As
muitas faces de Vinícius de Moraes
A conversa estava boa, mas Sérgio Porto
precisava ir. Despediu-se de Vinícius de Moraes, com quem tomava umas e outras
no Bar Calypso, em Ipanema, pegou o carro e subiu a serra. Na extinta
Confeitaria Copacabana, em Petrópolis, resolveu beber mais uma. Quando entrou
no restaurante, avistou um sujeito que o saudava lá de dentro: "Foi nessa
tarde que eu descobri que Vinícius era, pelo menos, dois. Se fosse um só, seria
Vinício de Moral".
A
pluralidade de Vinícius ("Reparem que seu nome já é no plural para enganar
os trouxas", brinca Porto) foi confirmada por Eucanaã Ferraz, um dos
maiores especialistas em sua obra, no ciclo de conferências "Escritores,
Lado B", da Academia Brasileira de Letras (ABL), em 2023. Se Vinícius
fosse um LP, comparou Ferraz, teria muitas faixas. No lado A, o poeta e o
cancionista. No B, o cronista, o crítico de cinema, o dramaturgo e o diplomata.
"O
principal ofício do Vinícius é a poesia. Mas, se tivesse que apresentá-lo às
novas gerações, começaria pela música. A canção tem mais chance de seduzir o
ouvinte do que a poesia de conquistar o leitor", afirma o curador da
exposição Por Toda a Minha Vida, em cartaz no Museu de Arte do Rio (MAR) até o
dia 3 de fevereiro, e um dos organizadores de Poesia Completa (Cia das Letras),
ainda sem data de publicação, em parceria com Daniel Gil.
"Vinícius
é, ao lado de Tom Jobim e João Gilberto , um dos criadores da bossa nova . Isso
não significava fazer uma música sofisticada, quase erudita. Era uma música
jovem. Em tempos de tango, bolero e samba-canção, foi uma revolução que, não
por acaso, arrebatou jovens como Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil .
Vinícius saiu do conforto da poesia e começou a fazer canção popular. Foi um
gesto de muita coragem dele", afirma Ferraz.
Além de
uma antologia, Vinícius de Moraes vai ganhar também uma biografia. O
responsável pela proeza será o jornalista e escritor Marcelo Bortoloti, que
começou a pesquisar a vida e a obra de seu biografado há uns três anos. Até o
momento, já conseguiu reunir mais de 10 mil páginas de documentos, e percorrer
lugares onde Vinícius viveu e trabalhou, tanto no Brasil quanto no exterior,
como Nova York, Paris, Roma, Buenos Aires e Montevidéu.
"Não
é preciso ir até Vinícius para conhecê-lo. Ele está entre nós. Está presente em
nossa cultura, música e memória. Difuso, mas presente", garante Bortoloti,
biógrafo de Belchior , Guignard e Di Cavalcanti. "Embora seja uma figura
conhecida, Vinícius não tem sua história completamente contada. Sempre se fala
dele de uma maneira parcial. O desafio é contar sua história, extensa e
profunda, de maneira completa e não repetitiva", ambiciona.
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O poeta
Vinícius
de Moraes estava prestes a publicar seu primeiro livro de poesia, O Caminho
para a Distância (1933), quando decidiu reunir alguns de seus versos e mostrar
para um colega da faculdade de direito, Américo Jacobina Lacombe. "Tente
outra coisa", foi o conselho que ouviu. "Você é inteligente, mas não
tem jeito algum para poeta." Felizmente, Vinícius não lhe deu ouvidos.
Um dos
gigantes de sua geração, ao lado de Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto e
Mário de Andrade, Vinicius mereceu elogios de Carlos Drummond de Andrade.
"Ele tem o fôlego dos românticos, a espiritualidade dos simbolistas, a
perícia dos parnasianos e o cinismo dos modernos", declarou o mineiro. Em
outras palavras, Vinícius de Moraes era múltiplo até na hora de escrever
poesia.
