terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Nunca antes na história desse país se entregou tanta infraestrutura para o setor privado

Eleito prometendo frear as privatizações e revogar o teto de gastos, o governo Lula adotou na prática um arcabouço fiscal que atualiza a lógica de controle de despesas – mantendo obviamente os limites da chamada “responsabilidade fiscal” que agrada aos banqueiros – e aprofunda a desestatização com as privatizações e concessões. O terceiro mandato de Lula registra os maiores índices de privatização da história do Brasil em setores como saneamento, presídios, rodovias, transportes, dentre outros. Em Pernambuco, temos os casos da privatização da Compesa, que contou com recursos federais via BNDES, e o que está agora em andamento, que é o do Metrô de Recife, com um investimento de R$ 4 bilhões de reais por parte do governo Lula para modernizar e entregar para a iniciativa privada lucrar...

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Em sua campanha nas eleições de 2022, Lula prometeu dar um fim às privatizações, prometeu não vender o metrô de Recife e falou que iria revogar o teto de gastos que vigorava desde Michel Temer. Bem verdade é que o arcabouço fiscal do governo Lula, política escancaradamente neoliberal do Ministro Fernando Haddad – que lhe rendeu elogios por parte de setores do capital financeiro –, é na verdade uma atualização do teto de gastos de Temer, que em linhas gerais continua garantindo o lucro dos capitalistas sem questionar a fraudulenta dívida pública, tudo isso às custas de cada vez menos investimentos em serviços públicos, em áreas cruciais como Saúde e Educação.

Lula finaliza o seu terceiro mandato com os maiores índices de privatização da história do Brasil em diversos setores como agricultura e abastecimento; defesa e segurança; energia; infraestrutura hídrica; infraestrutura social; infraestrutura urbana; meio ambiente; mineração; saneamento; transportes e turismo. Fala-se em uma cifra de R$ 1,5 trilhão já concedidos ao capital por meio desse processo de privatização.

É importante atentar-se para o fato de que o processo de privatização aparece hoje sob novas formas e a partir de novos mecanismos como as Parcerias Público Privadas (PPP) e as concessões de empresas públicas por tempo determinado, que geralmente são contratos de 30 anos. Com apenas dois anos de governo, Lula privatizou mais rodovias que o governo Bolsonaro em quatro anos.

No Piauí, o governador Rafael Fonteles (PT) esteve à frente da privatização da empresa estadual de saneamento, a AGESPISA. Na Bahia, os governos do PT estão tentando privatizar a EMBASA. Em São Paulo, sob Tarcísio de Freitas, as tentativas são de privatizar o metrô (CPTM), a SABESP (saneamento) e as escolas, para dar alguns exemplos, contando com os mesmos recursos do governo federal via BNDES. E também no Pará, além de outros territórios amazônicos, o governo fez concessões de três importantes rios para servir de hidrovia ao agronegócio, medida rechaçada por ambientalistas e pelos povos indígenas.

Em Pernambuco, por exemplo, o projeto de privatização do metrô de Recife vem sendo tocado pelo então governo de Raquel Lyra (PSD) em parceria com o governo Lula, com um investimento de 4 bilhões de reais por parte do governo federal para modernizar o serviço e entregar para a iniciativa privada lucrar. O metrô pertence à empresa federal Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) e a proposta é de que seja privatizado até 2026.

Nos últimos tempos, Raquel Lyra tem buscado aproximar-se politicamente da figura de Lula, mirando melhor se localizar em uma reeleição para um segundo mandato em 2026. Esse projeto de privatização do metrô de Recife é pauta prioritária da direita no estado, da qual Raquel Lyra faz parte, e demonstra acima de tudo a demagogia do governo Lula e o seu compromisso com o grande empresariado. Segundo a CNN, Lula foi um dos grandes entusiastas da privatização do metrô do Recife, ao contrário da sua postura durante a sua campanha eleitoral em 2022, quando prometia justamente o contrário, que não iria vender o metrô.

