segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Maria Luiza Falcão: A onda da extrema direita na Europa e o risco para a América Latina

Nos últimos anos, a Europa deixou de ser um continente visto como estável e previsível para se tornar, mais uma vez, o espelho de inquietações globais. O avanço da extrema direita, que antes parecia limitado a surtos episódicos, consolidou-se como força estrutural. O continente que produziu o fascismo no século XX, agora testemunha a ascensão de partidos que, embora distintos em muitos aspectos, compartilham a mesma lógica antidemocrática, punitivista e autoritária. E o que observamos no Velho Continente dialoga diretamente com a América Latina de Javier Milei, de Jair Bolsonaro e de outros líderes que, cada um à sua maneira, traduzem regionalmente esse mal-estar mundial.

A questão central já não é se a extrema direita pode chegar ao poder, mas por que ela tem chegado, e o que essa expansão simultânea revela sobre o desencanto social, a erosão dos pactos democráticos e a incapacidade das forças moderadas de formular um horizonte concreto de esperança.

<><> A lição europeia: quando o centro abre o caminho para a extrema direita

O artigo de David Broder, publicado no New York Times em três de dezembro, intitulado "Eles deveriam salvar a Europa. Em vez disso, estão condenando-a a horrores"(tradução livre), expõe com precisão um fenômeno que já se tornou global: a ascensão da extrema direita costuma acontecer menos pela força própria desses movimentos e mais pelos erros acumulados do campo dito "centrista" ou "responsável", que ao longo dos anos se afastou da vida real das pessoas.

Na França, Emmanuel Macron venceu duas vezes, prometendo barrar o extremismo, mas governou com distanciamento social, tecnocracia e um conjunto de reformas que aprofundaram inseguranças materiais. Sua aposta numa "nação startup" exigiu sacrifícios imediatos e prometeu recompensas futuras que nunca chegaram. Ao insistir na reforma da previdência contra a vontade popular e ao reprimir protestos com violência, Macron transformou o descontentamento difuso em rejeição ativa – abrindo ainda mais espaço para Marine Le Pen.

No Reino Unido, Keir Starmer recebeu um mandato expressivo, mas tratou esse capital político com temor, hesitação e uma preocupação excessiva em "não irritar" mercados e setores conservadores. Austeridade discreta, recuos constantes, repressões mal justificadas e uma oscilação retórica sobre imigração deixaram o governo sem alma. Isso permitiu que Nigel Farage e o Reform UK se apresentassem como voz de autenticidade num cenário em que o Partido Trabalhista parecia incapaz de responder ao sentimento de abandono econômico.

Na Alemanha, Friedrich Merz optou por fazer da remilitarização o novo pilar do projeto nacional, numa resposta à guerra na Ucrânia e ao medo da Rússia. Essa aposta em fortalecimento das forças armadas e na expansão da indústria bélica não só não conteve a Alternativa para a Alemanha (AfD), como acabou reforçando elementos de seu discurso nacionalista. A extrema direita ganhou ainda mais legitimidade como intérprete radical de um sentimento que o próprio governo passou a validar.

Apesar dessas diferenças nacionais, o padrão é recorrente: quando o "centro" adota parte da agenda da extrema direita – sobretudo no tema da imigração – acredita que vai neutralizá-la. O que acontece é que os eleitores preferem o original à cópia diluída. A Europa oferece, contudo, exemplos diferentes. Na Dinamarca e, principalmente, na Espanha de Pedro Sánchez, o caminho foi outro: políticas de proteção social, reindustrialização verde, ampliação de direitos trabalhistas e uma narrativa clara de futuro permitiram reduzir o espaço político dos extremistas. Esses governos demonstraram que a confiança popular se reconstrói não por discursos contra o ódio, mas por escolhas concretas que devolvem dignidade ao cotidiano.

<><> Da Europa ao Cone Sul: Milei, Bolsonaro e a tradução latino-americana do mesmo mal-estar

Ao atravessar o Atlântico, o fenômeno adquire tonalidades próprias, mas preserva os mesmos fundamentos. A extrema direita latino-americana nasce do cansaço com promessas econômicas não cumpridas, da insegurança material prolongada, da percepção de que o "sistema" só funciona para alguns poucos e de um mal-estar cultural que é facilmente convertido em ressentimento político.

