brasil, estão em condições de enfrentar a ofensiva. Nem é necessário falar de outros países, como na Argentina e no Equador, nos quais os presidentes festejam, certo? Isto nos dá a pauta de que feitos como a soberania nacional, a independência das nações, não são mais uma referência para a direita. Eles festejam uma invasão. Então, precisamos assumir, no lugar onde estamos, o que está acontecendo conosco e as forças que temos.

·        A que você atribui esse aumento da violência, esses ataques mais diretos? Antes havia mais mediação, hoje, digamos, escutando Donald Trump, apresenta-se como um delegado do mundo e diz estar disposto a tudo. Por que que está acontecendo este aumento da violência direta?

Porque há uma decadência dos Estados Unidos. Ele mesmo reconhece quando diz: “tornar a América grande de novo”. Está dizendo que já não é grande, não é verdade? Então, precisa recuperar o poder dos Estados Unidos. Percebe claramente que não pode mais com a China. A estratégia dos Estados Unidos tem sido dizer: “bom, que a Rússia fique com a parte da Ucrânia que quer ter, não vamos enfrentar a Rússia”. Vocês já viram que, de fato, os Estados Unidos retiram-se da Guerra da Ucrânia, retiram-se da Ásia, menos do Japão, e concentram forças no nosso continente.

Então, não vão lançar bombas na Rússia, não vão lançar bombas na China, nem na Índia, nem em ninguém. Vão concentrar as forças aqui. Este é o papel que decidiram, e isso é uma definição que vem de sua última estratégia nacional de defesa, aprovada em novembro. Nos Estados Unidos, cada presidente desenvolve uma estratégia de defesa que até agora, desde Obama, esteve concentrada em deter a China. Agora, não podem mais deter a China.

Estamos em uma situação de desigualdade tecnológica, econômica, militar - no militar equilibrada - a favor da China, mas há uma tendência muito clara que os leva a dizer: “não podemos mais combater, competir, então, vamos nos concentrar na região, que é o quintal, que nos permitiu chegar ao lugar de hegemonia onde estávamos. Então, vamos nos fazer fortes aí, vamos arrasar aí”. E isso explica o aumento da violência. Não vão aceitar governos dos quais não gostem.

O argumento deles é que Maduro é uma ditadura, que o narcotráfico, que não sei o quê..., mas sobre Petro, seu governo democraticamente eleito, não podem argumentar nada. No entanto, agora ameaçam a Petro. “Que se cuide”, disse Trump. Não pode dizer que se cuide para Xi Jinping ou para presidentes de qualquer outra parte do mundo, mas na América Latina, sim, pode dizer que se cuide. Então, essa é a situação em que estamos e não tenha dúvida que vão usar, agora, o argumento do narcotráfico, mas, no fundo, não é o narcotráfico, todos sabemos, caso contrário, muitos outros governos cairiam.

·        A sensação que tenho após ter escutado Trump, e a mesma coisa acontece quando escuto diferentes figuras, é que antes faziam esses discursos grandiloquentes. Hoje em dia, a sensação é de um discurso totalmente umbilical. Trump falava de quantas pessoas iriam comer no restaurante, ao mesmo tempo em que abordava o tema Maduro. Digo, não é mais o discurso sobre nós, os garantidores da liberdade. É algo totalmente umbilical.

Totalmente. Sim, sim, porque a situação mudou. Então, o discurso anterior era o de uma nação que se sentia e que era superior às outras. Agora, essa situação mudou. E, claro, a China e, de alguma forma, a Rússia vão fazer o seu próprio jogo. Para nenhum dos dois pegou bem a queda do governo de Maduro, nem para China, nem para a Rússia, porque são aliados, mas não vão fazer nada.

É muito difícil que façam alguma coisa, porque, além do mais, o objetivo deles é evitar que sejam invadidos e destruídos. Não esqueçamos que tanto a China quanto a Rússia, no último século, sofreram várias invasões do Ocidente, e o objetivo é evitar uma nova invasão. Então, não vão combater no Caribe, o que me parece muito razoável.

Parece-me que é preciso ter clareza de que esse novo posicionamento dos Estados Unidos tem um eixo central na América Latina. Além disso, é verdade que os cartéis estão inundando os Estados Unidos com drogas, de fentanil, disso não há nenhuma dúvida.

