Após
reação da Europa, Trump recua em ameaça de tarifas contra Europa
O
presidente Donald Trump cancelou as tarifas contra países europeus que se
opuseram às suas ambições de anexar a Groenlândia e disse que os Estados Unidos
estão explorando "um possível acordo" sobre o território após
conversas com a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte).
A
imposição de taxas de 10% sobre produtos de oito países aliados entraria em
vigor em 1º de fevereiro.
O recuo
foi anunciado por Trump em uma publicação na rede social na tarde desta
quarta-feira (21/1).
O
presidente disse que depois de uma "reunião muito produtiva" com o
secretário-geral da Otan, Mark Rutte, eles "formularam uma estrutura"
de um possível acordo com relação à Groenlândia.
"Esta
solução, se concretizada, será ótima para os Estados Unidos e para todas as
nações da Otan", escreveu no Truth Social, oferecendo poucos detalhes
sobre o futuro acordo.
"Com
base nesse entendimento, não vou impor as tarifas que entrariam em vigor em 1º
de fevereiro", acrescentou.
A Otan
também descreveu a reunião como "muito produtiva" e afirmou que as
discussões sobre a estrutura mencionada por Trump se concentrariam em garantir
a segurança do Ártico.
Horas
antes, o presidente havia discursado no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na
Suíça. No discurso, ele disse que queria "negociações imediatas" para
adquirir a Groenlândia, mas reforçou que "não usaria a força".
Trump
ainda informou, na publicação na rede social, que mais informações serão
disponibilizadas "à medida que as discussões avançarem" e que o
vice-presidente JD Vance, o secretário de Estado, Marco Rubio e o enviado
especial Steve Witkoff serão responsáveis pelas negociações
"Eles
se reportarão diretamente a mim", escreveu.
Após o
anúncio de Trump, o ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Løkke
Rasmussen, disse em um comunicado:
"O
dia está terminando melhor do que começou."
Ele
acrescentou: "Agora, vamos nos sentar e descobrir como podemos atender às
preocupações de segurança dos Estados Unidos no Ártico, respeitando as linhas
vermelhas do Reino da Dinamarca."
A
Groenlândia é um território autônomo da Dinamarca.
Em
entrevista à emissora americana CNBC, logo depois de anunciar o cancelamento
das tarifas, Trump disse que existe "a possibilidade de um acordo" em
discussão.
Questionado
sobre o que isso implicaria, ele respondeu que é "um pouco complexo, mas
explicaremos mais adiante".
O
presidente americano ainda afirmou que o acordo provisório é "o tipo de
acordo que queria fazer" e que o secretário-geral da Otan já entrou em
contato com a Dinamarca e outros membros da aliança para discutir a proposta.
Ele acrescentou que "o acordo será permanente".
Trump
não especificou se minerais de terras raras serão incluídos em qualquer acordo
sobre a Groenlândia, mas disse que a colaboração com a Otan e a Dinamarca fará
parte dele.
Mais
tarde, para a CNN, o presidente afirmou que a estrutura do acordo sobre a
Groenlândia estava "bem avançada" e garantia aos EUA "tudo o que
precisávamos", especialmente "verdadeira segurança nacional e
segurança internacional".
O
secretário-geral da Otan, Mark Rutte, afirmou que não discutiu a questão
crucial da soberania dinamarquesa sobre a Groenlândia em sua reunião com Trump.
Ele
disse à Fox News que "o assunto não voltou a ser mencionado em minhas
conversas esta noite com o presidente".
Trump
havia descartado anteriormente a ideia de alugar a Groenlândia, afirmando que
"você defende a propriedade. Não defende aluguéis".
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Controle sobre pequenas porções da Groenlândia
Segundo
o jornal New York Times, o plano concederia aos EUA a posse de pequenas áreas
do território, onde os americanos poderiam construir bases militares.
Funcionários
que participaram de uma reunião da Otan sobre o assunto na quarta-feira
disseram ao jornal que o arranjo previsto seria semelhante às bases britânicas
em Chipre, que fazem parte dos Territórios Ultramarinos Britânicos.
