Fernando
Horta: ‘Ditaduras, ditaduras... e proliferam ditaduras’
O mundo
está mudando. Nisso, todos parecem concordar. Mas qual é, afinal, a natureza
dessa mudança? A resposta que ecoa pelos corredores da mídia hegemônica, das
universidades liberais e dos think tanks ocidentais é quase uníssona:
proliferam as ditaduras. Venezuela, Nicarágua, China, Rússia, Irã — a lista
cresce ao sabor das conveniências geopolíticas. Porém, essa narrativa esconde
mais do que revela. O que realmente colapsa diante de nossos olhos não é a
democracia em si, mas os parâmetros do liberalismo como régua universal para
julgar as configurações sociopolíticas do planeta.
Trump
não é a causa dessa transformação. Ele é seu sintoma mais recente e, talvez,
mais escancarado. Quando o presidente da autoproclamada maior democracia do
mundo ameaça anexar territórios de aliados, usar força militar contra vizinhos
e governar por decretos que desafiam a própria Constituição americana, fica
difícil sustentar que o problema são os "regimes autoritários" do Sul
Global.
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A agonia liberal: de 2008 ao presente
O
liberalismo — ou neoliberalismo, para quem prefere maior precisão conceitual —
tenta se reinventar desde a crise dos derivativos de 2008 nos Estados Unidos e
a subsequente crise da zona do euro. Ali, algo fundamental se rompeu. Quando
Obama comprou participações em empresas americanas falidas com dinheiro
público, relativizou-se silenciosamente o dogma central do credo liberal: o
Estado como problema, nunca como solução. De repente, o Estado podia ser uma
"rede de proteção". Parece pouco. Mas era mais do que se permitia ao
poder público ser até então.
O
conjunto de valores da democracia liberal — a separação "técnica" e
"distante" dos poderes, o equilíbrio institucional como fim em si
mesmo, o mercado como motor natural do progresso — foi sendo corroído pela
crítica pragmática dos fatos. De 2008 para cá, o mercado se mostrou incapaz de
gerar crescimento sustentável, incapaz de reduzir a desigualdade econômica que
corrói o tecido social e incapaz de salvar o planeta da catástrofe climática
que suas próprias engrenagens produzem.
A
pandemia de Covid-19 foi o teste final. Em momentos de crise existencial, o
capitalismo entrou em modo de sobrevivência — e o resultado foi a produção
acelerada de super-bilionários, amparados na violência estrutural contra o
restante da população. Enquanto milhões morriam sem oxigênio, as fortunas de
Musk, Bezos e seus pares se multiplicavam. O mercado não salvou ninguém. O
Estado, capturado, salvou apenas quem já tinha tudo.
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A esquerda institucionalista e a direita fascista
Diante
desse cenário de decomposição, as respostas políticas se bifurcaram de maneira
reveladora.
A
esquerda mundial, em grande medida, tornou-se institucionalista. Passou a
defender poderes constituídos, a invocar a "democracia" — aceitando
docilmente os adjetivos liberais que a qualificam: representativa, social,
inclusiva. Adjetivos que funcionam como álibis para um substantivo que se
mostrou incapaz de resolver os problemas que o próprio mercado cria. Defender
as instituições contra o fascismo é necessário, sem dúvida. Mas confundir a
defesa tática das instituições com um projeto estratégico de transformação é o
caminho mais curto para a irrelevância histórica.
A
direita mundial, por sua vez, fez renascer a solução histórica do fascismo.
Negou a continuidade do Estado liberal, negou a ideia de sociedade igualitária
e trouxe de volta a "lei do mais forte" — agora travestida de
"meritocracia", de "empreendedorismo", de "liberdade
individual". O projeto é claro: autocracia oligárquica com verniz
democrático, militarismo como política externa e violência como gestão social.
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O grito liberal: "Ditadura!"
