sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Após reação da Europa, Trump recua em ameaça de tarifas contra Europa

O presidente Donald Trump cancelou as tarifas contra países europeus que se opuseram às suas ambições de anexar a Groenlândia e disse que os Estados Unidos estão explorando "um possível acordo" sobre o território após conversas com a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

A imposição de taxas de 10% sobre produtos de oito países aliados entraria em vigor em 1º de fevereiro.

O recuo foi anunciado por Trump em uma publicação na rede social na tarde desta quarta-feira (21/1).

O presidente disse que depois de uma "reunião muito produtiva" com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, eles "formularam uma estrutura" de um possível acordo com relação à Groenlândia.

"Esta solução, se concretizada, será ótima para os Estados Unidos e para todas as nações da Otan", escreveu no Truth Social, oferecendo poucos detalhes sobre o futuro acordo.

"Com base nesse entendimento, não vou impor as tarifas que entrariam em vigor em 1º de fevereiro", acrescentou.

A Otan também descreveu a reunião como "muito produtiva" e afirmou que as discussões sobre a estrutura mencionada por Trump se concentrariam em garantir a segurança do Ártico.

Horas antes, o presidente havia discursado no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. No discurso, ele disse que queria "negociações imediatas" para adquirir a Groenlândia, mas reforçou que "não usaria a força".

Trump ainda informou, na publicação na rede social, que mais informações serão disponibilizadas "à medida que as discussões avançarem" e que o vice-presidente JD Vance, o secretário de Estado, Marco Rubio e o enviado especial Steve Witkoff serão responsáveis ​​pelas negociações

"Eles se reportarão diretamente a mim", escreveu.

Após o anúncio de Trump, o ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, disse em um comunicado:

"O dia está terminando melhor do que começou."

Ele acrescentou: "Agora, vamos nos sentar e descobrir como podemos atender às preocupações de segurança dos Estados Unidos no Ártico, respeitando as linhas vermelhas do Reino da Dinamarca."

A Groenlândia é um território autônomo da Dinamarca.

Em entrevista à emissora americana CNBC, logo depois de anunciar o cancelamento das tarifas, Trump disse que existe "a possibilidade de um acordo" em discussão.

Questionado sobre o que isso implicaria, ele respondeu que é "um pouco complexo, mas explicaremos mais adiante".

O presidente americano ainda afirmou que o acordo provisório é "o tipo de acordo que queria fazer" e que o secretário-geral da Otan já entrou em contato com a Dinamarca e outros membros da aliança para discutir a proposta. Ele acrescentou que "o acordo será permanente".

Trump não especificou se minerais de terras raras serão incluídos em qualquer acordo sobre a Groenlândia, mas disse que a colaboração com a Otan e a Dinamarca fará parte dele.

Mais tarde, para a CNN, o presidente afirmou que a estrutura do acordo sobre a Groenlândia estava "bem avançada" e garantia aos EUA "tudo o que precisávamos", especialmente "verdadeira segurança nacional e segurança internacional".

O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, afirmou que não discutiu a questão crucial da soberania dinamarquesa sobre a Groenlândia em sua reunião com Trump.

Ele disse à Fox News que "o assunto não voltou a ser mencionado em minhas conversas esta noite com o presidente".

Trump havia descartado anteriormente a ideia de alugar a Groenlândia, afirmando que "você defende a propriedade. Não defende aluguéis".

<><> Controle sobre pequenas porções da Groenlândia

Segundo o jornal New York Times, o plano concederia aos EUA a posse de pequenas áreas do território, onde os americanos poderiam construir bases militares.

Funcionários que participaram de uma reunião da Otan sobre o assunto na quarta-feira disseram ao jornal que o arranjo previsto seria semelhante às bases britânicas em Chipre, que fazem parte dos Territórios Ultramarinos Britânicos.

De acordo com os acordos existentes com a Dinamarca, os EUA podem trazer quantos soldados quiserem para a Groenlândia. O país já possui mais de 100 militares permanentemente na base de Pituffik, no extremo noroeste do território.

A porta-voz da Otan, Allison Hart, disse em um comunicado que durante a reunião, Trump e Rutte "discutiram a importância crítica da segurança na região do Ártico para todos os aliados, incluindo os Estados Unidos".

"As negociações entre a Dinamarca, a Groenlândia e os Estados Unidos prosseguirão com o objetivo de garantir que a Rússia e a China nunca ganhem influência – econômica ou militar – na Groenlândia", afirmou.

¨      Merz alerta contra "mundo onde só a força importa"

O chanceler federal alemão, Friedrich Merz, afirmou nesta quinta-feira (22/01) que "um mundo onde só a força importa é um lugar perigoso", num momento em que a Rússia invadiu a Ucrânia, a China está em ascensão e os Estados Unidos estão "remodelando radicalmente sua política externa e de segurança".

"Um mundo onde só a força importa é um lugar perigoso. Primeiro para os pequenos Estados e para as potências médias; por fim, para as grandes potências. No século 20, o meu país, a Alemanha, trilhou esse caminho até seu amargo fim – e arrastou o mundo para um abismo negro", disse Merz em discurso no Fórum Econômico Mundial em Davos.

"Entramos numa era de política de grandes potências", disse Merz. "Este novo mundo de grandes potências está sendo construído sobre o poder, sobre a força e, quando necessário, sobre a coerção. Não é um lugar confortável", afirmou.

"A posição de liderança global dos Estados Unidos está sendo desafiada, e Washington reage remodelando radicalmente sua política externa e de segurança", disse.

Mas o mundo não está "à mercê" dessa nova ordem, afirmou Merz. "Temos uma escolha. Podemos moldar o futuro. Para termos sucesso, precisamos encarar a dura realidade e traçar nosso caminho com realismo lúcido."

<><> Defesa da parceria transatlântica

Aos parceiros europeus da Alemanha, Merz pediu que se adaptem rapidamente ao fato de que a velha ordem mundial está "se desfazendo num ritmo impressionante".

A invasão da Ucrânia pela Rússia marcou o início de "uma nova era, mas a mudança é muito mais profunda", disse o chanceler alemão aos líderes mundiais reunidos em Davos. "A China, com visão estratégica, conquistou seu lugar entre as grandes potências", acrescentou.

Merz instou os europeus a não descartarem a parceria transatlântica tão rapidamente. "Apesar de toda a frustração e raiva dos últimos meses, não devemos descartar a parceria transatlântica tão rapidamente", acrescentou.

"Nós, europeus, nós, alemães, sabemos como a confiança que fundamenta a Otan é preciosa", disse Merz. "Numa era de grandes potências, os Estados Unidos também dependerão dessa confiança. É a vantagem competitiva decisiva deles – e a nossa."

<><> Recuo de Trump é "o caminho certo"

Merz saudou a decisão do presidente dos EUA, Donald Trump, de recuar das ameaças de tomar a Groenlândia à força da aliada Dinamarca e a chamou de "o caminho certo".

"Qualquer ameaça de adquirir território europeu pela força seria inaceitável", disse Merz. "Novas tarifas minariam os fundamentos da relação transatlântica."

Ele também saudou o fato de os Estados Unidos estarem "levando a sério a ameaça representada pela Rússia no Ártico" e prometeu que os aliados da Otan "protegeriam conjuntamente a Dinamarca, a Groenlândia e o norte da ameaça representada pela Rússia".

¨      Dos Vikings a Trump: a história da Groenlândia

Ao discursar na quarta-feira (21/01) no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mencionou a invasão alemã da Dinamarca durante a Segunda Guerra Mundial e o fato de os EUA terem defendido a Groenlândia contra os nazistas. Ele, porém, acrescentou que os americanos foram "estúpidos" ao devolverem o território à Dinamarca, a quem chamou de "ingrata".

Na verdade, os Estados Unidos jamais tiveram qualquer soberania sobre a Groenlândia. A Dinamarca assinou um acordo em 1941 para que os americanos defendessem a ilha, mas jamais transferiu aos EUA o controle do território.

Antes de Trump manifestar seu interesse pela ilha no Círculo Polar Ártico, ela não era exatamente um foco de atenção global. Com a insistência do presidente americano de que os EUA "precisam da Groenlândia", isso mudou.

Esta, porém, não é a primeira vez que a ilha desperta interesse.

<><> Primeiros imigrantes e um viking

Há cerca de 4.500 anos, os primeiros habitantes se estabeleceram na Groenlândia. Eles vieram do continente norte-americano. No século 12, foram gradualmente substituídos por imigrantes asiáticos, da cultura Thule, que chegaram à ilha vindos da Sibéria através do Estreito de Bering. Seus descendentes são os inuítes, de quem descendem a maioria dos 56 mil habitantes da Groenlândia atual.

A ilha deve seu nome a um viking: Erik, o Vermelho. Por volta do ano 982, ele foi banido da Islândia por homicídio culposo, como registrado na Saga de Vinland. Ele e seus companheiros navegaram para o oeste em seus navios e desembarcaram na ilha ártica. Para atrair mais colonos, ele a chamou de Groenlândia – terra verde. De fato, quando os vikings a colonizaram, a ilha era verde, pelo menos ao longo da costa.

Os assentamentos dos "groenlandeses" persistiram por cerca de 400 anos, após os quais, nunca mais se ouviu falar deles. Os inuítes foram mais uma vez deixados à própria sorte. Mas as histórias sobre os nórdicos e nórdicas que supostamente viviam nas profundezas dos fiordes do sul da Groenlândia e possuíam grandes riquezas continuam a circular nos países do norte da Europa ainda hoje.

<><> Como um pastor iniciou a colonização dinamarquesa

Essas histórias também chegaram aos ouvidos do pastor norueguês Hans Egede, que tinha o desejo de encontrar os lendários vikings. Em 3 de julho de 1721, após uma viagem de dois meses, seu barco atracou na Groenlândia.

