Mauro
Junior Griggi: Desigualdade, sintoma do fracasso da democracia?
A
pergunta que a modernidade finge não ouvir é simples, porém fatal: quanto
abismo social um sistema de iguais consegue suportar antes de se converter em
um simulacro de soberania? O que chamamos de democracia hoje não é um projeto
ético de liberdade, mas uma tecnocracia da gestão biopolítica: o Estado
tornou-se o síndico de um condomínio de luxo cercado por periferias
existenciais, onde o voto é um signo vazio, mas a vida permanece prisioneira de
uma ontologia da sobrevivência. No Brasil, o que vemos não é uma disfunção, mas
a estrutura atingindo sua hiper-realidade: a transformação da miséria em dado
algorítmico e da política em um teatro de sombras onde o real foi devorado pela
performance.
A
desigualdade que nos consome não é um erro de percurso; é a arquitetura central
da acumulação que, conforme uma análise pikettyana, revela a contradição
fundamental do capital no século XXI. Vivemos sob uma ontologia do patrimônio,
onde a essência do ser é substituída pela herança do ter, criando uma dinâmica
onde o rendimento da riqueza acumulada asfixia a mobilidade do trabalho. Isso
mata a democracia na raiz. Quando o poder econômico se torna hereditário, o
mérito vira uma fábula metafísica e a cidadania, um simulacro jurídico. A
democracia não é apenas um rito de manipulação de signos; é, antes de tudo, uma
materialidade compartilhada. Sem o suporte do ente — pão na mesa e chão debaixo
dos pés —, a liberdade é apenas o direito de gritar no vácuo de uma existência
despojada de mundo.
Nesse
cenário, a nossa subjetividade foi colonizada. A opressão sofreu uma
transmutação ontológica: o carrasco tornou-se o próprio eu dentro de uma
“sociedade do desempenho”. Já não somos coagidos apenas por uma alteridade
soberana, mas nos autoexploramos em um regime de produtividade que alimenta a
abstração financeira. A democracia se esvazia em um solipsismo produtivo porque
o cidadão está exausto demais para habitar o espaço público. Estamos imersos em
um simulacro de autonomia, onde o sistema nos vende a ilusão do “sujeito
empreendedor”, enquanto oculta a verdade da nossa precarização absoluta. É a
vitória do mercado sobre a psique: ele não domina apenas o capital, domina o
tempo e o desejo.
O
resultado é uma fragmentação social baseada na distribuição desigual da
vulnerabilidade. A democracia operou uma clivagem ontológica: há corpos que
detêm o estatuto de humanidade protegida e corpos que são meras “vidas nuas”,
expostas ao descarte. Segundo uma análise arendtiana, a política só é possível
quando há a garantia de um “espaço de aparência” onde os sujeitos são
protegidos das necessidades biológicas imediatas. Sem essa base, o que resta
não é democracia, mas uma necropolítica orçamentária que decide quais
existências são dignas de luto e quais são meros resíduos do processo
produtivo. O neoliberalismo gere uma ontologia da morte, onde o futuro é um
privilégio de classe.
A
cultura, então, torna-se o último campo de batalha, mas imersa no simulacro,
ela corre o risco de virar apenas mercadoria simbólica. Na modernidade líquida,
até a insurreição é liquefeita em consumo. Ocupamos as redes sociais com uma
fúria mediada por interfaces, mas essa energia é capturada pelo capitalismo de
vigilância antes de tocar a estrutura material do poder. O espetáculo da
indignação substituiu a práxis política. Consumimos o ódio ao “outro” como uma
catarse estética, enquanto os verdadeiros centros de decisão operam em uma
abstração sistêmica, blindados por instituições que mimetizam a democracia para
melhor destruí-la.
Precisamos
encarar o fato de que a democracia está em um estado de metástase ontológica.
Ela não suporta a desigualdade infinita porque a desigualdade é a negação do
“ser-com”. O desafio não é apenas reformar o simulacro das instituições, mas
refundar a política sobre uma ética da alteridade. Se a política não serve para
desconstruir o abismo entre o palácio e o barraco, ela serve apenas para
conferir uma estética civilizatória à barbárie.