Encurralados
entre uma esquerda que se aceita pajem e uma direita que rasga regras, os
liberais encontraram sua última trincheira retórica: gritar
"ditadura" para tudo que não se molda exatamente ao modelo da
democracia liberal. O checklist é conhecido: submissão completa às instituições
liberais, submissão aos pactos jurídicos internacionais (tratados,
constituições, leis moldadas pelo consenso de Washington), aceitação da
propriedade privada como sacrossanta e intocável.
Mobilizam-se
todas as redes de comunicação, universidades e aparatos culturais para
denunciar o "neopopulismo", a "ruptura institucional", a
"ameaça autocrática". Mas essa cruzada serve, sobretudo, para
esconder um fato incômodo: os países que efetivamente avançam para transformar
a ordem mundial são todos "não liberais". A China, com seu modelo de
socialismo de mercado sob direção do Partido. A Rússia, com uma autocracia
historicamente centrada em lideranças fortes. E agora os próprios Estados
Unidos, que elegeram Trump justamente para abandonar as amarras liberais e
entrar nessa disputa de poder nu e cru.
Trump
transforma os EUA em um híbrido de negação liberal com autocracia personalista,
usando abertamente os meios militares para pressionar aliados e adversários. Já
vimos esse filme. Chamava-se período entreguerras.
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A hipocrisia seletiva
A
Venezuela "é uma ditadura". O Irã "é uma ditadura". A
Nicarágua "é uma ditadura". Os gritos liberais se despejam por todos
os jornais, em todas as línguas. Mas sobre a França de Macron, que ignorou o
resultado das últimas eleições legislativas e governa contra a maioria
parlamentar, silêncio constrangido. Sobre a União Europeia, que desde o final
dos anos 1990 acumula críticas sobre seu "déficit democrático" e
segue tomando decisões monumentais sem qualquer participação popular efetiva,
silêncio cúmplice.
Torce-se
o nariz para China, Vietnã, Cuba — países que, com todas as suas contradições,
tiraram centenas de milhões da pobreza extrema. Mas esconde-se a queda da
própria ordem liberal. Esconde-se que o rei está nu.
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Não há mais centro
É
preciso dizer com clareza, especialmente para o Brasil: não existe mais
"centro político". O que se apresenta como centro em nosso país é um
espaço de fake news política, sistematicamente utilizado pela extrema direita
para legitimar suas posições e cooptar incautos. O famoso "centrão"
brasileiro não é um projeto político: é um balcão de negócios que se vende ao
melhor pagador. E hoje é o fascismo que paga.
O que
existe, de fato, é uma disputa entre dois projetos antagônicos: de um lado, o
projeto inclusivo e igualitário que busca superar a democracia liberal por meio
da ampliação radical da participação popular e da democratização da economia —
defendido, com maior ou menor coerência, pelas esquerdas. De outro, o projeto
autocrático, militarista e belicista da extrema direita — que não quer
"reformar" a democracia liberal, mas substituí-la por uma oligarquia
abertamente autoritária.
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2026: saber pelo que lutamos
Que não
cometamos, no Brasil, o erro de fazer uma campanha eleitoral "de
amor", convidando o eleitorado a se virar para um "centro" que
não existe. Que combatamos a autocracia da extrema direita em suas mais
variadas formas — desde a loucura intervencionista de Trump, que reverbera por
aqui, até a autocracia flatulenta do bolsonarismo, com sua mistura de milícias,
pastores e saudosismo da ditadura.
2026
será, sim, um ano de muita luta. Mas precisamos saber pelo que lutamos. O mundo
está mudando, mas é preciso compreender a natureza da mudança.
Requiescat
in pace, ordem política e social liberal. O capitalismo luta para manter o
controle sobre a ordem econômica — mas já aceita não ser liberal, desde que
continue sendo oligárquico. A questão que resta é se a alternativa será
construída pelos povos, em seu próprio interesse, ou se será mais uma vez
imposta de cima, com tanques, algoritmos e bilionários.
