quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Mauro Junior Griggi: Desigualdade, sintoma do fracasso da democracia?

A pergunta que a modernidade finge não ouvir é simples, porém fatal: quanto abismo social um sistema de iguais consegue suportar antes de se converter em um simulacro de soberania? O que chamamos de democracia hoje não é um projeto ético de liberdade, mas uma tecnocracia da gestão biopolítica: o Estado tornou-se o síndico de um condomínio de luxo cercado por periferias existenciais, onde o voto é um signo vazio, mas a vida permanece prisioneira de uma ontologia da sobrevivência. No Brasil, o que vemos não é uma disfunção, mas a estrutura atingindo sua hiper-realidade: a transformação da miséria em dado algorítmico e da política em um teatro de sombras onde o real foi devorado pela performance.

A desigualdade que nos consome não é um erro de percurso; é a arquitetura central da acumulação que, conforme uma análise pikettyana, revela a contradição fundamental do capital no século XXI. Vivemos sob uma ontologia do patrimônio, onde a essência do ser é substituída pela herança do ter, criando uma dinâmica onde o rendimento da riqueza acumulada asfixia a mobilidade do trabalho. Isso mata a democracia na raiz. Quando o poder econômico se torna hereditário, o mérito vira uma fábula metafísica e a cidadania, um simulacro jurídico. A democracia não é apenas um rito de manipulação de signos; é, antes de tudo, uma materialidade compartilhada. Sem o suporte do ente — pão na mesa e chão debaixo dos pés —, a liberdade é apenas o direito de gritar no vácuo de uma existência despojada de mundo.

Nesse cenário, a nossa subjetividade foi colonizada. A opressão sofreu uma transmutação ontológica: o carrasco tornou-se o próprio eu dentro de uma “sociedade do desempenho”. Já não somos coagidos apenas por uma alteridade soberana, mas nos autoexploramos em um regime de produtividade que alimenta a abstração financeira. A democracia se esvazia em um solipsismo produtivo porque o cidadão está exausto demais para habitar o espaço público. Estamos imersos em um simulacro de autonomia, onde o sistema nos vende a ilusão do “sujeito empreendedor”, enquanto oculta a verdade da nossa precarização absoluta. É a vitória do mercado sobre a psique: ele não domina apenas o capital, domina o tempo e o desejo.

O resultado é uma fragmentação social baseada na distribuição desigual da vulnerabilidade. A democracia operou uma clivagem ontológica: há corpos que detêm o estatuto de humanidade protegida e corpos que são meras “vidas nuas”, expostas ao descarte. Segundo uma análise arendtiana, a política só é possível quando há a garantia de um “espaço de aparência” onde os sujeitos são protegidos das necessidades biológicas imediatas. Sem essa base, o que resta não é democracia, mas uma necropolítica orçamentária que decide quais existências são dignas de luto e quais são meros resíduos do processo produtivo. O neoliberalismo gere uma ontologia da morte, onde o futuro é um privilégio de classe.

A cultura, então, torna-se o último campo de batalha, mas imersa no simulacro, ela corre o risco de virar apenas mercadoria simbólica. Na modernidade líquida, até a insurreição é liquefeita em consumo. Ocupamos as redes sociais com uma fúria mediada por interfaces, mas essa energia é capturada pelo capitalismo de vigilância antes de tocar a estrutura material do poder. O espetáculo da indignação substituiu a práxis política. Consumimos o ódio ao “outro” como uma catarse estética, enquanto os verdadeiros centros de decisão operam em uma abstração sistêmica, blindados por instituições que mimetizam a democracia para melhor destruí-la.

Precisamos encarar o fato de que a democracia está em um estado de metástase ontológica. Ela não suporta a desigualdade infinita porque a desigualdade é a negação do “ser-com”. O desafio não é apenas reformar o simulacro das instituições, mas refundar a política sobre uma ética da alteridade. Se a política não serve para desconstruir o abismo entre o palácio e o barraco, ela serve apenas para conferir uma estética civilizatória à barbárie.

