Paulo
Nogueira Batista Jr: O Brasil sob risco existencial
O
ataque dos Estados Unidos à Venezuela deixa escancarado o risco que correm o
Brasil e outros países. Prevalece a lei da selva. A superpotência imperial
mostra-se plenamente disposta a usar a força militar para avançar seus
interesses. O Hemisfério Ocidental inteiro, da Groenlândia à Patagônia, passou
a ser visto, abertamente, sem disfarces, como “quintal” dos EUA.
Em
2019, publiquei um livro com o título O Brasil não cabe no quintal de ninguém.
De fato, o nosso país é um dos maiores do mundo em termos geográficos,
populacionais e econômicos. Mas repare bem, leitor ou leitora, na escolha das
palavras. Escrevi: “de fato”. Esses fatos objetivos – território, demografia e
PIB – não são suficientes. Falta-nos uma dimensão crucial da soberania: a
convicção por parte do brasileiros de que temos a obrigação de nos comportarmos
à altura das dimensões do Brasil, o que inclui, por suposto, a disposição de
resistir com energia a qualquer ameaça ou incursão vinda do exterior. E pior:
faltam-nos camadas dirigentes ligadas visceralmente ao país. A verdade é que
embora o Brasil não caiba no quintal de ninguém, grande parte da elite
brasileira cabe no quintal de qualquer um.
Alguma
dúvida? Basta lembrar um fato recente desprimoroso: todos os possíveis
candidatos da direita à presidência da República em 2026 declararam apoio à
intervenção dos EUA na Venezuela e à captura de Maduro – todos, de Tarcísio a
Flávio Bolsonaro, passando por Ratinho, Caiado e Zema. Foi mais uma
demonstração de que são candidatos não à presidente da República, mas a
vassalos de Trump. Versões tupiniquins de Javier Milei. E só isso basta para
que consideremos a eleição de 2026 como a mais importante, a mais vital de toda
a história do Brasil.
O nosso
país é não só imenso, mas dono de vastos e valiosos recursos naturais de todo o
tipo. Um país como esse é sempre alvo de cobiça estrangeira. Os EUA em
especial, tudo farão para garantir fácil acesso a esses recursos.
Com o
sequestro de Maduro e a exigência de Trump de “acesso integral” ao petróleo e
outros recursos do país, sob pena de novos ataques, ninguém mais pode em sã
consciência ignorar que o Brasil corre risco. Um risco sem precedentes. Não
somos o alvo imediato dos EUA, é verdade, não encabeçamos a fila dos que podem
ser agredidos. Outros parecem estar na nossa frente – Colômbia, Cuba,
Groenlândia, Irã. Mas a casa de um vizinho está em chamas, e o incendiário é
altamente periculoso.
Fora os
integrantes da poderosa quinta-coluna, alguém ainda se anima a negar que o
Brasil precisa se preparar militarmente? Vou mais longe: há dúvidas de que essa
preparação tem que incluir armamento nuclear? Há muito tempo, figuro entre a
minoria de brasileiros que defende prioridade para o reforço substancial do
aparato de defesa nacional. No meu livro acima citado, por exemplo, há um texto
intitulado “Brasil, um país desarmado” no qual defendo a tese de que precisamos
ser militarmente capazes, não de derrotar uma superpotência como os EUA ou
qualquer outra, mas de sinalizar de forma crível que qualquer ataque terá como
resposta a imposição de perdas expressivas ao país agressor.
Entender
essa distinção é crucial – temos que dispor de poder de dissuasão, inclusive
atômico. Acumular capacidade de dissuasão está a nosso alcance. Uma vitória
sobre uma superpotência, não. É falso, portanto, o dilema entre rendição e
capacidade de vencer uma guerra contra os EUA ou outra superpotência.
Nesse
ponto, as lições da história recente são claras e cristalinas, como raramente
são. Normalmente, o que a história ensina é ambíguo ou controvertido. Agora,
não.
Vejamos.
