João
Filho: Brasil virou exemplo de como combater a extrema direita golpista
O 8 de
Janeiro começou muito antes de 8 de janeiro de 2023. Jair Messias Bolsonaro
iniciou o discurso golpista ainda em 2018, quando foi eleito, mas atacou o
sistema eleitoral ao alegar ter provas de que uma fraude o impediu de ter
vencido no primeiro turno.
Do
início ao fim do mandato, Bolsonaro governou com a faca no pescoço da
democracia. Os desfiles de 7 de setembro foram transformados em celebração
golpista, com bolsonaristas indo para as ruas pedir intervenção militar.
Manifestações foram convocadas para atacar o Supremo Tribunal Federal, STF. Não
houve um só dia em que a democracia não foi ameaçada pelo presidente da
República.
O 8 de
Janeiro ainda não acabou. O espírito golpista que levou pessoas a invadir e
destruir os prédios dos Três Poderes segue vivo no bolsonarismo que infesta o
parlamento. Ele ainda nos atormenta, mas há muito o que comemorar.
Nesses
três últimos anos, vimos a democracia se levantar e colocar na cadeia os
militares golpistas que lideraram a tentativa de golpe. Isso não é pouca coisa
se levarmos em conta que este é um país que historicamente passou pano para
golpistas.
Os
militares de alta patente, dessa vez, não se safaram – 19 deles foram presos. A
alta cúpula pegou, cada um, em torno de 20 anos de cadeia em regime fechado. O
ex-presidente já está enjaulado e com uma pena de 27 anos para cumprir.
Para um
país que anistiou os responsáveis por um regime assassino e torturador, é um
avanço e tanto julgar, condenar e prender golpistas. É importante dizer que
esses golpistas do 8 de Janeiro são fruto da anistia de 1979. As condenações
são — me perdoem o clichê — um recado que precisava ser dado para a história.
Foram
1.734 ações penais e 810 réus condenados, sendo 395 deles por crimes graves e
outros 415 por delitos de menor gravidade. O domingo no parque saiu caro para
muita gente.
Outro
fato importante a destacar é que foram homologados 564 acordos de não
persecução penal para os autores de infrações menores. Isso mostra que a
gritaria pelas “senhorinhas de bíblia na mão” é pura balela. Elas praticamente
foram anistiadas. Tiveram apenas que pagar uma multa de R$ 5 mil – e só quem
tivesse condições de pagar –, não poderão usar redes sociais por dois anos e
terão que fazer um curso sobre democracia no Ministério Público. Convenhamos, é
muito pouco para quem saiu de casa para incitar uma intervenção militar.
Nem
essa aberração, chamada PL da Dosimetria, aprovada pelo mesmo grupo político
que incitou a tentativa de golpe, vai manchar esse marco da democracia
brasileira.
Muito
se falou na existência de um acordão entre STF, governo e Congresso para
reduzir a pena dos condenados do 8 de Janeiro, inclusive a cúpula militar e
Jair Bolsonaro. Mas isso não ficou tão claro como foi alardeado.
Diferentes
veículos de imprensa apuraram que houve conversas entre ministros do STF e
parlamentares defensores do PL para a construção de um texto consensual. A
intenção seria apaziguar os ânimos entre os poderes.
Os
ministros acenaram favoravelmente a reduzir penas sob a condição de se analisar
cada caso individualmente. Isso significa que os efeitos do projeto de lei não
serão automáticos para todos os réus, mas avaliados caso a caso, a critério do
relator, Alexandre de Moraes.
Querer
apaziguar os ânimos com golpista, de fato, é inaceitável, mas está longe de ser
um acordo por uma “anistia disfarçada” como se pintou por aí. O STF buscou esse
distensionamento institucional justamente em um momento em que parte dos
ministros passa por questionamentos sobre proximidade com Daniel Vorcaro e
viagens em jatinhos ligadas ao PCC.
Não tem
como isso ser bom. De qualquer modo, o fato é que não haverá anistia para os
golpistas. É inimaginável que Alexandre de Moraes decida reduzir drasticamente
as penas dos líderes do golpe. O provável é que Jair Bolsonaro e seus capangas
militares continuem com penas pesadas, mas as “senhorinhas de bíblia na mão”
tenham as suas reduzidas.
Aos
trancos e barrancos, o Brasil conseguiu manter a democracia de pé. Não corremos
o risco de ver o criminoso Jair Bolsonaro disputando e ganhando outra eleição,
como aconteceu com Trump nos Estados Unidos depois da invasão ao Capitólio.
“Apesar
de todas as suas falhas, a democracia brasileira é hoje mais saudável do que a
americana”, escreveu o professor de Harvard Steven Levitsky, autor de Como as
Democracias Morrem, em um artigo para o New York Times. O Brasil se tornou um
exemplo de como combater essa nova extrema direita que ameaça as democracias.
