quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

'A arte da diplomacia econômica' exposta: um pilar fundamental da guerra híbrida dos EUA à vista de todos

John Maynard Keynes escreveu, em sua célebre obra "As Consequências Econômicas da Paz" (1919): "Não há meio mais sutil, nem mais seguro, de subverter as bases existentes da sociedade do que depreciar a moeda. O processo mobiliza todas as forças ocultas da lei econômica a seu favor, e o faz de uma maneira que nem uma em um milhão de pessoas é capaz de diagnosticar."Os Estados Unidos dominaram essa arte da destruição ao instrumentalizar o dólar e usar sanções econômicas e políticas financeiras para levar ao colapso das moedas dos países visados. Em 19 de janeiro, publicamos “A Guerra Híbrida EUA-Israel contra o Irã”, descrevendo como os Estados Unidos e Israel estão travando guerras híbridas contra a Venezuela e o Irã por meio de uma estratégia coordenada de sanções econômicas, coerção financeira, operações cibernéticas, subversão política e guerra da informação. Essa guerra híbrida foi planejada para desestabilizar as moedas do Irã e da Venezuela a fim de provocar agitação interna e, em última instância, uma mudança de regime.

Em 20 de janeiro, apenas um dia após a publicação do nosso artigo, o Secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, confirmou publicamente, sem ressalvas, desculpas ou ambiguidades, que a nossa descrição corresponde, de fato, à política oficial dos EUA.

Já passou da hora de as nações do mundo confrontarem o comportamento econômico desonesto dos Estados Unidos... Essa ilegalidade é imprudente, prejudicial, desestabilizadora e, em última análise, ineficaz para alcançar os próprios objetivos dos Estados Unidos, muito menos os objetivos globais.

Em entrevista em Davos , o Secretário Bessent explicou detalhadamente como as sanções do Tesouro dos EUA foram deliberadamente concebidas para levar ao colapso da moeda iraniana, paralisar seu sistema bancário e levar a população do Irã às ruas. Esta é a campanha de “pressão máxima” para negar ao Irã o acesso a sistemas financeiros, comerciais e de pagamento internacionais. Bessent explicou:

O presidente Trump ordenou ao Departamento do Tesouro e à nossa divisão OFAC (Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros) que exercessem pressão máxima sobre o Irã. E funcionou, porque em dezembro a economia deles entrou em colapso. Vimos um grande banco falir; o banco central começou a imprimir dinheiro. Há escassez de dólares. Eles não conseguem importar produtos, e é por isso que a população foi às ruas.

Esta é a cadeia causal explícita pela qual as sanções dos EUA causaram o colapso da moeda e a falência do sistema bancário. Essa instabilidade monetária levou à escassez de importações e ao sofrimento econômico, causando os distúrbios. Bessent concluiu caracterizando as ações dos EUA como "estratégia econômica de Estado" e o colapso econômico do Irã como um desenvolvimento "positivo".

Portanto, trata-se de uma estratégia econômica diplomática, sem confrontos diretos, e as coisas estão caminhando de forma muito positiva por aqui.

O que a Secretária Bessent descreve não é, obviamente, "estratégia econômica" no sentido tradicional. Trata-se de uma guerra conduzida por meios econômicos, tudo planejado para produzir uma crise econômica e agitação social que leve à queda do governo. Isso é orgulhosamente aclamado como "estratégia econômica".

O sofrimento humano causado por guerras declaradas e sanções econômicas devastadoras não é tão diferente quanto se poderia pensar. O colapso econômico gera escassez de alimentos, medicamentos e combustível, além de destruir poupanças, aposentadorias, salários e serviços públicos. O colapso econômico deliberado leva as pessoas à pobreza , à desnutrição e à morte prematura, assim como acontece com uma guerra declarada.Esse padrão de sofrimento resultante das sanções dos EUA está bem documentado. Um estudo marcante publicado na revista The Lancet por Francisco Rodríguez e seus colegas mostra que as sanções estão significativamente associadas a aumentos acentuados na mortalidade, com os efeitos mais fortes observados em sanções unilaterais, econômicas e impostas pelos EUA, e um número total de mortes comparável ao de conflitos armados.A guerra econômica desse tipo viola os princípios fundamentais do direito internacional e da Carta da ONU . Sanções unilaterais impostas fora da autoridade do Conselho de Segurança da ONU, especialmente quando concebidas para causar sofrimento à população civil, são ilegais. A guerra híbrida não burla o direito internacional simplesmente por evitar bombardeios (embora os EUA e Israel também tenham bombardeado o Irã ilegalmente, é claro). A ilegalidade da "estratégia econômica" dos EUA aplica-se não apenas ao Irã e à Venezuela, mas a dezenas de outros países prejudicados pelas sanções estadunidenses.

Embora as sanções dos EUA criem sofrimento a curto prazo, seu uso incessante está incentivando rapidamente outras economias a se desvincularem do domínio financeiro americano.