Portanto,
a resistência não reside na repetição de slogans vazios, mas no resgate da
espessura do real. Enquanto a desigualdade for a nossa estrutura fundamental, a
democracia será apenas o nome que damos à nossa incapacidade de habitar um
mundo comum. Romper esse ciclo exige uma ruptura metafísica: a coragem de
admitir que uma sociedade que tolera a fome enquanto diviniza o lucro já operou
sua própria autodestruição ontológica. Resta-nos a tarefa de recuperar o humano
entre os escombros do capital.
• Revolução Bolivariana resiste após ato
de guerra dos Estados Unidos contra Venezuela, diz Carlos Ron
Após
ataque dos Estados Unidos, comandado por Donald Trump, contra a Venezuela, no
último dia 3 de janeiro, que resultou no sequestro e prisão nos EUA do
Presidente Nicolás Maduro Morose e sua esposa e deputada Cilia Flores, e a
morte de cerca de 100 pessoas, entre militares e civis, a Revolução Bolivariana
segue resistindo a ofensiva dos Estados Unidos de se apropriar das reservadas
de petróleo do país e do ataque a sua soberania.
Com o
bombardeio à Venezuela Trump também ataca o direito internacional, ao usar a
força contra a integridade territorial e a independência política de um Estado,
desrespeitando a soberania e a determinação dos povos venezuelanos, o que é
condenado por Carta da Nações Unidas (ONU). Segundo Carlos Ron,
ex-vice-ministro das Relações Exteriores do governo de Nicolás Maduro para a
América do Norte e pesquisador do Instituto Tricontinental, o povo venezuelano
que apoia a revolução segue diariamente nas ruas mobilizados e exigindo a
liberdade de Maduro e Cilia Flores.
“Não
tem um dia desde o ataque, que o setor que apoia a Revolução Bolivariana não
tenha saído às ruas para exigir o retorno do Presidente Maduro e da deputada
Cilia Flores, protestado contra o ato de guerra dos Estados Unidos e prestado
homenagem ao heróis que sacrificaram suas vidas na defesa da Pátria”, conta
Carlos.
Ele
também faz um chamado aos países e a esquerda mundial para a mobilização
permanente, além de manifestações de condenação sobre as violações do direito
internacional e na exigência do retorno do Presidente Maduro e Cilia Flores
para a Venezuela, demostrando ao “mundo que a Revolução Bolivariana não está
sozinha.”
Em
solidariedade ao povo venezuelanos e denúncia contra ofensiva imperialista, no
Brasil, movimentos populares, organizações políticas e sociais convocam uma
mobilização unitária para o dia 28 de janeiro. Entre as principais pautas estão
a “liberdade para Maduro e Cília” e o “Fora Trump da América Latina — somos
Zona de Paz”.
>>>
Confira entrevista completa abaixo:
• Como está a situação da Venezuela hoje,
com a condução da vice-presidente Delcy Rodríguez, juramentada como atual presidenta, diante da
ofensiva de Donald Trump?
Após o
violento ato de guerra dos Estados Unidos contra o povo venezuelano e o
sequestro do seu Presidente e da primeira-dama, estamos numa ‘paz ativa’, ou
seja, o pais está calmo, as pessoas estão retornando a rotina, no dia 12 [de
janeiro] os estudantes voltam às aulas, mas o povo está mobilizado.
Não tem
um dia desde o ataque, que o setor que apoia a Revolução Bolivariana não tenha
saído às ruas para exigir o retorno do Presidente Maduro e da deputada Cilia
Flores, protestado contra o ato de guerra dos Estados Unidos e que não tenha
prestado homenagem ao heróis que sacrificaram suas vidas na defesa da Pátria.
Foi uma
semana de muita tristeza e indignação para o povo venezuelano, incluso para
aqueles que não eram simpatizantes do governo, mas que também não apoiam um
ataque externo contra o país. Mesmo assim, o povo confia na liderança coletiva
da Revolução Bolivariana e apoia o governo que está tomando decisões
importantes para manter a paz e a estabilidade do país.
• Quais as principais ações da Revolução
Bolivariana e do povo venezuelano para resistir as intimidações dos Estados
Unidos e libertar o presidente Nicolás Maduro e Cilia Flores, sequestrados e
presos nos EUA?