De
acordo com os acordos existentes com a Dinamarca, os EUA podem trazer quantos
soldados quiserem para a Groenlândia. O país já possui mais de 100 militares
permanentemente na base de Pituffik, no extremo noroeste do território.
A
porta-voz da Otan, Allison Hart, disse em um comunicado que durante a reunião,
Trump e Rutte "discutiram a importância crítica da segurança na região do
Ártico para todos os aliados, incluindo os Estados Unidos".
"As
negociações entre a Dinamarca, a Groenlândia e os Estados Unidos prosseguirão
com o objetivo de garantir que a Rússia e a China nunca ganhem influência –
econômica ou militar – na Groenlândia", afirmou.
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Merz alerta contra "mundo onde só a força
importa"
O
chanceler federal alemão, Friedrich Merz, afirmou nesta quinta-feira (22/01)
que "um mundo onde só a força importa é um lugar perigoso", num
momento em que a Rússia invadiu a Ucrânia, a China está em ascensão e os
Estados Unidos estão "remodelando radicalmente sua política externa e de
segurança".
"Um
mundo onde só a força importa é um lugar perigoso. Primeiro para os pequenos
Estados e para as potências médias; por fim, para as grandes potências. No
século 20, o meu país, a Alemanha, trilhou esse caminho até seu amargo fim – e
arrastou o mundo para um abismo negro", disse Merz em discurso no Fórum
Econômico Mundial em Davos.
"Entramos
numa era de política de grandes potências", disse Merz. "Este novo
mundo de grandes potências está sendo construído sobre o poder, sobre a força
e, quando necessário, sobre a coerção. Não é um lugar confortável",
afirmou.
"A
posição de liderança global dos Estados Unidos está sendo desafiada, e
Washington reage remodelando radicalmente sua política externa e de
segurança", disse.
Mas o
mundo não está "à mercê" dessa nova ordem, afirmou Merz. "Temos
uma escolha. Podemos moldar o futuro. Para termos sucesso, precisamos encarar a
dura realidade e traçar nosso caminho com realismo lúcido."
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Defesa da parceria transatlântica
Aos
parceiros europeus da Alemanha, Merz pediu que se adaptem rapidamente ao fato
de que a velha ordem mundial está "se desfazendo num ritmo
impressionante".
A
invasão da Ucrânia pela Rússia marcou o início de "uma nova era, mas a
mudança é muito mais profunda", disse o chanceler alemão aos líderes
mundiais reunidos em Davos. "A China, com visão estratégica, conquistou
seu lugar entre as grandes potências", acrescentou.
Merz
instou os europeus a não descartarem a parceria transatlântica tão rapidamente.
"Apesar de toda a frustração e raiva dos últimos meses, não devemos
descartar a parceria transatlântica tão rapidamente", acrescentou.
"Nós,
europeus, nós, alemães, sabemos como a confiança que fundamenta a Otan é
preciosa", disse Merz. "Numa era de grandes potências, os Estados
Unidos também dependerão dessa confiança. É a vantagem competitiva decisiva
deles – e a nossa."
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Recuo de Trump é "o caminho certo"
Merz
saudou a decisão do presidente dos EUA, Donald Trump, de recuar das ameaças de
tomar a Groenlândia à força da aliada Dinamarca e a chamou de "o caminho
certo".
"Qualquer
ameaça de adquirir território europeu pela força seria inaceitável", disse
Merz. "Novas tarifas minariam os fundamentos da relação
transatlântica."
Ele
também saudou o fato de os Estados Unidos estarem "levando a sério a
ameaça representada pela Rússia no Ártico" e prometeu que os aliados da
Otan "protegeriam conjuntamente a Dinamarca, a Groenlândia e o norte da
ameaça representada pela Rússia".
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Dos Vikings a Trump: a história da Groenlândia
Ao
discursar na quarta-feira (21/01) no Fórum Econômico Mundial em Davos, na
Suíça, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mencionou a invasão alemã
da Dinamarca durante a Segunda Guerra Mundial e o fato de os EUA terem
defendido a Groenlândia contra os nazistas. Ele, porém, acrescentou que os
americanos foram "estúpidos" ao devolverem o território à Dinamarca,
a quem chamou de "ingrata".
Na
verdade, os Estados Unidos jamais tiveram qualquer soberania sobre a
Groenlândia. A Dinamarca assinou um acordo em 1941 para que os americanos
defendessem a ilha, mas jamais transferiu aos EUA o controle do território.
Antes
de Trump manifestar seu interesse pela ilha no Círculo Polar Ártico, ela não
era exatamente um foco de atenção global. Com a insistência do presidente
americano de que os EUA "precisam da Groenlândia", isso mudou.
Esta,
porém, não é a primeira vez que a ilha desperta interesse.
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Primeiros imigrantes e um viking
Há
cerca de 4.500 anos, os primeiros habitantes se estabeleceram na Groenlândia.
Eles vieram do continente norte-americano. No século 12, foram gradualmente
substituídos por imigrantes asiáticos, da cultura Thule, que chegaram à ilha
vindos da Sibéria através do Estreito de Bering. Seus descendentes são os
inuítes, de quem descendem a maioria dos 56 mil habitantes da Groenlândia
atual.
A ilha
deve seu nome a um viking: Erik, o Vermelho. Por volta do ano 982, ele foi
banido da Islândia por homicídio culposo, como registrado na Saga de Vinland.
Ele e seus companheiros navegaram para o oeste em seus navios e desembarcaram
na ilha ártica. Para atrair mais colonos, ele a chamou de Groenlândia – terra
verde. De fato, quando os vikings a colonizaram, a ilha era verde, pelo menos
ao longo da costa.
Os
assentamentos dos "groenlandeses" persistiram por cerca de 400 anos,
após os quais, nunca mais se ouviu falar deles. Os inuítes foram mais uma vez
deixados à própria sorte. Mas as histórias sobre os nórdicos e nórdicas que
supostamente viviam nas profundezas dos fiordes do sul da Groenlândia e
possuíam grandes riquezas continuam a circular nos países do norte da Europa
ainda hoje.
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Como um pastor iniciou a colonização dinamarquesa
Essas
histórias também chegaram aos ouvidos do pastor norueguês Hans Egede, que tinha
o desejo de encontrar os lendários vikings. Em 3 de julho de 1721, após uma
viagem de dois meses, seu barco atracou na Groenlândia.
Mas, ao
contrário do que esperava, o clérigo não encontrou nórdicos perdidos, mas sim,
inuítes pagãos. Ele queria convertê-los ao cristianismo, pois, em sua opinião,
eles precisavam desesperadamente da "civilização de suas almas". Para
isso, precisava aprender sua língua e seus costumes. Como o pão era
desconhecido na Groenlândia, ele simplesmente reescreveu a oração que dizia
"o pão nosso de cada dia nos dai hoje" para "a foca nossa de
cada dia nos dai hoje".
Três
anos após sua chegada, Egede batizou a primeira criança inuíte. Ele construiu
uma igreja e, com a criação do primeiro assentamento, lançou as bases para o
que mais tarde se tornaria a capital, Nuuk. Uma estátua do missionário
norueguês, com quem começou a inglória história colonial da Groenlândia,
permanece lá desde 1922 – mesmo a contragosto de muitos inuítes.
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A quem pertence a Groenlândia?
Ao
chegar à Groenlândia, o norueguês Egede hasteou a bandeira dinamarquesa – o que
não era incorreto formalmente, já que, desde 1380, a Dinamarca e a Noruega
formavam uma união que duraria até 1814. Após a dissolução, a Groenlândia
permaneceu sob o domínio da coroa dinamarquesa, o que não agradou os
noruegueses.