A Líbia foi atacada e destruída. Tinha bomba atômica? Não. O mesmo se pode
dizer da Síria, outro país nuclearmente desarmado. O mesmo do Iraque, o mesmo
do Afeganistão. A Venezuela é o exemplo mais recente. Por outro lado, a Coreia
do Norte, que conta com armas nucleares e mísseis de longo alcance, foi atacada
alguma vez? Não.
É
preciso dizer mais? Não creio, está claramente desenhado.
Confirmando
essas lições, o que ficou claro em 2025 é que o governo Trump só respeita
países que têm força bruta e capacidade de retaliar, leia-se, fundamentalmente
China e Rússia. Mesmo os aliados tradicionais são desrespeitados. Por exemplo,
os europeus, que são militarmente dependentes dos EUA, têm sido repetidamente
desrespeitados e até mesmo publicamente humilhados, como nunca antes. Uma
eventual ocupação da Groenlândia pelos EUA coroaria essa humilhação.
Em face
do contexto internacional, a nossa vulnerabilidade militar tornou-se um risco
existencial. Precisamos, urgentemente, de uma revisão completa da política de
defesa externa e um aumento dos gastos militares. É caro? Sim. Haverá “espaço
fiscal”? Temos que abrir esse espaço à força – se é que pretendemos, de fato,
viver como nação independente. Sem bravatas e sem demagogia, o Brasil deve
também aprofundar a cooperação militar com a China e a Rússia.
Acrescente-se,
para total clareza, que não se trata de defender o nosso país contra eventuais
agressões de países vizinhos e de ser “a maior potência militar da América do
Sul”. Isso é basicamente irrelevante no horizonte visível. O risco não vem do
nosso entorno geográfico imediato, mas de uma superpotência imperial ambiciosa
e agressiva.
Não
ignoro, nem subestimo as barreiras que terão de ser superadas para colocar uma
política vigorosa de defesa em marcha. Uma delas é de natureza histórica. A
verdade é que o brasileiro está muito mal acostumado. Desde 1864, no início da
Guerra do Paraguai, o território nacional não foi objeto de ataque nenhuma vez
sequer. A exceção parcial a isso foi o afundamento de navios brasileiros por
submarinos alemães no início da década de 1940, fato que levou à entrada do
Brasil na Segunda Guerra Mundial. Ancorados nessa experiência feliz, passamos o
tempo todo declarando o Brasil como um país em paz permanente, “deitado em
berço esplêndido”. Compare-se com a experiência da China e da Rússia, países
vitimados por repetidas invasões estrangeiras em grande escala. Chineses e
russos estão preparados. Para nós, o desafio atual é totalmente novo.
Como o
Brasil não é alvo imediato, precisamos tirar partido do tempo que ainda temos,
talvez apertado, para construir um poder de dissuasão apreciável e assim
superar ou pelo menos mitigar, a nossa vulnerabilidade militar.
No caso
brasileiro, a primeira tentativa do governo Trump será interferir,
provavelmente de forma intensa, nas eleições presidenciais de 2026. Eleger um
fantoche é o caminho mais rápido e eficaz para dominar o Brasil. Seria uma
vitória facílima, sem tiros. Mais uma razão para cerramos fileira em defesa da
reeleição de Lula. O meu lema agora é: “Lula? Nunca critiquei”.
Caso
sejamos bem-sucedidos na reeleição de Lula, o jogo mudará de 2027 em diante.
Virão as ameaças, as medidas unilaterais, com o objetivo de alcançar a rendição
do Brasil. Em caso de resistência nossa, não se pode descartar a agressão
militar ou ameaças pesadas de agressão.
Toda
atenção é pouca. Os Estados Unidos têm uma longa tradição imperial,
intervencionista e belicosa. Atualmente, são uma superpotência em declínio e
inconformada com a perda de poder relativo. Nada mais perigoso.
Para
nós e outros povos, the writing is on the wall, como dizem os próprios
americanos.
• O erro do Barão e a Defesa necessária ao
Brasil. Por Manuel Domingos Neto
Com o
rapto de Maduro, o flibusteiro que ainda dá as cartas no jogo internacional
estendeu a guerra à América do Sul, espaço que Washington sempre julgou
reservado para si.
