sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Celso Pinto de Melo: A ultradireita nos EUA - do macarthismo a Trump

Presidente assimila a cartilha de perseguição política dos anos 50. Reveste o racismo de patriotismo e busca sustentar o poder a partir do medo. Só trocou alguns espantalhos, como a ameaça comunista pelo marxismo cultural e imigração. Como antes, o excesso pode levá-lo à implosão...

Até os grandes palácios se desfazem no ar rarefeito. Como recorda Shakespeare em A Tempestade, toda glória humana é efêmera — e o mesmo destino aguarda projetos políticos erguidos sobre o medo. Em momentos de crise e transição, surgem fantasmas coletivos: nos Estados Unidos dos anos 1950, o comunismo; no presente, sob Donald Trump em sua segunda administração, o chamado “Estado profundo” (deep state) e o espectro de uma conspiração cultural global. Hoje, documentos estruturantes da Nova Direita norte-americana como o Project 2025 (Heritage Foundation, 2023) e o Project Esther (Coates, 2024; Abrams, 2025) retomam, sob novas formas, o mesmo propósito do macarthismo: reorganizar a vida pública pela manipulação do medo.

O macarthismo floresceu em meio à Guerra Fria, quando a suposta ameaça comunista serviu de pretexto para expurgos em universidades, perseguições em sindicatos e demissões no serviço público. A indústria cultural e o meio acadêmico foram especialmente atingidos, num contexto em que o medo se tornava método de governo (Schrecker, 1998). Entre os perseguidos, destacam-se Charlie Chaplin, impedido de regressar ao país; o dramaturgo Arthur Miller, autor de As Feiticeiras de Salém — metáfora da caça às bruxas; o roteirista Dalton Trumbo, obrigado a usar pseudônimo; e o cantor e ativista negro Paul Robeson, que teve o passaporte cassado. Também foram alvos cientistas como Linus Pauling, duas vezes laureado com o Nobel, perseguido por sua militância pacifista (Hager, 1995), e J. Robert Oppenheimer, diretor do Projeto Manhattan, que perdeu sua autorização de segurança em 1954 após audiências humilhantes (Bird; Sherwin, 2005).

No campo político, o poder de Joseph McCarthy parecia incontrastável até o célebre embate de 1954 com as Forças Armadas. Durante audiências televisionadas, Joseph Welch, o representante do Exército, reagiu quando o senador tentou destruir a reputação de um jovem advogado de seu escritório, citando sua antiga ligação com a National Lawyers Guild, organização progressista que McCarthy rotulava como ‘comunista’. A resposta de Welch — ‘Have you no sense of decency, sir, at long last?(‘Afinal, o senhor não tem um pingo de decência?’) — vista por milhões de norte-americanos, expôs a crueldade e o arbítrio das táticas macarthistas e marcou o início de sua ruína. Pouco depois, McCarthy seria censurado pelo Senado e, consumido pelo alcoolismo, morreria isolado em 1957.

Entre esse fim melancólico e a retórica agressiva de Trump atravessa a sombra de Roy Cohn: advogado implacável que, como braço direito de McCarthy, ganhou notoriedade pela ferocidade nas audiências do Senado, sustentando perseguições a artistas, cientistas e militares. Homossexual e judeu, Cohn personificava a contradição de um sistema que perseguia tanto minorias religiosas quanto indivíduos acusados de “desvios sexuais”, mas do qual ele próprio extraía poder ao atuar como um de seus mais agressivos operadores. Reinventado como advogado em Nova York, tornou-se décadas depois mentor de Donald Trump, a quem transmitiu o estilo de confronto e intimidação permanente (von Hoffman, 1988; BBC, 2024). Nesse fio de continuidade, a história americana parece repetir seus fantasmas sob novas máscaras.

O macarthismo não inventou o racismo norte-americano, mas o revestiu de patriotismo. Sob a bandeira da pureza nacional e da vigilância anticomunista, legitimou antigas hierarquias raciais e morais, convertendo a suspeita em virtude cívica. Essa gramática do medo — que transforma diversidade em ameaça e dissenso em traição — ressurge hoje, atualizada por novos dispositivos burocráticos e digitais.

