quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Pedro Benedito Maciel Neto: Uma ONU para chamar de sua

O "novo órgão internacional de transição" para Gaza, proposto pelo presidente do Império, terá como presidente vitalício o presidente estadunidense Donald Trump. O que está por trás disso tudo?

A ideia foi apoiada, inicialmente, pela ONU, como parte do plano de paz capitaneado pelo principal algoz da Palestina, e vem provocando preocupação crescente à medida que novos detalhes surgem. Não sei se a ONU e os países-membros estão tão seguros do porvir.

Líderes mundiais já receberam cartas com convite para integrar o Conselho da Paz de Trump, dentre eles o presidente Lula.

O primeiro-ministro da Nova Zelândia, Christopher Luxon, também foi convidado e afirmou que dará ao convite a "devida consideração", e o Ministério das Relações Exteriores da Tailândia informou ainda que está analisando os detalhes da proposta. Lula ainda não se manifestou.

Entre os que já aceitaram publicamente o convite estão: o primeiro-ministro da Albânia, Edi Rama; o presidente da Argentina, Javier Milei; o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán; o presidente do Cazaquistão, Kassym-Jomart Tokayev; o presidente do Paraguai, Santiago Peña, mas sem pagar qualquer valor; e o presidente do Uzbequistão, Shavkat Mirziyoyev.

O secretário-geral do Partido Comunista do Vietnã, Tô Lâm, também teria aceitado o convite, enquanto o presidente de Belarus, Alexander Lukashenko, afirmou estar "pronto para participar". Curiosamente, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, aceitou integrar o conselho, mas disse que não pagará para se tornar membro.

Não há exigência para participar do Conselho da Paz de Trump; no entanto, os interessados em se tornar membros permanentes, em vez de serem membros por apenas três anos, teriam de pagar 1 bilhão de dólares, dinheiro que ajudaria a financiar a reconstrução de Gaza.

O conselho, criado, a meu juízo, para dar fim à ONU e a toda a ordem do pós-guerra, terá Trump presidindo vitaliciamente, mesmo que deixe a Presidência dos EUA, e poderá, como se especula, ser ampliado futuramente para tratar de outros conflitos.

Na carta-convite, Trump afirma que o conselho vai "embarcar em uma nova e ousada abordagem para resolver conflitos globais", ou seja, Trump se coloca como uma espécie de imperador do planeta e dá de ombros para a ONU, pois busca enfraquecer o Conselho de Segurança da ONU, atualmente responsável por mediação de paz, operações de manutenção da paz e sanções internacionais.

A ideia, conforme publicou a BBC, fonte da pesquisa para este artigo, causa desconforto a líderes como o presidente da França, Emmanuel Macron, pois há risco de substituir o atual sistema da ONU, ficando claro que Gaza pode ser o começo, mas não é o fim do conselho, na visão do governo Trump.

O governo Trump já vem reduzindo os recursos dos EUA destinados à ONU; além disso, os vetos dos EUA impediram o Conselho de Segurança de adotar medidas para pôr fim à guerra em Gaza e, mais recentemente, assinou um memorando retirando os EUA de 31 entidades da ONU que, segundo ele, "operam em desacordo com os interesses nacionais dos EUA".

Além do Conselho de Paz, foram anunciados dois conselhos executivos subordinados: (a) o Founding Executive Board (Conselho Executivo Fundador), com foco de alto nível em investimentos e diplomacia; e (b) o Gaza Executive Board (Conselho Executivo de Gaza), responsável por supervisionar todo o trabalho em campo do Comitê Nacional para a Administração de Gaza, um grupo de tecnocratas encarregado da governança temporária e da reconstrução do território.

A Casa Branca afirmou que os integrantes desses conselhos atuarão para garantir "governança eficaz e a prestação de serviços de excelência que promovam a paz, estabilidade e prosperidade para o povo de Gaza".

Segundo a Casa Branca, Trump presidirá o "Conselho Executivo Fundador" de sete membros, ligados direta ou indiretamente a Trump, que conduziria Gaza à sua próxima fase de reconstrução.

O grave: não há palestinos em nenhum dos dois conselhos executivos.

Há um israelense no Conselho Executivo de Gaza: o bilionário do setor imobiliário Yakir Gabay, nascido em Israel e atualmente radicado no Chipre. O conselho, porém, também inclui políticos de alto escalão de países como Catar e Turquia, críticos da condução da guerra de Israel na Faixa de Gaza.

Nem o mundo político de Israel está muito satisfeito, pois há quem afirme que o país foi excluído das discussões sobre a composição dos conselhos executivos, e o líder da oposição israelense, Yair Lapid, classificou o anúncio como um "fracasso diplomático para Israel".

O fato é que, além da morte de mais de 70 mil palestinos, cerca de 80% dos edifícios em Gaza foram destruídos ou danificados, gerando 60 milhões de toneladas de escombros, segundo estimativas da ONU. Famílias deslocadas também enfrentam baixas temperaturas do inverno, abrigo limitado e escassez de alimentos, sendo certo que Israel continua impondo restrições ao trabalho de ajuda e o cessar-fogo é uma ficção, pois o Hamas só aceitará se desarmar como parte de um acordo mais amplo que estabeleça um Estado palestino, e Israel, por seu lado, mantém tropas terrestres controlando a maior parte da Faixa de Gaza e disse que só se retirará se o Hamas se desarmar.

O conselho de paz de Trump, a meu juízo, é parte da visão imperial desabrida de Trump e de seu governo, e a paz válida só existirá se for lucrativa [para eles]. Apesar de todos os senões, eu penso que Lula deveria aceitar o convite, pagar o 1 bilhão de dólares e ser a voz da razão e o fiscal da sanidade no tal conselho, que, gostemos ou não, será criado e terá suas ações ampliadas sob a presidência de um bilionário, pedófilo e, segundo sua sobrinha, um “narcisista mentiroso e sociopata” (em seu livro de memórias lançado em 2020, intitulado Too Much and Never Enough: How My Family Created the World's Most Dangerous Man — em tradução livre: Demais e Nunca Suficiente: Como Minha Família Criou o Homem Mais Perigoso do Mundo).

Essas são as reflexões.

<><> A Privatização Imperial da ONU. Por Marcelo Zeo

Apesar do fator catastrófico e desestabilizante chamado Trump, ´é evidente que o Brasil deve procurar manter boas relações com os EUA. Afinal, relações diplomáticas são mantidas entre Estados, entre países; não entre governos específicos.

Mas o Brasil não pode renunciar a seus próprios interesses ou, pior, prejudicá-los, simplesmente para atender a desejos e ambições de outros governantes, que podem ser nocivos à ordem mundial.

Esse me parece o caso do convite feito por Trump ao Brasil para participar do seu “Board of Peace” (Conselho da Paz).

Embora tal Conselho tivesse sido anunciado, inicialmente, para fazer parte, numa segunda etapa, do plano de paz em Gaza, seu escopo e seus objetivos vão muito além de Gaza.

Na realidade, o texto constitutivo do referido Conselho não menciona, uma única vez sequer, a questão de Gaza.

A Carta Constitutiva do Conselho define seus objetivos da seguinte forma:

CAPÍTULO I - OBJETIVOS E FUNÇÕES

O Conselho da Paz é uma organização internacional que busca promover a estabilidade, restaurar a governança confiável e legítima e assegurar uma paz duradoura em áreas afetadas ou ameaçadas por conflitos. O Conselho da Paz deverá desempenhar funções de consolidação da paz em conformidade com o direito internacional e conforme aprovado por esta Carta, incluindo o desenvolvimento e a disseminação de melhores práticas que possam ser aplicadas por todas as nações e comunidades que buscam a paz.

Fica claro, portanto, que o Conselho da Paz pretende ser uma organização internacional permanente, a qual deverá atuar em todo planeta, em qualquer área que venha a ser considerada em conflito ou ameaçada de sofrer conflitos.

Apesar disso, o Conselho seria, por assim dizer, um clube de países selecionados por Trump; não uma instituição verdadeiramente multilateral.

Assim, o artigo 2 do seu texto constitutivo tem a seguinte redação:

Artigo 2.1: Estados-Membros

A participação no Conselho de Paz é limitada aos Estados convidados pelo Presidente (leia- se Trump) e inicia-se após a notificação de que o Estado consentiu em ficar vinculado a esta Carta, de acordo com o Capítulo XI.

A Somália, com certeza, não será convidada. Dos mais de 190 países do mundo, apenas 60 foram selecionados por Trump.

Além disso, há uma distinção clara entre os membros do Conselho, conforme a sua disposição ou não de pagar US$ 1 bilhão para Trump.

Com efeito, a alínea (c) do parágrafo 2.2 do texto constitutivo está redigida da seguinte forma:

(c) Cada Estado-Membro cumprirá um mandato de no máximo três anos a partir da entrada em vigor desta Carta, sujeito a renovação pelo Presidente. O mandato de três anos não se aplicará aos Estados-Membros que contribuírem com mais de US$ 1.000.000.000 em fundos em espécie para o Conselho de Paz no primeiro ano de entrada em vigor da Carta.

Ou seja, quem pagar torna-se membro permanente. Que não conseguir pagar é membro por 3 anos, podendo ser reintroduzido ao “clube” pela vontade do Presidente (Trump).