Dos
incontáveis versos que imortalizou, o mais famoso talvez seja o Soneto da
Fidelidade (1939). Escrito em Portugal, é dedicado a Tati de Moraes, apelido de
sua primeira mulher, Beatriz. Segundo José Castello, autor da biografia
Vinícius de Moraes – O Poeta da Paixão (1994), "Que não seja imortal,
posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure" é "uma das
mais belas definições do amor já produzidas pela língua portuguesa".
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O cancionista
Parceiros,
Vinícius teve muitos: Ary Barroso, Adoniran Barbosa, Chico Buarque... Com Edu
Lobo, chegou a ganhar o 1º Festival da Música Popular Brasileira (1965), da TV
Excelsior: Arrastão, na voz de Elis Regina. Mas, de todos, seus favoritos eram
Tom Jobim, Carlos Lyra e Baden Powell, a quem chamava de "o Pai, o Filho e
o Espírito Santo". Quando começou a compor com Toquinho, em 1970,
acrescentou: "É o Amém!".
Se o
Soneto da Fidelidade é o poema mais famoso, Garota de Ipanema (1962) é a música
mais cantada. Mas, ao contrário do que dizem, não foi composta em uma mesa de
bar. "Era proibido tocar violão no Veloso", desmitifica Ruy Castro em
uma crônica. A inspiração surgiu ali, sim, mas a música foi aprimorada ao piano
no apartamento de Tom, em Ipanema, e a letra retocada por Vinícius, no de
Lucinha Proença, sua quarta mulher, em Laranjeiras.
Outra
letra que Vinícius demorou a escrever foi Chega de Saudade (1958). A música foi
composta por Tom no sítio em Poço Fundo, no Rio. Ao ouvir a melodia, Vinícius
comentou: "Tão brasileira quanto choro de Pixinguinha ou samba de
Cartola". Terminada a letra, soltou um grito de alívio: "Nunca levei
uma surra assim". Na mesma hora, mostrou para Lila, sua terceira mulher.
"Rimar peixinhos com beijinhos? Que coisa mais boba!", desdenhou ela.
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O cronista
No
Itamaraty, a mesa de Vinícius ficava ao lado da de Affonso Arinos. Um dia, o
office-boy do jornal Última Hora entregou uma caixa abarrotada de cartas.
"Vinícius, essas cartas são para você?", perguntou Arinos, curioso.
"Não, Afonsinho, são para a Helenice", confessou Vinicius,
encabulado. Helenice era o pseudônimo de uma misteriosa colunista do jornal
carioca. A coluna Abra o Seu Coração durou de 12 de abril a 1º de novembro de
1953.
Vinícius
não escreveu crônicas só para o jornal Última Hora, fundado por Samuel Wainer
em 1951. Emprestou seu talento de cronista para outros veículos, como o jornal
A Manhã, a revista Fatos & Fotos e o semanário O Pasquim. Muitas dessas
crônicas foram publicadas em duas antologias do gênero: Para Viver Um Grande
Amor (1962) e Para Uma Menina Com Uma Flor (1966).
Vinícius
até tentou escrever um romance, mas não levou a experiência adiante. Batizado
de Antônia, o calhamaço chegou a ter mais de 300 páginas. Quando o namoro com a
personagem-título chegou ao fim, guardou o original por quase uma década. Nos
anos 1940, reencontrou o esboço de livro no fundo de uma gaveta. Não gostou do
que leu. Segundo Castello, Vinícius "vai ao banheiro, espalha as páginas
pela pia e acende um fósforo".
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O crítico de cinema
"Durante
um bom tempo, Vinícius quis ser cineasta." A afirmação é do crítico Carlos
Augusto Calil, organizador de O Cinema de Meus Olhos (2015). Diz mais:
"Sua grande frustração foi a de não ter dirigido Orfeu". Embora o
filme de Marcel Camus, Orfeu Negro (1959), tenha conquistado a Palma de Ouro em
Cannes e o Oscar de Melhor Filme Internacional, entre outros prêmios, Vinicius
não gostou da adaptação. "Macumba para turista", criticou.