A
disputa entre os dois países se intensificou quando a Noruega ocupou partes da
Groenlândia em 1931 e – em homenagem a Erik, o Vermelho – denominou o
território como Terra de Erik Raude. Finalmente, em 1933, a Corte Internacional
de Justiça em Haia pôs fim ao conflito, ao decidir que toda a Groenlândia
pertence à Dinamarca.
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Como os EUA se envolveram
No
século 19, os EUA estavam em plena expansão. Eles haviam comprado a Louisiana
dos franceses em 1803, a Flórida dos espanhóis em 1819 e o Alasca dos russos em
1867. O Secretário de Estado William Seward também queria adquirir a
Groenlândia; sua localização estratégica oferecia uma possível via para anexar
o Canadá. No entanto, o Congresso americano hesitou diante dos imensos custos
da desabitada "região de gelo".
Em vez
disso, em 1916, os EUA compraram as Índias Ocidentais Dinamarquesas – as atuais
Ilhas Virgens – por 25 milhões de dólares (R$ 133 milhões). Os americanos, em
troca, deram a garantia de respeitar o domínio dinamarquês sobre a Groenlândia.
Quando
os alemães ocuparam a Dinamarca durante a Segunda Guerra Mundial, a ligação
entre o país e a Groenlândia foi rompida. O enviado dinamarquês a Washington,
Henrik Kauffman, firmou um acordo com os EUA: eles deveriam abastecer a ilha e
protegê-la dos nazistas. Em troca, os americanos poderiam estabelecer estações
meteorológicas e bases aéreas na ilha. Os inuítes não foram consultados.
Um ano
após o fim da guerra, os EUA ofereceram à Dinamarca 100 milhões de dólares em
ouro para comprar a Groenlândia, visando assegurar posição estratégica na
emergente Guerra Fria. O presidente Harry S. Truman provavelmente tinha em
mente a Doutrina Monroe, que afirmava que tudo no continente americano estava
sujeito à influência dos EUA. Além disso, geograficamente, a Groenlândia
pertencia à América do Norte. Os vastos recursos minerais da Groenlândia também
tornavam a ilha atraente.
A
Dinamarca, porém, rejeitou a oferta. Em 1951, os dois países firmaram um acordo
em torno da Base Aérea de Thule (atual Base Espacial de Pituffik), que os
americanos puderam usar sem restrições desde então.
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Injustiça colonial e desejo de Independência
Em
1953, a Groenlândia foi oficialmente promovida do status de colônia para o de
província da Dinamarca. Foram concedidos dois assentos no Parlamento
dinamarquês. Inicialmente, isso não mudou muita coisa. A Dinamarca ainda
determinava o que acontecia na ilha.
Tentativas
foram feitas para impor a cultura dinamarquesa à população local, já que a ilha
de caçadores e pescadores deveria ser "modernizada". A cultura nômade
não se encaixava nesse cenário, o que fez com que os inuítes fossem
reassentados em cidades maiores.
Na
década de 1950, 22 crianças inuítes foram separadas à força de seus pais e
levadas para a Dinamarca. As crianças deveriam ser criadas como
"dinamarquesas" e, posteriormente, assumir posições de liderança na
Groenlândia. Além disso, o crescimento populacional era um problema para o
governo em Copenhague, já que a manutenção da Groenlândia custava dinheiro.
A contracepção forçada foi portanto
praticada até a década de 1970 – às vezes sem o conhecimento das mulheres e
contra sua vontade.
Somente
em 1979 a ilha recebeu seu próprio parlamento e governo, embora inicialmente
com poderes limitados. Em 2009, a Groenlândia se tornou praticamente autônoma.
A partir de então, Copenhague só tinha permissão para decidir sobre política
externa e de segurança da ilha.
Contudo,
a preferência dos groenlandeses é por uma independência completa da
Dinamarca – tampouco querem ser ser americanos. Segundo
pesquisas recentes, 85% dos groenlandeses se opõem à anexação pelos EUA. No
entanto, os ventos gelados vindos da Groenlândia não parecem até o momento ter
dissuadido o presidente Trump.
Fonte:
BBC News Mundo/DW Brasil

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