Mas, ao contrário do que esperava, o clérigo não encontrou nórdicos perdidos, mas sim, inuítes pagãos. Ele queria convertê-los ao cristianismo, pois, em sua opinião, eles precisavam desesperadamente da "civilização de suas almas". Para isso, precisava aprender sua língua e seus costumes. Como o pão era desconhecido na Groenlândia, ele simplesmente reescreveu a oração que dizia "o pão nosso de cada dia nos dai hoje" para "a foca nossa de cada dia nos dai hoje".

Três anos após sua chegada, Egede batizou a primeira criança inuíte. Ele construiu uma igreja e, com a criação do primeiro assentamento, lançou as bases para o que mais tarde se tornaria a capital, Nuuk. Uma estátua do missionário norueguês, com quem começou a inglória história colonial da Groenlândia, permanece lá desde 1922 – mesmo a contragosto de muitos inuítes.

<><> A quem pertence a Groenlândia?

Ao chegar à Groenlândia, o norueguês Egede hasteou a bandeira dinamarquesa – o que não era incorreto formalmente, já que, desde 1380, a Dinamarca e a Noruega formavam uma união que duraria até 1814. Após a dissolução, a Groenlândia permaneceu sob o domínio da coroa dinamarquesa, o que não agradou os noruegueses.

A disputa entre os dois países se intensificou quando a Noruega ocupou partes da Groenlândia em 1931 e – em homenagem a Erik, o Vermelho – denominou o território como Terra de Erik Raude. Finalmente, em 1933, a Corte Internacional de Justiça em Haia pôs fim ao conflito, ao decidir que toda a Groenlândia pertence à Dinamarca.

<><> Como os EUA se envolveram

No século 19, os EUA estavam em plena expansão. Eles haviam comprado a Louisiana dos franceses em 1803, a Flórida dos espanhóis em 1819 e o Alasca dos russos em 1867. O Secretário de Estado William Seward também queria adquirir a Groenlândia; sua localização estratégica oferecia uma possível via para anexar o Canadá. No entanto, o Congresso americano hesitou diante dos imensos custos da desabitada "região de gelo".

Em vez disso, em 1916, os EUA compraram as Índias Ocidentais Dinamarquesas – as atuais Ilhas Virgens – por 25 milhões de dólares (R$ 133 milhões). Os americanos, em troca, deram a garantia de respeitar o domínio dinamarquês sobre a Groenlândia.

Quando os alemães ocuparam a Dinamarca durante a Segunda Guerra Mundial, a ligação entre o país e a Groenlândia foi rompida. O enviado dinamarquês a Washington, Henrik Kauffman, firmou um acordo com os EUA: eles deveriam abastecer a ilha e protegê-la dos nazistas. Em troca, os americanos poderiam estabelecer estações meteorológicas e bases aéreas na ilha. Os inuítes não foram consultados.

Um ano após o fim da guerra, os EUA ofereceram à Dinamarca 100 milhões de dólares em ouro para comprar a Groenlândia, visando assegurar posição estratégica na emergente Guerra Fria. O presidente Harry S. Truman provavelmente tinha em mente a Doutrina Monroe, que afirmava que tudo no continente americano estava sujeito à influência dos EUA. Além disso, geograficamente, a Groenlândia pertencia à América do Norte. Os vastos recursos minerais da Groenlândia também tornavam a ilha atraente.

A Dinamarca, porém, rejeitou a oferta. Em 1951, os dois países firmaram um acordo em torno da Base Aérea de Thule (atual Base Espacial de Pituffik), que os americanos puderam usar sem restrições desde então.

<><> Injustiça colonial e desejo de Independência

Em 1953, a Groenlândia foi oficialmente promovida do status de colônia para o de província da Dinamarca. Foram concedidos dois assentos no Parlamento dinamarquês. Inicialmente, isso não mudou muita coisa. A Dinamarca ainda determinava o que acontecia na ilha.

Tentativas foram feitas para impor a cultura dinamarquesa à população local, já que a ilha de caçadores e pescadores deveria ser "modernizada". A cultura nômade não se encaixava nesse cenário, o que fez com que os inuítes fossem reassentados em cidades maiores.

Na década de 1950, 22 crianças inuítes foram separadas à força de seus pais e levadas para a Dinamarca. As crianças deveriam ser criadas como "dinamarquesas" e, posteriormente, assumir posições de liderança na Groenlândia. Além disso, o crescimento populacional era um problema para o governo em Copenhague, já que a manutenção da Groenlândia custava dinheiro. A contracepção forçada foi portanto praticada até a década de 1970 – às vezes sem o conhecimento das mulheres e contra sua vontade.

Somente em 1979 a ilha recebeu seu próprio parlamento e governo, embora inicialmente com poderes limitados. Em 2009, a Groenlândia se tornou praticamente autônoma. A partir de então, Copenhague só tinha permissão para decidir sobre política externa e de segurança da ilha.

Contudo, a preferência dos groenlandeses é por uma independência completa da Dinamarca – tampouco querem ser ser americanos. Segundo pesquisas recentes, 85% dos groenlandeses se opõem à anexação pelos EUA. No entanto, os ventos gelados vindos da Groenlândia não parecem até o momento ter dissuadido o presidente Trump.

 

Fonte: BBC News Mundo/DW Brasil

 

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