A Europa talvez tenha começado a perceber que ser cúmplice dos crimes econômicos dos Estados Unidos não é salvação, já que o governo Trump agora se volta contra a Europa da mesma forma, embora com tarifas em vez de sanções. Trump ameaçou a Europa com tarifas por não ceder a Groenlândia aos EUA, embora tenha revogado essa ameaça, pelo menos temporariamente. Quando Trump "convidou" a França a participar do seu Conselho de Paz, ameaçou impor uma tarifa de 200% sobre o vinho francês caso a França recusasse o convite. E assim por diante.

Os Estados Unidos podem travar esse tipo de guerra econômica abrangente porque o dólar é a moeda-chave no sistema financeiro global. Se países terceiros não cumprirem as sanções americanas contra o Irã e a Venezuela, os EUA ameaçam impor sanções aos bancos desses países, especificamente para excluí-los das transações em dólar (conhecidas como sistema SWIFT). Dessa forma, os EUA impõem suas sanções a países que, de outra forma, continuariam negociando com os países que os EUA estão tentando levar ao colapso econômico.

Embora as sanções americanas causem sofrimento a curto prazo, seu uso incessante está incentivando rapidamente outras economias a se desvincularem do domínio financeiro dos EUA. Os países do BRICS, e muitos outros, estão expandindo o comércio internacional utilizando suas próprias moedas, criando alternativas ao dólar americano e, assim, evitando essas sanções. A capacidade dos EUA de impor sanções financeiras e comerciais a outros países diminuirá em breve, provavelmente de forma acentuada nos próximos anos.

Já passou da hora de as nações do mundo confrontarem o comportamento econômico desonesto dos Estados Unidos. Os EUA vêm travando uma guerra econômica com intensidade crescente, chamando-a de "estratégia econômica". Essa ilegalidade é desrespeitosa, imprudente, prejudicial, desestabilizadora e, em última análise, ineficaz para alcançar os próprios objetivos dos EUA, muito menos os objetivos globais. A Europa tem se mantido indiferente até agora. Talvez agora que a Europa também esteja sob ameaça, ela desperte e se junte ao resto do mundo para pôr um fim ao comportamento descarado e ilegal dos Estados Unidos.

•        Analista geopolítico sino-canadense explica por que o Império americano está acabando e prevê a grande crise de 2026

O educador, pesquisador e teórico geopolítico sino-canadense Jiang Xueqin, radicado em Pequim, sustenta que o mundo entrou numa fase em que os Estados Unidos já não conseguem operar uma grande estratégia de longo prazo e, por isso, recorrem cada vez mais ao uso ostensivo da força para produzir “imagens” de poder. Para ele, esse deslocamento — da diplomacia e do “poder brando” para ações militares espetaculares — não é sinal de força, mas de esgotamento: o retrato típico de um Império em declínio.

A avaliação foi feita em entrevista concedida ao professor Glenn Diesen, na qual Jiang apresentou uma série de previsões para 2026 e descreveu o que chama de aceleração do fim do Império americano, impulsionada por contradições econômicas internas, coerção externa e perda de capital diplomático.

<><> Quem é Jiang Xueqin

Jiang Xueqin (nascido em 1974 ou 1976) é  um educador, pesquisador e teórico geopolítico sino-canadense radicado em Pequim, reconhecido por seu trabalho em reforma educacional e, mais recentemente, por análises preditivas globais. Na entrevista, ele afirma que sua lente principal não é ideológica, mas estratégica, baseada em teoria dos jogos.

Ele define o próprio método de forma direta: “Eu uso teoria dos jogos e basicamente vejo a geopolítica como um jogo jogado por diferentes atores tentando maximizar seus próprios interesses. Então, eu não olho muito para a ideologia. Eu basicamente foco no interesse próprio.”

<><> A previsão central: o Império entrou na fase do “micromilitarismo”

A principal previsão de Jiang não é um evento isolado, mas um processo: os Estados Unidos estariam acelerando o declínio ao transformar política externa em performance, substituindo cálculo por exibicionismo e gerando, em troca, resistência regional e desconfiança global.

Ele usa o caso venezuelano como símbolo desse padrão. Ao descrever o sequestro de Nicolás Maduro e sua exibição pública algemado, Jiang afirma que a operação pode parecer “vitoriosa” no curto prazo, mas é estrategicamente autodestrutiva, porque humilha povos inteiros, destrói qualquer base de negociação e unifica adversários.

Na formulação dele, a mudança é clara: “Assim, sacrificou a estratégia pela aparência. E isso é um sinal de um império em declínio, quando já não é mais capaz de uma grande estratégia, nem de prever o futuro.”

A consequência, diz, é que o Império passa a acumular inimigos e a empurrar até aliados para a desconfiança. Jiang sustenta que esse tipo de gesto não é apenas agressão externa: é um atestado de que o centro perdeu capacidade de coordenação racional e passou a operar por impulsos de curto prazo.