O mesmo impulso de “proteger a nação” que serviu para vigiar intelectuais e artistas nos anos 1950 reaparece agora em políticas migratórias que privilegiam a branquitude e criminalizam o diferente. A recente decisão do governo Trump de priorizar agricultores brancos sul-africanos ecoa, sob outro pretexto, o ideal de uma “América verdadeira”, etnicamente homogênea e moralmente purificada (Reuters, 2025; The Guardian, 2025). Do mesmo modo, o controle ideológico da cultura e da educação retoma o projeto de uniformização nacional promovido pelo macarthismo. Se antes eram roteiristas e professores acusados de “subversão”, agora são autores e livros banidos das escolas sob a justificativa de combater o “marxismo cultural” ou a “ideologia de gênero”. Os manuais operacionais da nova direita conservadora e antiliberal oferecem o enquadramento doutrinário dessa cruzada, defendendo a centralização do poder executivo, a supressão da diversidade curricular e o fortalecimento de uma moral cristã-nacionalista. Assim como McCarthy usou o anticomunismo para disciplinar mentes e corpos, o trumpismo transforma fé e segurança nacional em instrumentos de vigilância ideológica.

Mas, ao partilhar da mesma lógica persecutória, o trumpismo a adaptou a novos meios. O inimigo agora não é mais o comunismo internacional, e sim o “globalismo”, as universidades, a imprensa crítica e os órgãos de regulação. A diferença é que, desta vez, o espetáculo da perseguição se difunde em tempo real, amplificado pelas redes sociais e pelo marketing político (Klein, 2020).

Tal como no auge do macarthismo, em que a imprensa e a indústria cultural se viram submetidas a pressões sufocantes, o trumpismo também avança contra a liberdade de expressão, promovendo processos contra grandes jornais e redes de televisão e fomentando um ambiente de medo e autocensura. Recentemente, emissoras anunciaram a suspensão dos programas de Jimmy Kimmel (ABC) e Stephen Colbert (CBS) — ambos símbolos do humor político independente — em meio a pressões e ameaças, embora no caso de Kimmel a decisão tenha sido posteriormente revertida (Associated Press, 2025; Time, 2025). Esses episódios revelam a amplitude do assédio à crítica e a tentativa de moldar o espaço público pela coerção.

Se McCarthy usava comissões parlamentares e manchetes de jornal, hoje Trump se apoia em mídias digitais, igrejas conservadoras e redes de think tanks. A essência, porém, não muda: sustentar o poder a partir do medo e da divisão.

Olhando para o passado, parecemos estar em um momento equivalente ao auge do macarthismo. O trumpismo consolidou uma base leal e internacionalizada, mas já mostra sinais de desgaste. Como nos anos 1950, o excesso pode levá-lo à implosão. Movimentos que se legitimam pela paranoia e pela violência contra reputações, cedo ou tarde, revelam suas fragilidades. Camões lembrava: “Depois de procelosa tempestade, noturna sombra e sibilante vento, traz a manhã serena claridade, esperança de porto e salvamento.” Se o macarthismo foi derrotado quando parecia imbatível, o trumpismo, mesmo em ascensão, também poderá encontrar seus limites à medida que suas promessas de ordem se revelem fontes de caos. A história americana já mostrou antes — e pode mostrar de novo — que nenhuma escuridão é eterna.

¨      Trump e a política do caos: da hegemonia ao porrete. Por Gustavo Tapioca

O retorno de Donald Trump à Casa Branca não inaugura uma nova política externa — escancara o colapso da antiga. A diplomacia cede lugar à ameaça, o multilateralismo é substituído por sanções e o caos passa a operar como método deliberado de poder. Longe de ser improviso ou descontrole, o trumpismo expressa um imperialismo que já não consegue liderar o mundo e passa a governá-lo pela intimidação.

Donald Trump não governa pela ordem. Governa pelo medo. Não constrói consensos, não organiza alianças, não lidera o sistema internacional. Ele ameaça, sanciona, chantageia, humilha e desestabiliza. O que muitos insistem em chamar de “imprevisibilidade” não é erro de percurso — é estratégia. Trata-se do imperialismo quando já não consegue oferecer futuro, apenas impor obediência.

Trump não é um acidente histórico nem um desvio da política internacional. Ele é o sintoma mais explícito de um sistema em esgotamento. Quando a promessa liberal deixa de funcionar — crescimento, prosperidade compartilhada, estabilidade — o poder abandona a encenação institucional. Cai a máscara. Fica o porrete.

O trumpismo emerge num momento paradoxal: os Estados Unidos seguem sendo a principal potência militar e financeira do planeta, mas já não conseguem organizar o sistema internacional. Mandam, mas não convencem. Impõem, mas não lideram. A hegemonia deixa de ser consenso e se converte em coerção aberta.

