Guilherme
Casarões: Trump esvazia ordem mundial e gera “momento nefasto” para as Américas
O
ataque dos Estados Unidos à Venezuela e a prisão de
Nicolás Maduro e de Cilia Flores seguem repercutindo desde os primeiros dias do
ano. O episódio reacende debates sobre soberania, intervencionismo e os limites
do uso do discurso do combate ao narcotráfico como justificativa para ações
militares e políticas externas agressivas.
Em
entrevista ao Pauta Pública desta semana, o cientista político
Guilherme Casarões analisa os riscos de transformar o discurso do combate ao
chamado “narcoterrorismo” em licença para invadir países, derrubar governos e
redesenhar fronteiras à força. A partir da ofensiva do governo Donald Trump
contra a Venezuela, ele explica como a chamada “guerra às drogas” vem sendo
usada há décadas pelos Estados Unidos como estratégia de projeção de poder
militar, econômico e geopolítico sobre países estruturalmente vulneráveis da
região.
Professor
da Florida International University, nos Estados Unidos, e coordenador do
Observatório da Extrema Direita, Casarões também alerta que “a gente está
diante de um momento particularmente nefasto para as Américas como um todo”, já
que os Estados Unidos passaram a se conceder “absolutamente o direito de
dominar, de maneira militar, econômica, de infraestrutura, o que seja, toda a
região de acordo com os seus interesses”.
Um
cenário que, além de aprofundar tensões geopolíticas, abre espaço para o
fortalecimento de narrativas autoritárias e transnacionais.
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Leia os principais pontos da conversa, com Andrea DiP, Sofia Amaral, Ricardo
Terto e Stela Diogo:
·
Como você avalia as acusações de ligação ao
narcoterrorismo para justificar a captura do Maduro e da sua esposa pelo
governo Trump?
É
preciso dar um passo atrás e pensar que a relação dos Estados Unidos com a
produção, o fluxo, o fornecimento de drogas para os consumidores no país, vem
sendo objeto do que a ciência política e relações internacionais chamam de
securitização. Ou seja, não se trata a questão das drogas como uma questão
simplesmente de aplicação da legislação. Não se trata o combate às drogas
meramente com uma perspectiva de segurança pública e nem mesmo de saúde
pública. A perspectiva de combate às drogas, no caso dos Estados Unidos,
tem muito a ver com uma projeção de interesses militares.
Então,
a famigerada guerra às drogas não surte os efeitos desejados na saúde e na
segurança pública. Não reduz o crime, não coloca fim na dependência química ou
coisa do tipo. Ela cria uma possibilidade para os Estados Unidos projetar e
consolidar o seu poder internacional, sobretudo diante de países que são
estruturalmente muito vulneráveis. E a militarização da guerra às drogas é um
fenômeno com mais de 40 anos. É um tipo de estratégia que o país segue usando
para poder dominar o espaço geopolítico, econômico e até mesmo o espaço
ideológico latino-americano.
E a
justificativa, nesse momento, tem muito a ver com tirar a China do continente
americano ou não deixar que acessem recursos estratégicos da Venezuela, por
exemplo, mas não só.
Esse
retorno de [Donald] Trump à Casa Branca mistura três elementos fundamentais. O
primeiro é que esse novo governo Trump articula dentro de uma renovada doutrina
Monroe [América para os americanos], em que uma de sua dimensão é do combate às
drogas. Mesmo que seja uma pauta que hoje tem um sentido profundamente
doméstico, já que os EUA já atingiram 70 mil mortes anuais por fentanil. Além
de uma profunda situação de dependência de opióides e drogas no geral, que
afeta, sobretudo, as populações de classe média baixa dos Estados Unidos.
O
segundo elemento é o vínculo permanente que o governo Trump faz de associar a
migração ilegal ao narcotráfico, acusando praticamente todo imigrante não
documentado nos Estados Unidos de ser um potencial colaborador de cartéis que
operam desde o México, de El Salvador, da Colômbia, ou da Venezuela.
O
terceiro elemento diz respeito ao controle direto de recursos estratégicos e
naturais, por parte dos Estados Unidos, na América Latina. Por muito tempo, a
América Latina foi uma fornecedora natural de energia, de recursos
estratégicos, minerais sobretudo, para os Estados Unidos. A China, ao longo dos
últimos 20 anos, ocupou esse espaço, Os chineses viraram o principal parceiro
comercial de, virtualmente, todos os países latino-americanos ao longo dos
últimos 20 anos. E os Estados Unidos agora dão um recado muito claro de não
deixar que a China tenha acesso aos recursos de terras raras e petróleo.
