Celso
Pinto de Melo: A ultradireita nos EUA - do macarthismo a Trump
Presidente
assimila a cartilha de perseguição política dos anos 50. Reveste o racismo de
patriotismo e busca sustentar o poder a partir do medo. Só trocou alguns
espantalhos, como a ameaça comunista pelo marxismo cultural e imigração. Como
antes, o excesso pode levá-lo à implosão...
Até os
grandes palácios se desfazem no ar rarefeito. Como recorda Shakespeare em A
Tempestade, toda glória humana é efêmera — e o mesmo destino aguarda
projetos políticos erguidos sobre o medo. Em momentos de crise e transição,
surgem fantasmas coletivos: nos Estados Unidos dos anos 1950, o comunismo; no
presente, sob Donald Trump em sua segunda administração, o chamado “Estado
profundo” (deep state) e o espectro de uma conspiração cultural global.
Hoje, documentos estruturantes da Nova Direita norte-americana como o Project
2025 (Heritage Foundation, 2023) e o Project Esther (Coates, 2024; Abrams,
2025) retomam, sob novas formas, o mesmo propósito do macarthismo: reorganizar
a vida pública pela manipulação do medo.
O
macarthismo floresceu em meio à Guerra Fria, quando a suposta ameaça comunista
serviu de pretexto para expurgos em universidades, perseguições em sindicatos e
demissões no serviço público. A indústria cultural e o meio acadêmico foram
especialmente atingidos, num contexto em que o medo se tornava método de
governo (Schrecker, 1998). Entre os perseguidos, destacam-se Charlie Chaplin,
impedido de regressar ao país; o dramaturgo Arthur Miller, autor de As
Feiticeiras de Salém — metáfora da caça às bruxas; o roteirista Dalton Trumbo,
obrigado a usar pseudônimo; e o cantor e ativista negro Paul Robeson, que teve
o passaporte cassado. Também foram alvos cientistas como Linus Pauling, duas
vezes laureado com o Nobel, perseguido por sua militância pacifista (Hager,
1995), e J. Robert Oppenheimer, diretor do Projeto Manhattan, que perdeu sua
autorização de segurança em 1954 após audiências humilhantes (Bird; Sherwin,
2005).
No
campo político, o poder de Joseph McCarthy parecia incontrastável até o célebre
embate de 1954 com as Forças Armadas. Durante audiências televisionadas, Joseph
Welch, o representante do Exército, reagiu quando o senador tentou destruir a
reputação de um jovem advogado de seu escritório, citando sua antiga ligação
com a National Lawyers Guild, organização progressista que McCarthy
rotulava como ‘comunista’. A resposta de Welch —
‘Have you no sense of decency, sir, at long last?’ (‘Afinal, o senhor
não tem um pingo de decência?’) — vista por milhões de norte-americanos, expôs
a crueldade e o arbítrio das táticas macarthistas e marcou o início de sua
ruína. Pouco depois, McCarthy seria censurado pelo Senado e, consumido pelo
alcoolismo, morreria isolado em 1957.
Entre
esse fim melancólico e a retórica agressiva de Trump atravessa a sombra de Roy
Cohn: advogado implacável que, como braço direito de McCarthy, ganhou
notoriedade pela ferocidade nas audiências do Senado, sustentando perseguições
a artistas, cientistas e militares. Homossexual e judeu, Cohn personificava a
contradição de um sistema que perseguia tanto minorias religiosas quanto
indivíduos acusados de “desvios sexuais”, mas do qual ele próprio extraía poder
ao atuar como um de seus mais agressivos operadores. Reinventado como advogado
em Nova York, tornou-se décadas depois mentor de Donald Trump, a quem
transmitiu o estilo de confronto e intimidação permanente (von Hoffman, 1988;
BBC, 2024). Nesse fio de continuidade, a história americana parece repetir seus
fantasmas sob novas máscaras.
O
macarthismo não inventou o racismo norte-americano, mas o revestiu de
patriotismo. Sob a bandeira da pureza nacional e da vigilância anticomunista,
legitimou antigas hierarquias raciais e morais, convertendo a suspeita em
virtude cívica. Essa gramática do medo — que transforma diversidade em ameaça e
dissenso em traição — ressurge hoje, atualizada por novos dispositivos
burocráticos e digitais.