O caos, portanto, não é consequência. É política.

<><> Do império que organizava ao império que ameaça

Durante décadas, o imperialismo norte-americano combinou força material com legitimidade política. Instituições multilaterais, tratados internacionais, organismos financeiros e o discurso da democracia liberal funcionavam como instrumentos de estabilização da ordem global — ainda que profundamente desigual.

Esse modelo entrou em colapso.

A globalização neoliberal concentrou riqueza, desmontou Estados nacionais, destruiu empregos industriais e aprofundou desigualdades sociais e territoriais. O centro do capitalismo passou a produzir frustração, ressentimento e instabilidade, inclusive dentro das próprias economias centrais. A promessa de prosperidade virou crise permanente.

É exatamente nesse ponto que Trump emerge — não contra o sistema, mas como sua adaptação mais brutal. Onde antes havia diplomacia, ele oferece ameaça. Onde havia negociação, sanção. Onde havia regra, chantagem. O imperialismo deixa de fingir que organiza o mundo e passa a desorganizá-lo conscientemente como forma de dominação.

<><> Imperialismo sem promessa, poder sem disfarce

O trumpismo é o imperialismo sem horizonte histórico. Não promete desenvolvimento, integração nem estabilidade. Promete punição. Governa pelo choque, pela imprevisibilidade calculada e pela fabricação permanente de inimigos — externos e internos.

No segundo mandato, essa lógica se aprofunda. Sanções econômicas deixam de ser exceção e se tornam política cotidiana. Bloqueios substituem acordos. A guerra comercial ocupa o lugar da política externa. Aliados passam a ser tratados como vassalos temporários. Países periféricos, como territórios a serem disciplinados.

Não se trata de improviso pessoal ou de idiossincrasia presidencial. Trata-se de lógica sistêmica. Quando o império perde a capacidade de comandar a ordem internacional, ele passa a mantê-la sob tensão permanente. O caos deixa de ser falha e se converte em ferramenta de poder.

<><> A extrema-direita como engrenagem da crise global

O trumpismo não atua isoladamente. Ele se articula com forças de extrema-direita em várias partes do mundo, todas seguindo um roteiro comum: ataque sistemático às instituições democráticas, guerra cultural permanente, nacionalismo retórico para consumo interno e submissão prática ao capital financeiro internacional.

Foi assim no Brasil de Bolsonaro, com o isolamento diplomático, o ataque às instituições e a tentativa de ruptura democrática. É assim na Argentina de Milei, onde o discurso libertário encobre a submissão financeira e a demolição do Estado. É assim em El Salvador, na Hungria, na Turquia e em outras experiências em que eleições continuam existindo, mas a democracia é esvaziada por dentro.

A extrema-direita não é antissistêmica. Ela é funcional. Serve para desmontar direitos, naturalizar a violência e garantir que o custo da crise recaia sobre os de baixo. Quando a democracia se torna um obstáculo, ela é descartada sem hesitação.

<><> O Brasil na periferia do caos

Na periferia do sistema internacional, essa lógica se manifesta de forma ainda mais crua. O discurso de soberania convive com a entrega da autonomia. O patriotismo de palanque anda lado a lado com a submissão estratégica. O ataque à democracia interna funciona como pré-condição da dependência externa.

Nada disso é casual. Países periféricos só permanecem subordinados quando suas instituições são enfraquecidas, sua política externa neutralizada e sua sociedade mantida em estado permanente de conflito. O caos também é método por aqui.

O trumpismo brasileiro não é caricatura. É tradução local de um imperialismo em crise que já não se dá ao trabalho de esconder seus interesses.

<><> Lenin explicou. Trump escancarou

Em Imperialismo, etapa superior do capitalismo, Lenin descreveu o momento em que o sistema atinge seu limite histórico: concentração extrema de riqueza, fusão entre capital financeiro e Estado, exportação da crise e substituição da concorrência pela violência aberta.

Em termos diretos: quando o capitalismo já não consegue crescer, ele passa a saquear; quando já não convence, ele passa a impor; quando já não promete progresso, ele governa pela força.

Trump não refutou essa leitura. Ele a confirmou, um século depois — sem teoria, sem pudor e sem disfarce.

<><> O alerta brasileiro

As eleições que se aproximam não são uma alternância rotineira de poder. São um teste de sobrevivência democrática. A extrema direita, a direita liberal, as elites brasileiras e o que restou do bolsonarismo não representam uma divergência programática legítima. Os candidatos à presidente que esse agrupamento indica para disputar com Lula a eleição de outubro de 2026 é exemplo disso. O objetivo é reinstalar no Brasil a lógica do trumpismo internacional: governo pelo caos, intimidação das instituições, submissão externa e ruptura constitucional como método.

Não se trata de retórica. Esse projeto já tentou um golpe, atacou o Supremo Tribunal Federal, isolou o país internacionalmente e colocou o Brasil na condição de satélite de um imperialismo em crise. Sua volta significaria aprofundar a dependência, normalizar a violência política e desmontar, por dentro, as bases da soberania nacional.

A escolha diante do eleitorado é dura, mas clara: ou o Brasil preserva a democracia imperfeita que reconstrói, com conflito, pluralidade e política externa soberana, ou aceita a reinstalação de um projeto autoritário que transforma o caos em forma permanente de governo.

Não há neutralidade possível.

A história não absolverá a omissão.

¨      Punhalada no neoliberalismo: a agonia do BC independente no Império. Por César Fonseca

O imperador laranjão, ao que parece, quer o BC dependente da Casa Branca e do tesouro americano, não de Wall Street.

Afinal, independente, no modelo republicano, é ele, Trump, eleito pelo voto popular, não o presidente do FED, Jerome Powell, refém do mercado financeiro especulativo, como no Brasil, onde o BC é refém da Faria Lima.

A supremacia do mercado especulativo gerou a financeirizacao econômica como resultado da superacumulação de capital, para sustentar taxa elevada de lucro, não mais possível por meio da economia real, da produção e do consumo.

Trump é representante da burguesia imobiliária, industrial, cuja expansão depende de crédito barato, sem o qual a classe média não sobrevive, no cenário da sobreacumulação capitalista financeira especulativa. 

COMBATE AO ENDIVIDAMENTO DA CLASSE MÉDIA

A população de rua nos Estados Unidos se expande, incontrolavelmente, porque não consegue suportar as hipotecas bombeadas pelo juro alto como arma neoliberal de combate à inflação; manter tal situação, só desgasta o chefe da Casa Branca.

Trump sabe que a crise monetária de 2008, ainda não superada, demonstrou que a inflação não decorre do excesso de moeda na circulação, como argumentam os neoliberais, a exemplo do que o crash de 2008 comprovou.

Diante do colapso bancário, o FED, naquele ano, multiplicou por 4 a base monetária nos Estados Unidos.

A inflação, como teorizam os neoliberais, não aumentou; ao contrário, caiu.

Se tivesse subido, haveria estouro da base monetária e a dívida pública interna implodiria, aproximando ou superando a casa dos 100 trilhões de dolares, ou mais.

Por isso, Trump, agora, quer juro zero ou negativo, para ganhar eleição parlamentar, em novembro, a fim de dar curso a uma política econômica que barateia o crédito.

Com isso, aumentaria o consumo interno e conquistaria a classe média.

As corporações imobiliárias, setor no qual Trump impera, como o bam-bam-bam, aumentariam a oferta, vendendo mais barato.

Nesse contexto, o juro ficando na casa do zero ou negativo, Trump estabilizaria ou não a dívida pública, podendo evitar estouro financeiro, temor maior que afeta estabilidade do dólar?

EXEMPLO JAPONÊS

Trump deixa entrever que ele, na verdade, quer, para os Estados Unidos, um Banco Central tipo

japonês, que, há mais de três décadas, trabalha com déficit público acima de 200% do PIB.

As contas públicas, no Japão, não estouram devido aos juros negativos, que giram a dívida eternamente, sem perigo de implosão monetária, pelo menos até agora.

O jogo, na economia, é político, não, meramente, técnico no comando da política monetária.

Enfim, a economia política é dada pela política.

Jerome Powell, presidente do FED, ameaçado por Trump de processo criminal, vê a Independência do BC americano indo para o espaço, porque o presidente americano resolve implodir o modelo neoliberal que sustenta a financeirização especulativa, carrasca da classe média.

Qual será a resposta de Wall Street ao imperador da Casa Branca?

E como ficará, de agora em diante, o BC Independente brasileiro, que garante à Faria Lima a farra rentista que sangra o tesouro nacional em R$ 1 trilhão/ano, mantendo a economia estagnada, em banho-maria?

Trump dá uma punhalada no neoliberalismo.

 

Fonte: Outras Palavras/Brasil 247

 

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