sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Ivandilson Miranda Silva: Nas eleições, o necessário resgate da Questão Nacional

O ano de 2026 será decisivo para o futuro do Brasil. As eleições que se aproximam não dizem respeito apenas à escolha de um presidente, mas à definição do próprio projeto de país que estará em disputa. Em jogo está uma decisão histórica: o Brasil seguirá como uma nação soberana ou continuará preso a uma trajetória de subordinação a interesses externos e às suas elites internas associadas?

Após o desastroso governo de Jair Bolsonaro — marcado por autoritarismo, destruição institucional e ataques sistemáticos à democracia — a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2022, representou um alívio para amplos setores democráticos da sociedade. Formou-se um campo político heterogêneo, reunindo liberais democráticos, social-democratas, movimentos populares e forças da esquerda. No entanto, como já alertavam intérpretes clássicos do Brasil, vitórias eleitorais, por si só, não são suficientes para romper padrões históricos de dependência e subordinação.

É justamente nesse ponto que a Questão Nacional retorna ao centro do debate. Pensar a Questão Nacional significa perguntar se o país é capaz de formular um projeto autônomo de desenvolvimento econômico, político e cultural, orientado pelos interesses de seu próprio povo. Celso Furtado demonstrou que o subdesenvolvimento não é uma etapa passageira, mas uma forma específica de inserção subordinada no capitalismo global, reproduzida por elites internas associadas aos centros de poder internacional.

Florestan Fernandes aprofundou essa análise ao mostrar que a burguesia brasileira jamais realizou uma revolução democrática nos moldes clássicos. Optou, ao contrário, por uma modernização conservadora, dependente e excludente, compatível com estruturas autoritárias e com a submissão externa. Essa herança ajuda a explicar a fragilidade histórica do Estado brasileiro diante de pressões internacionais e a dificuldade recorrente de consolidar um projeto nacional-popular.

O cenário internacional contemporâneo torna essa discussão ainda mais urgente. Vivemos uma fase de enfraquecimento das instituições multilaterais e de desprezo crescente pelo direito internacional. Grandes potências recorrem cada vez mais à imposição da força e à intimidação direta para garantir seus interesses estratégicos. A diplomacia cede espaço ao poder bruto. Como aponta Immanuel Wallerstein, essa dinâmica não é acidental, mas parte da própria lógica do sistema-mundo capitalista, que organiza países em hierarquias entre centro, semiperiferia e periferia.

Nesse contexto, países como o Brasil tornam-se alvos preferenciais de pressões econômicas, políticas e militares. Octavio Ianni já advertia que a globalização não elimina o Estado-nação, mas o reconfigura de forma profundamente desigual, transformando muitas elites nacionais em agentes locais da dominação global.

Diante disso, o Brasil precisa repensar profundamente sua posição no mundo. Sua política externa, sua estratégia de defesa e até a formação das Forças Armadas historicamente estiveram subordinadas à influência dos Estados Unidos — não apenas no plano material, mas também ideológico. Superar essa dependência é condição básica para qualquer projeto nacional soberano e democrático.

A Questão Nacional também exige reconhecer que a subordinação externa não se sustenta apenas por imposições estrangeiras. Ela se reproduz internamente por meio de elites econômicas e políticas que trocam soberania por privilégios. Como aponta Jessé Souza, trata-se de uma elite que legitima a desigualdade e bloqueia transformações estruturais, enquanto recorre a um patriotismo vazio, feito de slogans, bandeiras e símbolos descolados de qualquer projeto real de país.

Consciência nacional não é retórica. Não se resume a gestos simbólicos ou discursos inflamados. É capacidade concreta de decidir sobre os próprios rumos, de proteger recursos estratégicos, de fortalecer a indústria nacional, a ciência, a tecnologia e a defesa. É também compreender que soberania e democracia caminham juntas: não há democracia efetiva em um país estruturalmente dependente.

Nildo Ouriques reforça esse ponto ao lembrar que não existe desenvolvimento autônomo nem democracia substantiva sem soberania econômica, tecnológica e militar. A dependência externa, nesse sentido, não é apenas econômica, mas também ideológica e estratégica.

As eleições de 2026 precisam, portanto, escancarar essa escolha. De um lado, projetos que defendem a autonomia nacional e a reconstrução do Estado brasileiro que os setores populares e de esquerda devem ou deveriam defender com unhas e dentes; de outro, forças (de direita e extrema direita) que continuam apostando no alinhamento automático a interesses estrangeiros, mesmo que isso implique a erosão da soberania e da dignidade nacional.

A construção de uma verdadeira consciência nacional não será rápida nem simples. Trata-se de um processo histórico, marcado por conflitos e disputas. Mas é um caminho inadiável se o Brasil quiser se afirmar como uma nação livre, democrática e capaz de enfrentar os desafios de uma ordem mundial cada vez mais instável.