As
condenações do 8 de Janeiro são motivo de orgulho, mas não deitemos eternamente
em berço esplêndido. O espírito golpista segue vivo em muitas mentes e
corações. Nós, os democratas, não podemos mais baixar a guarda. A prisão de
militares e do ex-presidente foi um enorme recado dado, mas não nos esqueçamos
que a defesa da democracia é uma obra diária, feita de memória, justiça e
vigilância.
• Exército se recusa a entregar dados
sobre munições que poderiam solucionar homicídios. Por Thalys Alcântara
O
Exército Brasileiro não quer informar dados de vendas de munições de armas de
fogo que podem ajudar na investigação de assassinatos e outros crimes. Mesmo
depois de ser cobrado pela Controladoria-Geral da União, a CGU, o Exército vem
resistindo, alegando desde questões de segurança a sigilo comercial.
A série
de recusas começou em 2023, após um pedido de acesso à informação feito pelo
Instituto Sou da Paz, organização da sociedade civil da área de segurança
pública. Na época, foram solicitadas informações sobre os códigos de
rastreabilidade de munições vendidas pela Companhia Brasileira de Cartuchos, a
CBC.
A CBC é
uma empresa privada que produz quase todas as munições compradas por forças
policiais no país. Cada munição fabricada deve ter um código de cinco dígitos,
o que permite rastrear a origem de balas usadas em crimes, por exemplo.
Quando
a juíza Patrícia Acioli foi assassinada com 21 tiros na noite de 11 de agosto
de 2011, em Niterói, no Rio de Janeiro, foram as munições encontradas no local
do crime que permitiram a identificação dos criminosos. Eram balas compradas
pela Polícia Militar do Rio, desviadas do Batalhão de São Gonçalo. Onze
policiais foram condenados por matar a magistrada.
Na
noite de 4 de janeiro de 2013, quando sete homens foram assassinados por
criminosos encapuzados em um bar do Jardim Rosana, em São Paulo, também foram
as munições encontradas no local que ajudaram a identificar os autores dos
homicídios: policiais do Batalhão de Capão Redondo.
“Infelizmente,
ainda é comum encontrar munições desviadas de órgãos públicos em cenas de
crime. Estamos falando de insumos comprados com recursos da população para
promover segurança e que acabam sendo usados justamente para o oposto. Por
isso, a transparência ativa desses dados é essencial”, diz Bruno Langeani,
consultor sênior do Instituto Sou da Paz.
Atualmente,
a pesquisa sobre a origem de cada munição encontrada na cena de um crime
depende da decisão individual do investigador policial ou do Ministério
Público. E isso é feito de forma burocrática, com e-mail ou ofício para a CBC.
Muitas vezes, as marcações das armas e munições nem chegam a ser mencionadas
nos inquéritos, ou se são mencionadas, não têm a origem conferida.
“Tornar
essas informações públicas facilitaria não só o trabalho policial, mas também o
controle social por parte da imprensa e da sociedade, permitindo expor órgãos
recorrentes em desvios e pressioná-los por maior rigor”, avalia Langeani.
É o
Exército quem controla, recebe e organiza esses dados, fornecidos pela empresa
de armas. Basicamente, o pedido do Instituto Sou da Paz é a lista dos códigos
de rastreabilidade das munições, as datas de fabricação, de entrega e o nome do
comprador. Isso permitiria criar um banco de dados públicos para saber a origem
de munições desviadas e relacionadas a crimes.
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Proteção comercial
O
Comando do Exército apresentou diferentes justificativas para não informar as
marcações das munições da CBC.
Inicialmente,
alegou que não foi possível consolidar as informações dentro dos prazos
previstos na Lei de Acesso à Informação, a legislação que regula esse tipo de
pedido de dados públicos. Em um segundo momento, até chegou a enviar parte do
solicitado, mas apenas das munições adquiridas pelo Exército.
O
Instituto Sou da Paz recorreu, então, à CGU, que é a penúltima instância para
solicitar um dado público que vem sendo negado. A última instância é a Comissão
Mista de Reavaliação de Informações.
Em
resposta à CGU, o Exército apresentou uma nova justificativa para não informar
os dados sobre munições vendidas para a polícia.
“A
demanda apresentada pelo solicitante está relacionada a dados que possuem
potencial para impactar o sigilo comercial, com reflexos para a segurança
pública”, defendeu o Exército.
Ou
seja, as Forças Armadas usaram o sigilo comercial de uma empresa privada de
armamentos, no caso a CBC, como justificativa para não informar dados que podem
ajudar na resolução de crimes.
“A
alegação do Exército não se sustenta. O pedido de acesso se refere apenas a
informações básicas sobre quais lotes foram vendidos, para quais órgãos e em
que ano — não se trata de revelar locais de armazenamento, rotas de
distribuição ou uso operacional da munição”, afirma Langeani.