Cabe lembrar que, no ano passado, Raquel Lyra aprovou a toque de caixa a privatização da Compesa, companhia estadual responsável pelo saneamento e abastecimento de água no estado. Para isso, contou com recursos federais do BNDES.

Do outro lado, pensando ainda esse desdobramento em Pernambuco, temos João Campos (PSB) que é presidente do partido – mesmo partido de Geraldo Alckmin – e atual prefeito de Recife, candidato favorito a governador do estado segundo pesquisa Quaest, e que goza de maiores aparições públicas ao lado de Lula se comparado à atual governadora Raquel Lyra. No tocante à privatização, João Campos está com proposta de conceder o sítio histórico do Recife à iniciativa privada por meio de contrato de concessão.

O sítio histórico do Recife é um lugar de forte especulação imobiliária por ser uma área de grande riqueza cultural e importância histórica para o estado, tendo sido palco do Movimento Ocupe o Estelita entre os anos de 2012 e 2013. A especulação tem avançado com a construção dos edifícios Píer Duarte Coelho e Píer Maurício de Nassau, mais conhecidos como Torres Gêmeas, local em que aconteceu a tragédia do menino Miguel de apenas 5 anos que caiu do 9º andar de uma das torres, quando foi deixado só em um elevador por Sari Corte Real. Recentemente foi inaugurado o hotel Porto Novo Recife.

Apesar de ser muito cedo para escolher um candidato a governador de Pernambuco, o fato é que Lula tem palanque duplo no estado. O que se pode dizer é que a privatização é um elo comum entre Lula, João Campos e Raquel Lyra.

E nos casos de privatização do metrô e de empresas de saneamento, a justificativa é curiosa uma vez que essas empresas se enquadram na categoria de “monopólios naturais”, não havendo condições para que outras empresas possam entrar no mercado e concorrer, se for seguir à risca a cartilha neoliberal. O metrô de Recife por exemplo, em termos de proporções, possui apenas duas linhas e está longe de atender à cidade e ao estado no nível que o metrô de São Paulo atende. Ainda assim, qual outra empresa poderia imaginar ter semelhante estrutura que pudesse concorrer com essas duas linhas de metrô? Pegando esse ângulo apenas para mostrar como essa privatização é descarada e que tem como único objetivo jogar a riqueza para empresários lucrarem, colocando o lucro acima da qualidade do serviço a ser prestado aos cidadãos. Vai investir em “modernizar” agora que está para privatizar, isso depois de anos sucateando o metrô, tendo inclusive acontecido acidentes que foram extremamente graves.

Diante disso, faz-se necessário engrossar as fileiras de trabalhadores que estão se organizando para enfrentar as privatizações ao redor do país, que implica em uma regressão de direitos historicamente conquistados pela classe trabalhadora, como é o caso das demissões de funcionários públicos, além de perseguições aos trabalhadores que se organizam para enfrentar as privatizações. É necessário acabar com as privatizações e é preciso revogar o arcabouço fiscal de Lula e Haddad.

•        Zema e Rossieli entregam serviços essenciais das escolas a empresas privadas

O governo de Minas Gerais avança em mais um ataque direto à escola pública ao anunciar a entrega de serviços essenciais da educação à iniciativa privada por meio de Parcerias Público-Privadas (PPPs). Apresentada como "modernização", a medida significa, na prática, a retirada de responsabilidades do Estado e a transformação de direitos básicos em mercadorias geridas por empresas com fins lucrativos.

O anúncio foi feito pelo governador Romeu Zema (Novo) em coletiva de imprensa nesta quarta, 21, com a previsão de publicação do edital em março e início dos contratos em 2026. Trata-se de uma decisão que aprofunda a lógica privatista no interior das escolas estaduais e impõe novas formas de precarização ao cotidiano escolar.

O projeto atinge inicialmente 95 escolas estaduais, sendo 34 no Norte de Minas e 61 na Região Metropolitana de Belo Horizonte, impactando diretamente cerca de 70 mil estudantes, com um contrato, estimado em R$ 5,1 bilhões e com duração de 25 anos, um desvio bilionário de recursos públicos para o setor privado.

