terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Gigantes da soja se preparam em silêncio para lei antidesmatamento da UE; impactos seguem incertos

À medida que a data de implementação do Regulamento de Desmatamento da União Europeia (EUDR) se aproxima, empresas que atuam nas cadeias de suprimento de soja e outras commodities destinadas ao mercado europeu em breve terão que comprovar que seus produtos não provêm de áreas desmatadas após 2020 e que suas operações respeitam as leis ambientais e de direitos humanos locais. Isso será particularmente desafiador para o setor de soja, já que sua produção é historicamente um dos principais motores da destruição de florestas, especialmente na América do Sul.

Inicialmente previsto para dezembro de 2024, o início da aplicação do EUDR foi adiado por um ano devido à pressão exercida por representantes do agronegócio. Em dezembro de 2025, o Parlamento Europeu decidiu adiar novamente a data de aplicação por mais um ano, sob o argumento de dar mais tempo às empresas para se prepararem e garantir uma transição harmoniosa.

Para entender quão preparado está o setor de soja, a Mongabay contatou cinco das maiores empresas do setor: ADM, Amaggi, Bunge, Cargill e Cofco International. As respostas oscilaram entre “sem comentários” e o silêncio total.

Apesar do silêncio, especialistas vinculados a associações comerciais e ONGs afirmam que as grandes empresas de soja já estão preparadas para atender às exigências do EUDR.

“A informação que nós temos, que eles [traders e associações do setor de soja] costumam nos passar, é que elas estão 100% preparadas”, disse Tiago Reis, especialista em conservação do WWF-Brasil, à Mongabay em mensagem de voz. “Inclusive algumas questionaram a proposta de prorrogação do prazo [do EUDR], porque justamente elas investiram, então elas estariam prontas para atender.”

O último relatório Forest 500 da ONG Global Canopy mostra que quase metade das grandes empresas do mercado global — de produtores a varejistas com maior exposição ao risco de desmatamento em suas cadeias de suprimentos — possui compromissos públicos voltados ao comércio de soja livre de desmatamento. Isso representa um aumento em relação a 2020, que era de apenas 31%.

“Os dados do Forest 500 não refletem diretamente a prontidão [de empresas] para o EUDR, pois as avaliações se baseiam apenas em divulgações públicas, e as empresas podem estar se preparando para conformidade de maneira não reportada publicamente”, disse Emma Thomson, líder de projetos do Forest 500 na Global Canopy, à Mongabay por e-mail. “No entanto, os compromissos públicos monitorados pelo Forest 500 indicam que as empresas reconhecem cada vez mais que o desmatamento associado à soja é um problema.”

Além disso, empresas de trading de soja, como Amaggi e Cargill, já realizaram dry runs, ou embarques-piloto, para testar a conformidade de suas operações com o regulamento, o que demonstra que estão “operacionalmente preparadas”, acrescentou Thomson.

<><> Preparação silenciosa

Grandes traders como ADM, Amaggi, Bunge, Cargill e Cofco dominam o comércio global de soja, que é produzida majoritariamente no Brasil, nos EUA e na Argentina. Quando questionadas pela Mongabay sobre seus preparativos para atender ao EUDR, essas empresas se recusaram a comentar ou permaneceram em silêncio. Entretanto, seus relatórios de sustentabilidade destacam a adoção de sistemas de rastreabilidade e compromissos com o comércio de soja livre de desmatamento.

A Amaggi, sediada no Brasil, afirmou que se manifestará apenas em nível setorial, por meio da Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais), e “não fará comentários adicionais ao que já está publicado no Relatório de Progresso mais recente da empresa”, disse um porta-voz à Mongabay. O Relatório de Progresso de 2024 indica que a empresa já adotou requisitos-chave de diligência devida previstos no EUDR: 100% de rastreabilidade dos fornecedores diretos no Brasil e 98,8% dos volumes de soja rastreados na Amazônia e no Cerrado como livres de desmatamento e conversão após 2020.

A Bunge também se recusou a comentar e destacou seu relatório de sustentabilidade. “Não podemos participar neste momento, mas publicamos processos e metas em nosso relatório de sustentabilidade”, disse um porta-voz à Mongabay. O documento indica que a empresa atingiu 99% de rastreabilidade nas regiões prioritárias da América do Sul e que 97% da soja adquirida de fornecedores diretos nessas regiões em 2024 foi considerada livre de desmatamento e conversão.

