Maria
Luiza Falcão: A onda da extrema direita na Europa e o risco para a América
Latina
Nos
últimos anos, a Europa deixou de ser um continente visto como estável e
previsível para se tornar, mais uma vez, o espelho de inquietações globais. O
avanço da extrema direita, que antes parecia limitado a surtos episódicos,
consolidou-se como força estrutural. O continente que produziu o fascismo no
século XX, agora testemunha a ascensão de partidos que, embora distintos em
muitos aspectos, compartilham a mesma lógica antidemocrática, punitivista e
autoritária. E o que observamos no Velho Continente dialoga diretamente com a
América Latina de Javier Milei, de Jair Bolsonaro e de outros líderes que, cada
um à sua maneira, traduzem regionalmente esse mal-estar mundial.
A
questão central já não é se a extrema direita pode chegar ao poder, mas por que
ela tem chegado, e o que essa expansão simultânea revela sobre o desencanto
social, a erosão dos pactos democráticos e a incapacidade das forças moderadas
de formular um horizonte concreto de esperança.
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A lição europeia: quando o centro abre o caminho para a extrema direita
O
artigo de David Broder, publicado no New York Times em três de dezembro,
intitulado "Eles deveriam salvar a Europa. Em vez disso, estão
condenando-a a horrores"(tradução livre), expõe com precisão um fenômeno
que já se tornou global: a ascensão da extrema direita costuma acontecer menos
pela força própria desses movimentos e mais pelos erros acumulados do campo
dito "centrista" ou "responsável", que ao longo dos anos se
afastou da vida real das pessoas.
Na
França, Emmanuel Macron venceu duas vezes, prometendo barrar o extremismo, mas
governou com distanciamento social, tecnocracia e um conjunto de reformas que
aprofundaram inseguranças materiais. Sua aposta numa "nação startup"
exigiu sacrifícios imediatos e prometeu recompensas futuras que nunca chegaram.
Ao insistir na reforma da previdência contra a vontade popular e ao reprimir
protestos com violência, Macron transformou o descontentamento difuso em
rejeição ativa – abrindo ainda mais espaço para Marine Le Pen.
No
Reino Unido, Keir Starmer recebeu um mandato expressivo, mas tratou esse
capital político com temor, hesitação e uma preocupação excessiva em "não
irritar" mercados e setores conservadores. Austeridade discreta, recuos
constantes, repressões mal justificadas e uma oscilação retórica sobre
imigração deixaram o governo sem alma. Isso permitiu que Nigel Farage e o
Reform UK se apresentassem como voz de autenticidade num cenário em que o
Partido Trabalhista parecia incapaz de responder ao sentimento de abandono
econômico.
Na
Alemanha, Friedrich Merz optou por fazer da remilitarização o novo pilar do
projeto nacional, numa resposta à guerra na Ucrânia e ao medo da Rússia. Essa
aposta em fortalecimento das forças armadas e na expansão da indústria bélica
não só não conteve a Alternativa para a Alemanha (AfD), como acabou reforçando
elementos de seu discurso nacionalista. A extrema direita ganhou ainda mais
legitimidade como intérprete radical de um sentimento que o próprio governo
passou a validar.
Apesar
dessas diferenças nacionais, o padrão é recorrente: quando o "centro"
adota parte da agenda da extrema direita – sobretudo no tema da imigração –
acredita que vai neutralizá-la. O que acontece é que os eleitores preferem o
original à cópia diluída. A Europa oferece, contudo, exemplos diferentes. Na
Dinamarca e, principalmente, na Espanha de Pedro Sánchez, o caminho foi outro:
políticas de proteção social, reindustrialização verde, ampliação de direitos
trabalhistas e uma narrativa clara de futuro permitiram reduzir o espaço
político dos extremistas. Esses governos demonstraram que a confiança popular
se reconstrói não por discursos contra o ódio, mas por escolhas concretas que
devolvem dignidade ao cotidiano.
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Da Europa ao Cone Sul: Milei, Bolsonaro e a tradução latino-americana do mesmo
mal-estar
Ao
atravessar o Atlântico, o fenômeno adquire tonalidades próprias, mas preserva
os mesmos fundamentos. A extrema direita latino-americana nasce do cansaço com
promessas econômicas não cumpridas, da insegurança material prolongada, da
percepção de que o "sistema" só funciona para alguns poucos e de um
mal-estar cultural que é facilmente convertido em ressentimento político.
