Gigantes
da soja se preparam em silêncio para lei antidesmatamento da UE; impactos
seguem incertos
À
medida que a data de implementação do Regulamento de Desmatamento da União
Europeia (EUDR) se aproxima, empresas que atuam nas cadeias de suprimento de
soja e outras commodities destinadas ao mercado europeu em breve terão que
comprovar que seus produtos não provêm de áreas desmatadas após 2020 e que suas
operações respeitam as leis ambientais e de direitos humanos locais. Isso será
particularmente desafiador para o setor de soja, já que sua produção é
historicamente um dos principais motores da destruição de florestas,
especialmente na América do Sul.
Inicialmente
previsto para dezembro de 2024, o início da aplicação do EUDR foi adiado por um
ano devido à pressão exercida por representantes do agronegócio. Em dezembro de
2025, o Parlamento Europeu decidiu adiar novamente a data de aplicação por mais
um ano, sob o argumento de dar mais tempo às empresas para se prepararem e
garantir uma transição harmoniosa.
Para
entender quão preparado está o setor de soja, a Mongabay contatou cinco das
maiores empresas do setor: ADM, Amaggi, Bunge, Cargill e Cofco International.
As respostas oscilaram entre “sem comentários” e o silêncio total.
Apesar
do silêncio, especialistas vinculados a associações comerciais e ONGs afirmam
que as grandes empresas de soja já estão preparadas para atender às exigências
do EUDR.
“A
informação que nós temos, que eles [traders e associações do setor de soja]
costumam nos passar, é que elas estão 100% preparadas”, disse Tiago Reis,
especialista em conservação do WWF-Brasil, à Mongabay em mensagem de voz.
“Inclusive algumas questionaram a proposta de prorrogação do prazo [do EUDR],
porque justamente elas investiram, então elas estariam prontas para atender.”
O
último relatório Forest 500 da ONG Global Canopy mostra que quase metade das
grandes empresas do mercado global — de produtores a varejistas com maior
exposição ao risco de desmatamento em suas cadeias de suprimentos — possui
compromissos públicos voltados ao comércio de soja livre de desmatamento. Isso
representa um aumento em relação a 2020, que era de apenas 31%.
“Os
dados do Forest 500 não refletem diretamente a prontidão [de empresas] para o
EUDR, pois as avaliações se baseiam apenas em divulgações públicas, e as
empresas podem estar se preparando para conformidade de maneira não reportada
publicamente”, disse Emma Thomson, líder de projetos do Forest 500 na Global
Canopy, à Mongabay por e-mail. “No entanto, os compromissos públicos
monitorados pelo Forest 500 indicam que as empresas reconhecem cada vez mais
que o desmatamento associado à soja é um problema.”
Além
disso, empresas de trading de soja, como Amaggi e Cargill, já realizaram dry
runs, ou embarques-piloto, para testar a conformidade de suas operações com o
regulamento, o que demonstra que estão “operacionalmente preparadas”,
acrescentou Thomson.
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Preparação silenciosa
Grandes
traders como ADM, Amaggi, Bunge, Cargill e Cofco dominam o comércio global de
soja, que é produzida majoritariamente no Brasil, nos EUA e na Argentina.
Quando questionadas pela Mongabay sobre seus preparativos para atender ao EUDR,
essas empresas se recusaram a comentar ou permaneceram em silêncio. Entretanto,
seus relatórios de sustentabilidade destacam a adoção de sistemas de
rastreabilidade e compromissos com o comércio de soja livre de desmatamento.
A
Amaggi, sediada no Brasil, afirmou que se manifestará apenas em nível setorial,
por meio da Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais), e
“não fará comentários adicionais ao que já está publicado no Relatório de
Progresso mais recente da empresa”, disse um porta-voz à Mongabay. O Relatório
de Progresso de 2024 indica que a empresa já adotou requisitos-chave de
diligência devida previstos no EUDR: 100% de rastreabilidade dos fornecedores
diretos no Brasil e 98,8% dos volumes de soja rastreados na Amazônia e no
Cerrado como livres de desmatamento e conversão após 2020.
A Bunge
também se recusou a comentar e destacou seu relatório de sustentabilidade. “Não
podemos participar neste momento, mas publicamos processos e metas em nosso
relatório de sustentabilidade”, disse um porta-voz à Mongabay. O documento
indica que a empresa atingiu 99% de rastreabilidade nas regiões prioritárias da
América do Sul e que 97% da soja adquirida de fornecedores diretos nessas
regiões em 2024 foi considerada livre de desmatamento e conversão.