Por isso, digo que a primeira coisa é sentar e olhar a cara do monstro, ver o que está acontecendo, e depois pensar no que podemos fazer. Nos últimos meses, eu ouvi discursos muito triunfalistas, de que governos, como o de Maduro, vão resistir e não sei mais o quê, e que não iriam se atrever. Bem, aí estão os fatos.

Depois do que aconteceu em Gaza, no Líbano, em toda aquela região do Oriente Médio, não podemos duvidar de que estão decididos a tudo. Se destruíram o programa nuclear do Irã, com todas as defesas que o país tinha, o que não estariam dispostos a fazer em países muito mais frágeis do que o Irã?

·        Que aprendizado podemos tirar dos últimos anos, ou não tão últimos, dos povos, em função desta situação que temos agora? O que você acha que aconteceu conosco, como estamos? Que alianças tivemos, quais nos faltaram e como chegamos como povos, construção dos povos, a este momento?

Se olhamos a partir dos povos, eu diria que os governos progressistas foram um elemento central no enfraquecimento dos movimentos sociais, dos movimentos populares, com todas as políticas de programas sociais, a desmobilização etc. Com um imediatismo eleitoral muito forte, com um caudilhismo muito forte, abandonamos a análise. Seja porque surgiu Milei, seja porque surgiu o governo de Paz na direita boliviana, retiramos o que foi o progressismo da análise, como o progressismo boliviano se autodestruiu, como o progressismo argentino se autodestruiu e, além disso, as duras consequências sobre a população organizada, sobre os movimentos.

Sendo assim, conseguindo compreender que estamos em uma situação de fragilidade como movimento, como povos organizados, precisamos ver as causas, e eu considero que são essas. Penso que estamos em uma situação de dupla ofensiva, de tripla ofensiva. De ofensiva de governos locais, como o de Milei, de ofensiva de governos imperiais, como o de Trump, e de ofensivas pontuais em certos territórios, como a sofrida pelo povo mapuche, muito apoiada nestes dois elementos que eu disse: governo nacional e governo imperial.

Evidentemente, não há forças para resistir e é preciso se recolher. Recolher não quer dizer não fazer nada, quer dizer fazer aquelas coisas, aquelas mobilizações, que chamem a atenção para a situação como está sendo, como a estamos vivendo. Insisto em que é necessário um debate mais profundo sobre como chegamos aqui e por que chegamos aqui e quais erros cometemos para chegarmos aqui.

¨      América Latina: um continente nu e na defensiva, afirma Raul Zibechi

O ataque à Venezuela é um golpe em toda a região latino-americana, ocorrendo no momento de maior ascensão das direitas duras em várias décadas e da quase extinção de governos progressistas.

A forma como Nicolás Maduro e sua esposa foram sequestrados, sem oferecer resistência, evidencia a fragilidade do processo bolivariano que, em algum momento, pretendeu ser uma “revolução”. Embora seja difícil chegar ao fundo da questão, alguns fatos vieram à tona.

O primeiro é que a Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) não combateu; alguns de seus comandantes — impossível saber quantos — foram comprados por agentes dos Estados Unidos e colaboraram com a invasão. O mais provável é que tenham isolado Maduro e o entregado.

A facilidade com que o fizeram, sem sequer um soldado americano ferido, é uma séria advertência para a liderança chavista que permanece no poder, mas não tem força para tomar decisões que não agradem a Trump e ao Pentágono. Tanto a nova presidente, Delcy Rodríguez, quanto seu gabinete, iniciaram uma limpeza nos comandos que não estão dispostos a se curvar a Washington e estão pedindo que a população não saia às ruas para protestar.

Para os países vizinhos, como a Colômbia, isso é mais do que uma advertência séria. Mas também o é para o México e a Groenlândia, que estão depois de Cuba na ordem de prioridades estratégicas da Casa Branca. Trump anunciou que não enviará soldados a Cuba, pois espera forçar Díaz-Canel a negociar quando a ilha ficar sem suprimento de petróleo, com um sistema elétrico colapsado e com a fome à porta.