A
vice-presidenta da Republica, Delcy Rodriguez, foi juramentada como Presidenta
Encarregada, garantindo assim a continuidade administrativa e o fio
constitucional no país. Foi criada uma Comissão pela Libertação do Presidente
Nicolas Maduro e da deputada Cilia Flores, prisioneiros de guerra nos Estados
Unidos.
Também
foi anunciado sete dias de luto nacional pelos mortos durante a agressão dos
EUA. O mundo deve saber que pelo menos 100 pessoas, entre militares e civis,
incluindo 32 internacionalistas cubanos, perderam a vida durante os ataques dos
Estados Unidos em heroica resistência diante de um confronto desigual, com 150
aeronaves e tecnologia de ponta do maior exercito do mundo.
Outra
ação importante foi aprovar o decreto de Estado de Comoção Exterior permitindo
a militarização imediata da indústria petroleira e das industrias básicas,
assim como os serviços públicos do país para garantir o funcionamento; e outras
medidas básicas para manter o ordem e segurança preventiva contra um outro
ataque. A Assembleia Nacional também iniciou seu ano legislativo e apresentou
propostas para novos códigos de leis focados na “soberania cientifica e
tecnológica” e na cibersegurança para proteger o Estado diante das ameaças
estrangeiras.
• E como a Venezuela pretende agir para
resistir ao ataque contra sua soberania, recolonização e apropriação das
reservas de petróleo por companhias norte-americanas?
Consequente,
com o que tem sido a filosofia do Governo Bolivariano, a diplomacia foi
colocada de novo como prioridade. A Venezuela abriu canais de comunicação com
os EUA para conseguir vias de garantir a paz, para que o país não volte a ser
atacado, e que possa se construir relações comerciais, energéticas e
diplomáticas com respeito a soberania da Venezuela, ao mesmo tempo, também está
sendo exigido o retorno do Presidente Maduro e da deputada Flores para o país.
• Na sua opinião, o que está em jogo na
América Latina com o ataque dos Estados Unidos à Venezuela, no dia 3 de
janeiro?
Vimos
no dia 3 [de janeiro], que os Estados Unidos já não sente que precisa esconder
sua intenção de controle sobre os recursos da América Latina e que está prestes
a agir mesmo contra o direito internacional, o que considera que é legítimo
para o beneficio dos seus interesses. Isto é preocupante porque os Estados
Unidos estariam reconhecendo que não se importam com o direito internacional,
nem com o estabelecimento de regras de comportamento entre as nações.
Os EUA
privilegiam a força nas relações internacionais e isso é um precedente perigoso
para o continente. Particularmente países como Cuba, Colômbia e México já vem
sendo ameaçados e agora sabemos do que os EUA é capaz de fazer neste momento.
• Qual a avaliação da Revolução
Bolivariana sobre o posicionamento do Brasil, da Colômbia, China e Rússia sobre
a ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela?
A
Presidenta Encarregada [Delcy Rodriguez] falou com os presidentes da Colômbia e
do Brasil e explicou o caráter da agressão contra o país. É importante que
ambos os países tem se pronunciado contra esse ataque dos Estados Unidos e
expressado solidariedade com a Venezuela.
As
potencias como China e Rússia também cumpriram um papel importante no Conselho
de Segurança das Nações Unidas denunciando as ações militares dos EUA e o
sequestro do mandatário venezuelano. A todo momento, a China e Rússia tem
mostrado o seu apoio político ao governo e ao povo da Venezuela.
• No Brasil e outros países estão
ocorrendo manifestações de apoio e solidariedade ao povo venezuelano. O que
governos, movimentos populares e a esquerda da América Latina e do mundo podem
fazer para fortalecer a resistência à ofensiva dos Estados Unidos contra a
Venezuela e outros países da América Latina e Caribe?
Os
povos tem que se mobilizar diante desse crime de guerra e exigir o retorno do
Presidente Maduro e da Cilia Flores para a Venezuela. É importante condenar e
protestar sobre a violação do direito internacional e mostrar para o mundo que
a Revolução Bolivariana não está sozinha.
O povo
venezuelano vem construindo um processo importante que tem garantido a unidade
revolucionaria no momento mais perigoso da historia republicana do pais. Toda a
liderança revolucionária está apoiando o governo em unidade de Delcy Rodriguez.
Fonte:
Outras Palavras

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