Na
Argentina, Javier Milei ascendeu apoiado numa crise monumental, com inflação
fora de controle, salários corroídos e desgaste profundo das elites
tradicionais. Em vez de propor um pacto de reconstrução produtiva, Milei
oferece um choque ultraliberal que produz mais instabilidade, desigualdade e
incerteza. Seu discurso antissistema – ruidoso, agressivo, performático – ecoa
a lógica de líderes europeus e americanos que se apresentam como
"purificadores" das instituições, ainda que, na prática, desorganizem
deliberadamente o Estado.
No
Brasil, Jair Bolsonaro encarnou o mesmo arquétipo. Sua retórica de ruptura,
combinada com negacionismo, militarização social, desmonte ambiental e ataques
às instituições, abriu feridas profundas que seguem vivas. Mesmo derrotado nas
urnas na eleição de 2022, o bolsonarismo persiste como força social organizada,
sustentada por igrejas conservadoras, grupos armados, redes digitais e setores
empresariais interessados na desregulamentação extrema. A lógica que a América
Latina à direita e a influência de Trump sustenta não desapareceu; apenas se
reorganizou.
Além de
Milei, elo de Trump na região, e Jair Bolsonaro há outros presidentes de
direita e simpatizantes do presidente dos Estados Unidos. O paraguaio Santiago
Peña, o presidente da Bolívia, Rodrigo Paz e o equatoriano Daniel Noboa são
exemplos.
O
denominador comum entre Europa e América Latina está no fato de que a extrema
direita prospera quando a política convencional deixa de oferecer segurança
material, esperança concreta e pertencimento social. O neoliberalismo prometeu
prosperidade futura em troca de austeridade presente, mas entregou precarização
crônica, serviços públicos fragilizados, endividamento familiar e uma sensação
permanente de instabilidade. A democracia, percebida como refém de interesses
financeiros e econômicos restritos, passou a parecer distante da vida real. E,
nesse vazio, discursos que unem medo econômico, ressentimento cultural e
desinformação encontram terreno fértil.
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O que explica essa onda
O
avanço da extrema direita não é fruto de um súbito surto irracional. Ele
responde a frustrações profundas, acumuladas ao longo de décadas, e à sensação
de que o futuro foi sequestrado. Governos progressistas ou moderados abandonam
a ambição transformadora e passam a administrar a crise com a lógica da
austeridade e do medo, os extremistas emergem como supostos antídotos contra um
sistema que parece indiferente ao sofrimento cotidiano.
A
Europa demonstra que não basta denunciar o perigo; é essencial reconstruir a
confiança com políticas que melhorem a vida real das pessoas. Segurança
econômica, proteção social e investimento verde – entendidos como instrumentos
de reindustrialização, emprego e dignidade – funcionam quando são assumidos
como projeto de país, não como remendos emergenciais.
Os
exemplos de Sánchez e da Dinamarca mostram que, quando governos apresentam uma
narrativa coerente de futuro, os eleitores não precisam recorrer à destruição
para expressar sua insatisfação. O contrário também é verdade: quando a
política se limita a administrar o presente, as forças regressivas ocupam o
espaço disponível com a promessa – falsa, mas sedutora – de ruptura.
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O Brasil nesse cenário: lições de Bolsonaro e o que ainda está em jogo
O caso
brasileiro é particularmente ilustrativo. Vivemos quatro anos de um governo que
testou os limites institucionais, estimulou a violência política e promoveu
retrocessos sociais, ambientais e democráticos. A derrota eleitoral de
Bolsonaro por Lula foi decisiva, mas não eliminou o fenômeno. O bolsonarismo
persiste como estrutura social e cultural, organizado em redes de apoio, mídias
alternativas, segmentos religiosos, corporações armadas e nichos empresariais.
A
experiência europeia é clara: derrotar eleitoralmente a extrema direita não
basta. Sem políticas robustas de inclusão, redistribuição e desenvolvimento
sustentável, as condições que alimentam esse campo se mantêm intactas e podem
reemergir com força ainda maior.
O
desafio brasileiro é, portanto, pensar além da defesa institucional imediata. É
necessário reconstruir um pacto social e econômico que devolva previsibilidade,
melhore salários, amplie direitos e enfrente privilégios. Sem isso, o discurso
autoritário encontrará novamente espaço para se instalar, especialmente entre
os mais jovens, os mais precarizados e os mais desiludidos com a política
tradicional.
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Entre 1930 e 2030: um futuro ainda em disputa
Broder
lembra que a década de 2030 poderá testemunhar uma Europa em que a extrema
direita governa países centrais, mas num formato diferente do fascismo
clássico. Não se trata de imaginar marchas uniformizadas, mas sim Estados
tecnocráticos endurecidos, fronteiras violentas, vigilância digital,
militarização cotidiana, erosão de direitos sociais e criminalização seletiva
de dissidentes. Essa distopia não é fantasia. É o desdobramento lógico de
tendências já em curso. E, na América Latina, onde desigualdades, violência e
fragilidade institucional convivem com cobiça internacional sobre nossos
recursos naturais, o risco é ainda maior.
Nada
disso, porém, é inevitável. A experiência demonstra que projetos de futuro
inclusivo, capazes de combinar justiça econômica, inovação produtiva e proteção
ambiental, podem conter o avanço regressivo. A democracia não se defende apenas
com alertas, mas com coragem política, imaginação social e reformas que voltem
a colocar o bem-estar da maioria no centro da vida pública.
O mundo
está entrando numa década decisiva. A Europa está nos mostrando como um espelho
– ora sombrio, ora luminoso – o que pode acontecer conosco. Cabe às lideranças
democráticas escolher qual lado da história desejam ocupar.
• Luiz Eduardo Simões de Souza: A Europa
hipnotizada – a escalada da extrema direita
Às
vezes me perguntam por que desisti de certos temas. Às vezes me pergunto o
mesmo sobre outros. Falta-me, não raro, a coragem ou a desfaçatez de indagá-lo.
Enfim, entrando na entressafra das atividades do varejo, no recesso comercial
do ano, vamos oferecer uma resposta de graça, mesmo sem a demanda: desisti de
falar da União Europeia, Zona do Euro, ou que o valha. Larguei mão. Joguei a
toalha.
Como
alguns outros tantos assuntos, dificilmente voltarei a ele. Não por ausência do
que dizer. Mas pelo pudor que me acometeu ao perceber o esvaziamento da
relevância do tema. Tirando um papel coadjuvante, quase um cameo, uma
figuração, em dois conflitos, a Europa se encontra com seu papel completamente
esgotado como player. Ou mesmo como assunto. Traz pouquíssima, quando não
nenhuma, novidade à pauta.
Livros,
como o de Milton Blay, A Europa hipnotizada: a escalada da extrema-direita tem
um significativo papel na diagnose dessa condição. Não por eventuais deméritos.
Justamente pelo contrário. Milton Blay está certíssimo. A metáfora que intitula
seu livro de pequenos ensaios, e que nomeia um deles, é mais do que adequada.
Serve como chave para entender essa vecchia signora em transe.
É
importante pontuar que Milton Blay não se limita a uma ou duas dimensões de
análise no fenômeno escolhido. Isso faz de A Europa hipnotizada um livro
substancioso de conteúdo, informação e significado. Sua polifonia o afasta
irremediavelmente da chatice ao abordar temas que vão da ascensão da extrema
direita às visões do Brasil do golpe de 2016; das contradições nada
surpreendentes do ocidentalismo à inevitável
nostalgia causada pelo rastelo que está a passar inexoravelmente por uma
série de ícones culturais, física e/ou simbolicamente, como sói acontecer.
Milton Blay se apresenta na posição de cronista sensível que observa o ocaso de
uma civilização de lugar favorável. Sorte a nossa, que podemos lê-lo.
A
adesão crescente da Europa à extrema-direita revela, talvez de forma ainda mais
perturbadora, não apenas um deslocamento político, mas uma ruptura ativa com a
própria experiência histórica que o continente acumulou a duras penas ao longo
do século XX. Ao flertar novamente com discursos de exclusão, pureza
identitária e soluções autoritárias, a Europa parece agir como se não tivesse
aprendido nada com o colapso civilizatório que ela mesma engendrou, como se
Auschwitz, Guernica, os campos, os exílios e as ruínas fossem episódios
externos, alheios, quase importados.
Trata-se
menos de um retorno do passado do que de uma amnésia conveniente, na qual a
memória histórica deixa de funcionar como advertência e passa a ser tratada
como ornamento retórico, mobilizado seletivamente. Nesse movimento, a Europa
não apenas renega suas promessas iluministas e sociais do pós-guerra, mas
abdica do único capital político que ainda lhe restava, a capacidade de
aprender com a própria catástrofe.
Ao
fazer da exceção a regra e do medo um método, o continente aprofunda sua
desconexão com a história que o constituiu, reforçando o estado de suspensão
que Milton Blay diagnostica com precisão.
A coisa
parece ter começado a desandar ali pelo final do século XIX, quando o
neocolonialismo e a industrialização de potências como a Alemanha unificada e o
Japão começaram a questionar a supremacia britânica. O sol não se punha no
Império. Mas parece ter torrado os miolos de muita gente por ali, abrindo
caminho para uma nova rodada de colonialismo. E tivemos a “Era da Catástrofe”,
que nos brindou com a dádiva de duas guerras entremeadas pela pior crise
econômica já vista.
A
Europa ocidental, após a Segunda Guerra (1939-1945), foi, de fato, capturada
pelos EUA. De potência, centro autoproclamado de cultura e civilização, passou
à tutela das antigas colônias do norte da América. Continente que nomearam,
como os outros três, sem perguntar aos nomeados. Correram para os braços dos
ianques, em busca de proteção frente ao avanço da outra vencedora do conflito,
a URSS.
Seu
espólio, autodeclarado “patrimônio da humanidade”, passou, de fato, à curadoria
estadunidense. Nem mesmo as iniciativas mais “globais”, por assim dizer,
passaram além da barreira dada pela OTAN, inexoravelmente presente nos momentos
de tensão durante a Guerra Fria, e eventuais espasmos nessa multipolaridade que
ora se apresenta à vista de todos. Eis aí questões humanitárias como o
genocídio na Palestina, ou o suicídio e desmanche da Ucrânia frente à Rússia e
aos EUA, para mencionarmos dois exemplos cujos corpos ainda não esfriaram.
Ainda.
Da
tutela imposta do padrão-dólar fixo de Bretton Woods à cafetinagem do dólar
flutuante decretada por Nixon em 1971, tem-se hoje uma moeda comum que, vista
em retrospectiva, denota a tentativa de estabelecer-se um cordão sanitário
frente à imigração das ex-colônias, a “invasão bárbara” temida desde a metade
do século passado. Não se sustenta no longo prazo por moto próprio, e não
parece atrair também o auxílio dos velhos cuidadores, eles mesmos já carcomidos
pela decadência inerente às potências.
A
Europa não possui mais autonomia política, econômica, ou mesmo protagonismo
cultural para além de referências pretéritas, em uma sociedade global
multipolar. Não são mais donos de suas escolhas ou do que podem pensar sobre
elas. A aposta em constituir uma Europa singular, independente, não parece ter
ressonância ou mesmo sustentação em evidências, imediatas ou remotas.
É
justamente nesse pano de fundo que o livro de Milton Blay ganha densidade
analítica. A Europa hipnotizada não descreve apenas a ascensão da extrema
direita, mas captura o estado de suspensão histórica de um continente que já
não dita os termos do mundo que ajudou a criar, e que agora apenas reage às
forças que o atravessam. Talvez por isso falar da Europa hoje não seja mais um
exercício de crítica, mas de arqueologia.
O que
parece restar à vecchia signora é seguir olhando as luzes piscando, em
auto-ilusão, enquanto a espiral segue girando, com as finanças e armas cada vez
mais controladas por China e Rússia, enquanto os EUA encontram eles mesmos seu
ocaso. A Europa já se encontra devidamente anestesiada há uma década, ou duas a
se tomar o diagnóstico de Milton Blay.
É
provável que sequer sintam o golpe de misericórdia, que talvez venhamos a
assistir. Ou ponham um ovo, quem sabe? Nem adianta estalar os dedos, como o
belo livro de Milton Blay parece ter tentado.
Fonte:
Terapia Política/A Terra é Redonda

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