sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Fernando Horta: ‘Ditaduras, ditaduras... e proliferam ditaduras’

O mundo está mudando. Nisso, todos parecem concordar. Mas qual é, afinal, a natureza dessa mudança? A resposta que ecoa pelos corredores da mídia hegemônica, das universidades liberais e dos think tanks ocidentais é quase uníssona: proliferam as ditaduras. Venezuela, Nicarágua, China, Rússia, Irã — a lista cresce ao sabor das conveniências geopolíticas. Porém, essa narrativa esconde mais do que revela. O que realmente colapsa diante de nossos olhos não é a democracia em si, mas os parâmetros do liberalismo como régua universal para julgar as configurações sociopolíticas do planeta.

Trump não é a causa dessa transformação. Ele é seu sintoma mais recente e, talvez, mais escancarado. Quando o presidente da autoproclamada maior democracia do mundo ameaça anexar territórios de aliados, usar força militar contra vizinhos e governar por decretos que desafiam a própria Constituição americana, fica difícil sustentar que o problema são os "regimes autoritários" do Sul Global.

<><> A agonia liberal: de 2008 ao presente

O liberalismo — ou neoliberalismo, para quem prefere maior precisão conceitual — tenta se reinventar desde a crise dos derivativos de 2008 nos Estados Unidos e a subsequente crise da zona do euro. Ali, algo fundamental se rompeu. Quando Obama comprou participações em empresas americanas falidas com dinheiro público, relativizou-se silenciosamente o dogma central do credo liberal: o Estado como problema, nunca como solução. De repente, o Estado podia ser uma "rede de proteção". Parece pouco. Mas era mais do que se permitia ao poder público ser até então.

O conjunto de valores da democracia liberal — a separação "técnica" e "distante" dos poderes, o equilíbrio institucional como fim em si mesmo, o mercado como motor natural do progresso — foi sendo corroído pela crítica pragmática dos fatos. De 2008 para cá, o mercado se mostrou incapaz de gerar crescimento sustentável, incapaz de reduzir a desigualdade econômica que corrói o tecido social e incapaz de salvar o planeta da catástrofe climática que suas próprias engrenagens produzem.

A pandemia de Covid-19 foi o teste final. Em momentos de crise existencial, o capitalismo entrou em modo de sobrevivência — e o resultado foi a produção acelerada de super-bilionários, amparados na violência estrutural contra o restante da população. Enquanto milhões morriam sem oxigênio, as fortunas de Musk, Bezos e seus pares se multiplicavam. O mercado não salvou ninguém. O Estado, capturado, salvou apenas quem já tinha tudo.

<><> A esquerda institucionalista e a direita fascista

Diante desse cenário de decomposição, as respostas políticas se bifurcaram de maneira reveladora.

A esquerda mundial, em grande medida, tornou-se institucionalista. Passou a defender poderes constituídos, a invocar a "democracia" — aceitando docilmente os adjetivos liberais que a qualificam: representativa, social, inclusiva. Adjetivos que funcionam como álibis para um substantivo que se mostrou incapaz de resolver os problemas que o próprio mercado cria. Defender as instituições contra o fascismo é necessário, sem dúvida. Mas confundir a defesa tática das instituições com um projeto estratégico de transformação é o caminho mais curto para a irrelevância histórica.

A direita mundial, por sua vez, fez renascer a solução histórica do fascismo. Negou a continuidade do Estado liberal, negou a ideia de sociedade igualitária e trouxe de volta a "lei do mais forte" — agora travestida de "meritocracia", de "empreendedorismo", de "liberdade individual". O projeto é claro: autocracia oligárquica com verniz democrático, militarismo como política externa e violência como gestão social.

<><> O grito liberal: "Ditadura!"

Encurralados entre uma esquerda que se aceita pajem e uma direita que rasga regras, os liberais encontraram sua última trincheira retórica: gritar "ditadura" para tudo que não se molda exatamente ao modelo da democracia liberal. O checklist é conhecido: submissão completa às instituições liberais, submissão aos pactos jurídicos internacionais (tratados, constituições, leis moldadas pelo consenso de Washington), aceitação da propriedade privada como sacrossanta e intocável.

Mobilizam-se todas as redes de comunicação, universidades e aparatos culturais para denunciar o "neopopulismo", a "ruptura institucional", a "ameaça autocrática". Mas essa cruzada serve, sobretudo, para esconder um fato incômodo: os países que efetivamente avançam para transformar a ordem mundial são todos "não liberais". A China, com seu modelo de socialismo de mercado sob direção do Partido. A Rússia, com uma autocracia historicamente centrada em lideranças fortes. E agora os próprios Estados Unidos, que elegeram Trump justamente para abandonar as amarras liberais e entrar nessa disputa de poder nu e cru.

Trump transforma os EUA em um híbrido de negação liberal com autocracia personalista, usando abertamente os meios militares para pressionar aliados e adversários. Já vimos esse filme. Chamava-se período entreguerras.

<><> A hipocrisia seletiva

A Venezuela "é uma ditadura". O Irã "é uma ditadura". A Nicarágua "é uma ditadura". Os gritos liberais se despejam por todos os jornais, em todas as línguas. Mas sobre a França de Macron, que ignorou o resultado das últimas eleições legislativas e governa contra a maioria parlamentar, silêncio constrangido. Sobre a União Europeia, que desde o final dos anos 1990 acumula críticas sobre seu "déficit democrático" e segue tomando decisões monumentais sem qualquer participação popular efetiva, silêncio cúmplice.

Torce-se o nariz para China, Vietnã, Cuba — países que, com todas as suas contradições, tiraram centenas de milhões da pobreza extrema. Mas esconde-se a queda da própria ordem liberal. Esconde-se que o rei está nu.

<><> Não há mais centro

É preciso dizer com clareza, especialmente para o Brasil: não existe mais "centro político". O que se apresenta como centro em nosso país é um espaço de fake news política, sistematicamente utilizado pela extrema direita para legitimar suas posições e cooptar incautos. O famoso "centrão" brasileiro não é um projeto político: é um balcão de negócios que se vende ao melhor pagador. E hoje é o fascismo que paga.

O que existe, de fato, é uma disputa entre dois projetos antagônicos: de um lado, o projeto inclusivo e igualitário que busca superar a democracia liberal por meio da ampliação radical da participação popular e da democratização da economia — defendido, com maior ou menor coerência, pelas esquerdas. De outro, o projeto autocrático, militarista e belicista da extrema direita — que não quer "reformar" a democracia liberal, mas substituí-la por uma oligarquia abertamente autoritária.

<><> 2026: saber pelo que lutamos

Que não cometamos, no Brasil, o erro de fazer uma campanha eleitoral "de amor", convidando o eleitorado a se virar para um "centro" que não existe. Que combatamos a autocracia da extrema direita em suas mais variadas formas — desde a loucura intervencionista de Trump, que reverbera por aqui, até a autocracia flatulenta do bolsonarismo, com sua mistura de milícias, pastores e saudosismo da ditadura.

2026 será, sim, um ano de muita luta. Mas precisamos saber pelo que lutamos. O mundo está mudando, mas é preciso compreender a natureza da mudança.

Requiescat in pace, ordem política e social liberal. O capitalismo luta para manter o controle sobre a ordem econômica — mas já aceita não ser liberal, desde que continue sendo oligárquico. A questão que resta é se a alternativa será construída pelos povos, em seu próprio interesse, ou se será mais uma vez imposta de cima, com tanques, algoritmos e bilionários.

A resposta depende, em boa medida, de abandonarmos a ilusão de que defender a democracia liberal é defender a democracia. E de compreendermos que gritar "ditadura" para todo lado é, hoje, a forma preferida de esconder que a verdadeira ditadura — a do capital financeiro globalizado — nunca precisou de generais para governar.

¨      América Latina se respeita, defendamos o continente. Por Danilo Espindola Catalano

O que acontece na Venezuela não é um caso isolado — e muito menos algo simples de explicar, como tenta constantemente fazer a mídia internacional e certos meios de comunicação, usando palavras de cartilha para simplificar algo que não pode ser resumido em uma palavra, tampouco em um único texto como este que lhes escrevo.

Não afirmo que seja um caso isolado, pois a América Latina vem sofrendo ataques externos dos Estados Unidos desde as eleições legislativas na Argentina, em que Donald Trump deu um ultimato e a vitória de Javier Milei se consolidou, e, ao mesmo tempo, em Honduras, onde, devido à fraude escancarada nas eleições, Nasry Asfura — candidato preferido do presidente estadunidense — venceu com ampla margem sobre a candidata que era apontada como certa vencedora nas pesquisas anteriores.

A conclusão se dá em 3 de janeiro de 2026: o ataque dos Estados Unidos em Caracas já era esperado, e pareceria que estávamos apenas aquecendo os nervos para que se iniciasse tal atitude. Mas parece que não houve apenas participação do país na operação, pois foi algo muito rápido e, de certa forma, fácil de se fazer ao sequestrar um presidente de um país. Ou seja: ou os Estados Unidos são um país belicamente preparado para sequestrar qualquer presidente de qualquer país no momento que bem lhes convém, ou aqueles que se acreditavam aliados do chavismo acabaram por se render aos seus maiores inimigos.

Mas criar especulações para tramas internas é uma atitude que apenas chama a atenção e impõe uma narrativa chamativa para aqueles que se sentam em seus sofás e passam o dia rolando o dedo nas telas — e não para quem realmente quer refletir sobre os acontecimentos.

O que se deve pensar, quando se está em países vizinhos e há uma agressão clara ao território, não é apoiar o país “terrorista”, mas sim refletir sobre as vidas que foram perdidas e o ataque à soberania nacional desse país — que afeta não só o âmbito compreendido pelas fronteiras, mas todo o continente, sendo uma agressão que o transcende e faz com que tenha sido, antes de tudo, uma agressão ao povo latino-americano, e não apenas ao venezuelano.

Pensar em contexto regionalista é fundamental nesses momentos, pois une forças contra um inimigo em comum que, como mencionei nos parágrafos anteriores, agrediu tanto a Argentina como Honduras — não de modo bélico, mas influenciando indiretamente suas respectivas democracias, o que é uma violência branda, mas ainda assim um ataque à soberania desses povos.

Prova dessa afirmação são os ataques recentes que sofreram Cuba e Colômbia diretamente pelo presidente Donald Trump, jogando ainda mais tensão sobre a região.

Assim, é possível confirmar que defender a Venezuela não é ser de esquerda ou de direita; é ser latino-americano. Se você nasceu neste continente, é traição às suas raízes comemorar tal ato ou tais atos de países estrangeiros que acreditam ser superiores. Por isso, devemos levantar nossas bandeiras e gritar bem alto: América Latina se respeita!

¨      A hora dos predadores. Por Melba Escobar

Hoje quero recomendar o livro que tem o mesmo título desta coluna. E só recomendo livros que realmente me comovem. Mas, se me comoveu neste caso, foi porque Giuliano Da Empoli traduz a nossa era em palavras. Ele captura um instantâneo do atual panorama político, cultural e emocional e o apresenta para nós. Ele faz isso descrevendo os ternos usados ​​pelos homens mais poderosos do mundo quando compareceram à Assembleia Geral da ONU no ano passado. E digo homens porque são homens. Nayib Bukele, Donald Trump, Nicolás Maduro, Vladimir Putin, Xi Jinping, Mohammed bin Salman, Javier Milei. Todos homens. Todos predadores.

Um fervor bélico se espalha como fogo em palha seca. Como se a exceção, a violência autoritária e a quebra das regras do jogo estivessem se tornando a norma. Porque não se trata mais apenas de regimes isolados. Agora há uma urgência, um zelo conquistador, vingativo e destrutivo. Vladimir Putin ocupou a Crimeia em 2014, quebrando assim o tabu que proibia um país de recorrer à força para alterar suas fronteiras, afirma Da Empoli. A invasão da Ucrânia em 2022 ratificou essa mensagem. E com ela, a guerra voltou a estar na moda. Agora, aqueles que a invocam ganham eleições. Homens brutais, bárbaros e praticamente analfabetos deliram com a conquista de países como se o mundo fosse um jogo de Risk, e se lançam na caça por mais um território em busca de petróleo, água, oxigênio, seja lá o que for que desejem possuir, e só querem provar que podem fazê-lo pela força bruta.

Nos últimos cinco anos, os gastos públicos com armamentos aumentaram 34% em todo o mundo. Atacar custa cada vez menos do que se defender. O Irã está mais perto do que nunca de uma bomba nuclear. A Rússia faz ameaças veladas com uma em sua agressão contra a Ucrânia. A inteligência artificial pode ser usada para criar armas biológicas, químicas, radiológicas e nucleares. Enquanto isso, figuras atuais como Nayib Bukele se autodenominam "o ditador mais tranquilo do mundo inteiro", e muitos o chamam de "o milagre de Bukele" por ter reduzido todos os indicadores de criminalidade em El Salvador. Mas a que custo? Às custas de quem? Violando os direitos humanos de quantas pessoas? Essas perguntas parecem ter perdido a relevância. Parecem não importar mais. Só os resultados importam, não os processos. Devemos avançar a toda velocidade em um mundo predatório, para não dizer canibalístico, onde a lógica dos autocratas parece ser aniquilar antes de ser aniquilado. Como se estivéssemos em um filme de ficção científica. Mas não estamos assistindo a Jogos Vorazes. Não estamos assistindo Avatar, onde os predadores são humanos exterminando outras espécies; somos nós no ano de 2026, em tempo real, e isso está acontecendo.

No mundo em que vivemos, a emergência parece implacável. E então chegam os vilões com seus trajes extravagantes, como o de Bukele na Assembleia Geral da ONU há dois anos, meio Guerra nas Estrelas, meio Simón Bolívar. O super-herói dos nossos tempos, de manto roxo, surge prometendo nos salvar quando mais precisamos. Eles vêm para nos salvar do crime, da imigração, do deslocamento forçado, do status de refugiado, do desemprego, da ruína, da fome, dos fiadores, das hipotecas, da inflação, do custo de vida. Chegam armados com promessas, mísseis e bombas para cumpri-las. É como se o Aladdin da nossa infância tivesse aparecido agora com uma metralhadora e um sorriso terno para garantir que, se deixarmos tudo em suas mãos, a história terá um final feliz.

A condição que esse novo ídolo satânico nos impõe é a de não questionar, apenas nos render completamente à sua vontade. E então surge Donald Trump, invadindo a Venezuela para depor Nicolás Maduro, sem se importar com o fato de que, ao fazer isso, está quebrando todas as regras do jogo, colocando em risco a democracia e violando os direitos humanos. E agora? A China atacará Taiwan? Israel terminará de destruir a Palestina? A Rússia anexará a Ucrânia? Todos aqueles filmes que assistimos na cama em uma noite de domingo, aqueles que nos fazem temer o pior, são a realidade que está acontecendo lá fora. Mas é como se não percebêssemos. A verdade é que o futuro mais temido está acontecendo lá fora; já começou.

 

Fonte: Brasil 247/El País

 

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