quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

O que os incels aprenderam com o feminismo

Poucos exemplos ilustram a polarização política da nossa sociedade com tanta clareza quanto o conflito entre feministas e incels. Muitas feministas veem os incels como homens misóginos, revoltados com a perda de privilégios masculinos, em vez de indivíduos genuinamente vulneráveis, enquanto os incels retratam as feministas como “femóides” manipuladoras que controlam a cultura, a política e as instituições sociais, ao mesmo tempo que se fazem de vítimas. Superficialmente, a única conexão parece ser o fato de cada grupo se definir em oposição ao outro. Mas existe uma ligação mais sutil: ambos os grupos se baseiam na experiência pessoal de marginalização como fonte de autoridade. Cada um acredita que, por ter sido oprimido, só ele enxerga o mundo como realmente é — e descarta o outro grupo político como iludido ou manipulador.

Dada a centralidade da autoridade e da marginalização tanto para o movimento feminista quanto para o movimento incel, outros questionamentos insistem em ser feitos: como os apelos à experiência pessoal — particularmente aqueles enraizados na marginalização — podem ser politicamente carregados, e existem limites políticos para eles? A teoria do lugar de fala feminista, que argumenta que as experiências de marginalização podem produzir conhecimento valioso, certamente possui poder analítico, mas não está imune ao uso indevido. Quando a experiência e a marginalidade são reivindicadas como autoridade, elas podem — e frequentemente o fazem — produzir hierarquias repressivas tanto dentro de movimentos progressistas quanto reacionários.

<><> Lugar de fala, privilégio e responsabilidade

Assim, a concepção de que nossa posição social molda o que sabemos e vemos é incontroversa. Como Simone de Beauvoir refletiu em O Segundo Sexo, ser rejeitada “por ser mulher” ilustra como o posicionamento diferenciado na sociedade afeta a forma como nossa perspectiva é recebida. Foi justamente essa experiência de não ser levada a sério que a tornou sensível às construções de gênero. bell hooks apontou que pessoas à margem da sociedade muitas vezes conseguem enxergar as estruturas dominantes com mais clareza justamente por não deterem poder sobre os outros. E Nancy Hartsock argumentou de forma semelhante que a marginalização das mulheres lhes proporciona uma perspectiva que aqueles no centro do poder frequentemente não possuem.

Em certa medida, essas posições ecoam Karl Marx, que vinculou o conhecimento à posição da classe trabalhadora explorada. Mas, para Marx, a classe trabalhadora possui um privilégio epistêmico não em virtude de seu sofrimento ou opressão, mas porque sua posição objetiva nas relações de produção lhe confere uma perspectiva singularmente clara sobre os mecanismos de exploração. Esse privilégio está enraizado no papel prático e histórico que a classe trabalhadora deve desempenhar: sua própria libertação exige a abolição do trabalho assalariado, da propriedade privada dos meios de produção e de todo o aparato por meio do qual se extrai mais-valia. Ao lutar para superar a exploração, a classe trabalhadora é compelida a confrontar toda a arquitetura da dominação capitalista — algo que nenhuma outra classe tem interesse em abolir e, ao mesmo tempo, capacidade estrutural para fazê-lo. Assim, seu ponto de vista é “privilegiado” não moral ou experiencialmente, mas política e materialmente: seu interesse de classe coincide com a emancipação de toda a humanidade, uma vez que o fim de sua exploração implica o fim da exploração em si. Diferentemente de Marx, Hartsock e outras feministas do lugar de fala trataram a marginalização em si como uma fonte de perspectiva privilegiada, ampliando o leque de grupos que podem reivindicar autoridade epistêmica, mas, ao mesmo tempo, perdendo a dimensão material da teoria.