O Brasil dos brasileiros não é uma utopia. É uma escolha política.

César Fonseca: Financeirização eleitoral - Master desnuda direita no desespero na disputa presidencial

Quem está com o traseiro exposto na crise do Banco Master?

Não é a esquerda, PT e aliados: até agora, não se ouviu ou se leu nada dando conta de governos progressistas tirando dinheiro de aposentados em fundos previdenciários para colocar no fundo de Daniel Vorcaro.

A bomba estourou no colo de governos de direita e ultradireita: Rio de Janeiro, Distrito Federal, Amapá, por enquanto, porque as investigações prosseguem com a Polícia Federal.

E o Centrão, que está na roda, envolvido com prefeituras de diversos estados, comprometendo fundos previdenciários no negócio de Vorcaro.

Eles abasteceram o Master com o dinheiro dos aposentados, na vã e falsa esperança de obter os rendimentos prometidos pelo banqueiro: 140% do CDI na valorização dos papéis podres que o banqueiro deu em troca, simulando ativos inexistentes.

Pura pirâmide financeira.

Vorcaro não fingiu nos seus depoimentos à PF: jogava no escuro e no claro, confiante no resgate, pelos caloteados por ele, garantido pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

Sabia que garantiria prejuízos dos aplicadores individuais, coletivizados nos fundos previdenciários, no valor de até R$ 250 mil.

Depois dessa quantia, o cano era certo: bota na conta do Abreu; se ele não pagar, nem eu.

Era a regra do jogo.

Malandramente, tentou, com chefes do Centrão, como Ciro Nogueira, PP, encaminhar providências no Congresso para aumentar os limites do FGC.

Ou seja, mudar as regras do jogo, enlarguecendo-as.

Teria, se isso tivesse colado, margem maior para saquear o bolso dos incautos.

Como ele disse à Polícia Federal, jogava com as regras do jogo – limite de R$ 250 mil do FGC –, ampliando seu negócio com o pé no acelerador.

Se a proposição de Ciro Nogueira, defensor do afrouxamento das regras, as jogava para outro patamar – limite de R$ 1 milhão para o fundo garantidor –, a fim de beneficiar o castelo de cartas de Vorcaro, sai de baixo.

FINANCEIRIZAÇÃO POLÍTICO-ELEITORAL

O banqueiro mineiro seria, certamente, o comandante financeiro para tentar levar a direita ao poder na eleição presidencial desse ano.

Em síntese, Daniel Vorcaro era o peão do Centrão na articulação eleitoral na sucessão presidencial, objetivando derrotar o presidente Lula.

Seria o caixa da campanha, alimentando o exército da direita e ultradireita na tentativa de volta ao poder.

Felizmente, saiu pela culatra o propósito do banqueiro, embalado pela ganância política da direita, ao que parece, capitaneada por Ciro Nogueira e cia. ltda., que defendia Fundo Garantidor de Crédito mais robusto como bombeador de caixa eleitoral.

Estava em marcha a financeirização especulativa eleitoral, a partir de regras de captação de recursos com a capa de legalidade de FGC, cujo potencial de destruição da economia nacional seria altamente explosivo.

Se com o FGC limitado a R$ 250 mil por cabeça está dando o bafafá geral que leva a bancocracia – Febraban e Faria Lima – a arrancar os cabelos, porque é ela que terá de pagar os prejudicados, como garantidora, imagine se o limite pedido por Ciro Nogueira, de R$ 1 milhão, tivesse emplacado!

400% a mais, por uma regra de três simples!

A corrida bancária estouraria o caixa do sistema financeiro, e o país mergulharia na maior crise econômico-financeira da história.

Por essas e outras é que a direita e a ultradireita estão no desespero total.

Se não bastasse que elas já são maioria no Congresso, graças à corrupção com as emendas parlamentares, garantidas por orçamento secreto, sob investigação do STF, que, só este ano, somam R$ 61 bilhões, passam a ser alvos por ter apoiado a arapuca de Vorcaro.

A financeirização político-eleitoral patrocinada pela direita e ultradireita fascista, embalada pelo dono do Master, vira alvo exposto aos marqueteiros da esquerda, livre, pelo menos aparentemente, da acusação de corrupção patrocinada pelo governo Lula.

A mídia liberal direitista tenta, desesperadamente, jogar a conta explosiva do Master no colo do presidente Lula, mas não tem prova alguma.

Tenta repetir a antiga e falsa acusação de Moro, no tempo da Operação Lava Jato, de que o presidente seria dono de apartamento no Guarujá, sem dispor da comprovação registrada em cartório.

Pura farsa.

 

Fonte: Outras Palavras/Brasil 247

 

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