A ADM respondeu brevemente: “Respeitosamente não temos um comentário a oferecer sobre este assunto”. A Cargill e a Cofco permaneceram em silêncio.

Na última avaliação do Forest 500 sobre compromissos corporativos contra o desmatamento, Amaggi e Bunge alcançaram pontuações acima da média, de 62,5% e 51,1%, respectivamente. Thomson diz que isso se deve principalmente ao fato de ambas as empresas reportarem a adoção de processos compatíveis com seus compromissos, incluindo rastreabilidade dos fornecedores para monitorar a conformidade com padrões de desmatamento zero e direitos humanos, medidas para resolver casos de não conformidade e participação ativa em iniciativas jurisdicionais.

Reis, do WWF-Brasil, afirma que a Moratória da Soja, acordo que restringe a compra de soja proveniente de áreas desmatadas na Amazônia após julho de 2008, do qual vários traders são signatários, ajudou o setor a se preparar com antecedência. Esse acordo multissetorial de 2006, segundo ele, estabeleceu a base para o monitoramento social e ambiental da produção de soja, além de introduzir mecanismos de rastreabilidade e verificação.

Embora a adesão seja voluntária, a moratória tem se mostrado altamente eficaz na identificação e no bloqueio do desmatamento associado à soja proveniente da Amazônia brasileira, acrescentou Reis.

Apesar dos avanços, ainda há espaço para melhorias, diz Thomson. Ela citou uma análise da Trase sobre a produção e exportação de soja brasileira em 2022, que os dados mais recentes disponíveis. A plataforma da Global Canopy e do Stockholm Environment Institute mostra que estes grandes traders estão altamente expostos ao desmatamento e à conversão de vegetação natural em suas cadeias de suprimento fora da Amazônia, especialmente nos biomas Cerrado e Pampa.

<><> Certificação e verificação

Entidades de certificação e de verificação têm desempenhado um papel-chave na preparação do setor de soja para o EUDR.

A ProTerra Foundation, por exemplo, que certifica várias grandes empresas de soja, alinhou recentemente seus padrões de certificação aos requisitos do regulamento europeu. Segundo Emese van Maanen, diretora-executiva da ProTerra, a fundação oferece uma abordagem estruturada para avaliar e verificar práticas de diligência devida, baseada em rastreabilidade e em auditorias independentes conduzidas por terceiros.

“Eles [os padrões ProTerra] são uma ferramenta para fortalecer e apoiar as empresas na preparação e implementação de uma cadeia de suprimento robusta, livre de desmatamento e socialmente responsável”, disse van Maanen à Mongabay por e-mail.

Ela afirmou ainda que os padrões ProTerra “adotam uma abordagem mais ampla de sustentabilidade do que o EUDR”, abrangendo uma gama mais ampla de ecossistemas, incluindo áreas úmidas e turfeiras, e promovendo boas práticas agrícolas, como o uso responsável de pesticidas.

Embora van Maanen não tenha especificado quais empresas já foram certificadas como prontas para o EUDR, ela destacou o Diretório da Rede ProTerra, que lista todos os membros atualmente certificados — incluindo quatro dos cinco traders de soja contatados por esta matéria. A diretora-executiva afirmou ainda que seus padrões são voluntários e que a fundação “não assume responsabilidade nem garante a conformidade legal”.

A Round Table on Responsible Soy (RTRS), apesar de seu papel de liderança na certificação do setor, se recusou a tecer comentários sobre o tema. “Agradecemos seu interesse em nosso Padrão de Cadeia de Custódia e nossos procedimentos para verificar soja livre de desmatamento e conversão. Considerando que a legislação europeia [EUDR] está em constante evolução, a RTRS prefere não fornecer comentários específicos neste momento,” disse um porta-voz à Mongabay.

Na Argentina, uma iniciativa multissetorial conhecida como Visec (Visión Sectorial del Gran Chaco Argentino) tem ajudado empresas a rastrear suas cadeias de suprimento de soja, desde fazendas individuais na região do Gran Chaco até portos de exportação, e a documentar a conformidade com o EUDR.