A
resposta depende, em boa medida, de abandonarmos a ilusão de que defender a
democracia liberal é defender a democracia. E de compreendermos que gritar
"ditadura" para todo lado é, hoje, a forma preferida de esconder que
a verdadeira ditadura — a do capital financeiro globalizado — nunca precisou de
generais para governar.
¨ América Latina se
respeita, defendamos o continente. Por Danilo Espindola Catalano
O que
acontece na Venezuela não é um caso isolado — e muito menos algo simples de
explicar, como tenta constantemente fazer a mídia internacional e certos meios
de comunicação, usando palavras de cartilha para simplificar algo que não pode
ser resumido em uma palavra, tampouco em um único texto como este que lhes
escrevo.
Não
afirmo que seja um caso isolado, pois a América Latina vem sofrendo ataques
externos dos Estados Unidos desde as eleições legislativas na Argentina, em que
Donald Trump deu um ultimato e a vitória de Javier Milei se consolidou, e, ao
mesmo tempo, em Honduras, onde, devido à fraude escancarada nas eleições, Nasry
Asfura — candidato preferido do presidente estadunidense — venceu com ampla
margem sobre a candidata que era apontada como certa vencedora nas pesquisas
anteriores.
A
conclusão se dá em 3 de janeiro de 2026: o ataque dos Estados Unidos em Caracas
já era esperado, e pareceria que estávamos apenas aquecendo os nervos para que
se iniciasse tal atitude. Mas parece que não houve apenas participação do país
na operação, pois foi algo muito rápido e, de certa forma, fácil de se fazer ao
sequestrar um presidente de um país. Ou seja: ou os Estados Unidos são um país
belicamente preparado para sequestrar qualquer presidente de qualquer país no
momento que bem lhes convém, ou aqueles que se acreditavam aliados do chavismo
acabaram por se render aos seus maiores inimigos.
Mas
criar especulações para tramas internas é uma atitude que apenas chama a
atenção e impõe uma narrativa chamativa para aqueles que se sentam em seus
sofás e passam o dia rolando o dedo nas telas — e não para quem realmente quer
refletir sobre os acontecimentos.
O que
se deve pensar, quando se está em países vizinhos e há uma agressão clara ao
território, não é apoiar o país “terrorista”, mas sim refletir sobre as vidas
que foram perdidas e o ataque à soberania nacional desse país — que afeta não
só o âmbito compreendido pelas fronteiras, mas todo o continente, sendo uma
agressão que o transcende e faz com que tenha sido, antes de tudo, uma agressão
ao povo latino-americano, e não apenas ao venezuelano.
Pensar
em contexto regionalista é fundamental nesses momentos, pois une forças contra
um inimigo em comum que, como mencionei nos parágrafos anteriores, agrediu
tanto a Argentina como Honduras — não de modo bélico, mas influenciando
indiretamente suas respectivas democracias, o que é uma violência branda, mas
ainda assim um ataque à soberania desses povos.
Prova
dessa afirmação são os ataques recentes que sofreram Cuba e Colômbia
diretamente pelo presidente Donald Trump, jogando ainda mais tensão sobre a
região.
Assim,
é possível confirmar que defender a Venezuela não é ser de esquerda ou de
direita; é ser latino-americano. Se você nasceu neste continente, é traição às
suas raízes comemorar tal ato ou tais atos de países estrangeiros que acreditam
ser superiores. Por isso, devemos levantar nossas bandeiras e gritar bem alto:
América Latina se respeita!
¨ A hora dos
predadores. Por Melba Escobar
Hoje
quero recomendar o livro que tem o mesmo título desta coluna. E só recomendo
livros que realmente me comovem. Mas, se me comoveu neste caso, foi porque
Giuliano Da Empoli traduz a nossa era em palavras. Ele captura um instantâneo
do atual panorama político, cultural e emocional e o apresenta para nós. Ele
faz isso descrevendo os ternos usados pelos homens mais poderosos do mundo quando
compareceram à Assembleia Geral da ONU no ano passado. E digo homens
porque são homens. Nayib Bukele, Donald Trump, Nicolás Maduro,
Vladimir Putin, Xi Jinping, Mohammed bin Salman, Javier Milei. Todos homens.
