O
que os incels aprenderam com o feminismo
Poucos
exemplos ilustram a polarização política da nossa sociedade com tanta clareza
quanto o conflito entre feministas e incels. Muitas feministas veem os incels
como homens misóginos, revoltados com a perda de privilégios masculinos, em vez
de indivíduos genuinamente vulneráveis, enquanto os incels retratam as
feministas como “femóides” manipuladoras que controlam a cultura, a política e
as instituições sociais, ao mesmo tempo que se fazem de vítimas.
Superficialmente, a única conexão parece ser o fato de cada grupo se definir em
oposição ao outro. Mas existe uma ligação mais sutil: ambos os grupos se
baseiam na experiência pessoal de marginalização como fonte de autoridade. Cada
um acredita que, por ter sido oprimido, só ele enxerga o mundo como realmente é
— e descarta o outro grupo político como iludido ou manipulador.
Dada a
centralidade da autoridade e da marginalização tanto para o movimento feminista
quanto para o movimento incel, outros questionamentos insistem em ser feitos:
como os apelos à experiência pessoal — particularmente aqueles enraizados na
marginalização — podem ser politicamente carregados, e existem limites
políticos para eles? A teoria do lugar de fala feminista, que argumenta que as
experiências de marginalização podem produzir conhecimento valioso, certamente
possui poder analítico, mas não está imune ao uso indevido. Quando a
experiência e a marginalidade são reivindicadas como autoridade, elas podem — e
frequentemente o fazem — produzir hierarquias repressivas tanto dentro de
movimentos progressistas quanto reacionários.
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Lugar de fala, privilégio e responsabilidade
Assim,
a concepção de que nossa posição social molda o que sabemos e vemos é
incontroversa. Como Simone de Beauvoir refletiu em O Segundo Sexo, ser
rejeitada “por ser mulher” ilustra como o posicionamento diferenciado na
sociedade afeta a forma como nossa perspectiva é recebida. Foi justamente essa
experiência de não ser levada a sério que a tornou sensível às construções de
gênero. bell hooks apontou que pessoas à margem da sociedade muitas vezes
conseguem enxergar as estruturas dominantes com mais clareza justamente por não
deterem poder sobre os outros. E Nancy Hartsock argumentou de forma semelhante
que a marginalização das mulheres lhes proporciona uma perspectiva que aqueles
no centro do poder frequentemente não possuem.
Em
certa medida, essas posições ecoam Karl Marx, que vinculou o conhecimento à
posição da classe trabalhadora explorada. Mas, para Marx, a classe trabalhadora
possui um privilégio epistêmico não em virtude de seu sofrimento ou opressão,
mas porque sua posição objetiva nas relações de produção lhe confere uma
perspectiva singularmente clara sobre os mecanismos de exploração. Esse
privilégio está enraizado no papel prático e histórico que a classe
trabalhadora deve desempenhar: sua própria libertação exige a abolição do
trabalho assalariado, da propriedade privada dos meios de produção e de todo o
aparato por meio do qual se extrai mais-valia. Ao lutar para superar a
exploração, a classe trabalhadora é compelida a confrontar toda a arquitetura
da dominação capitalista — algo que nenhuma outra classe tem interesse em
abolir e, ao mesmo tempo, capacidade estrutural para fazê-lo. Assim, seu ponto
de vista é “privilegiado” não moral ou experiencialmente, mas política e
materialmente: seu interesse de classe coincide com a emancipação de toda a
humanidade, uma vez que o fim de sua exploração implica o fim da exploração em
si. Diferentemente de Marx, Hartsock e outras feministas do lugar de fala
trataram a marginalização em si como uma fonte de perspectiva privilegiada,
ampliando o leque de grupos que podem reivindicar autoridade epistêmica, mas,
ao mesmo tempo, perdendo a dimensão material da teoria.
Em
Marginality and Epistemic Privilege [Marginalidade e Privilégio Epistêmico], a
filósofa Bat-Ami Bar On destaca as dificuldades políticas que essa posição pode
gerar. Ao direcionar a atenção exclusivamente para a marginalização — sem
examinar a natureza específica dessa marginalização ou sua função estrutural —
a autoridade epistêmica corre o risco de ser reformulada como uma competição
pelo status de “mais oprimido” ou marginalizado, resultando em uma dinâmica que
frequentemente gera conflitos internos dentro dos movimentos. Por sua vez, os
debates sobre “Quem possui o conhecimento mais legítimo?” acabam se voltando
contra outros grupos marginalizados — ou ligeiramente menos marginalizados —
enquanto aqueles no poder simplesmente ignoram tais disputas. O resultado é uma
situação em que os impotentes acusam os relativamente impotentes de dominação,
enquanto os verdadeiramente poderosos se acomodam e esfregam as mãos.
Em
suma, basear-se exclusivamente na marginalização pode gerar conflitos dentro
dos movimentos progressistas, à medida que se desenrolam as lutas por
autoridade e legitimidade. Mas há um perigo adicional: os movimentos
antifeministas podem explorar essas estruturas, voltando as ferramentas da
análise feminista contra o próprio feminismo. Essa dinâmica é evidente em minha
pesquisa sobre a produção de conhecimento dos incels, que, surpreendentemente,
ecoa diversos tropos encontrados na teoria do ponto de vista feminista.
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Os incels como um alerta: quando a marginalização se torna reacionária
Na
página inicial de um dos maiores fóruns incel do mundo, o Incels.is, as regras
são rígidas. A participação é limitada a homens que se identificam como
verdadeiros incels; simpatia ou mesmo concordância com a crítica do fórum à
sociedade não são suficientes. As mulheres são categoricamente excluídas:
segundo a lógica incel, uma mulher que permanece celibatária nunca é
verdadeiramente marginalizada, pois sempre poderia encontrar um parceiro sexual
se quisesse. Essas mulheres são chamadas de “volcels”, celibatárias
voluntárias.
Grande
parte da discussão no fórum gira em torno de quem é considerado um incel “de
verdade”. A distinção entre “verdadeiros incels” e “falsos incels” se baseia na
experiência: os verdadeiros incels estão condenados ao celibato, enquanto os
falsos incels poderiam escapar dele com esforço. Em outras palavras, a
autoridade epistêmica dentro da comunidade se baseia na marginalização.
Considere, por exemplo, um tópico de discussão no Incels.is em que os usuários
debatem se os “Chads” — isto é, homens que ocupam posições privilegiadas na
hierarquia de gênero em virtude de sua atratividade física — podem algum dia
ser genuinamente “desiludidos”. Como um usuário escreveu no tópico: “Eles não
podem ‘saber’ disso, eles só podem acreditar até certo ponto. A única maneira
de realmente saber é por experiência própria. Eles nunca serão verdadeiramente
desiludidos porque nunca experimentarão a verdadeira solidão e desesperança
forçadas.”
Quanto
mais social e sexualmente excluído um membro for, mais legítima será sua voz.
Fatores como aparência, etnia e status social determinam essa hierarquia, e a
lógica interna do fórum frequentemente classifica essas características de
maneiras que aprofundam a marginalização. A identidade de um incel é
relacional, definida em oposição a outros em uma teia de eixos de poder que se
cruzam, muito semelhante à forma como as teorias feministas interseccionais
descrevem o posicionamento social.
A
experiência — ou a falta dela — é central para a vida coletiva da comunidade.
Somente aqueles que vivenciaram a “experiência incel” em sua plenitude são
considerados qualificados para participar ou oferecer conhecimento. Nesse
sentido, a comunidade espelha ideias feministas sobre conhecimento situado e
privilégio epistêmico, mas as aplica sem reflexão ética: o acesso ao
conhecimento “verdadeiro” é determinado pelo sofrimento, não pela reflexão
crítica ou por um compromisso com a justiça.
No
entanto, a experiência por si só não basta. O fórum fiscaliza a conformidade
ideológica: conteúdo bluepilled — perspectivas consideradas ingênuas ou
ignorantes da realidade social que os incels afirmam enxergar — é proibido.
Inspirando-se em Matrix, a red pill simboliza o despertar para a verdade da
sociedade; a black pill sinaliza desesperança e passividade política. Nessa
perspectiva, a identidade incel não é inata, mas adquirida: ela emerge por meio
da adoção de uma visão de mundo específica, da análise crítica da própria
marginalização e da participação na interpretação coletiva das estruturas
sociais.
Nessa
perspectiva, os incels fundamentam suas reivindicações de verdade em suas
experiências vividas e na articulação coletiva dessas experiências, enquanto as
feministas são retratadas como uma “hegemonia cega”. A ideia de se encontrar em
um sistema feminista hegemônico, que precisa ser desvendado, é expressa pelo
seguinte usuário do Incels.is, que mobiliza a teoria crítica para defender seu
argumento:
Trata-se
de viver em um mundo dominado por normas sexuais. Veja bem, segundo Gramsci,
existe a ideia de que as pessoas no poder — a burguesia — controlam
praticamente tudo que molda nossa cultura social. Então, sejam os filmes que
você assiste, as notícias que você lê ou a música que você ouve, tudo foi
aprovado por eles. E se algo não se encaixa na agenda deles, bem, você pode nem
ficar sabendo.
A
consequente luta pela autoridade epistêmica torna-se, portanto, mais do que um
debate interno: é um campo de batalha político entre movimentos progressistas e
seus adversários, e os fóruns incel funcionam como um reflexo sombrio da
conscientização feminista, transformando a experiência pessoal em conhecimento
coletivo. Então, o que fazer com isso?
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Lições para o Feminismo
As
feministas frequentemente descartam as narrativas de vitimização e
marginalização dos incels como exagero ou má-fé. E com razão, quando essas
narrativas servem à premissa patriarcal de que os homens têm direito ao acesso
sexual às mulheres, uma alegação que o feminismo tem todos os motivos para
rejeitar. No entanto, esses fóruns claramente atraem muitos meninos e homens
que são, de fato, vulneráveis. Levar essa vulnerabilidade a sério não significa
endossar a demanda reacionária sobre os corpos das mulheres. Significa
reconhecer que o isolamento e o desespero são condições sociais reais que
merecem ser enfrentadas. Uma razão para a recusa quase total em reconhecer a
vulnerabilidade dos incels pode ser que fazê-lo exigiria que uma parcela
significativa do movimento feminista — de acordo com sua própria epistemologia
— levasse as alegações dos incels a sério. Em vez de reexaminar a ligação
epistêmica que estabelece entre marginalidade e credibilidade, grande parte do
feminismo descarta completamente as narrativas dos incels sobre solidão e
vitimização. Isso, por sua vez, alimenta a sensação entre certos grupos de
homens de que as feministas estão mais interessadas em poder do que na verdade.
De uma
perspectiva marxista, isso destaca uma distinção crucial entre mera
marginalidade e privilégio epistêmico. Como implica a concepção marxista da
classe trabalhadora como classe universal, a experiência torna-se
epistemologicamente significativa quando revela os mecanismos de exploração e a
possibilidade de sua abolição coletiva. Ao confrontar os mecanismos que a
oprimem, a classe trabalhadora adquire conhecimento sobre estruturas sociais
que, se transformadas, beneficiariam a humanidade como um todo. A lição para o
feminismo é paralela: a marginalidade e a experiência conferem peso epistêmico
não automaticamente, mas quando são mobilizadas de maneiras que iluminam a
opressão, desafiam as hierarquias sistêmicas e promovem o entendimento
coletivo. Dentro das comunidades incel, por outro lado, a marginalidade é usada
para reforçar o ressentimento, a hierarquia e a ideologia reacionária, em vez
de gerar insights críticos ou conhecimento emancipatório. As teorias feministas
de lugar de fala e conhecimento situado carregam o mesmo potencial estrutural
para mau uso se as reivindicações de autoridade forem vinculadas acriticamente
apenas à experiência.
A
política feminista deve, portanto, equilibrar o reconhecimento das experiências
das mulheres com a compreensão de que a marginalidade em si não é inerentemente
progressista. A experiência deve guiar o conhecimento não por ser marginal, mas
porque pode gerar insights coletivos, desafiar estruturas opressivas e fomentar
a mobilização e a mudança social. As feministas devem garantir que a autoridade
epistêmica esteja fundamentada não na queixa ou na vitimização, como no caso
dos incels, mas na reflexão crítica, na responsabilidade coletiva e em um
engajamento transformador com as estruturas sociais — alinhando a ética do
lugar de fala com a lógica emancipadora que Marx atribui à classe trabalhadora.
Fonte:
Por Evelina Johansson Wilén - Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

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