Então,
por um lado, a gente está diante de uma estratégia antiga, porque a guerra às
drogas não é nova, mas uma composição de fatores que é inédita e que rompe,
sobretudo, o padrão de relacionamento dos Estados Unidos com a América Latina,
agora pautado pela violação sistemática e recorrente de quaisquer princípios
organizadores da ordem regional por parte da grande potência dos Estados
Unidos.
·
O que é a renovação da Doutrina Monroe neste governo
Trump?
Essa
doutrina, lançada em 1823 por James Monroe, diz em resumo que a América é para
os americanos. E para o Brasil isso tinha uma implicação muito direta, porque o
país tinha acabado de se tornar independente. Os Estados Unidos, naquele
contexto, tinham apoio de repúblicas recém-independentes da América Espanhola.
[…] Essa construção vai ser a bússola dos Estados Unidos na relação com o
hemisfério desde então, e cada presidente, depois de James Monroe, interpreta
essa doutrina de acordo com seus interesses de curto prazo.
A
Doutrina Monroe foi o principal instrumento de articulação, até psicológica,
coletiva, de dominância dos Estados Unidos com relação àquilo que muitos
articuladores da política americana chamavam de quintal dos Estados Unidos.
Principalmente, a América Central e o Caribe, mas também, por extensão, a
América do Sul.
O
presidente que decididamente acabou com a doutrina Monroe, foi o Barack Obama.
Ele decretou isso e foi o presidente, que de alguma maneira, distensionou e
tentou abrir as relações dos Estados Unidos com Cuba, que era o último
resquício da Guerra Fria na região. Quando Trump chega em 2017, ele vai
destruir muito desse legado que o Obama tinha deixado. No primeiro mandato, ele
não falava de retomar a doutrina Monroe, até porque a plataforma do Trump era,
sobretudo, isolacionista. Mas, nesse segundo mandato, ele não só retoma a
doutrina Monroe, como a complementa com o chamado Corolário Trump.
[O
Corolário Trump] está no documento da Estratégia de Segurança Nacional,
publicado em todo mandato presidencial americano. Em dezembro do ano
passado, o governo Trump publicou um documento em que ele reconhece pela
primeira vez que o mundo é dividido entre grandes potências que podem perseguir
as suas esferas naturais de influência.
Durante
muitas décadas os Estados Unidos se orientaram a partir da busca de uma
hegemonia global sobre o planeta inteiro, e o Trump rompe com isso. O que pode
parecer, num primeiro momento, uma coisa boa, pensar que os Estados Unidos não
querem mais dominar o mundo. Mas, na verdade não, porque ao abandonar essa
pretensão global, os Estados Unidos esvaziam e às vezes até destroem os
mecanismos fundamentais de funcionamento, minimamente consistentes, dessa ordem
internacional que vigorou por oito décadas: o multilateralismo, a cooperação e
uma certa ideia de democracia que era defendida por alguns governos americanos.
[Isso] não era necessariamente bom ou ruim, mas havia uma certa moralidade por
trás da ação americana que hoje acabou completamente.
Nesse
mundo reconhecido pelo documento do Trump de estratégia de segurança nacional,
as grandes potências estão livres para, por interesses econômicos, geopolíticos
ou militares, se expandirem pelas suas esferas naturais de influência ou pelos
seus ‘quintais’. [Segundo o documento], aos Estados Unidos cabe,
exclusivamente, a exploração dos recursos naturais, da infraestrutura, do fluxo
de pessoas, naquele que é considerado o espaço natural de interesse americano,
que são as Américas.
Trump
já havia falado em sua campanha eleitoral em intervir nos países da região em
função do combate ao narcotráfico. Discursos que se tornaram muito rapidamente
políticas concretas, a partir do momento em que ele voltou à presidência e que
se transformaram em doutrina de estratégia. Ou seja, a gente está diante
de um momento particularmente nefasto para o Brasil, para a América Latina e
para as Américas como um todo. Porque eu também estou incluindo Canadá e
Groenlândia, em que os Estados Unidos se deram absolutamente o direito de
dominar de maneira militar, econômica, de infraestrutura, o que seja. Dominar
toda a região de acordo com os seus interesses.
O que
está no documento é muito claro: O interesse norte-americano vai
prevalecer sobre as Américas. Isso é um sinal muito complicado para todos os
países da região que ainda acreditam minimamente em soberania, em cooperação,
em respeito à autodeterminação dos povos.
·
Você acha que essa retórica do combate ao narcoterrorismo
pode virar uma dessas bandeiras fortes da extrema direita, como a do combate à
“ideologia de gênero” ou a perseguição aos imigrantes?
Eu acho
que sim. A gente pode voltar no próprio Olavo de Carvalho, que já desde a
década de 1990 escrevia sobre uma conexão, vamos dizer, narcopolítica, entre os
partidos do Foro de São Paulo, demonizado pelo Olavo de Carvalho desde muito
tempo atrás, e as Farc [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia], por
exemplo. Eu me lembro que esse era o grande argumento que se usava ali no
começo dos anos 2000.
Essa
construção segundo a qual a esquerda não só propaga o comunismo, mas se
organiza financeiramente em torno de uma conexão umbilical com o crime
organizado é uma narrativa que foi ensaiada na campanha de 2018. Aquela ideia
da ligação do Lula com o PCC, aquela expressão “diálogo cabuloso”. Em 2022,
teve o uso distorcido da sigla CPX para tentar imputar sobre o Lula e [sobre o]
PT uma relação com o crime organizado dos morros do Rio de Janeiro, do Complexo
do Alemão, o que também não tem cabimento, mas foi dito. Volta e meia aparecem
relatos e fake news sobre a quantidade de presos que votaram no PT nas eleições
A, B ou C. Então, assim, esses são temas que já foram ensaiados diversas vezes
na retórica da extrema direita.
A
grande questão agora, justamente para voltar ao ponto e amarrar, é que a gente
tem uma legitimação internacional muito clara dessa estratégia. Porque,
enquanto isso era confinado a uma discussão de política interna, a uma
discussão casuística, circunstancial, a coisa tinha muito menos potencial de
colar.
Agora,
a partir de falas do governo americano, a partir de um clipe ali do [presidente
de El Salvador] Nayib Bukele falando alguma coisa, isso se transforma numa
pauta que, mais do que simplesmente nacional, vira transnacional. E acho que
essa é a tendência, porque os governos estão caminhando todos nesse sentido.
Essas construções vão ficando muito poderosas do ponto de vista simbólico e,
sobretudo, a partir do momento em que ganham legenda em inglês ou em espanhol.
Então, eu acho que isso é um alerta importante, isso tem um potencial
destrutivo.
E, de
novo, cabe sobretudo ao presidente Lula, se for de fato disputar a reeleição,
tomar medidas até preventivas, do ponto de vista político. Para mostrar o
compromisso que se tem com relação à pauta de maneira séria, de maneira
correta, e que não se contamine por nenhum tipo de interesse estrangeiro de
fazer do Brasil, ou de qualquer país da região, o quintal dos Estados Unidos.
¨
Petro afirma que EUA precisam 'refazer pacto de
convivência' com América Latina
O
presidente colombiano, Gustavo Petro, enviou uma mensagem contundente ao
governo dos Estados Unidos e à região da América Latina, ressaltando a
necessidade de reconstruir uma estrutura de coexistência baseada no respeito
mútuo e na soberania dos povos.
A
declaração, feita através da conta do presidente colombiano nas redes sociais,
surge em meio à crescente tensão entre a América Latina e Washington após o
retorno de Donald Trump à presidência dos EUA em janeiro de 2025.
Petro
enfatizou que “os EUA e a América Latina devem refazer seu pacto de
coexistência com base na soberania e na autodeterminação dos povos”, uma
declaração que busca se distanciar das políticas de interferência que
historicamente caracterizaram a relação de Washington com a região.
O líder
da Casa de Nariño insistiu que o respeito pelas leis nacionais é fundamental
para garantir uma relação equilibrada e justa.
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Trump está à espreita
A
declaração surgiu depois de Trump acusar a
Venezuela de ter “roubado” direitos petrolíferos de empresas
norte-americanas, exigindo a sua devolução e revelando as suas verdadeiras
intenções após fazer uma série de acusações falsas contra o governo
venezuelano.
Em
relação a esse caso, Petro respondeu explicando as diferenças legais entre os
dois sistemas: enquanto nos Estados Unidos o proprietário da terra também é
dono do subsolo, na América Latina as diversas constituições estabelecem que o
subsolo pertence à nação. “Basear-se em medidas soberanas relativas à
propriedade da nação não é roubo”, enfatizou, observando que esse é um
princípio apoiado eleitoralmente pelos povos da América Latina.
Com
esse esclarecimento, Petro não apenas
defendeu a soberania venezuelana, mas também a da Colômbia e do resto da
região, lembrando a todos que as leis nacionais devem ser respeitadas e não
podem ser submetidas a imposições externas.
O
presidente colombiano denunciou a “total falta de compreensão” de Washington em
relação às realidades jurídicas e políticas da América Latina, o que gera
atritos desnecessários e aprofunda a desconfiança.