Todos predadores.
Um
fervor bélico se espalha como fogo em palha seca. Como se a exceção, a
violência autoritária e a quebra das regras do jogo estivessem se tornando a
norma. Porque não se trata mais apenas de regimes isolados. Agora há uma
urgência, um zelo conquistador, vingativo e destrutivo. Vladimir Putin ocupou a
Crimeia em 2014, quebrando assim o tabu que proibia um país de recorrer à força
para alterar suas fronteiras, afirma Da Empoli. A invasão da Ucrânia em 2022
ratificou essa mensagem. E com ela, a guerra voltou a estar na moda. Agora,
aqueles que a invocam ganham eleições. Homens brutais, bárbaros e praticamente
analfabetos deliram com a conquista de países como se o mundo fosse um jogo de
Risk, e se lançam na caça por mais um território em busca de petróleo, água,
oxigênio, seja lá o que for que desejem possuir, e só querem provar que podem
fazê-lo pela força bruta.
Nos
últimos cinco anos, os gastos públicos com armamentos aumentaram 34% em todo o
mundo. Atacar custa cada vez menos do que se defender. O Irã está mais perto do
que nunca de uma bomba nuclear. A Rússia faz ameaças veladas com uma em sua
agressão contra a Ucrânia. A inteligência artificial pode ser usada para criar
armas biológicas, químicas, radiológicas e nucleares. Enquanto isso, figuras
atuais como Nayib Bukele se autodenominam "o ditador mais tranquilo do
mundo inteiro", e muitos o chamam de "o milagre de Bukele" por
ter reduzido todos os indicadores de criminalidade em El Salvador. Mas a que
custo? Às custas de quem? Violando os direitos humanos de quantas pessoas?
Essas perguntas parecem ter perdido a relevância. Parecem não importar mais. Só
os resultados importam, não os processos. Devemos avançar a toda velocidade em
um mundo predatório, para não dizer canibalístico, onde a lógica dos autocratas
parece ser aniquilar antes de ser aniquilado. Como se estivéssemos em um filme
de ficção científica. Mas não estamos assistindo a Jogos Vorazes. Não estamos
assistindo Avatar, onde os predadores são humanos exterminando outras espécies;
somos nós no ano de 2026, em tempo real, e isso está acontecendo.
No
mundo em que vivemos, a emergência parece implacável. E então chegam os vilões
com seus trajes extravagantes, como o de Bukele na Assembleia Geral da ONU há
dois anos, meio Guerra nas Estrelas, meio Simón Bolívar. O super-herói dos
nossos tempos, de manto roxo, surge prometendo nos salvar quando mais
precisamos. Eles vêm para nos salvar do crime, da imigração, do deslocamento
forçado, do status de refugiado, do desemprego, da ruína, da fome, dos
fiadores, das hipotecas, da inflação, do custo de vida. Chegam armados com
promessas, mísseis e bombas para cumpri-las. É como se o Aladdin da nossa
infância tivesse aparecido agora com uma metralhadora e um sorriso terno para
garantir que, se deixarmos tudo em suas mãos, a história terá um final feliz.
A
condição que esse novo ídolo satânico nos impõe é a de não questionar, apenas
nos render completamente à sua vontade. E então surge Donald Trump, invadindo a
Venezuela para depor Nicolás Maduro, sem se importar com o fato de que, ao
fazer isso, está quebrando todas as regras do jogo, colocando em risco a
democracia e violando os direitos humanos. E agora? A China atacará Taiwan?
Israel terminará de destruir a Palestina? A Rússia anexará a Ucrânia? Todos
aqueles filmes que assistimos na cama em uma noite de domingo, aqueles que nos
fazem temer o pior, são a realidade que está acontecendo lá fora. Mas é como se
não percebêssemos. A verdade é que o futuro mais temido está acontecendo lá
fora; já começou.
Fonte: Brasil
247/El País

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