Em Marginality and Epistemic Privilege [Marginalidade e Privilégio Epistêmico], a filósofa Bat-Ami Bar On destaca as dificuldades políticas que essa posição pode gerar. Ao direcionar a atenção exclusivamente para a marginalização — sem examinar a natureza específica dessa marginalização ou sua função estrutural — a autoridade epistêmica corre o risco de ser reformulada como uma competição pelo status de “mais oprimido” ou marginalizado, resultando em uma dinâmica que frequentemente gera conflitos internos dentro dos movimentos. Por sua vez, os debates sobre “Quem possui o conhecimento mais legítimo?” acabam se voltando contra outros grupos marginalizados — ou ligeiramente menos marginalizados — enquanto aqueles no poder simplesmente ignoram tais disputas. O resultado é uma situação em que os impotentes acusam os relativamente impotentes de dominação, enquanto os verdadeiramente poderosos se acomodam e esfregam as mãos.

Em suma, basear-se exclusivamente na marginalização pode gerar conflitos dentro dos movimentos progressistas, à medida que se desenrolam as lutas por autoridade e legitimidade. Mas há um perigo adicional: os movimentos antifeministas podem explorar essas estruturas, voltando as ferramentas da análise feminista contra o próprio feminismo. Essa dinâmica é evidente em minha pesquisa sobre a produção de conhecimento dos incels, que, surpreendentemente, ecoa diversos tropos encontrados na teoria do ponto de vista feminista.

<><> Os incels como um alerta: quando a marginalização se torna reacionária

Na página inicial de um dos maiores fóruns incel do mundo, o Incels.is, as regras são rígidas. A participação é limitada a homens que se identificam como verdadeiros incels; simpatia ou mesmo concordância com a crítica do fórum à sociedade não são suficientes. As mulheres são categoricamente excluídas: segundo a lógica incel, uma mulher que permanece celibatária nunca é verdadeiramente marginalizada, pois sempre poderia encontrar um parceiro sexual se quisesse. Essas mulheres são chamadas de “volcels”, celibatárias voluntárias.

Grande parte da discussão no fórum gira em torno de quem é considerado um incel “de verdade”. A distinção entre “verdadeiros incels” e “falsos incels” se baseia na experiência: os verdadeiros incels estão condenados ao celibato, enquanto os falsos incels poderiam escapar dele com esforço. Em outras palavras, a autoridade epistêmica dentro da comunidade se baseia na marginalização. Considere, por exemplo, um tópico de discussão no Incels.is em que os usuários debatem se os “Chads” — isto é, homens que ocupam posições privilegiadas na hierarquia de gênero em virtude de sua atratividade física — podem algum dia ser genuinamente “desiludidos”. Como um usuário escreveu no tópico: “Eles não podem ‘saber’ disso, eles só podem acreditar até certo ponto. A única maneira de realmente saber é por experiência própria. Eles nunca serão verdadeiramente desiludidos porque nunca experimentarão a verdadeira solidão e desesperança forçadas.”

Quanto mais social e sexualmente excluído um membro for, mais legítima será sua voz. Fatores como aparência, etnia e status social determinam essa hierarquia, e a lógica interna do fórum frequentemente classifica essas características de maneiras que aprofundam a marginalização. A identidade de um incel é relacional, definida em oposição a outros em uma teia de eixos de poder que se cruzam, muito semelhante à forma como as teorias feministas interseccionais descrevem o posicionamento social.

A experiência — ou a falta dela — é central para a vida coletiva da comunidade. Somente aqueles que vivenciaram a “experiência incel” em sua plenitude são considerados qualificados para participar ou oferecer conhecimento. Nesse sentido, a comunidade espelha ideias feministas sobre conhecimento situado e privilégio epistêmico, mas as aplica sem reflexão ética: o acesso ao conhecimento “verdadeiro” é determinado pelo sofrimento, não pela reflexão crítica ou por um compromisso com a justiça.

No entanto, a experiência por si só não basta. O fórum fiscaliza a conformidade ideológica: conteúdo bluepilled — perspectivas consideradas ingênuas ou ignorantes da realidade social que os incels afirmam enxergar — é proibido. Inspirando-se em Matrix, a red pill simboliza o despertar para a verdade da sociedade; a black pill sinaliza desesperança e passividade política. Nessa perspectiva, a identidade incel não é inata, mas adquirida: ela emerge por meio da adoção de uma visão de mundo específica, da análise crítica da própria marginalização e da participação na interpretação coletiva das estruturas sociais.