O mesmo
impulso de “proteger a nação” que serviu para vigiar intelectuais e artistas
nos anos 1950 reaparece agora em políticas migratórias que privilegiam a
branquitude e criminalizam o diferente. A recente decisão do governo Trump de
priorizar agricultores brancos sul-africanos ecoa, sob outro pretexto, o ideal
de uma “América verdadeira”, etnicamente homogênea e moralmente purificada
(Reuters, 2025; The Guardian, 2025). Do mesmo modo, o controle ideológico da
cultura e da educação retoma o projeto de uniformização nacional promovido pelo
macarthismo. Se antes eram roteiristas e professores acusados de “subversão”,
agora são autores e livros banidos das escolas sob a justificativa de combater
o “marxismo cultural” ou a “ideologia de gênero”. Os manuais operacionais da
nova direita conservadora e antiliberal oferecem o enquadramento doutrinário
dessa cruzada, defendendo a centralização do poder executivo, a supressão da
diversidade curricular e o fortalecimento de uma moral cristã-nacionalista.
Assim como McCarthy usou o anticomunismo para disciplinar mentes e corpos, o
trumpismo transforma fé e segurança nacional em instrumentos de vigilância
ideológica.
Mas, ao
partilhar da mesma lógica persecutória, o trumpismo a adaptou a novos meios. O
inimigo agora não é mais o comunismo internacional, e sim o “globalismo”, as
universidades, a imprensa crítica e os órgãos de regulação. A diferença é que,
desta vez, o espetáculo da perseguição se difunde em tempo real, amplificado
pelas redes sociais e pelo marketing político (Klein, 2020).
Tal
como no auge do macarthismo, em que a imprensa e a indústria cultural se viram
submetidas a pressões sufocantes, o trumpismo também avança contra a liberdade
de expressão, promovendo processos contra grandes jornais e redes de televisão
e fomentando um ambiente de medo e autocensura. Recentemente, emissoras
anunciaram a suspensão dos programas de Jimmy Kimmel (ABC) e Stephen Colbert
(CBS) — ambos símbolos do humor político independente — em meio a pressões e
ameaças, embora no caso de Kimmel a decisão tenha sido posteriormente revertida
(Associated Press, 2025; Time, 2025). Esses episódios revelam a amplitude do
assédio à crítica e a tentativa de moldar o espaço público pela coerção.
Se
McCarthy usava comissões parlamentares e manchetes de jornal, hoje Trump se
apoia em mídias digitais, igrejas conservadoras e redes de think tanks.
A essência, porém, não muda: sustentar o poder a partir do medo e da divisão.
Olhando
para o passado, parecemos estar em um momento equivalente ao auge do
macarthismo. O trumpismo consolidou uma base leal e internacionalizada, mas já
mostra sinais de desgaste. Como nos anos 1950, o excesso pode levá-lo à
implosão. Movimentos que se legitimam pela paranoia e pela violência contra
reputações, cedo ou tarde, revelam suas fragilidades. Camões lembrava: “Depois
de procelosa tempestade, noturna sombra e sibilante vento, traz a manhã serena
claridade, esperança de porto e salvamento.” Se o macarthismo foi derrotado
quando parecia imbatível, o trumpismo, mesmo em ascensão, também poderá
encontrar seus limites à medida que suas promessas de ordem se revelem fontes
de caos. A história americana já mostrou antes — e pode mostrar de novo — que nenhuma
escuridão é eterna.
¨
Trump e a política do caos: da hegemonia ao porrete. Por
Gustavo Tapioca
O
retorno de Donald Trump à Casa Branca não inaugura uma nova política externa —
escancara o colapso da antiga. A diplomacia cede lugar à ameaça, o
multilateralismo é substituído por sanções e o caos passa a operar como método
deliberado de poder. Longe de ser improviso ou descontrole, o trumpismo
expressa um imperialismo que já não consegue liderar o mundo e passa a
governá-lo pela intimidação.
Donald
Trump não governa pela ordem. Governa pelo medo. Não constrói consensos, não
organiza alianças, não lidera o sistema internacional. Ele ameaça, sanciona,
chantageia, humilha e desestabiliza. O que muitos insistem em chamar de
“imprevisibilidade” não é erro de percurso — é estratégia. Trata-se do
imperialismo quando já não consegue oferecer futuro, apenas impor obediência.
Trump
não é um acidente histórico nem um desvio da política internacional. Ele é o
sintoma mais explícito de um sistema em esgotamento. Quando a promessa liberal
deixa de funcionar — crescimento, prosperidade compartilhada, estabilidade — o
poder abandona a encenação institucional. Cai a máscara. Fica o porrete.
O
trumpismo emerge num momento paradoxal: os Estados Unidos seguem sendo a
principal potência militar e financeira do planeta, mas já não conseguem
organizar o sistema internacional. Mandam, mas não convencem. Impõem, mas não
lideram. A hegemonia deixa de ser consenso e se converte em coerção aberta.
O caos,
portanto, não é consequência. É política.
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Do império que organizava ao império que ameaça
Durante
décadas, o imperialismo norte-americano combinou força material com
legitimidade política. Instituições multilaterais, tratados internacionais,
organismos financeiros e o discurso da democracia liberal funcionavam como
instrumentos de estabilização da ordem global — ainda que profundamente
desigual.
Esse
modelo entrou em colapso.
A
globalização neoliberal concentrou riqueza, desmontou Estados nacionais,
destruiu empregos industriais e aprofundou desigualdades sociais e
territoriais. O centro do capitalismo passou a produzir frustração,
ressentimento e instabilidade, inclusive dentro das próprias economias
centrais. A promessa de prosperidade virou crise permanente.
É
exatamente nesse ponto que Trump emerge — não contra o sistema, mas como sua
adaptação mais brutal. Onde antes havia diplomacia, ele oferece ameaça. Onde
havia negociação, sanção. Onde havia regra, chantagem. O imperialismo deixa de
fingir que organiza o mundo e passa a desorganizá-lo conscientemente como forma
de dominação.
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Imperialismo sem promessa, poder sem disfarce
O
trumpismo é o imperialismo sem horizonte histórico. Não promete
desenvolvimento, integração nem estabilidade. Promete punição. Governa pelo
choque, pela imprevisibilidade calculada e pela fabricação permanente de
inimigos — externos e internos.
No
segundo mandato, essa lógica se aprofunda. Sanções econômicas deixam de ser
exceção e se tornam política cotidiana. Bloqueios substituem acordos. A guerra
comercial ocupa o lugar da política externa. Aliados passam a ser tratados como
vassalos temporários. Países periféricos, como territórios a serem
disciplinados.
Não se
trata de improviso pessoal ou de idiossincrasia presidencial. Trata-se de
lógica sistêmica. Quando o império perde a capacidade de comandar a ordem
internacional, ele passa a mantê-la sob tensão permanente. O caos deixa de ser
falha e se converte em ferramenta de poder.
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A extrema-direita como engrenagem da crise global
O
trumpismo não atua isoladamente. Ele se articula com forças de extrema-direita
em várias partes do mundo, todas seguindo um roteiro comum: ataque sistemático
às instituições democráticas, guerra cultural permanente, nacionalismo retórico
para consumo interno e submissão prática ao capital financeiro internacional.
Foi
assim no Brasil de Bolsonaro, com o isolamento diplomático, o ataque às
instituições e a tentativa de ruptura democrática. É assim na Argentina de
Milei, onde o discurso libertário encobre a submissão financeira e a demolição
do Estado. É assim em El Salvador, na Hungria, na Turquia e em outras
experiências em que eleições continuam existindo, mas a democracia é esvaziada
por dentro.
A
extrema-direita não é antissistêmica. Ela é funcional. Serve para desmontar
direitos, naturalizar a violência e garantir que o custo da crise recaia sobre
os de baixo. Quando a democracia se torna um obstáculo, ela é descartada sem
hesitação.
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O Brasil na periferia do caos
Na
periferia do sistema internacional, essa lógica se manifesta de forma ainda
mais crua. O discurso de soberania convive com a entrega da autonomia. O
patriotismo de palanque anda lado a lado com a submissão estratégica. O ataque
à democracia interna funciona como pré-condição da dependência externa.
Nada
disso é casual. Países periféricos só permanecem subordinados quando suas
instituições são enfraquecidas, sua política externa neutralizada e sua
sociedade mantida em estado permanente de conflito. O caos também é método por
aqui.
O
trumpismo brasileiro não é caricatura. É tradução local de um imperialismo em
crise que já não se dá ao trabalho de esconder seus interesses.
<><>
Lenin explicou. Trump escancarou
Em Imperialismo,
etapa superior do capitalismo, Lenin descreveu o momento em que o sistema
atinge seu limite histórico: concentração extrema de riqueza, fusão entre
capital financeiro e Estado, exportação da crise e substituição da concorrência
pela violência aberta.
Em
termos diretos: quando o capitalismo já não consegue crescer, ele passa a
saquear; quando já não convence, ele passa a impor; quando já não promete
progresso, ele governa pela força.
Trump
não refutou essa leitura. Ele a confirmou, um século depois — sem teoria, sem
pudor e sem disfarce.
<><>
O alerta brasileiro
As
eleições que se aproximam não são uma alternância rotineira de poder. São um
teste de sobrevivência democrática. A extrema direita, a direita liberal, as
elites brasileiras e o que restou do bolsonarismo não representam uma
divergência programática legítima. Os candidatos à presidente que esse
agrupamento indica para disputar com Lula a eleição de outubro de 2026 é
exemplo disso. O objetivo é reinstalar no Brasil a lógica do trumpismo
internacional: governo pelo caos, intimidação das instituições, submissão
externa e ruptura constitucional como método.
Não se
trata de retórica. Esse projeto já tentou um golpe, atacou o Supremo Tribunal
Federal, isolou o país internacionalmente e colocou o Brasil na condição de
satélite de um imperialismo em crise. Sua volta significaria aprofundar a
dependência, normalizar a violência política e desmontar, por dentro, as bases
da soberania nacional.
A
escolha diante do eleitorado é dura, mas clara: ou o Brasil preserva a
democracia imperfeita que reconstrói, com conflito, pluralidade e política
externa soberana, ou aceita a reinstalação de um projeto autoritário que
transforma o caos em forma permanente de governo.
Não há
neutralidade possível.
A
história não absolverá a omissão.
¨
Punhalada no neoliberalismo: a agonia do BC independente
no Império. Por César Fonseca
O
imperador laranjão, ao que parece, quer o BC dependente da Casa Branca e do
tesouro americano, não de Wall Street.
Afinal,
independente, no modelo republicano, é ele, Trump, eleito pelo voto popular,
não o presidente do FED, Jerome Powell, refém do mercado financeiro
especulativo, como no Brasil, onde o BC é refém da Faria Lima.
A
supremacia do mercado especulativo gerou a financeirizacao econômica como
resultado da superacumulação de capital, para sustentar taxa elevada de lucro,
não mais possível por meio da economia real, da produção e do consumo.
Trump é
representante da burguesia imobiliária, industrial, cuja expansão depende de
crédito barato, sem o qual a classe média não sobrevive, no cenário da
sobreacumulação capitalista financeira especulativa.
COMBATE
AO ENDIVIDAMENTO DA CLASSE MÉDIA
A
população de rua nos Estados Unidos se expande, incontrolavelmente, porque não
consegue suportar as hipotecas bombeadas pelo juro alto como arma neoliberal de
combate à inflação; manter tal situação, só desgasta o chefe da Casa Branca.
Trump
sabe que a crise monetária de 2008, ainda não superada, demonstrou que a
inflação não decorre do excesso de moeda na circulação, como argumentam os
neoliberais, a exemplo do que o crash de 2008 comprovou.
Diante
do colapso bancário, o FED, naquele ano, multiplicou por 4 a base monetária nos
Estados Unidos.
A
inflação, como teorizam os neoliberais, não aumentou; ao contrário, caiu.
Se
tivesse subido, haveria estouro da base monetária e a dívida pública interna
implodiria, aproximando ou superando a casa dos 100 trilhões de dolares, ou
mais.
Por
isso, Trump, agora, quer juro zero ou negativo, para ganhar eleição
parlamentar, em novembro, a fim de dar curso a uma política econômica que
barateia o crédito.
Com
isso, aumentaria o consumo interno e conquistaria a classe média.
As
corporações imobiliárias, setor no qual Trump impera, como o bam-bam-bam,
aumentariam a oferta, vendendo mais barato.
Nesse
contexto, o juro ficando na casa do zero ou negativo, Trump estabilizaria ou
não a dívida pública, podendo evitar estouro financeiro, temor maior que afeta
estabilidade do dólar?
EXEMPLO
JAPONÊS
Trump
deixa entrever que ele, na verdade, quer, para os Estados Unidos, um Banco
Central tipo
japonês,
que, há mais de três décadas, trabalha com déficit público acima de 200% do
PIB.
As
contas públicas, no Japão, não estouram devido aos juros negativos, que giram a
dívida eternamente, sem perigo de implosão monetária, pelo menos até agora.
O jogo,
na economia, é político, não, meramente, técnico no comando da política
monetária.
Enfim,
a economia política é dada pela política.
Jerome
Powell, presidente do FED, ameaçado por Trump de processo criminal, vê a
Independência do BC americano indo para o espaço, porque o presidente americano
resolve implodir o modelo neoliberal que sustenta a financeirização
especulativa, carrasca da classe média.
Qual
será a resposta de Wall Street ao imperador da Casa Branca?
E como
ficará, de agora em diante, o BC Independente brasileiro, que garante à Faria
Lima a farra rentista que sangra o tesouro nacional em R$ 1 trilhão/ano,
mantendo a economia estagnada, em banho-maria?
Trump
dá uma punhalada no neoliberalismo.
Fonte:
Outras Palavras/Brasil 247

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