A empresa vencedora da licitação ficará responsável por manutenção predial, fornecimento de água, energia, gás e esgoto, limpeza, jardinagem, tecnologia da informação, internet em todos os ambientes, manutenção de equipamentos, vigilância 24 horas e controle de acesso. Serviços que sempre foram responsabilidade do Estado passam agora a ser tratados como mercadorias, submetidos à lógica do lucro e do corte de custos.

<><> Não é modernização, é privatização

Quando o governo transfere a gestão de serviços essenciais da educação para empresas privadas, não estamos diante de uma modernização da escola pública. Trata-se de um ataque direto à autonomia das escolas e ao caráter público da educação. O que deveria ser um direito universal passa a ser administrado segundo a lógica do mercado, onde o objetivo central é o lucro e não a qualidade do ensino ou o bem-estar da comunidade escolar.

As escolas deixam de ser espaços de formação crítica, convivência e autonomia para se tornarem ambientes geridos por empresas interessadas em cortar custos, intensificar o trabalho e maximizar ganhos. Essa lógica não atende aos estudantes, tampouco aos trabalhadores da educação. Ela atende aos interesses de grandes empresários e investidores que enxergam a educação como um nicho lucrativo.

A privatização da educação é apresentada como solução para problemas estruturais que foram produzidos pelos próprios governos empresariais. A falta de investimento, a sobrecarga de trabalho, a desvalorização salarial e a precarização das condições de ensino criam um projeto de educação em crise, usado como justificativa para entregar a escola pública à iniciativa privada.

Esse modelo aprofunda a precarização e tem efeitos diretos sobre a saúde física e mental de professores, ASBs e demais trabalhadores da educação. A intensificação do trabalho, a insegurança, a perda de direitos e a instabilidade adoecem quem sustenta diariamente o funcionamento das escolas.

<><> Rossieli, Zema e o projeto empresarial de educação

À frente da Secretaria de Educação de Minas Gerais está Rossieli Soares, gestor de perfil empresarial, conhecido por sua atuação no Ministério da Educação durante o governo Temer e pela implementação do Novo Ensino Médio em outros estados.

Agora, ao lado de Zema, avança com um projeto de PPPs que promete “reformar e modernizar” escolas, mas que na prática drena bilhões de reais dos cofres públicos para enriquecer empresários.

Esse projeto se soma a outras tentativas de privatização e terceirização já anunciadas pelo governo Zema, como os ataques às Auxiliares de Serviços Básicos, além de iniciativas contra o funcionalismo público mineiro em áreas como saúde, Cemig, Copasa e UEMG.

Educação não é mercadoria. Cada cantineira, faxineira, porteiro, secretária e professor é parte central do processo educativo. São esses trabalhadores, os mais precarizados, que garantem o funcionamento cotidiano da escola e criam as condições materiais para o que ensino-aprendizagem possa acontecer.

A entrega desses serviços à iniciativa privada ameaça vínculos, direitos e condições de trabalho, aprofundando desigualdades e enfraquecendo a escola pública enquanto espaço coletivo.

<><> Unificar a luta para barrar a privatização

Diante desse ataque, é imprescindível construir uma luta unificada que não apenas impeça a terceirização, mas que derrote qualquer proposta privatista de Zema e Rossieli. A experiência da luta contra a militarização das escolas mostrou que a mobilização no chão da escola, com unidade entre professores, estudantes e comunidade, foi capaz de fazer o governo recuar.

Exemplos como a greve de indígenas e educadores no Pará, que resultou na expulsão de Rossieli, secretário empresarial, demonstram que é a luta organizada aquela capaz de vencer.

É hora de batalhar não apenas para barrar os ataques, mas para virar o jogo. Defender a efetivação dos trabalhadores contratados, com os mesmos direitos, salários dignos e condições de trabalho compatíveis com a importância vital que exercem na educação pública.

 

Fonte: Esquerda Diário

 

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