No entanto, a possibilidade de uma intervenção na Colômbia, incluindo a inútil "decapitação" do presidente Petro, ao qual restam apenas seis meses de governo, soa como uma ameaça séria, especialmente para seu sucessor. Contra o esperado, grande parte das elites colombianas demonstrou desacordo com Trump. O jornal El Espectador intitulou seu editorial de 6 de janeiro: “Ameaçar o presidente Petro é agredir a Colômbia”. Isso é importante porque não é um meio afim ao presidente, mas opositor, e reflete a opinião de uma parte da poderosa burguesia colombiana.

O mais conservador El Tiempo desvinculou o presidente Petro do narcotráfico, apesar de manterem um longo contencioso político: “Diante das declarações do americano, que acusou o presidente colombiano de narcotraficante, é preciso ser taxativo: não existe qualquer indício que permita afirmar que o presidente Petro tenha vínculos com negócios ilícitos de drogas”.

<><> Um continente dividido

Há muitos anos a região não estava tão dividida e tão alinhada aos Estados Unidos. Argentina, Bolívia, Equador e Paraguai, apenas na América do Sul, apoiaram a violação da soberania venezuelana, aos quais se somará o Chile quando Kast assumir em março. O único governo firme é o de Petro. Os de Lula e Sheinbaum não podem sequer ser considerados progressistas, já que o primeiro governa em aliança com a direita e o governo mexicano é sumamente “tolerante” com os Estados Unidos, país do qual depende economicamente, para além das declarações soberanistas da presidenta. No México, especula-se sobre a entrada de agentes americanos para tarefas antinarcóticos e de controle da fronteira, algo que pode acontecer a qualquer momento.

O que aconteceu nas últimas eleições argentinas revela o estado da opinião pública na região. Um mês antes das legislativas de outubro, Milei perdeu de goleada na província de Buenos Aires. Mas Milei encenou um acordo com Trump que implica a concessão de empréstimos para equilibrar a combalida economia, o que levou boa parte dos eleitores a mudar seu voto. Em síntese, a aberta intromissão de Trump no cenário eleitoral conseguiu dobrar a vontade popular a favor de Milei, que vinha em franca decadência.

Este é o novo estilo nas relações internacionais na região: a intromissão aberta, encenada nos meios de comunicação, como forma de intimidar e forçar as pessoas a pensarem se vale a pena resistir ao império, mesmo que seja através das urnas.

Doze dias antes das votações, Trump disse: “Se ele perder, não seremos generosos com a Argentina”. O secretário do Tesouro foi ainda mais claro: “O sucesso da agenda de reformas da Argentina é de importância sistêmica... e redonda no interesse estratégico dos Estados Unidos”. Não foi preciso dar um único tiro.

<><> Movimentos desorientados e sem propostas

Após os governos progressistas e a onda de governos antipopulares — de Bolsonaro a Milei e Noboa —, os movimentos se enfraqueceram e alguns caíram diretamente na desorganização. Os progressismos implementaram programas sociais para assegurar a governabilidade, o que resultou em cooptação e na transferência de quadros dos movimentos para as instituições estatais. Os movimentos foram garantidores da governabilidade entre "os de baixo", mas o preço foi alto demais e só se tornaria visível com a chegada das direitas repressivas.

Em suma, quando a mobilização popular se fez mais necessária, foi impossível relançá-la, pois as bases estavam desgastadas e desorientadas. Imaginemos a realidade do povo na Venezuela, onde a ex-vice-presidente de Maduro passou para o lado vencedor sem qualquer pudor, assim como boa parte dos comandos militares e civis.

Agora estamos diante de um fenômeno novo. Entre o Caracazo de 1989 e o último levante indígena de 2022, houve dezenas de insurreições que derrubaram governos. Mas com a política de chantagem trumpista, pode acontecer que o Pentágono mobilize suas forças para dissuadir os povos insurretos. Esta é uma das lições mais tremendas do ataque à Venezuela. No dia 3 de janeiro, o presidente americano disparou: “O domínio dos Estados Unidos na América Latina não será questionado nunca mais”.em 

Parece evidente que nem as esquerdas nem os movimentos têm força suficiente para frear esta ofensiva brutal. Se o Pentágono atingir seus objetivos, a esquerda será um cadáver político se os "de baixo" não conseguirem escapar do controle e da chantagem militar. O que aconteceu nos últimos anos em um Equador militarizado é o espelho onde os movimentos podem se olhar.

 

Fonte: Desinformémonos/El Salto - tradução do Cepat, para IHU

 

Nenhum comentário: