sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Paulo Kliass: Banco Master - Economia ou polícia?

Vira e mexe a gente aqui no Brasil passamos a conviver com alguma instituição financeira ocupando com destaque as páginas policiais da grande imprensa. Os escândalos envolvendo bancos ou empresas assemelhadas são muito mais frequentes do que deveriam, principalmente se partirmos do princípio de que existe um sistema de fiscalização e regulação bastante aprimorado para evitar esse tipo de crime ou desvio de comportamento no mercado. A questão é que, na maior parte dos casos, o poder econômico exercido por estas grandes corporações caminha junto com forte esquema de poder político, com surpreendente capacidade de exercer pressão sobre os órgãos de Estado encarregados de evitar e/ou punir esse tipo de situação.

O banco da vez é o Master. Mas, mesmo assim, ele foi logo secundado pela liquidação extrajudicial efetuada também pelo Banco Central (BC) sobre o Banco Will, em razão da existência de ligações profundas e perigosas entre as duas instituições de crédito. O caso é de graves proporções e vem se somar a uma série de eventos anteriores. Assim, o que se percebe é que a lista de crises de empresas do setor financeiro provocadas por gestão fraudulenta é bastante longa. Alguns dos casos mais conhecidos de bancos liquidados pelo BC são os seguintes:

•        Banco Opportunity (2015)

•        Banco BVA (2013)

•        Banco Cruzeiro do Sul (2012)

•        Banco Pan Americano (2010)

•        Banco Santos (2005)

•        Banestado (2003)

•        Banco Bamerindus (1997)

•        Banco Econômico (1995)

<><> Antes do Master: lista longa

Além destes, há uma outra série de empresas que agiam na interface do financismo com a economia real e que não foram devidamente fiscalizadas pelos órgãos públicos responsáveis por isso. Trata-se de operações criminosas levadas a cabo por estas corporações e que deveriam ter sido proibidas ou punidas por organismos como a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) ou a Superintendência de Seguros Privados (SUSEP). Alguns dos casos que ficaram mais conhecidos, seja pelos valores bilionários envolvidos nas falcatruas ou pelo peso dos atores políticos ali presentes, são os seguintes:

•        Lojas Americanas (2023)

•        Kraft Heinz (2019)

•        CVC (2020)

•        IRB (2019)

•        Via (2019)

•        Itapemirim (2016)

Muitas pessoas se questionam se o problema das fraudes e dos crimes não seriam características estruturais e intrínsecas aos próprios bancos e demais instituições financeiras. É verdade que a natureza mesma deste tipo de empresa implica em algum tipo de ação que envolve apropriação de recursos de outrem. Afinal, a origem dos bancos como instituição na dinâmica econômica pressupõe o papel de agenciador e de repassador de recursos. Isto significa que a estrutura de ativos dos bancos não é formada por patrimônio próprio. Ou seja, eles operam com recursos de terceiros que ali depositam seus valores em busca de algum rendimento e os bancos oferecem esses mesmos recursos para “atores quartos” na escala sem fim da intermediação financeira. Assim, o risco e a especulação são a norma neste segmento.

<><> Práticas criminosas e impunidade recorrente

Esta conformação sensível e potencialmente explosiva é que está na base da necessidade de um sistema bastante refinado e aprimorado de fiscalização e regulação por parte do poder público. No entanto, o processo de captura das agências reguladoras aqui se manifesta também com toda a sua violência institucional. A exemplo das demais instituições responsáveis pela atividade de regulação setorial, o BC há décadas opera para satisfazer os interesses dos bancos, das empresas que deveriam ser fiscalizadas, controladas, reguladas e punidas. Assim, seus dirigentes fazem cara de paisagem para escândalos como o nível cronicamente elevado dos spreads praticados, a exorbitância das tarifas cobradas e o nível impressionante de práticas de oligopólio e cartel por parte das grandes corporações.

Esse nível de complacência para com o irregular e o antiético logo resvala para a passividade face a práticas ilegais e criminosas. Via de regra, o BC deixa a coisa rolar sem nenhum tipo de intervenção, ainda que todos os operadores do mercado financeiro saibam exatamente o que está ocorrendo em empresas consideradas “problemáticas”. Assim, em geral, quando a situação se torna insustentável e as condições passam a ser conhecidas de um público mais amplo, o órgão tenta correr atrás do prejuízo. Porém, na maioria dos casos, ele chega atrasado em sua função e quando as perdas já são irreversíveis.

