Saúde
coletiva: One Health, cavalo de troia?
Ministério
da Saúde parece flertar com projeto que desconsidera conquistas políticas e
teóricas da Reforma Sanitária. Um artigo expõe suas origens e problemas, e
questiona: por que ele começa a ser construído sem debate com o CNS e em
parceria com entidades que se opõem ao SUS?...
A ideia
desponta, na aparência, como relevante: reconhecer a interconexão entre saúde
humana, animal e ambiental. Parece oportuna, em um momento de agravamento da
crise climática e pós-pandemia. Em especial em um país como o Brasil, terra da
maior floresta tropical do mundo e maior exportador de grãos e de carne, soa
fundamental integrar ações de Saúde com Ambiente e Agricultura.
Na
superfície, é isso que sugere a One Health, proposição culivada a partir do
início do século, por inspiração norte-americana, em organizações
internacionais como Organização Mundial da Saúde (OMS), Organização das Nações
Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), Centro de Controle e Prevenção
de Doenças dos EUA (CDC), entre outros, e apoiada pelo Banco Mundial. Ganhou
força após a pandemia de covid e passou a ser considerada pelo governo
brasileiro com mais ênfase a partir de 2024.
Mas é
preciso cautela ao adotá-la, alerta um artigo ainda em preprint, escrito por
sete pesquisadores ligados ao Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) e à
Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), com o título “One Health
como disputa de hegemonia: uma resposta na perspectiva da Saúde Coletiva”. Os
autores confrontam a abordagem estrangeira com um campo histórico de pesquisa
genuinamente brasileiro, a Saúde Coletiva.
“Nós
percebemos que esses discursos vindos da One Health não discutiam os processos
produtivos. Não discutiam, na verdade, a determinação socioambiental das
doenças. Quem faz essa discussão é a Saúde Coletiva”, argumenta Lia Giraldo da
Silva Augusto, uma das autoras do artigo, em entrevista ao Outra Saúde.
O Cebes
vem se debruçando sobre a One Health com atenção ao longo dos últimos dois
anos. O artigo, aliás, tem coautoria de seu presidente, o pesquisador da
Fiocruz Carlos Fidelis Pontes, e de uma de suas diretoras executivas, a
professora da Universidade do Distrito Federal Ana Maria Costa.
Ana
explica que o Cebes “entra nesse debate porque [a One Health] fere um princípio
que é basilar no projeto da Reforma Sanitária Brasileira, que é a matriz da
determinação social na compreensão do processo de saúde e doença. Mais que
isso, o princípio de como as desigualdades estão na base dos problemas de saúde
no Brasil, e a necessidade de criar dispositivos que possam enfrentar a
desigualdade de forma integrada”.
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Nada de novo
Não há
inovação real na One Health, argumentam os autores. Segundo o histórico traçado
pelo artigo, a ideia se fundamenta em conceitos obsoletos sobre a origem
natural das doenças, elaborados no início do século XX e largamente difundidos
a partir dos anos 1970 na América Latina por organizações estadunidenses. São
contestados há décadas pela Saúde Coletiva, por ignorar que as doenças têm
determinação social e que só é possível superá-las combatendo também as
desigualdades.
Por
que, então, o Ministério da Saúde passa a adotá-la, aparentemente de maneira
acrítica? Em 2024, meses após criar o insólito “Dia da Saúde Única”, o governo
instituiu uma comissão para elaborar o Plano de Ação Nacional de Uma Só Saúde.
Ela reuniu alguns ministérios e segmentos corporativos, como o negacionista
Conselho Federal de Medicina (CFM), mas deixou de fora os Conselhos Nacionais
de Saúde, do Meio Ambiente e da Nutrição, e não convocou pesquisadores do campo
da Saúde Coletiva. O controle social só foi chamado em um segundo momento.
A este
boletim, o epidemiologista Heleno Corrêa Filho, outro dos autores do texto,
reforça o questionamento a respeito da implementação da One Health com “atores
sociais que se comportam historicamente como adversários do SUS como
agronegócio, mineração e setores políticos defensores de privatizações.
Exemplos são a integração, ao Comitê Nacional da Saúde Única, de Conselhos
Profissionais de várias corporações; a negação da importância do Conselho
Nacional de Saúde e da própria participação social direta no controle do SUS”.
Se é
real a necessidade de integrar políticas de saúde com a preservação do meio
ambiente, se a crise climática se impõe como o maior dos desafios adiante, se
são os mais vulneráveis os primeiros a sofrerem com ela, é possível aceitar uma
concepção que passa ao largo das críticas sobre o modo de produção que gerou a
catástrofe?
“A
questão que está em jogo é a da soberania. Esse é o ponto forte do nosso
artigo, o que ele evidencia é essa questão”, pontua Lia Giraldo, “é uma ousadia
um país como o Brasil ter um Sistema Único de Saúde, universal e
participativo”.
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De onde vem a One Health
O
artigo traça uma linha do tempo desse conceito que, em português, costuma ser
chamado ora Saúde Única, ora Uma Só Saúde. A Organização Mundial de Saúde
Animal (WOAH, antiga OIE) teve importante papel em sua formulação. Criada no
início do século XX para controlar epizootias (epidemias em animais), a WOAH
trabalha em conjunto com a Organização Mundial do Comércio (OMC) para
estabelecer parâmetros no comércio de animais e produtos de origem animal.
A
abordagem One Health começou a ser pensada a partir de 2003, como uma resposta
estratégica focada principalmente em resolver problemas causados por doenças
que cruzavam fronteiras e pelos desafios sanitários que surgiam da interação
entre animais selvagens, rebanhos domésticos e populações humanas.