Franco Coiro Di Marco, especialista em engajamento de stakeholders na The Nature Conservancy e membro da Secretaria Técnica da Visec, explicou à Mongabay por e-mail como funciona o sistema de verificação. Uma vez que as coordenadas das fazendas e as informações dos produtores são carregadas no sistema da Visec, especialistas em imagens de satélite analisam os dados para verificar a conformidade com os principais requisitos do EUDR: ausência de desmatamento após dezembro de 2020, cumprimento das leis florestais nacionais e não sobreposição com áreas protegidas.

Em seguida, auditorias independentes são conduzidas por terceiros ao longo da cadeia de suprimento, das fábricas aos portos. “Por fim, a empresa recebe um arquivo com todas as geoinformações das unidades produtivas para ser carregado no sistema de informações da UE (para criar sua declaração de diligência devida)”, disse Di Marco.

Di Marco não especificou quais empresas a Visec já verificou como prontas para o EUDR, mas afirmou que “várias empresas já estão integradas” ao sistema deles.

Em 2024, a Visec apoiou três embarques-piloto de soja da Argentina para Espanha, Irlanda e França, a fim de testar o processo de conformidade com o EUDR no terreno. Esses testes ofereceram diversas lições-chave, disse Di Marco, incluindo como coordenar múltiplos atores ao longo da cadeia de suprimento da soja, como apresentar os dados no formato exigido pela UE e a importância de utilizar dados de satélite calibrados localmente para evitar “falsos positivos” na detecção de desmatamento.

Entretanto, Di Marco diz que o setor ainda enfrenta desafios significativos para atender aos requisitos do EUDR, especialmente devido aos custos e à complexidade de reunir toda a documentação necessária. “Não se trata apenas da condição livre de desmatamento; há muitos aspectos legais a cumprir: impostos e anticorrupção, direitos trabalhistas, terras indígenas, leis florestais etc.”, destacou.

De forma semelhante, van Maanen disse que as principais dificuldades para a conformidade do setor com o regulamento incluem a disponibilidade de dados, os custos adicionais e a complexidade do processo, especialmente para pequenos produtores.

<><> Não é uma bala de prata

Enquanto o setor se prepara para o EUDR, especialistas ponderam as limitações do regulamento e seus possíveis impactos.

Segundo Thomson, da Global Canopy, dados do Forest 500 mostram que apenas 23% das empresas do setor de soja avaliadas em 2024 possuem compromissos contra o desmatamento voltados a ecossistemas não florestais, como savanas e campos — áreas atualmente não protegidas pelo EUDR. Ela destacou a importância de salvaguardar esses ecossistemas, já que a produção de soja está cada vez mais vinculada à conversão de áreas não florestais em biomas de grande biodiversidade, como o Cerrado e o Pampa.

Reis ecoou essa preocupação, afirmando que o foco do regulamento apenas em florestas deixa sob risco ecossistemas importantes da América do Sul. Ele afirmou ainda que o EUDR e a Moratória da Soja devem ser vistos como medidas complementares, já que a lei europeia sozinha não evitará o desmatamento “indireto” na Amazônia caso a moratória seja realmente suspensa este ano. Embora a suspensão não tenha sido oficialmente aprovada pelo governo federal, grandes empresas do setor já anunciaram sua saída do pacto.

“Eu acredito que a implementação da EUDR vai impulsionar os compromissos corporativos [contra o desmatamento], mas isso não significa que vai resolver todos os problemas”, disse ele.

Thomson também expressou um otimismo cauteloso. “Mesmo antes da implementação, o EUDR tem sido um fator mobilizador, levando empresas líderes a investir em rastreabilidade”, disse, acrescentando que, uma vez que essa infraestrutura esteja em funcionamento, pode ser mais fácil estabelecer cadeias de suprimento livres de desmatamento fora da União Europeia. “Obviamente, o fato de ser mais viável fazer isso e de implementar compromissos mais amplos não significa que as empresas o farão automaticamente, então é importante manter a atenção direcionada às empresas que têm maior capacidade de fazer a diferença”, disse Thomson.

Além dos compromissos corporativos, a atenção também precisa se voltar à aplicação do regulamento pelas autoridades, que vem sendo sucessivamente adiada, destacou Reis.

“Por uma questão de credibilidade e responsabilidade, a EUDR precisa ser implementada ainda neste ano,” disse o especialista em conservação em novembro de 2025, pouco antes do Parlamento Europeu aprovar o novo adiamento da data de aplicação do regulamento, agora para dezembro de 2026.

 

Fonte: Mongabay

 

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