Dissuasão
nuclear, a quem interessa?
Na
assembleia geral da ONU (23/09/2025) o presidente Lula declarou que “na América
Latina e Caribe, vivemos um momento de crescente polarização e instabilidade, e
manter a região como zona de paz é nossa prioridade”. Menos de quatro meses
depois, alcançar essa prioridade parece uma meta impossível. Além da criminosa
invasão da Venezuela e sequestro de seu presidente, o governo Donald Trump
ameaça invadir o México, a Colômbia e a Groenlândia, anunciando conflitos
mundiais que podem neutralizar também o ideal da América do Sul, livre de armas
nucleares.
A
militarização imperial dos EUA se reflete no Brasil, impulsionando
questionamentos sobre a capacidade militar de defesa, a necessidade de se
debater a política de segurança nacional e até fabricar bomba atômica – como
força de dissuasão – para ajudar numa possível ameaça externa contra a
soberania do país.
Durante
anos, assistimos à deterioração gradual, até o colapso, dos mecanismos de
controle sobre as armas nucleares e de sua proliferação. Diante do atual
enfraquecimento dos organismos internacionais, em especial da ONU, do Tratado
de não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), acordos bilaterais e até da OTAN,
países que já têm armamento nuclear – e outros que ainda não possuem – investem
numa corrida armamentista de desastrosa consequência e mesmo de riscos de uma
guerra que afetaria a existência da Terra.
Durante
a Guerra Fria, a doutrina da “Destruição Mútua Assegurada” (MAD) sugeria que a
dissuasão nuclear, contraditoriamente, ajudaria a prevenir uma guerra em larga
escala entre os EUA e a União Soviética, ao garantir que ambos os lados seriam
aniquilados em um conflito baseado no medo mútuo, promovendo assim uma frágil
estabilidade. A dissuasão nuclear poderia beneficiar diretamente os países que
já têm arsenal atômico (como EUA, Rússia, Reino Unido, Coréia do Norte,
Paquistão, Israel, Índia, França e China). Para eles, a dissuasão funcionaria
como um “guarda-chuva” de segurança, garantindo que outras potências (nucleares
ou não) não os ataquem diretamente por medo de uma retaliação devastadora.
Segundo
os defensores da teoria da Guerra Fria, que perdura ainda neste século, a
dissuasão serviria como estratégia militar e política dos que possuem armas
nucleares para proteger seus países, seus interesses, intimidando seus
adversários, e assim prevenindo ataques diretos ao seu território. A ideia dos
belicistas é que a ameaça da retaliação pelo agredido, que detém armamento
nuclear, tornaria a agressão inaceitável pela destruição que poderia causar.
Todos
sabem que a defesa nacional, especialmente contra inimigos externos, é muito
mais complexa e não se resolverá apenas dotando o país de arsenal atômico, como
se a guerra por armas convencionais estivesse ultrapassada. O debate não pode
focar prioritariamente na indústria bélica, como se dispor de bomba atômica
fosse capaz de garantir capacidade para amedrontar o suposto inimigo externo.
Também
é sabido que o capítulo da política de segurança nacional carece de revisão,
tal como o da política nuclear brasileira, ambos marcados pela falta de
transparência e compartilhamento de conhecimentos dos especialistas civis e
militares com a sociedade civil. Este debate é mais que necessário,
principalmente neste ano de eleição majoritária, em que já está anunciada a
interferência dos EUA, com a moderna “guerra híbrida”, que combina táticas
militares, ataques cibernéticos, desinformação, mentiras, falsas propagandas e
eleva a guerra atômica para um plano secundário.
Agora,
vozes da esquerda brasileira se levantam em defesa da bomba atômica tupiniquim.
Da extrema direita o recado é claro: se submeter, tornar vassalo e ficar
debaixo do guarda-chuva americano, transformando o Brasil, numa república
“bananeira”, sem soberania. Não é surpresa nenhuma que estes setores da
esquerda se expressem e defendam a dissuasão nuclear. Foram eles mesmo que – no
primeiro governo Lula no século passado, tendo à frente como ministro de
Ciência e Tecnologia (atual MCTI), o pernambucano Eduardo Campos
(2004-2005) – reativaram o Programa
Nuclear Brasileiro, de triste história e controversos atos, sendo, que é, até
hoje, um dos maiores sumidouros de dinheiro público.
O
Brasil domina a tecnologia do ciclo do combustível nuclear, mas não fabrica
armas, pois além do veto explícito na Constituição de 1988, também é signatário
do TNP, assinado em 1998, que tem sido descumprido, por exemplo, por Israel,
sem que nenhuma medida inibidora tenha sido adotada. O que preocupa a todos os
pacifistas, é que, segundo a World Nuclear Association, o Brasil é uma das 13
nações capazes de enriquecer o minério, e assim obter o urânio físsil. Para
fabricar a bomba atômica tupiniquim seria necessário mudar a Constituição de
1988 e abandonar o TNP, além de aumentar o número de centrífugas na fábrica de
Combustível Nuclear da Indústrias Nucleares do Brasil (INB), localizada em
Resende (RJ).
A
dissuasão, como estratégia para manter a paz é uma ilusão, não mantém ninguém
seguro. É uma ameaça para todos nós. Em vez de evitar conflitos, a
disponibilidade de armas nucleares incentiva seu uso, é um convite ao
armamentismo atômico, pois ao invés de dissuadir um primeiro ataque, pode
convidar a um primeiro ataque. As armas nucleares criam desconfiança e desviam
recursos financeiros que poderiam ser aplicados, por exemplo, em acabar com a
fome e outras mazelas que atingem nossa população, além de resolver inúmeros
problemas que nos torna um dos países mais desiguais no mundo.
Devido
ao imenso poder destrutivo destas armas, caso sejam usadas, não se poderia
alcançar uma vitória no sentido tradicional, na medida em que esta seria
baseada na busca por desarmar o inimigo e impor condições e exigências
políticas. O que não poderia, ao menos teoricamente, ocorrer contra um inimigo
totalmente destruído. Neste sentido, seria impossível (ao menos teoricamente) a
ocupação militar do território do adversário que seria atacado pesadamente com
armas nucleares, devido à contaminação radiológica.
A
gravidade da ameaça nuclear pesa sobre toda a humanidade, e não só devido às
armas nucleares, mas também ao fato de as usinas nucleares produzirem elementos
radioativos que podem ser utilizados para a fabricação das “bombas sujas”.
Contra ameaças contemporâneas, como o terrorismo, que não segue a mesma lógica
de retaliação entre Estados, a dissuasão se torna ainda menos eficaz. Caso o
Brasil enveredar por este caminho de fabricar armas nucleares e expandir a
nuclearização em seu território com mais usinas atômicas, mudaria todo o
panorama da América Latina. Com certeza provocaria uma corrida nuclear
regional.
Reacender
a lógica perversa da Guerra Fria, serve aos interesses do complexo
militar-industrial, com a multiplicação de atores nucleares, e apontaria para
um mundo mais perigoso, em que os arsenais se expandem em meio às incertezas e
temores. Segundo os relatórios das organizações como o Instituto Internacional
de Pesquisa para a Paz de Estocolmo) e o Instituto Internacional de Estudos
Estratégicos, as 100 maiores empresas do setor de defesa e armamentos (a
maioria delas sediada nos Estados Unidos: Lockheed Martin, RTX, Northrop
Grumman e Boeing) tiveram um faturamento total com vendas de armas e serviços
militares de cerca de US$ 679 bilhões, em 2024. E em relação aos gastos
militares mundiais atingiram um recorde histórico de aproximadamente US$ 2,7
trilhões em 2024, aumento de mais de 7% em relação ao ano anterior.
Assim,
diante do contexto atual, em que posições belicistas presentes no país se
tornam mais ativas, é fundamental abandonar definitivamente a ideia da bomba
atômica tupiniquim, a construção de novas usinas, descomissionar as já
existentes e deixar o urânio debaixo da terra. Decisão que só valorizaria o
país para os brasileiros, e nossa posição no tabuleiro internacional das nações
pacíficas que rejeitam a destruição, a morte, e prezam pela Vida no planeta
Terra.
A única
garantia de segurança a longo prazo é a eliminação total dessas armas, conforme
pregam e lutam os movimentos que defendem iniciativas de desarmamento.
Fonte:
Por Heitor Scalambrini Costa e Zoraide Vilasboas, em Combate Racismo Ambiental

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