Nos
anos seguintes, prossegue o artigo, foram se somando outras organizações
internacionais como a OMS, a FAO, o CDC e outros órgãos. Entre os financiadores
frequentes da construção da One Health, lista o artigo, estão o Banco Mundial,
as fundações Rockefeller e Gates, dos EUA, e a Wellcome Trust, do Reino Unido.
Naquela
primeira década do século XXI, o Brasil também sediou encontros de difusão da
One Health. É interessante observar, em folder destacado pelo artigo e
reproduzido abaixo, quais eram as entidades e empresas que apoiavam o evento
One World, One Health, em outubro de 2007: entre outras, Cargill, Pfizer,
Nestlé e USAID…
Em sua
formulação, que se estendeu pela década de 2010, resgatou-se uma visão antiga e
muito criticada sobre a origem das doenças: a tríade da história natural da
doença, que inclui hospedeiro, agente e ambiente – mas ignora “a complexidade
socioambiental da determinação da
saúde-doença”, tão cara ao campo da Saúde Coletiva.
A
partir da pandemia de covid-19, a One Health foi adotada pela OMS como
estratégia global, e em 2022, criou um plano de ação conjunta para o quadriênio
2022-2026. Mas a última menção no site da Organização data de março de 2025. O
termo não foi citado no relatório especial lançado pela agência na COP-30, em
Belém.
No
entanto, no Brasil, o Plano de Ação Nacional de Uma Só Saúde segue caminhando.
Passou por uma consulta pública entre julho e agosto do ano passado, com 568
contribuições. A notícia mais recente no site do Ministério da Saúde anuncia
que, em dezembro, foi organizado na UnB o Simpósio Internacional de Uma Só
Saúde – Reino Unido e Brasil.
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Por que no Brasil?
A
crítica ao modelo biomédico esteve no embrião da chamada Reforma Sanitária
Brasileira. Segundo os pensadores da Saúde Coletiva, as doenças são
determinadas não apenas por fatores ambientais e imunológicos, mas
especialmente pelas “iniquidades sociais e as vulnerabilidades decorrentes da
pobreza, da exploração do trabalho, dos processos produtivos e ambientais”.
Na base
desse pensamento estão saberes da sociologia, economia, geografia e outras
disciplinas, mas ele não se encerra na academia: também incorpora as lutas
sociais por políticas públicas. Foi esse o pensamento que deu origem ao SUS,
com a Constituição de 1988.
O
artigo levanta, portanto, algumas questões ao governo brasileiro, que busca
incutir a One Health na formulação de políticas públicas do país:
• Por que o Ministério da Saúde do Brasil
não fez a mediação necessária e desconsiderou a importância da participação
social estabelecida no país tão fundamental na sustentação do SUS?
• Por que possibilitou que essa abordagem
fosse de modo sorrateiro e intempestivo introduzido e difundido como uma
distopia frente à política de saúde brasileira, que tem princípios e diretrizes
garantidos na Constituição Federal?
• Por que o Ministério da Saúde não fez as
gestões necessárias para adaptar a demanda da OMS (para os temas colocados nas
relações socioambientais envolvidas nas zoonoses) à formulação conceitual da
Saúde Coletiva e do SUS já que estão bem mais consolidadas no Brasil?
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Interessa ao agronegócio?
Os
autores levantam uma hipótese para a ascensão do “protagonismo tecnocrático” da
One Health no país: a influência do agronegócio na economia brasileira. Notam
que os países que assumiram posições de defesa da One Health são aqueles onde a
produção, exportação e importação de commodities agropecuárias é mais
relevante: EUA, Brasil, China e países da União Europeia.
“Para
todos esses países, o agronegócio exerce forte influência política nos governos
e precisa participar das soluções institucionais e econômicas para a
estabilidade do comércio global, desde que o modo de produção não seja mudado”,
escreve o artigo.
Na
entrevista, Heleno Corrêa acrescenta: “Eles pintam de verde suas faces públicas
com novas ONGs no palco da publicidade ‘holística’, enquanto com seus lobistas
agravam as condições de saúde das populações concentrando renda, negando
direitos e restringindo cuidados verdadeiramente integrais”.
Associações
e representantes de empresas ligadas ao agronegócio parecem, de fato, bastante
confortáveis com a One Health. A Embrapa, (Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária) empresa pública brasileira vinculada ao Ministério da
Agricultura, Pecuária e Abastecimento e cuja pesquisa está capturada para o
favorecimento dos grandes produtores rurais, é uma das principais difusoras da
ideia no Brasil.
Lia
Giraldo mostra como a One Health não toca nas questões principais relacionadas
ao meio ambiente, que incomodariam o agronegócio: “Não falam em mudar o modelo
de produção sem agrotóxico, por exemplo. Não falam como a água tóxica acaba com
a biodiversidade, acaba com as abelhas, produz doença humana, doença animal,
etc”. Ela prossegue com exemplos: “A gente viu claramente durante a pandemia de
covid-19 como os trabalhadores dos frigoríficos foram uma das categorias mais
afetadas. Ninguém discute essas questões”.
Ana
Costa complementa: “Qual é a saúde que está sendo discutida com a One Health?
Qual é o compromisso com a universalidade, com o processo, com o sistema de
atenção nos moldes do SUS constitucional? Mais ainda, com a saúde ampliada que
envolve outras políticas agrícolas, melhor distribuição de renda, políticas de
moradia decente, direitos humanos amplos, enfim, toda essa pauta que a Saúde
Coletiva convoca e que é necessária para produzir saúde dentro de um modelo de
Estado comprometido”.
Fonte:
Por Gabriela Leite, em Outra Saúde

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