Em Los
Angeles, onde serviu como diplomata, Vinicius reencontrou Orson Welles, que
conheceu no Rio de Janeiro, em 1942. E pediu a ele que lhe indicasse um curso
de cinema. Em vez disso, o diretor convidou Vinícius para acompanhar as
filmagens de A Dama de Shanghai (1947), estrelado por sua mulher, a atriz Rita
Hayworth. "Foi o melhor curso intensivo que Vinícius poderia ter
feito", diverte-se o pesquisador Ricardo Cravo Albin.
Cineasta
frustrado, Vinícius deixou inúmeros roteiros prontos. Um deles é a
cinebiografia do escultor Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, escrito a
pedido do cineasta Alberto Cavalcanti. "Não teve êxito", lamenta
Calil. Em compensação, a música Garota de Ipanema foi adaptada para as telas
por Leon Hirszman em 1967, e o musical Pobre Menina Rica, rebatizado de Para
Viver Um Grande Amor, por Miguel Faria Jr. em 1984.
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O dramaturgo
Foi
Lúcio Rangel quem apresentou Vinicius a Tom. O encontro se deu no Bar
Villarino, no Centro do Rio. "Você aceitaria musicar uma peça
minha?", pergunta o poeta. "Tem um dinheirinho nisso?", responde
o compositor. Nisso, o jornalista teria dito: "Tom, é o Vinícius! Como
você ousa falar em dinheirinho?". "É que eu preciso pagar o
aluguel", explica Tom. E foi assim que começou a nascer, em maio de 1956,
a peça Orfeu da Conceição.
Vinícius
mostrou os originais para João Cabral de Melo Neto. No dia seguinte, o
pernambucano deu o seu veredicto: "Os dois primeiros atos estão ótimos. O
terceiro, péssimo!". Diante da perplexidade do colega, ordenou: "O
que está esperando? Reescreva!". Uma curiosidade: foi João Cabral quem
sugeriu a Vinicius que batizasse a adaptação do mito grego de Orfeu da
Conceição. Até então, a peça não tinha título.
Como
dramaturgo, Vinícius escreveu mais três peças: Procura-se Uma Rosa (1962),
Chacina em Barros Filho (1964) e Cordélia e o Peregrino (1965). E deixou 12
inacabadas. Dessas, a mais curiosa é Ópera do Nordeste, uma versão musical de
Dom Quixote, com letra de Vinicius e música de Baden. Em sua imaginação, João
Gilberto interpretaria Dom Quixote e Grande Otelo, Sancho Pança. E o diretor
seria Glauber Rocha. Nunca saiu do papel.
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O diplomata
A ideia
de entrar no Itamaraty partiu do chanceler Oswaldo Aranha . Formado em Direito,
Vinícius prestou o concurso, pela primeira vez, em 1942. Apesar de levar as
apostilas para a praia e de estudar até tarde, não passou. No ano seguinte,
tentou de novo. Chegou a ter aulas de português com o filólogo Antônio Houaiss.
Foi aprovado. "Optou pela diplomacia menos por vocação, e mais para tentar
organizar suas finanças", afirma José Castello.
Em
1946, Vinícius assumiu o posto de vice-cônsul em Los Angeles, onde permaneceu
por cinco anos. Na capital do cinema, fez amizade com Walt Disney , assistiu ao
show de Louis Armstrong e tornou-se vizinho de Carmen Miranda. Ele e a família
passaram a frequentar a casa da "Pequena Notável" em Beverly Hills,
na Califórnia. Suzana, sua primogênita de 6 anos, gostava de brincar em seu
closet, e Pedro, de 4, aprendeu a nadar em sua piscina.
Sua
carreira diplomática chegou ao fim em 29 de abril de 1969 quando foi aposentado
compulsoriamente pelo Ato Institucional Nº 5 (AI-5) . "Fazia questão de
esclarecer que tinha sido afastado por causa da alegação de que bebia
muito", afirma o diplomata e escritor João Almino, autor do livro
Diplomatas, Escritores, Imortais (2025). Em 16 de agosto de 2010, 30 anos
depois de sua morte, Vinicius de Moraes foi promovido a embaixador.
Fonte:
DW Brasil

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