No caso do Banco Master, esse comportamento foi muito claro. Para além da lentidão do BC em agir, o poder político e a influência de Daniel Vorcaro se fizeram presentes em outras instituições da República. As faces mais evidentes começam a ser reveladas aos poucos, mas envolvem dirigentes do topo dos poderes Executivo, Judiciário e Legislativo. Mas as práticas levadas a efeito pelos dirigentes do Master superam em muito as questões de padrão ético questionável de qualquer instituição bancária que atue de acordo com as regras e a lei. Trata-se de estratégia empresarial de alto risco para a manipulação de recursos de terceiros, incluindo decisões ilegais e criminosas, como as ações de investigação dos órgãos policiais e de investigação estão comprovando a cada novo dia.

<><> Maior controle das empresas do financismo e aplicação rigorosa da legislação

Por outro lado, a cumplicidade nas práticas criminosas do Master envolve também algumas grandes empresas de auditoria. No caso específico, a KPMG, a PricewaterhouseCoopers, a Ernst Young e a Crowe validaram ao longo dos últimos anos as contas claramente fraudadas e maquiadas do Master. Além disso, outras instituições da rede do financismo também tornaram-se cúmplices das investidas criminosas do banco de Vorcaro, a exemplo da gestora de ativos Reag e dos fundos de investimento operados pelo BTG e pela XP. Com relação à primeira, basta lembrar que foi liquidada pelo BC no ano passado justamente por inúmeras irregularidades descobertas em sua atuação no mercado financeiro.

Assim, o que se pode perceber é que Daniel Vorcaro vem se somar a outros indivíduos que amealharam grandes fortunas e ocupavam papel de destaque no topo da pirâmide da desigualdade que nos caracteriza. A proximidade com as esferas de poder político e a prática incestuosa com os tomadores de decisão no âmbito da máquina pública fizeram com que os crimes não fossem imediatamente impedidos e punidos. Estes são os casos, para citar apenas alguns, de Naji Nahas, de Daniel Dantas e de Eike Batista. Todos foram presos, mas as fortunas gastas com grandes escritórios de advocacia contribuíram para reduzir o tempo de detenção e eles voltaram à atividade econômica sem nenhum constrangimento.

Outro caso mais recente que exemplifica a impunidade que acomete estes grupos privilegiados da elite de nossa sociedade refere-se ao trio composto por Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira. Eles estavam por trás do escândalo envolvendo os crimes praticados pelo grupo Americanas e não sofreram, até o presente momento, nenhum tipo de punição por tal processo. A sensação de intangibilidade de operações no universo do financismo terminou por atrair a criminalidade “nua e crua”, tal como identificada pelos grupos de tráfico e pelas milícias. As ações da Polícia Federal e do Ministério Público reveladas pela Operação Carbono Oculto apontaram claramente para uma conexão profunda entre os recursos do Primeiro Comando da Capital (PCC) e empresas do financismo.

Todos estes casos acima mencionados e o Banco Master revelam que não se trata apenas de má condução ou desvio na mera atividade econômica. São empresas e dirigentes que se envolveram profundamente em práticas criminosas. Por isso, os casos saem do âmbito restrito da economia e passam a requerer a presença da polícia. Mas uma grande lição que podemos extrair a esse respeito refere-se à necessidade de ampliar e aprofundar as capacidades estatais para prevenir esse tipo de crime. Isso significa dotar o Estado brasileiro de condições de agora para regular e fiscalizar tais setores. Ao contrário da demagogia levantada pelo financismo para a tal da “independência do BC”, o que necessitamos são órgãos mais transparentes e republicanos de controle sobre setores de atividade mais sensível.

•        Supremo se vê isolado e mobiliza 'salvamento' de Toffoli em meio ao polêmico caso Master

O Supremo Tribunal Federal (STF) vive um movimento interno de reação diante da avaliação, compartilhada por uma ala da Corte, de que o Palácio do Planalto tenta se distanciar da crise envolvendo o ministro Dias Toffoli no caso Master. Para esse grupo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estaria evitando o desgaste político e deixando o Supremo sozinho no centro da controvérsia, o que reforça a percepção de que o chefe do Executivo “lava as mãos” diante do problema, segundo Andreia Sadi, do G1.

Esse diagnóstico tem servido como elemento de união entre magistrados que passaram a se articular para proteger Toffoli e, ao mesmo tempo, preservar a instituição. A leitura predominante é a de que um colapso completo da situação do ministro teria impacto negativo para todo o tribunal, ao abrir um precedente considerado perigoso e ampliar a vulnerabilidade do STF em crises futuras.

Nos bastidores, ministros discutem uma saída classificada como institucional. A alternativa vista como menos danosa seria permitir que o caso desça à primeira instância, mas permaneça sob o guarda-chuva do Supremo. O objetivo seria reduzir a pressão direta sobre a Corte sem expor o tribunal a um cenário de desgaste irreversível.

Entre as hipóteses mais ousadas levantadas internamente está a possibilidade de afastamento de Toffoli, o que abriria espaço para a nomeação de um novo ministro, com eventual apoio do Centrão no Senado. Essa proposta, porém, encontra forte resistência dentro do STF, sobretudo pela avaliação de que o momento político inviabiliza uma articulação desse porte.

Ministros lembram que o governo ainda enfrenta dificuldades para aprovar a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga já existente na Corte. “Se não aprova o Messias, vai conseguir aprovar outro ministro em meio a uma crise dessas?”, questionou um magistrado, em declaração literal. A avaliação é que iniciar uma nova negociação política, com a pendência atual, poderia agravar ainda mais o cenário.

Para integrantes do Supremo, o impasse deixou de ser apenas jurídico ou institucional e assumiu contornos claramente políticos. A percepção é de que o Planalto instrumentaliza o STF conforme a conveniência e se afasta quando o custo aumenta. É esse entendimento que sustenta a mobilização interna para o chamado “salvamento” de Toffoli, visto por parte da Corte como uma estratégia de autopreservação institucional diante de um ambiente de tensão crescente.

•        CPI do Crime Organizado avalia investigar o caso do Banco Master, diz relator

O relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado no Senado, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), afirmou que o colegiado trabalha para ampliar o escopo das investigações e pode incluir o caso do Banco Master entre os temas analisados. Segundo ele, a comissão avalia contratos, vínculos e movimentações financeiras que possam ser relevantes para a apuração.

Em entrevista ao SBT News, o senador afirmou que a CPI pretende adotar medidas como a apresentação de requerimentos para a quebra de sigilos bancários, fiscais e telefônicos de empresas e pessoas ligadas aos fatos que envolvem o banco e contratos associados.

<><> Ampliação do escopo da CPI

De acordo com Vieira, a intenção de estender a investigação não exclui nem interfere em outras frentes de apuração conduzidas por órgãos como a Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR). Ele ressaltou, no entanto, a competência do Senado na fase legislativa das investigações.

“A Comissão Parlamentar de Inquérito tem foco no crime organizado. A atuação do grupo que comandou o Banco Master é uma atuação típica de crime organizado, com estruturação, continuidade e infiltração no poder público. Então, a CPI tem, sim, aptidão para essa ação”, afirmou o senador.

<><> Contexto da comissão no Senado

A CPI do Crime Organizado foi instalada para investigar práticas como lavagem de dinheiro, corrupção, ocupação territorial e a atuação de facções criminosas em diferentes estados do país. A comissão é presidida pelo senador Fabiano Contarato (PT-ES), enquanto Alessandro Vieira foi eleito relator, responsável pela elaboração de pareceres e pelo direcionamento dos trabalhos.

O caso do Banco Master envolve investigações relacionadas a contratos e movimentações financeiras que vêm sendo analisadas por autoridades e já motivaram pedidos de quebra de sigilo, além da apuração de possíveis vínculos com agentes públicos.

<><> Próximos passos das investigações

Com o fim do recesso parlamentar, a expectativa é que a CPI avance na apresentação formal de requerimentos de quebra de sigilos e discuta a inclusão efetiva do caso Banco Master no plano de trabalho da comissão. O relator também indicou a possibilidade de convocação de testemunhas e solicitação de documentos, seguindo o rito previsto para as comissões parlamentares de inquérito no Senado.

 

Fonte: Outras Palavras/Brasil 247

 

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