Nessa perspectiva, os incels fundamentam suas reivindicações de verdade em suas experiências vividas e na articulação coletiva dessas experiências, enquanto as feministas são retratadas como uma “hegemonia cega”. A ideia de se encontrar em um sistema feminista hegemônico, que precisa ser desvendado, é expressa pelo seguinte usuário do Incels.is, que mobiliza a teoria crítica para defender seu argumento:

Trata-se de viver em um mundo dominado por normas sexuais. Veja bem, segundo Gramsci, existe a ideia de que as pessoas no poder — a burguesia — controlam praticamente tudo que molda nossa cultura social. Então, sejam os filmes que você assiste, as notícias que você lê ou a música que você ouve, tudo foi aprovado por eles. E se algo não se encaixa na agenda deles, bem, você pode nem ficar sabendo.

A consequente luta pela autoridade epistêmica torna-se, portanto, mais do que um debate interno: é um campo de batalha político entre movimentos progressistas e seus adversários, e os fóruns incel funcionam como um reflexo sombrio da conscientização feminista, transformando a experiência pessoal em conhecimento coletivo. Então, o que fazer com isso?

<><> Lições para o Feminismo

As feministas frequentemente descartam as narrativas de vitimização e marginalização dos incels como exagero ou má-fé. E com razão, quando essas narrativas servem à premissa patriarcal de que os homens têm direito ao acesso sexual às mulheres, uma alegação que o feminismo tem todos os motivos para rejeitar. No entanto, esses fóruns claramente atraem muitos meninos e homens que são, de fato, vulneráveis. Levar essa vulnerabilidade a sério não significa endossar a demanda reacionária sobre os corpos das mulheres. Significa reconhecer que o isolamento e o desespero são condições sociais reais que merecem ser enfrentadas. Uma razão para a recusa quase total em reconhecer a vulnerabilidade dos incels pode ser que fazê-lo exigiria que uma parcela significativa do movimento feminista — de acordo com sua própria epistemologia — levasse as alegações dos incels a sério. Em vez de reexaminar a ligação epistêmica que estabelece entre marginalidade e credibilidade, grande parte do feminismo descarta completamente as narrativas dos incels sobre solidão e vitimização. Isso, por sua vez, alimenta a sensação entre certos grupos de homens de que as feministas estão mais interessadas em poder do que na verdade.

De uma perspectiva marxista, isso destaca uma distinção crucial entre mera marginalidade e privilégio epistêmico. Como implica a concepção marxista da classe trabalhadora como classe universal, a experiência torna-se epistemologicamente significativa quando revela os mecanismos de exploração e a possibilidade de sua abolição coletiva. Ao confrontar os mecanismos que a oprimem, a classe trabalhadora adquire conhecimento sobre estruturas sociais que, se transformadas, beneficiariam a humanidade como um todo. A lição para o feminismo é paralela: a marginalidade e a experiência conferem peso epistêmico não automaticamente, mas quando são mobilizadas de maneiras que iluminam a opressão, desafiam as hierarquias sistêmicas e promovem o entendimento coletivo. Dentro das comunidades incel, por outro lado, a marginalidade é usada para reforçar o ressentimento, a hierarquia e a ideologia reacionária, em vez de gerar insights críticos ou conhecimento emancipatório. As teorias feministas de lugar de fala e conhecimento situado carregam o mesmo potencial estrutural para mau uso se as reivindicações de autoridade forem vinculadas acriticamente apenas à experiência.

A política feminista deve, portanto, equilibrar o reconhecimento das experiências das mulheres com a compreensão de que a marginalidade em si não é inerentemente progressista. A experiência deve guiar o conhecimento não por ser marginal, mas porque pode gerar insights coletivos, desafiar estruturas opressivas e fomentar a mobilização e a mudança social. As feministas devem garantir que a autoridade epistêmica esteja fundamentada não na queixa ou na vitimização, como no caso dos incels, mas na reflexão crítica, na responsabilidade coletiva e em um engajamento transformador com as estruturas sociais — alinhando a ética do lugar de fala com a lógica emancipadora que Marx atribui à classe trabalhadora.

 

Fonte: Por Evelina Johansson Wilén - Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

 

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