<><> O efeito bumerangue: “sementes de uma revolta mundial” contra Washington

Jiang insiste que o dano maior não está apenas no alvo imediato, mas na mensagem enviada ao planeta. Ao agir como “valentão”, os Estados Unidos ampliariam a percepção de que as regras foram abandonadas. E, quando as regras caem, a confiança cai junto.

Ele afirma que, historicamente, o poder norte-americano preferiu operações discretas, propaganda, infiltração e instrumentos financeiros — justamente para não ficar refém do uso permanente do Exército. Ao trocar isso por ações abertamente militares, Washington se prenderia a uma escalada contínua e mais cara.

O ponto decisivo da previsão aparece quando ele descreve o resultado político do espetáculo: “Você plantou as sementes do descontentamento global, de uma revolta mundial contra o poder americano. E basicamente acho que o império americano está acabado.”

A entrevista também sugere que, mesmo quando certas ações parecem “funcionar” por alguns anos, o saldo histórico tende a ser negativo: a coerção vira ressentimento, o ressentimento vira coalizão defensiva e a coalizão, cedo ou tarde, limita o poder do agressor.

<><> Crise de 2026: bolhas financeiras, oligopólio e risco de colapso social

Ao falar de 2026, Jiang liga o declínio externo a fragilidades internas dos Estados Unidos. Sua previsão é que o país entra num período em que a economia pode ser sacudida por bolhas e distorções estruturais, com capacidade de arrastar a sociedade para um cenário de ruptura.

Ele lista três focos principais.

O primeiro é a bolha associada à inteligência artificial, descrita como crescimento puxado por investimentos gigantescos em infraestrutura (centros de dados), com dúvidas sobre rentabilidade e efeitos sobre emprego. O segundo é o que chama de superfinanceirização, com mercados dominados por especulação e alavancagens extremas em commodities. O terceiro é a criptomoeda, vista por ele como circuito especulativo sem benefício social.

O diagnóstico mais duro vem quando ele descreve a perda de mecanismos de autocorreção: um pequeno grupo de atores controlaria o sistema, o Estado teria capacidade de “imprimir” liquidez e, na ausência de concorrente imediato para o dólar, a bolha poderia se estender — até o momento em que estourar.

E, se estourar, ele prevê impacto social devastador. Questionado diretamente sobre a consequência, responde: “Então, basicamente você está olhando para uma guerra civil, uma guerra civil na América.”

<><> O Império como “chefe da máfia” e a lógica do curto prazo

Outro eixo forte da entrevista é a caracterização de Donald Trump — atual presidente dos Estados Unidos — como um líder que opera por lealdade, intimidação e ganhos pessoais, não por coerência estatal. Jiang sustenta que isso agrava a tendência imperial, porque substitui previsibilidade por arbitrariedade.

Ele resume essa leitura com uma frase deliberadamente provocativa: “Ele não é o presidente dos Estados Unidos, ele é o chefe da máfia.”

A partir daí, a previsão sobre o fim do Império ganha um componente de estilo de governo: ao tratar política internacional como reality show, Washington deixaria de construir confiança e passaria a exigir obediência, alternando ameaças e promessas, corroendo a credibilidade. Para Jiang, um Império sem credibilidade precisa de mais força para obter o mesmo resultado — e isso acelera o desgaste.

<><> O ponto de ruptura: quando a coerção substitui o Estado de direito

Jiang também sugere que a tentativa de “forçar” comportamentos econômicos em outros países — em vez de oferecer um sistema aberto e previsível — tende a produzir reação contrária. Se o recado é “as regras não valem mais”, os rivais buscam alternativas.

Ele resume a contradição de forma simples: não dá para construir confiança e, ao mesmo tempo, coagir permanentemente. E, quando a coerção vira regra, o sistema deixa de ser uma ordem e passa a ser uma cadeia de crises.

Nesse sentido, sua previsão sobre o fim do Império não é apenas moral ou retórica: é estrutural. Um centro que precisa violar rotineiramente as próprias regras para se manter dominante reduz a atratividade do sistema, empurra parceiros para estratégias de proteção e aumenta o custo de governar o mundo.

<><> O que fica das previsões

A entrevista de Jiang Xueqin a Glenn Diesen se organiza em torno de uma tese central: o Império americano está acabando porque perdeu a capacidade de governar por consentimento e previsibilidade, trocando isso por coerção e espetáculo.

A grande crise de 2026, em sua leitura, não seria um acidente isolado, mas a convergência de fatores: bolhas internas, concentração de poder econômico, instabilidade social e uma política externa que, ao tentar demonstrar força, multiplica frentes de atrito e empurra o mundo para uma reação sistêmica.

Em suma, Jiang prevê que o “micromilitarismo” pode render imagens e ganhos momentâneos, mas cobra um preço alto: desmoraliza a diplomacia, destrói confiança, incentiva coalizões defensivas e torna o declínio mais rápido — até que o Império, por excesso de coerção, se veja incapaz de sustentar a própria ordem que pretende comandar.

 

Fonte: Por Jeffrey D. Sachs e Sybil Fares, no Brasil 247

 

Nenhum comentário: