Liszt
Vieira: Trump - a guerra global à vista – e como evitá-la
O mundo
inteiro fala e escreve sobre Trump, mas nem todos arriscaram fazer a relação
entre Trump e a possibilidade de uma guerra mundial. Não que ele deseje, mas
suas ações criam as condições para que tal venha ocorrer.
Lembra
um pouco o conceito de dolo eventual: o agente pode não desejar produzir o
evento, mas age de tal forma que esse evento muito provavelmente será
produzido. Por exemplo, alguém que dirige um carro a 150 km por hora na cidade
vai acabar matando alguém. Ele pode não desejar essa morte, mas seu
comportamento cria as condições para que tal venha a ocorrer.
A
invasão militar da Venezuela e o sequestro do presidente Maduro, o bloqueio
naval para impedir navios comerciais de levarem petróleo venezuelano para seus
compradores, a ameaça a Cuba e a Groenlândia jogam lenha na fogueira que aquece
a possibilidade de uma guerra em larga escala.
A
proposta orçamentária de Trump reforça essa suspeita. A previsão de 1.5 trilhão
de orçamento militar para 2027 reivindicada por Trump, indica preparação de uma
grande guerra. São 600 bilhões de aumento em único ano, mais de 50%. Trump
anuncia plano para aumentar em 50% os gastos militares dos EUA; investimento
será de 5% do PIB americano. O valor é significativamente maior do que os US$
901 bilhões aprovados pelo Congresso para 2026.
Ninguém
pode prever o futuro, mas há indicações de que Trump pode promover ações
militares ainda este ano, antes que aumente o seu enfraquecimento politico
interno.
Trump
deverá perder a maioria no Congresso nas eleições “mid term” em novembro
próximo. Segundo as pesquisas eleitorais, o Partido Republicano vai perder a
eleição e a maioria no Congresso a partir de novembro. Ou seja, como
Trump sabe que a tendência é o seu enfraquecimento político dentro dos Estados
Unidos, poderá antecipar e acelerar algumas ações que segundo ele são
necessárias para garantir o predomínio estratégico militar dos Estados
Unidos no mundo.
Trump
está abrindo muitas frentes de luta ao mesmo tempo: Venezuela, Cuba,
Groenlândia, Irã. Ele dá a impressão de que quer resolver tudo este ano,
antes da eleição de mid term em novembro , imaginando que depois ele vai se
enfraquecer politicamente perdendo a maioria no Congresso.
Na
realidade, já começou a aumentar seu desgaste interno com a oposição de
Governadores, manifestações de protesto e até mesmo acusações de demência. “O
presidente Donald Trump está sofrendo de “Demência Fronto temporal”, em estágio
inicial”. O alerta é do doutor Frank George, psicólogo e neurocientista PhD do
Centro para o Bem-Estar Cognitivo e Comportamental da Universidade de Boulder,
no Colorado.
Parece
não corresponder à realidade a teoria de esferas de influência, segundo a qual
os Estados Unidos ficariam com toda a América, a Rússia com a Europa e a China
com a Ásia. Os Estados Unidos já definiram a China como inimigo principal, essa
teoria não tem base na realidade das relações internacionais. Alguns analistas,
porém, não afastam essa hipótese de ver as Américas sob liderança dos EUA,
partes da Eurásia sob influência russa e áreas da Ásia e do Pacífico orbitando
a China.
No
plano interno, o desgaste aumenta a cada dia. O assassinato da cidadã americana
Renee Nicole Good em Minnesota pela polícia de imigração (ICE) produziu
enorme revolta. A Polícia de imigração de Trump recruta supremacistas brancos
para acelerar deportação. Propaganda usada pelo ICE usa referências de guerra,
movimentos neonazistas e busca recrutas entre defensores do porte de armas. A
polícia de imigração do ICE sequestra cidadãos, invade casas, crianças não vão
para a escola com medo de sequestro, seus pais têm medo de sair de casa.
Enquanto isso, os EUA suspenderam vistos de imigração para 75 países, inclusive
o Brasil.
No
plano externo, Trump abriu nova frente ao anunciar tarifa de 25% para países
que fizerem negócios com Irã. Segundo dados do Mdic (Ministério do
Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), o Brasil exportou o
equivalente a US$ 2,9 bilhões ao Irã em 2025 e importou US$ 84 milhões. Depois
de ameaçar o Irã, Trump recuou, dizendo que “a matança parou”. Teria sido
pressionado por países árabes preocupados com a desestabilização do mercado do
petróleo em caso de confronto dos EUA com o Irã.
Ao
romper com as regras jurídicas e políticas internacionais, as ações militares
de Trump podem criar condições materiais, geográficas e políticas que aumentam
o risco de um conflito sistêmico global. A erosão das regras globais, o
desprezo pela ONU, OMC, acordos multilaterais, a valorização da “lei do
mais forte”, apontam para a possibilidade de uma guerra mundial.
Guerras
mundiais começam em geral quando regras são rompidas e deixam de valer. Trump
acelera essa erosão e cria condições materiais e geográficas propícias à
escalada, Reduz os freios institucionais que evitam guerras globais. Em resumo:
Ele não acende o fósforo conscientemente — mas espalha gasolina em vários
cantos do mundo.
Um bom
exemplo é a ameaça à Groenlândia. Trump quer que os EUA adquiram a Groenlândia
como prioridade de “segurança nacional” e tem discutido varias opções , com
assessores e aliados, inclusive usar as Forças Armadas, sem esclarecer se
há planos concretos de invasão imediata.
A ideia
de uma invasão militar acarretaria resistência internacional e doméstica forte.
A Alemanha, Suécia e Noruega anunciaram o envio de tropas para proteger a
Groenlândia. A França enviou “elementos militares franceses” (uma quinzena de
soldados) e anunciou a criação de um Consulado na Groenlândia. Depois da
invasão militar da Venezuela e sequestro de seu Presidente, Trump parece
priorizar atos de guerra econômica, como o bloqueio naval no Caribe. Mas ele é
imprevisível.
Enfim,
sua abordagem geopolítica pode aumentar riscos de conflitos sérios, inclusive
confrontos militares de maior escala se uma crise sair do controle. Vale
lembrar aqui a famosa frase de Antonio Gramsci: “O mundo velho está morrendo, o
novo ainda não nasceu. Este é o tempo dos monstros.”
O
monstro nasceu e está atuante. Controla hoje o Executivo, o Legislativo e parte
do Judiciário. Ou seja, age como Ditador. Com Trump, a soberania de uma nação
sobre seus recursos naturais, um direito conquistado historicamente e
assegurado pelo direito internacional, se transforma em concessão da potência
hegemônica.
Sua
violação das regras da ordem mundial e do direito internacional contribui
fortemente para criar condições para a eclosão de uma guerra em larga escala.
Mas essa tendência pode ser contrabalançada pelo previsível enfraquecimento
político de Trump, o que acarretaria fortalecimento da resistência no plano
doméstico e internacional.
¨
No caminho do caos. Por José Luiz Fiori
Na
última semana de 2025, o sistema mundial entrou em estado de hipertensão
caótica. Em apenas sete dias, e quase simultaneamente, os Estados Unidos
fecharam o cerco marítimo e proibiram a circulação aérea sobre a Venezuela, sem
que ambos os países estivessem em guerra. A China cercou a ilha de Taiwan e
realizou um exercício de guerra com fogo real, incluindo a interdição de alguns
segmentos de seu espaço aéreo, em resposta às ameaças militaristas do Japão.
A
Ucrânia atacou a casa do presidente russo Vladimir Putin, na região de
Novgorod, utilizando 91 drones e com apoio da inteligência inglesa e
norte-americana. A Rússia anunciou que seu novo sistema de mísseis Oreshnik —
indefensáveis e com capacidade nuclear — estava pronto para uso imediato, em
resposta ao ataque da Ucrânia, a poucos minutos de distância de Berlim, Paris e
Londres. Os Estados Unidos bombardearam o território da Nigéria e anunciaram
novos ataques aéreos em caso de necessidade, segundo seu arbítrio.
A
Arábia Saudita bombardeou o Iêmen, sem que houvesse declaração de guerra.