Na Argentina, Javier Milei ascendeu apoiado numa crise monumental, com inflação fora de controle, salários corroídos e desgaste profundo das elites tradicionais. Em vez de propor um pacto de reconstrução produtiva, Milei oferece um choque ultraliberal que produz mais instabilidade, desigualdade e incerteza. Seu discurso antissistema – ruidoso, agressivo, performático – ecoa a lógica de líderes europeus e americanos que se apresentam como "purificadores" das instituições, ainda que, na prática, desorganizem deliberadamente o Estado.

No Brasil, Jair Bolsonaro encarnou o mesmo arquétipo. Sua retórica de ruptura, combinada com negacionismo, militarização social, desmonte ambiental e ataques às instituições, abriu feridas profundas que seguem vivas. Mesmo derrotado nas urnas na eleição de 2022, o bolsonarismo persiste como força social organizada, sustentada por igrejas conservadoras, grupos armados, redes digitais e setores empresariais interessados na desregulamentação extrema. A lógica que a América Latina à direita e a influência de Trump sustenta não desapareceu; apenas se reorganizou.

Além de Milei, elo de Trump na região, e Jair Bolsonaro há outros presidentes de direita e simpatizantes do presidente dos Estados Unidos. O paraguaio Santiago Peña, o presidente da Bolívia, Rodrigo Paz e o equatoriano Daniel Noboa são exemplos.

O denominador comum entre Europa e América Latina está no fato de que a extrema direita prospera quando a política convencional deixa de oferecer segurança material, esperança concreta e pertencimento social. O neoliberalismo prometeu prosperidade futura em troca de austeridade presente, mas entregou precarização crônica, serviços públicos fragilizados, endividamento familiar e uma sensação permanente de instabilidade. A democracia, percebida como refém de interesses financeiros e econômicos restritos, passou a parecer distante da vida real. E, nesse vazio, discursos que unem medo econômico, ressentimento cultural e desinformação encontram terreno fértil.

<><> O que explica essa onda

O avanço da extrema direita não é fruto de um súbito surto irracional. Ele responde a frustrações profundas, acumuladas ao longo de décadas, e à sensação de que o futuro foi sequestrado. Governos progressistas ou moderados abandonam a ambição transformadora e passam a administrar a crise com a lógica da austeridade e do medo, os extremistas emergem como supostos antídotos contra um sistema que parece indiferente ao sofrimento cotidiano.

A Europa demonstra que não basta denunciar o perigo; é essencial reconstruir a confiança com políticas que melhorem a vida real das pessoas. Segurança econômica, proteção social e investimento verde – entendidos como instrumentos de reindustrialização, emprego e dignidade – funcionam quando são assumidos como projeto de país, não como remendos emergenciais.

Os exemplos de Sánchez e da Dinamarca mostram que, quando governos apresentam uma narrativa coerente de futuro, os eleitores não precisam recorrer à destruição para expressar sua insatisfação. O contrário também é verdade: quando a política se limita a administrar o presente, as forças regressivas ocupam o espaço disponível com a promessa – falsa, mas sedutora – de ruptura.

<><> O Brasil nesse cenário: lições de Bolsonaro e o que ainda está em jogo

O caso brasileiro é particularmente ilustrativo. Vivemos quatro anos de um governo que testou os limites institucionais, estimulou a violência política e promoveu retrocessos sociais, ambientais e democráticos. A derrota eleitoral de Bolsonaro por Lula foi decisiva, mas não eliminou o fenômeno. O bolsonarismo persiste como estrutura social e cultural, organizado em redes de apoio, mídias alternativas, segmentos religiosos, corporações armadas e nichos empresariais.

A experiência europeia é clara: derrotar eleitoralmente a extrema direita não basta. Sem políticas robustas de inclusão, redistribuição e desenvolvimento sustentável, as condições que alimentam esse campo se mantêm intactas e podem reemergir com força ainda maior.