Agora,
o Brasil sofre por não ter corrigido erro do cometido pelo Barão do Rio Branco
há mais de um século: agregar quase um milhão de quilômetros quadrados ao nosso
território brasileiro contando com aparato militar dependente da Alemanha.
O Barão
convenceu Hermes da Fonseca a enviar oficiais brasileiros para estagiar no
Exército do Kaiser. Inadvertidamente, ou não, nos meteu em marmotagem
dispendiosa e enganadora: introduzir modernidade militar em país arcaico.
Defesa
Nacional não se compra em balcões. Potência militar que vende material de
guerra compra a submissão do cliente.
A
ilusão de uma força militar moderna em país sem cientistas e industriais
persistiu depois da Primeira Guerra Mundial. Sob orientação de espertalhões
franceses, o Exército foi transfigurado. Obviamente, guerras contra potências
imperiais não entraram nas cogitações dos instrutores franceses e de seus
alunos. Todos estavam de olho em imaginários enfrentamentos com nossos
vizinhos. Tal perspectiva nos afundava. É inimaginável defender um país como o
Brasil sem o abraço fraterno dos sul-americanos.
Após
vultosos gastos, inclusive em estaleiros ingleses, chegamos à Segunda Guerra
incapazes de nos defender dos submarinos alemães. Para manter um mínimo de
dignidade, coube-nos integrar, subalternamente, o aparato guerreiro dos Estados
Unidos.
Findas
as hostilidades, nossas fileiras imaginaram-se extensão da OTAN, concebida pelo
Pentágono para dominar o mundo.
As
oligarquias fardadas ou de paletó detentoras das rédeas da República ignoraram
lição milenar, replicada por Maquiavel: Estado sem armas próprias fica sobre o
talante de seu provedor. O erro do Barão foi mantido.
Nas
últimas décadas, mesmo com os anúncios de transição da ordem mundial, os
senhores do Estado persistiram esbagaçando recursos públicos no balcão das
potências estrangeiras.
O envio
de soldados brasileiros aos Estados Unidos foi intensificado. Multiplicaram-se
as operações conjuntas em território nacional, inclusive na Amazônia. Oficiais
brasileiros e estadunidenses tornaram-se amigos de infância.
Eis
que, em lance rápido, na madrugada de Caracas, o flibusteiro desmoraliza a
dissuasão prometida solenemente pelas cúpulas militares: tivesse o Brasil
“capacidade de projetar força no entorno estratégico” e exercesse de fato a
liderança no subcontinente, tarefa da qual não pode escapar, o rapto de Maduro
teria ocorrido?
Ao
governo brasileiro, sobra o jus esperniandi diplomático, enquanto o noticiário
entretém o povo com a novela “Quem traiu Nicolás Maduro”.
Passa
da hora de rever os fundamentos da Defesa Nacional. Não há diplomacia
convincente desamparada de força bruta.
Sem
força bruta não há sustentação de fronteiras nacionais, ordenamentos jurídicos,
regras comerciais nem “livre circulação” por terra, mar, ar, espaço
cibernético, espaço sideral…
Força
bruta é a principal linguagem das relações interestatais. Queiramos ou não,
marcos civilizatórios são corolários da brutalidade. Liberdades, também.
A
guerra chegou, não tem data para terminar e ninguém pode prever seu resultado.
Cabe
cuidar da Defesa Nacional corrigindo o erro do Barão.
Sepultemos
as ilusões. A Política Nacional de Defesa decretada no final do ano passado
nasceu velha e fez-se pó na madrugada do último sábado.
Grandes
fabricantes estrangeiros de material de guerra não ajudarão a manter nossa
soberania. Suspendamos a gastança inútil.
Que tal
sinalizar a construção efetiva de uma nova Defesa Nacional fechando os
dispendiosos escritórios militares brasileiros em Washington e Londres?
Lula é
amado. Precisa, também, ser temido. Do contrário, coitado do Brasil.
Fonte:
Outras Palavras

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