Com respeito às tomadas de decisão, a coisa piora. E muito.

De fato, a alínea (e) do artigo 3.1 do texto constitutivo do Conselho afirma o seguinte:

(e) As decisões serão tomadas por maioria dos Estados-Membros presentes e votantes, sujeitas à aprovação do Presidente, que poderá também votar na sua qualidade de Presidente em caso de empate.

Ou seja, o Presidente do Conselho (Trump) teria o poder unilateral e exclusivo de vetar quaisquer decisões que venham a ser tomadas pelo seu “clube”.

No Conselho de Segurança da ONU, já muito criticado por isso, cinco países têm direito ao veto: EUA, Reino Unido, França, China e Rússia. O Brasil luta, há muito tempo, para que esse Conselho, que reflete, de forma arcaica, a realidade geopolítica do pós-Segunda Guerra Mundial, seja consideravelmente ampliado e revisto.

Imagina entrar para uma organização internacional que pretende ser uma espécie de sucedâneo do Conselho de Segurança da ONU, na qual apenas um país (os EUA) tem direito a vetar quaisquer decisões.

Não bastasse, pelo texto divulgado, o Presidente do Conselho (Trump) designará, de forma pessoal, o seu sucessor. Nada de eleições.

O texto constitutivo do Conselho também estipula que não serão admitidas quisquer reservas às suas cláusulas. É, portanto, um acordo “tudo ou nada”. Desse modo, não há espaços para negociar a adesão ao Conselho com certas condicionalidades.

A bem da verdade, com sua proposta do Conselho de Paz, está tentando construir uma estrutura paralela à ONU e ao seu Conselho de Segurança.

O próprio Trump deixou isso claro quando afirmou, em 20 de janeiro de 2026 que "as Nações Unidas nunca me ajudaram" e que a criação do "Conselho da Paz" "poderia" substituir a ONU. 

A maior parte dos especialistas em direito internacional público afirma que Trump tenta, de fato, transformar a organização em uma alternativa ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, onde somente ele deteria o poder de veto, avaliação com a qual, evidentemente, concordo, após analisar sua carta constitutiva. 

O Conselho da Paz de Trump seria uma espécie de “ONU pessoal de Trump”, resultado de uma privatização imperial das funções que essa instituição e seu Conselho de Segurança deveriam exercer.

Por conseguinte, o Conselho de Paz de Trump é o exato oposto do que poderia ser uma verdadeira instituição multilateral, aderente aos princípios do direito internacional público.

O Brasil, que é um decidido defensor do multilateralismo, da multipolaridade e da paz não pode aderir a esse disparate unilateralista, o qual só tornará a ordem mundial mais instável e conflituosa.

Ruim com a ONU; pior sem a ONU. E muito pior ainda com o Conselho da “Paz” de Trump.

¨      EUA atuam fora da lei desde a criação da CIA, diz Jeffrey Sachs

O economista Jeffrey Sachs afirmou que os Estados Unidos passaram a atuar “fora da lei” no cenário internacional desde a criação da CIA, em 1947, e disse que a escalada recente de ameaças e intimidações atribuídas ao governo de Donald Trump, atual presidente dos EUA, é apenas mais um capítulo de uma trajetória marcada por guerras, golpes e operações de mudança de regime.

As declarações foram feitas em entrevista ao programa Judging Freedom, apresentado pelo juiz Andrew Napolitano, em edição exibida no YouTube em 21 de janeiro de 2026. No diálogo, Sachs comenta o que chamou de “diplomacia por insulto” e reage a trechos de uma mensagem atribuída a Trump que envolve a Groenlândia e pressões sobre países europeus.

<><> “Não há autoridade legal”: ruptura com a Carta da ONU e o “direito do mais forte”

Provocado por Napolitano sobre que base jurídica permitiria a um chefe de Estado exigir a remoção do líder de outro país que não represente ameaça à segurança nacional, Sachs respondeu de modo categórico: “Nenhuma”. Em seguida, lembrou que a Carta das Nações Unidas veda o uso da força — ou a ameaça do uso da força — contra outros países e afirmou que o atual governo em Washington teria rompido com esse princípio.

“Temos um tratado, a Carta da ONU, que explicitamente rejeita o uso da força ou a ameaça do uso da força contra outro país. Esse é o cerne do direito internacional, que, claro, nosso presidente repudiou completa e explicitamente”, disse. Para Sachs, a lógica que se impõe é a do “mais forte”, como se os EUA não estivessem “vinculados” a normas, tratados ou padrões mínimos de decência institucional.