A ADM
respondeu brevemente: “Respeitosamente não temos um comentário a oferecer sobre
este assunto”. A Cargill e a Cofco permaneceram em silêncio.
Na
última avaliação do Forest 500 sobre compromissos corporativos contra o
desmatamento, Amaggi e Bunge alcançaram pontuações acima da média, de 62,5% e
51,1%, respectivamente. Thomson diz que isso se deve principalmente ao fato de
ambas as empresas reportarem a adoção de processos compatíveis com seus
compromissos, incluindo rastreabilidade dos fornecedores para monitorar a
conformidade com padrões de desmatamento zero e direitos humanos, medidas para
resolver casos de não conformidade e participação ativa em iniciativas
jurisdicionais.
Reis,
do WWF-Brasil, afirma que a Moratória da Soja, acordo que restringe a compra de
soja proveniente de áreas desmatadas na Amazônia após julho de 2008, do qual
vários traders são signatários, ajudou o setor a se preparar com antecedência.
Esse acordo multissetorial de 2006, segundo ele, estabeleceu a base para o
monitoramento social e ambiental da produção de soja, além de introduzir
mecanismos de rastreabilidade e verificação.
Embora
a adesão seja voluntária, a moratória tem se mostrado altamente eficaz na
identificação e no bloqueio do desmatamento associado à soja proveniente da
Amazônia brasileira, acrescentou Reis.
Apesar
dos avanços, ainda há espaço para melhorias, diz Thomson. Ela citou uma análise
da Trase sobre a produção e exportação de soja brasileira em 2022, que os dados
mais recentes disponíveis. A plataforma da Global Canopy e do Stockholm
Environment Institute mostra que estes grandes traders estão altamente expostos
ao desmatamento e à conversão de vegetação natural em suas cadeias de
suprimento fora da Amazônia, especialmente nos biomas Cerrado e Pampa.
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Certificação e verificação
Entidades
de certificação e de verificação têm desempenhado um papel-chave na preparação
do setor de soja para o EUDR.
A
ProTerra Foundation, por exemplo, que certifica várias grandes empresas de
soja, alinhou recentemente seus padrões de certificação aos requisitos do
regulamento europeu. Segundo Emese van Maanen, diretora-executiva da ProTerra,
a fundação oferece uma abordagem estruturada para avaliar e verificar práticas
de diligência devida, baseada em rastreabilidade e em auditorias independentes
conduzidas por terceiros.
“Eles
[os padrões ProTerra] são uma ferramenta para fortalecer e apoiar as empresas
na preparação e implementação de uma cadeia de suprimento robusta, livre de
desmatamento e socialmente responsável”, disse van Maanen à Mongabay por
e-mail.
Ela
afirmou ainda que os padrões ProTerra “adotam uma abordagem mais ampla de
sustentabilidade do que o EUDR”, abrangendo uma gama mais ampla de
ecossistemas, incluindo áreas úmidas e turfeiras, e promovendo boas práticas
agrícolas, como o uso responsável de pesticidas.
Embora
van Maanen não tenha especificado quais empresas já foram certificadas como
prontas para o EUDR, ela destacou o Diretório da Rede ProTerra, que lista todos
os membros atualmente certificados — incluindo quatro dos cinco traders de soja
contatados por esta matéria. A diretora-executiva afirmou ainda que seus
padrões são voluntários e que a fundação “não assume responsabilidade nem
garante a conformidade legal”.
A Round
Table on Responsible Soy (RTRS), apesar de seu papel de liderança na
certificação do setor, se recusou a tecer comentários sobre o tema.
“Agradecemos seu interesse em nosso Padrão de Cadeia de Custódia e nossos
procedimentos para verificar soja livre de desmatamento e conversão.
Considerando que a legislação europeia [EUDR] está em constante evolução, a
RTRS prefere não fornecer comentários específicos neste momento,” disse um
porta-voz à Mongabay.
Na
Argentina, uma iniciativa multissetorial conhecida como Visec (Visión Sectorial
del Gran Chaco Argentino) tem ajudado empresas a rastrear suas cadeias de
suprimento de soja, desde fazendas individuais na região do Gran Chaco até
portos de exportação, e a documentar a conformidade com o EUDR.