O desafio brasileiro é, portanto, pensar além da defesa institucional imediata. É necessário reconstruir um pacto social e econômico que devolva previsibilidade, melhore salários, amplie direitos e enfrente privilégios. Sem isso, o discurso autoritário encontrará novamente espaço para se instalar, especialmente entre os mais jovens, os mais precarizados e os mais desiludidos com a política tradicional.

<><> Entre 1930 e 2030: um futuro ainda em disputa

Broder lembra que a década de 2030 poderá testemunhar uma Europa em que a extrema direita governa países centrais, mas num formato diferente do fascismo clássico. Não se trata de imaginar marchas uniformizadas, mas sim Estados tecnocráticos endurecidos, fronteiras violentas, vigilância digital, militarização cotidiana, erosão de direitos sociais e criminalização seletiva de dissidentes. Essa distopia não é fantasia. É o desdobramento lógico de tendências já em curso. E, na América Latina, onde desigualdades, violência e fragilidade institucional convivem com cobiça internacional sobre nossos recursos naturais, o risco é ainda maior.

Nada disso, porém, é inevitável. A experiência demonstra que projetos de futuro inclusivo, capazes de combinar justiça econômica, inovação produtiva e proteção ambiental, podem conter o avanço regressivo. A democracia não se defende apenas com alertas, mas com coragem política, imaginação social e reformas que voltem a colocar o bem-estar da maioria no centro da vida pública.

O mundo está entrando numa década decisiva. A Europa está nos mostrando como um espelho – ora sombrio, ora luminoso – o que pode acontecer conosco. Cabe às lideranças democráticas escolher qual lado da história desejam ocupar.

•        Luiz Eduardo Simões de Souza: A Europa hipnotizada – a escalada da extrema direita

Às vezes me perguntam por que desisti de certos temas. Às vezes me pergunto o mesmo sobre outros. Falta-me, não raro, a coragem ou a desfaçatez de indagá-lo. Enfim, entrando na entressafra das atividades do varejo, no recesso comercial do ano, vamos oferecer uma resposta de graça, mesmo sem a demanda: desisti de falar da União Europeia, Zona do Euro, ou que o valha. Larguei mão. Joguei a toalha.

Como alguns outros tantos assuntos, dificilmente voltarei a ele. Não por ausência do que dizer. Mas pelo pudor que me acometeu ao perceber o esvaziamento da relevância do tema. Tirando um papel coadjuvante, quase um cameo, uma figuração, em dois conflitos, a Europa se encontra com seu papel completamente esgotado como player. Ou mesmo como assunto. Traz pouquíssima, quando não nenhuma, novidade à pauta.

Livros, como o de Milton Blay, A Europa hipnotizada: a escalada da extrema-direita tem um significativo papel na diagnose dessa condição. Não por eventuais deméritos. Justamente pelo contrário. Milton Blay está certíssimo. A metáfora que intitula seu livro de pequenos ensaios, e que nomeia um deles, é mais do que adequada. Serve como chave para entender essa vecchia signora em transe.

É importante pontuar que Milton Blay não se limita a uma ou duas dimensões de análise no fenômeno escolhido. Isso faz de A Europa hipnotizada um livro substancioso de conteúdo, informação e significado. Sua polifonia o afasta irremediavelmente da chatice ao abordar temas que vão da ascensão da extrema direita às visões do Brasil do golpe de 2016; das contradições nada surpreendentes do ocidentalismo à inevitável  nostalgia causada pelo rastelo que está a passar inexoravelmente por uma série de ícones culturais, física e/ou simbolicamente, como sói acontecer. Milton Blay se apresenta na posição de cronista sensível que observa o ocaso de uma civilização de lugar favorável. Sorte a nossa, que podemos lê-lo.

A adesão crescente da Europa à extrema-direita revela, talvez de forma ainda mais perturbadora, não apenas um deslocamento político, mas uma ruptura ativa com a própria experiência histórica que o continente acumulou a duras penas ao longo do século XX. Ao flertar novamente com discursos de exclusão, pureza identitária e soluções autoritárias, a Europa parece agir como se não tivesse aprendido nada com o colapso civilizatório que ela mesma engendrou, como se Auschwitz, Guernica, os campos, os exílios e as ruínas fossem episódios externos, alheios, quase importados.