“Na
prática, negar esse tipo de dado apenas dificulta o trabalho das polícias e
protege servidores corruptos envolvidos em desvios, que continuam atuando sem
risco de exposição ou responsabilização”, aponta o consultor do Sou da Paz.
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Resistência mesmo após decisão
Atendendo
ao pedido do Sou da Paz, a CGU afirmou, em parecer de outubro de 2023, que as
informações solicitadas eram sim de interesse público.
No
entanto, uma reviravolta no caso acabou adiando o fornecimento da informação. O
Exército enviou um e-mail diretamente para a então secretária nacional de
Acesso à Informação da CGU, Ana Túlia de Macedo, questionando a decisão do
órgão.
Na
mensagem, o Exército alega que a divulgação dos dados tem potencial de impactar
o sigilo das atividades da segurança pública nas esferas federal, estaduais e
municipais. O Exército defende, no e-mail, que todas as informações sobre
produtos controlados, como armas e munições, são de caráter sigiloso.
Esse
e-mail do Exército foi enquadrado como um “recurso de incidente de correção”,
dispositivo criado por uma portaria da CGU que permite ao próprio órgão entrar
com um recurso contra decisões favoráveis à divulgação de dados públicos.
Dessa
maneira, a decisão sobre a divulgação ou não dos dados de munições da CBC ficou
para a Comissão Mista de Reavaliação de Informações, a CMRI. Essa comissão é a
última instância para pedidos de informação. Ela é controlada pela Casa Civil
da Presidência da República, mas é formada por representantes de dez
ministérios diferentes.
Esse
caso chegou na CMRI em outubro de 2024. Desde então, já foram realizadas 12
reuniões desta comissão, com divulgação da ata no site da Casa Civil. Em apenas
uma reunião, de maio deste ano, o caso foi mencionado, mas foi retirado de
pauta.
Apesar
da indefinição, o Exército disse ao Intercept que o recurso apresentado pelo
órgão foi integralmente aceito, resultando na reforma da decisão original do
pedido de informação.
“O
processo encontra-se concluído na esfera administrativa, caracterizando
trânsito em julgado administrativo, o que limita novas manifestações
específicas sobre o tema”, escreveu no e-mail o Centro de Comunicação Social do
Exército.
Por
e-mail, a Casa Civil desmentiu o Exército e informou que o caso ainda não foi
julgado na CMRI e deve entrar em pauta no começo de 2026.
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Problema antigo
A
questão da marcação de munições de armas de fogo e maior controle do
rastreamento dessas balas é um problema antigo, mas ainda sem solução.
Essa
falta de rastreabilidade das munições da CBC chegou a ser alvo de uma
investigação do Ministério Público Federal na Paraíba, porque foram
identificados lotes antigos com mais de 10 mil munições com o mesmo código, o
que inviabiliza uma investigação eficiente sobre a origem da bala. Alguns
desses lotes eram de mais de 1 milhão de munições.
Uma
reportagem do Intercept, publicada em 2019, já se debruçava sobre a falta de
controle das munições usadas em tiroteios no Rio de Janeiro.
Em
junho de 2018, o MPF da Paraíba fez uma série de recomendações para o Comando
Logístico do Exército. Uma dessas recomendações é a identificação e a
individualização mínima possível da munição para viabilização efetiva de
rastreamento. Ou seja, um número menor de munições com o mesmo código.
Uma
portaria do Exército de 2004 prevê lotes de no máximo 10 mil munições, mas para
o MPF, a tecnologia de marcação pode ser em um universo muito menor de lote,
embora não defina que tamanho ideal seria esse.
O
ex-presidente Jair Bolsonaro chegou a revogar portarias do próprio Exército, em
abril de 2020, que exigiam novos códigos de munição para identificar a origem
desse material. O ministro do STF, Alexandre de Moraes, restabeleceu essas
portarias do Exército para maior rastreabilidade de armas e munições em
setembro de 2021.
O lobby
das empresas de armas reclama de qualquer tentativa de mais controle, alegando
aumento de preço das munições e dificuldade industrial de fazer tais códigos.
Não é difícil encontrar com atiradores e profissionais da segurança pública que
defendem esses argumentos das empresas de armas.
Bruno
Langeani, do Instituto Sou da Paz, lembra que os valores de vendas de munições
para o setor público já ficam disponíveis, o que desmonta o argumento que tais
dados representam um risco de divulgados.
“Estamos
falando de munições vendidas ao poder público e que, em muitos casos, acabam
sendo usadas pelo crime — inclusive contra policiais. A proteção do sigilo
comercial não pode se sobrepor ao interesse público e à transparência”.
Fonte:
The Intercept

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