Inglaterra e França bombardearam o território da Síria sem aviso prévio. E, por
fim, os Estados Unidos atacaram o território venezuelano e sequestraram seu
presidente, Nicolás Maduro. O mais impactante foi, sem dúvida, o rapto do
presidente venezuelano, seguido — como em outros ataques americanos — de
um tweet de Donald Trump, contendo ameaças e difundindo o
medo, que é uma peça essencial no exercício do poder. Assim mesmo, o ataque em
si não representa uma novidade nas relações dos EUA com a América Latina, muito
menos na história do “sistema interestatal” inventado pelos europeus.
Os
defensores do Direito Internacional em geral falam muito pouco, ou omitem
diretamente uma de suas cláusulas fundamentais, a “cláusula de exclusão de
ilicitude”, que garantiu às Grandes Potências do sistema interestatal (nunca
mais do que quatro ou cinco) o “direito” autoatribuído e a impunidade para de
atacar e invadir o território de outros países, sem respeitar o “direito à
soberania”, considerado a “pedra angular” do sistema de Estados nacionais
consagrada pelos europeus através da chamada Paz de Westfália, assinada em
1648.
A
Inglaterra e a França usaram e abusaram deste “direito à invasão” nos últimos
200 anos, e acabaram de bombardear o território da Síria, sem nenhum tipo de
permissão internacional, por sua livre e exclusiva vontade. Os Estados Unidos
ingressaram neste pequeno clube dos países “com direito à invasão de
terceiros”, em meados do século XIX, quando se apropriaram dos territórios
mexicanos da Califórnia e do Texas, e iniciaram sua escalada imperial, após a
guerra contra a Espanha, em 1898, seguida pela conquista de Cuba, Filipinas,
República Dominicana, Haiti, Nicarágua, Panamá e Porto Rico — este segue até
hoje sob o domínio norte-americano.
Em
1942, o geopolítico norte-americano Nicholas Spykman publicou uma obra
fundamental1 para entender a estratégia internacional dos EUA
depois da Segunda Guerra Mundial. Nicholas Spykman sustenta teses e faz
propostas geopolíticas que reaparecem a cada momento por trás do discurso
aparentemente errático e confuso de Donald Trump e do seu secretário de Estado,
Marco Rubio.
Nicholas
Spykman considerava que o Caribe e o Golfo do México faziam parte de um mesmo
“mar interior” dos Estados Unidos, no qual México, Colômbia e Venezuela
deveriam estar sob dependência direta dos Estados Unidos, por razões de
segurança nacional, sem necessitar de nenhum tipo de justificativa doutrinária
ou ideológica. Quase a mesma ideia que reaparece textualmente na nova
“Estratégia de Segurança Nacional” dos Estados Unidos, divulgada pelo governo
de Donald Trump no início de dezembro de 2025.
O texto
da “nova estratégia” contém inconsistências e carrega a marca da pressa e da
colagem de várias posições que não são convergentes entre si. Mas não há dúvida
de que a parte dedicada ao Hemisfério Ocidental foi escrita e incluída de forma
apressada para justificar a ocupação militar americana do Caribe, e o seu
ataque futuro à Groenlândia, que também fica no chamado Hemisfério Ocidental. E
neste ponto não há que ter dúvidas: enquanto durar o governo de Donald Trump,
depois do ataque à Venezuela, o que se deve prever é um assédio constante ao
México, e um ataque com a proposta de submissão de Colômbia, Nicarágua e Cuba —
neste caso, com o objetivo de destruir a própria memória da Revolução Cubana.
Mas não
é provável que ocorra nenhuma intervenção militar no resto da América do Sul —
nem seria necessário, porque a maioria dos governos sul-americanos já está de
joelhos por vontade própria, aceitando a instalação de bases militares em seus
territórios que assegurem, no longo prazo, o cerco militar da massa
continental, e do Brasil em particular. Os demais países sul-americanos não têm
maior importância geopolítica e não representam nenhuma ameaça de fato para os
Estados Unidos, a despeito da presença econômica da China.
Apesar
do alvoroço em torno da questão hemisférica, amplificado pelo ataque à
Venezuela, o verdadeiro interesse e o objetivo central da Nova Estratégia de
Segurança dos Estados Unidos não são a América Latina, mas a conquista da
Groenlândia, a destruição da União Europeia, o esvaziamento da Otan e a
proposta de um novo modus vivendi com a Rússia e a China. É
possível que Donald Trump jamais tenha lido Nicholas Spykman, nem conheça sua
tese de que o domínio mundial dos EUA dependerá de sua capacidade de construir
um cerco militar em torno da “massa continental” eurasiana.
Mas não
há dúvida de que este é um objetivo central da proposta de Donald Trump, de
incorporar a Groenlândia ao território norte-americano, completando o cerco
atômico da Rússia e da China pelo lado do Ártico, onde estaria a nova grande
fronteira geopolítica e geoeconômica do mundo. Com o avanço do degelo das
regiões polares, o Ártico aparece como importante “ponto de fuga” do sistema,
por onde se poderá escoar a energia criada pela intensificação da luta entre as
grandes potências. E onde deverão se multiplicar os novos espaços de competição
entre as grandes corporações do capitalismo global.
A
proposta de deslocamento ao norte da “fronteira russa” da disputa do poder
global explica em boa medida o ataque demolidor da “Nova Estratégia” de Donald
Trump contra a União Europeia, contra o formato atual da Otan e contra todos os
valores cultivados pela “ética internacional” e pelo “universalismo” da cultura
europeia. O novo documento fala explicitamente em devolver a Europa à sua velha
condição de “mosaico” de pequenos Estados independentes e competitivos entre
si, de forma a facilitar sua tutela bilateral pelos Estados Unidos.
Muitos
analistas consideram que esse novo documento estratégico americano contém uma
proposta implícita de construção de uma nova “ordem mundial” multipolar e
multicivilizatória, sustentada por três grandes impérios ou “zonas de
influência”, que seriam comandados por Estados Unidos, China e Rússia. Alguns
fatos recentes, entretanto, e algumas outras realidades consolidadas parecem
contradizer esta tese e reforçar uma hipótese diametralmente oposta.
Em
primeiro lugar, há que ter presente que os Estados Unidos ainda são a única
potência no mundo que possui e comanda uma infraestrutura militar global, com
capacidade de intervenção imediata em quase todas as latitudes.
Em cima
disso, o presidente Donald Trump acaba de anunciar para 2027 um aumento de 50%
do orçamento militar norte-americano, no valor de 1,5 trilhão de dólares. Faz
alguns meses, Donald Trump já havia anunciado um programa de 830 bilhões de
dólares para a criação de um sistema de defesa aérea “impenetrável”, que ele
chamou de Golden Dome, e um ambicioso projeto de modernização da
Marinha dos Estados Unidos, o Golden Fleet, que se propõe a
construir uma nova geração de navios de guerra integrando tecnologia de
Inteligência Artificial, lasers e armas hipersônicas, para
garantir a supremacia marítima dos Estados Unidos. Além disso, no dia a dia da
gestão de sua política externa, Donald Trump tem feito questão de demonstrar um
poder universal de arbitragem e intervenção direta e instantânea em qualquer
lugar do mundo, explicitando sua ingerência externa nos assuntos políticos
nacionais de vários países.
Um
conjunto de decisões que não apontam para um poder compartilhado; pelo
contrário, explicitam uma decisão clara de centralização do poder, e de cerco e
contenção da China e da Rússia. No máximo, um oligopólio tripolar com
dominância em última instância dos Estados Unidos. Ou seja, ao contrário do que
muitos pensam, o projeto estratégico de Donald Trump que está em pleno curso
representa uma aposta ainda mais radical na conquista unipolar de um império
militar global, capaz de impor pela força as regras do jogo e a arbitragem
final dos Estados Unidos, regras e arbítrio que poderão variar a cada momento,
segundo os interesses e a vontade circunstancial dos Estados Unidos.
Esse
projeto, entretanto, deverá provocar uma forte reação contrária da China e da
Rússia, e talvez da própria Europa, e deverá estimular a multiplicação das
potências atômicas ao redor do mundo. Além disso, no médio prazo, deve
incentivar o uso da força em todo e qualquer conflito ou disputa regional, uma
vez que a nova regra imposta pela potência dominante é a da imposição da
vontade dos mais fortes, por cima de qualquer lei ou inibição ideológica. Um
caminho seguro, quase direto, na direção do caos.
Fonte:
Outras Palavras

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