Trata-se menos de um retorno do passado do que de uma amnésia conveniente, na qual a memória histórica deixa de funcionar como advertência e passa a ser tratada como ornamento retórico, mobilizado seletivamente. Nesse movimento, a Europa não apenas renega suas promessas iluministas e sociais do pós-guerra, mas abdica do único capital político que ainda lhe restava, a capacidade de aprender com a própria catástrofe.

Ao fazer da exceção a regra e do medo um método, o continente aprofunda sua desconexão com a história que o constituiu, reforçando o estado de suspensão que Milton Blay diagnostica com precisão.

A coisa parece ter começado a desandar ali pelo final do século XIX, quando o neocolonialismo e a industrialização de potências como a Alemanha unificada e o Japão começaram a questionar a supremacia britânica. O sol não se punha no Império. Mas parece ter torrado os miolos de muita gente por ali, abrindo caminho para uma nova rodada de colonialismo. E tivemos a “Era da Catástrofe”, que nos brindou com a dádiva de duas guerras entremeadas pela pior crise econômica já vista.

A Europa ocidental, após a Segunda Guerra (1939-1945), foi, de fato, capturada pelos EUA. De potência, centro autoproclamado de cultura e civilização, passou à tutela das antigas colônias do norte da América. Continente que nomearam, como os outros três, sem perguntar aos nomeados. Correram para os braços dos ianques, em busca de proteção frente ao avanço da outra vencedora do conflito, a URSS.

Seu espólio, autodeclarado “patrimônio da humanidade”, passou, de fato, à curadoria estadunidense. Nem mesmo as iniciativas mais “globais”, por assim dizer, passaram além da barreira dada pela OTAN, inexoravelmente presente nos momentos de tensão durante a Guerra Fria, e eventuais espasmos nessa multipolaridade que ora se apresenta à vista de todos. Eis aí questões humanitárias como o genocídio na Palestina, ou o suicídio e desmanche da Ucrânia frente à Rússia e aos EUA, para mencionarmos dois exemplos cujos corpos ainda não esfriaram. Ainda.

Da tutela imposta do padrão-dólar fixo de Bretton Woods à cafetinagem do dólar flutuante decretada por Nixon em 1971, tem-se hoje uma moeda comum que, vista em retrospectiva, denota a tentativa de estabelecer-se um cordão sanitário frente à imigração das ex-colônias, a “invasão bárbara” temida desde a metade do século passado. Não se sustenta no longo prazo por moto próprio, e não parece atrair também o auxílio dos velhos cuidadores, eles mesmos já carcomidos pela decadência inerente às potências.

A Europa não possui mais autonomia política, econômica, ou mesmo protagonismo cultural para além de referências pretéritas, em uma sociedade global multipolar. Não são mais donos de suas escolhas ou do que podem pensar sobre elas. A aposta em constituir uma Europa singular, independente, não parece ter ressonância ou mesmo sustentação em evidências, imediatas ou remotas.

É justamente nesse pano de fundo que o livro de Milton Blay ganha densidade analítica. A Europa hipnotizada não descreve apenas a ascensão da extrema direita, mas captura o estado de suspensão histórica de um continente que já não dita os termos do mundo que ajudou a criar, e que agora apenas reage às forças que o atravessam. Talvez por isso falar da Europa hoje não seja mais um exercício de crítica, mas de arqueologia.

O que parece restar à vecchia signora é seguir olhando as luzes piscando, em auto-ilusão, enquanto a espiral segue girando, com as finanças e armas cada vez mais controladas por China e Rússia, enquanto os EUA encontram eles mesmos seu ocaso. A Europa já se encontra devidamente anestesiada há uma década, ou duas a se tomar o diagnóstico de Milton Blay.

É provável que sequer sintam o golpe de misericórdia, que talvez venhamos a assistir. Ou ponham um ovo, quem sabe? Nem adianta estalar os dedos, como o belo livro de Milton Blay parece ter tentado.

 

Fonte: Terapia Política/A Terra é Redonda


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