Franco
Coiro Di Marco, especialista em engajamento de stakeholders na The Nature
Conservancy e membro da Secretaria Técnica da Visec, explicou à Mongabay por
e-mail como funciona o sistema de verificação. Uma vez que as coordenadas das
fazendas e as informações dos produtores são carregadas no sistema da Visec,
especialistas em imagens de satélite analisam os dados para verificar a
conformidade com os principais requisitos do EUDR: ausência de desmatamento
após dezembro de 2020, cumprimento das leis florestais nacionais e não
sobreposição com áreas protegidas.
Em
seguida, auditorias independentes são conduzidas por terceiros ao longo da
cadeia de suprimento, das fábricas aos portos. “Por fim, a empresa recebe um
arquivo com todas as geoinformações das unidades produtivas para ser carregado
no sistema de informações da UE (para criar sua declaração de diligência
devida)”, disse Di Marco.
Di
Marco não especificou quais empresas a Visec já verificou como prontas para o
EUDR, mas afirmou que “várias empresas já estão integradas” ao sistema deles.
Em
2024, a Visec apoiou três embarques-piloto de soja da Argentina para Espanha,
Irlanda e França, a fim de testar o processo de conformidade com o EUDR no
terreno. Esses testes ofereceram diversas lições-chave, disse Di Marco,
incluindo como coordenar múltiplos atores ao longo da cadeia de suprimento da
soja, como apresentar os dados no formato exigido pela UE e a importância de
utilizar dados de satélite calibrados localmente para evitar “falsos positivos”
na detecção de desmatamento.
Entretanto,
Di Marco diz que o setor ainda enfrenta desafios significativos para atender
aos requisitos do EUDR, especialmente devido aos custos e à complexidade de
reunir toda a documentação necessária. “Não se trata apenas da condição livre
de desmatamento; há muitos aspectos legais a cumprir: impostos e anticorrupção,
direitos trabalhistas, terras indígenas, leis florestais etc.”, destacou.
De
forma semelhante, van Maanen disse que as principais dificuldades para a
conformidade do setor com o regulamento incluem a disponibilidade de dados, os
custos adicionais e a complexidade do processo, especialmente para pequenos
produtores.
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Não é uma bala de prata
Enquanto
o setor se prepara para o EUDR, especialistas ponderam as limitações do
regulamento e seus possíveis impactos.
Segundo
Thomson, da Global Canopy, dados do Forest 500 mostram que apenas 23% das
empresas do setor de soja avaliadas em 2024 possuem compromissos contra o
desmatamento voltados a ecossistemas não florestais, como savanas e campos —
áreas atualmente não protegidas pelo EUDR. Ela destacou a importância de
salvaguardar esses ecossistemas, já que a produção de soja está cada vez mais
vinculada à conversão de áreas não florestais em biomas de grande
biodiversidade, como o Cerrado e o Pampa.
Reis
ecoou essa preocupação, afirmando que o foco do regulamento apenas em florestas
deixa sob risco ecossistemas importantes da América do Sul. Ele afirmou ainda
que o EUDR e a Moratória da Soja devem ser vistos como medidas complementares,
já que a lei europeia sozinha não evitará o desmatamento “indireto” na Amazônia
caso a moratória seja realmente suspensa este ano. Embora a suspensão não tenha
sido oficialmente aprovada pelo governo federal, grandes empresas do setor já
anunciaram sua saída do pacto.
“Eu
acredito que a implementação da EUDR vai impulsionar os compromissos
corporativos [contra o desmatamento], mas isso não significa que vai resolver
todos os problemas”, disse ele.
Thomson
também expressou um otimismo cauteloso. “Mesmo antes da implementação, o EUDR
tem sido um fator mobilizador, levando empresas líderes a investir em
rastreabilidade”, disse, acrescentando que, uma vez que essa infraestrutura
esteja em funcionamento, pode ser mais fácil estabelecer cadeias de suprimento
livres de desmatamento fora da União Europeia. “Obviamente, o fato de ser mais
viável fazer isso e de implementar compromissos mais amplos não significa que
as empresas o farão automaticamente, então é importante manter a atenção
direcionada às empresas que têm maior capacidade de fazer a diferença”, disse
Thomson.
Além
dos compromissos corporativos, a atenção também precisa se voltar à aplicação
do regulamento pelas autoridades, que vem sendo sucessivamente adiada, destacou
Reis.
“Por
uma questão de credibilidade e responsabilidade, a EUDR precisa ser
implementada ainda neste ano,” disse o especialista em conservação em novembro
de 2025, pouco antes do Parlamento Europeu aprovar o novo adiamento da data de
aplicação do regulamento, agora para dezembro de 2026.
Fonte:
Mongabay

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