Portanto, a resistência não reside na repetição de slogans vazios, mas no resgate da espessura do real. Enquanto a desigualdade for a nossa estrutura fundamental, a democracia será apenas o nome que damos à nossa incapacidade de habitar um mundo comum. Romper esse ciclo exige uma ruptura metafísica: a coragem de admitir que uma sociedade que tolera a fome enquanto diviniza o lucro já operou sua própria autodestruição ontológica. Resta-nos a tarefa de recuperar o humano entre os escombros do capital.

•        Revolução Bolivariana resiste após ato de guerra dos Estados Unidos contra Venezuela, diz Carlos Ron

Após ataque dos Estados Unidos, comandado por Donald Trump, contra a Venezuela, no último dia 3 de janeiro, que resultou no sequestro e prisão nos EUA do Presidente Nicolás Maduro Morose e sua esposa e deputada Cilia Flores, e a morte de cerca de 100 pessoas, entre militares e civis, a Revolução Bolivariana segue resistindo a ofensiva dos Estados Unidos de se apropriar das reservadas de petróleo do país e do ataque a sua soberania.

Com o bombardeio à Venezuela Trump também ataca o direito internacional, ao usar a força contra a integridade territorial e a independência política de um Estado, desrespeitando a soberania e a determinação dos povos venezuelanos, o que é condenado por Carta da Nações Unidas (ONU). Segundo Carlos Ron, ex-vice-ministro das Relações Exteriores do governo de Nicolás Maduro para a América do Norte e pesquisador do Instituto Tricontinental, o povo venezuelano que apoia a revolução segue diariamente nas ruas mobilizados e exigindo a liberdade de Maduro e Cilia Flores.

“Não tem um dia desde o ataque, que o setor que apoia a Revolução Bolivariana não tenha saído às ruas para exigir o retorno do Presidente Maduro e da deputada Cilia Flores, protestado contra o ato de guerra dos Estados Unidos e prestado homenagem ao heróis que sacrificaram suas vidas na defesa da Pátria”, conta Carlos.

Ele também faz um chamado aos países e a esquerda mundial para a mobilização permanente, além de manifestações de condenação sobre as violações do direito internacional e na exigência do retorno do Presidente Maduro e Cilia Flores para a Venezuela, demostrando ao “mundo que a Revolução Bolivariana não está sozinha.”

Em solidariedade ao povo venezuelanos e denúncia contra ofensiva imperialista, no Brasil, movimentos populares, organizações políticas e sociais convocam uma mobilização unitária para o dia 28 de janeiro. Entre as principais pautas estão a “liberdade para Maduro e Cília” e o “Fora Trump da América Latina — somos Zona de Paz”.

>>> Confira entrevista completa abaixo:

•        Como está a situação da Venezuela hoje, com a condução da vice-presidente Delcy Rodríguez,  juramentada como atual presidenta, diante da ofensiva de Donald Trump?

Após o violento ato de guerra dos Estados Unidos contra o povo venezuelano e o sequestro do seu Presidente e da primeira-dama, estamos numa ‘paz ativa’, ou seja, o pais está calmo, as pessoas estão retornando a rotina, no dia 12 [de janeiro] os estudantes voltam às aulas, mas o povo está mobilizado.

Não tem um dia desde o ataque, que o setor que apoia a Revolução Bolivariana não tenha saído às ruas para exigir o retorno do Presidente Maduro e da deputada Cilia Flores, protestado contra o ato de guerra dos Estados Unidos e que não tenha prestado homenagem ao heróis que sacrificaram suas vidas na defesa da Pátria.

Foi uma semana de muita tristeza e indignação para o povo venezuelano, incluso para aqueles que não eram simpatizantes do governo, mas que também não apoiam um ataque externo contra o país. Mesmo assim, o povo confia na liderança coletiva da Revolução Bolivariana e apoia o governo que está tomando decisões importantes para manter a paz e a estabilidade do país.

•        Quais as principais ações da Revolução Bolivariana e do povo venezuelano para resistir as intimidações dos Estados Unidos e libertar o presidente Nicolás Maduro e Cilia Flores, sequestrados e presos nos EUA?

A vice-presidenta da Republica, Delcy Rodriguez, foi juramentada como Presidenta Encarregada, garantindo assim a continuidade administrativa e o fio constitucional no país. Foi criada uma Comissão pela Libertação do Presidente Nicolas Maduro e da deputada Cilia Flores, prisioneiros de guerra nos Estados Unidos.

Também foi anunciado sete dias de luto nacional pelos mortos durante a agressão dos EUA. O mundo deve saber que pelo menos 100 pessoas, entre militares e civis, incluindo 32 internacionalistas cubanos, perderam a vida durante os ataques dos Estados Unidos em heroica resistência diante de um confronto desigual, com 150 aeronaves e tecnologia de ponta do maior exercito do mundo.

Outra ação importante foi aprovar o decreto de Estado de Comoção Exterior permitindo a militarização imediata da indústria petroleira e das industrias básicas, assim como os serviços públicos do país para garantir o funcionamento; e outras medidas básicas para manter o ordem e segurança preventiva contra um outro ataque. A Assembleia Nacional também iniciou seu ano legislativo e apresentou propostas para novos códigos de leis focados na “soberania cientifica e tecnológica” e na cibersegurança para proteger o Estado diante das ameaças estrangeiras.

•        E como a Venezuela pretende agir para resistir ao ataque contra sua soberania, recolonização e apropriação das reservas de petróleo por companhias norte-americanas?

Consequente, com o que tem sido a filosofia do Governo Bolivariano, a diplomacia foi colocada de novo como prioridade. A Venezuela abriu canais de comunicação com os EUA para conseguir vias de garantir a paz, para que o país não volte a ser atacado, e que possa se construir relações comerciais, energéticas e diplomáticas com respeito a soberania da Venezuela, ao mesmo tempo, também está sendo exigido o retorno do Presidente Maduro e da deputada Flores para o país.

•        Na sua opinião, o que está em jogo na América Latina com o ataque dos Estados Unidos à Venezuela, no dia 3 de janeiro?

Vimos no dia 3 [de janeiro], que os Estados Unidos já não sente que precisa esconder sua intenção de controle sobre os recursos da América Latina e que está prestes a agir mesmo contra o direito internacional, o que considera que é legítimo para o beneficio dos seus interesses. Isto é preocupante porque os Estados Unidos estariam reconhecendo que não se importam com o direito internacional, nem com o estabelecimento de regras de comportamento entre as nações.

Os EUA privilegiam a força nas relações internacionais e isso é um precedente perigoso para o continente. Particularmente países como Cuba, Colômbia e México já vem sendo ameaçados e agora sabemos do que os EUA é capaz de fazer neste momento.

•        Qual a avaliação da Revolução Bolivariana sobre o posicionamento do Brasil, da Colômbia, China e Rússia sobre a ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela?

A Presidenta Encarregada [Delcy Rodriguez] falou com os presidentes da Colômbia e do Brasil e explicou o caráter da agressão contra o país. É importante que ambos os países tem se pronunciado contra esse ataque dos Estados Unidos e expressado solidariedade com a Venezuela.

As potencias como China e Rússia também cumpriram um papel importante no Conselho de Segurança das Nações Unidas denunciando as ações militares dos EUA e o sequestro do mandatário venezuelano. A todo momento, a China e Rússia tem mostrado o seu apoio político ao governo e ao povo da Venezuela.

•        No Brasil e outros países estão ocorrendo manifestações de apoio e solidariedade ao povo venezuelano. O que governos, movimentos populares e a esquerda da América Latina e do mundo podem fazer para fortalecer a resistência à ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela e outros países da América Latina e Caribe?

Os povos tem que se mobilizar diante desse crime de guerra e exigir o retorno do Presidente Maduro e da Cilia Flores para a Venezuela. É importante condenar e protestar sobre a violação do direito internacional e mostrar para o mundo que a Revolução Bolivariana não está sozinha.

O povo venezuelano vem construindo um processo importante que tem garantido a unidade revolucionaria no momento mais perigoso da historia republicana do pais. Toda a liderança revolucionária está apoiando o governo em unidade de Delcy Rodriguez.

 

Fonte: Outras Palavras

 

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