<><> A mensagem atribuída a Trump e a Groenlândia como instrumento de chantagem

Na entrevista, Napolitano exibe um texto apresentado como um e-mail de Trump ao primeiro-ministro da Noruega, Jonas, e lê o trecho inicial: “Querido Jonas, considerando que seu país decidiu não me dar o Prêmio Nobel da Paz por ter parado oito guerras ou mais, não sinto mais obrigação de pensar na paz”. O texto prossegue com menção à Groenlândia e com a alegação de que a Dinamarca não seria capaz de “proteger aquela terra” de Rússia ou China.

Sachs reage apontando que o episódio reforça o caráter errático e agressivo da política externa do governo norte-americano. Ele diz que o mundo já sabia que os EUA “cronicamente” se envolvem em derrubadas de governos e guerras com pretextos falsos e que Trump é um presidente dado a ameaças repetidas. O que teria mudado, segundo ele, é a percepção de que há algo além do padrão histórico: “algo rachou?”, questiona, sugerindo que as últimas semanas teriam sido “completamente descontroladas”, com bravatas, tarifas “selvagens” e insistência em dizer que “a Groenlândia é nossa”.

<><> “Gângster internacional”: reação britânica e a crítica à hipocrisia europeia

Napolitano também reproduz a fala de um parlamentar britânico, exibida na Câmara dos Comuns, que acusa Trump de agir como “um gângster internacional”, dizendo que o presidente ameaça a soberania de aliados, flerta com o fim da OTAN e tenta impor tarifas “ultrajantes” à Europa para “colocar as mãos na Groenlândia”.

Sachs afirma concordar “em substância” que a conduta é “repulsiva” e “grotesca”, mas faz um ataque frontal ao comportamento de governos europeus nas últimas décadas. Para ele, parte da Europa só se mobilizou agora porque a pressão passou a ser dirigida ao próprio continente. “O que energizou os europeus é que se virou contra eles”, afirma, lembrando que muitos permaneceram silenciosos diante de episódios que ele aponta como violações graves quando as vítimas eram outros países.

O economista dá um exemplo pessoal: relata ter presenciado uma reunião no Conselho de Segurança da ONU após um bombardeio ao Irã, quando, segundo ele, a representação da Dinamarca teria cobrado “moderação” dos iranianos sem sequer mencionar que o país havia sido atacado. Na sequência, Sachs diz ter questionado a embaixadora, que teria se recusado a ouvir a crítica. A conclusão do economista é que a indignação europeia, em muitos casos, teria sido seletiva e tardia.

<><> “Desde 1947”: Sachs liga a crise atual a décadas de intervenções e golpes

Ao ampliar o quadro histórico, Sachs afirma que o comportamento “sem lei” dos EUA não começou agora. Ele aponta 1947 — ano de criação da CIA — como marco de uma era de “dezenas e dezenas” de guerras ilegais, golpes, assassinatos e operações de mudança de regime, que, segundo ele, se prolongaram até o presente.

Na avaliação do economista, não deveria ter sido necessária uma ameaça contra a Dinamarca para que a Europa refletisse sobre essa trajetória. O episódio da Groenlândia, diz, apenas evidencia o que ele entende como uma continuidade estrutural: o recurso à intimidação como instrumento de política externa, com custos crescentes para a estabilidade global.

<><> “A ameaça à Groenlândia não é Rússia nem China”, afirma economista

Sachs insiste que a narrativa de que a Groenlândia estaria sob risco de Rússia ou China seria uma “confabulação”. “A Groenlândia não está sob ameaça alguma da Rússia, da China ou de qualquer outra pessoa. Isso é completamente inventado”, declarou. Para ele, o impulso de Trump teria menos relação com segurança e mais com ambição e vaidade, chegando a comparar o comportamento do presidente ao de uma criança “com ciúmes” do tamanho territorial da Rússia e de sua costa no Ártico.

Ele também sugere que o principal freio recente pode ter sido o mercado financeiro, não instituições políticas: especula que a queda do mercado teria levado Trump a moderar o discurso, e insinua que a riqueza pessoal do presidente seria o último “guarda-corpo” real.

<><> Europa precisa de política externa própria, diz Sachs

No trecho final da entrevista, Sachs defende que a Europa construa uma política externa independente e menos subordinada a Washington. Ele afirma ter alertado o Parlamento Europeu, em fevereiro de 2025, de que o continente poderia enfrentar “ameaça de invasão” vinda dos EUA — e diz que a crise atual confirma a necessidade de uma estratégia própria, com diplomacia “real” e menos hipocrisia.

Para o economista, o caso da Groenlândia é um sintoma de um ambiente internacional cada vez mais perigoso, no qual o unilateralismo volta a testar os limites do sistema multilateral. A lição, em seu entendimento, é clara: quem aceita a lógica da força quando ela atinge terceiros pode acabar descobrindo tarde demais que também se tornou alvo.

 

Fonte: Brasil 247

 

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