Num
gesto político de abertura, Petro convidou a líder da oposição
venezuelana, María Corina Machado, a visitar a Colômbia para discutir a paz e
o futuro do Caribe.
“Ele
podia subir ao palco e dançar um bom vallenato ou uma cumbia, e falar comigo
sobre a paz no Caribe, e não sobre invasões”, disse ele, apelando para a
cultura como uma ponte para o encontro e para a memória de Simón Bolívar como
um símbolo de unidade regional.
O
presidente de Nova Granada lembrou que Bolívar, no dia de sua morte, pediu paz
e unidade para a “Grande Pátria”, rejeitando qualquer forma de invasão ou
subjugação das nações que ele libertou com sua espada.
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Bogotá também se mantém firme contra Washington
As
tensões entre Washington e Bogotá se intensificaram nos últimos meses. O
governo colombiano criticou as políticas de
imigração de Trump,
bem como sua abordagem à guerra contra as drogas e sua intervenção em assuntos
caribenhos .
Petro é
uma força motriz e defende que a região precisa de soluções próprias,
construídas a partir da soberania e da cooperação, em vez de imposições
externas que reproduzem esquemas de dependência, pobreza e subjugação.
O
discurso do presidente colombiano faz parte de uma tradição latino-americanista
que busca reviver a ideia de integração regional como resposta a desafios
comuns.
A
proposta de renegociar o pacto de coexistência com os Estados Unidos não
implica uma rejeição absoluta, mas sim a exigência de uma relação baseada no
respeito mútuo.
Petro
argumenta que a cooperação deve ser construída sobre o fundamento da
autodeterminação, reconhecendo as diferenças jurídicas e políticas que
caracterizam cada nação. Nesse sentido, seu apelo é também um convite a Washington para que
abandone suas práticas de interferência e aceite que a América Latina tem o
direito de decidir seu próprio destino.
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Esther Dweck defende integração da América Latina
Única
representante do governo brasileiro no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na
Suíça, a ministra da Gestão e Inovação em Serviços Públicos (MGI), Esther
Dweck, participou do painel “Superando o teto de crescimento da América
Latina”.
O
objetivo foi debater as mudanças em curso nas políticas econômicas na região e
entender como a economia, estagnada em torno de 2%, pode alcançar um
crescimento significativo. Para a ministra, a integração latino-americana é o
caminho para impulsionar o padrão de crescimento da região.
“A
América Latina é uma das regiões menos integradas do mundo. Do ponto de vista
do potencial interno de crescimento, eu destacaria três frentes em que a
integração regional é essencial: infraestrutura, integração produtiva, com
cadeias regionais de valor mais articuladas, e integração de políticas sociais,
que também poderia gerar ganhos relevantes de escala e eficiência”, defendeu,
segundo texto divulgado pelo MGI.
A
ministra Esther Dweck ressaltou o crescimento do Brasil, nos últimos três anos
e destacou a diplomacia do governo para reverter a situação das tarifas
impostas pelos Estados Unidos ao país, no ano passado. Segundo ela, alguns
setores ainda sofrem os impactos da sobretaxa, reforçando o papel importante do
governo na reversão parcial das tarifas.
Dweck
também lembrou do papel do governo brasileiro na negociação do acordo do
Mercosul e União Europeia, assinado recentemente, após 25 anos de negociações.
Segundo
a ministra, o atual mandato do presidente Lula é uma espécie de combinação dos
governos anteriores de Lula e da ex-presidenta Dilma Rousseff. Ela destacou as
mudanças fiscais no país ─ com a reorganização do orçamento, a retomada da
transferência de renda, a reforma tributária e a redução do déficit fiscal em
mais de 70%, na comparação com o início do governo.
“Do
ponto de vista das estratégias de crescimento, é possível identificar cinco
frentes principais. A primeira, sem dúvida, é a distribuição de renda e a
redução das desigualdades como motor do crescimento. E isso não ocorreu apenas
pelo lado do gasto público. O Brasil realizou algo que eu diria ser histórico:
uma reforma tributária em um governo democrático, tanto do ponto de vista da
tributação indireta, com a simplificação do sistema, quanto em relação ao
imposto de renda”, afirmou Esther Dweck.
O Fórum
Econômico Mundial ocorre há 55 anos e reúne líderes políticos e dirigentes de
empresas das principais economias mundiais. Neste ano, o tema do evento é “Um
Espírito de Diálogo”, com o objetivo de promover a cooperação entre líderes
políticos, empresários e organizações.
Fonte:
Agencia Pública/Opera Mundi/Brasil 247

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