quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Como a Colômbia se tornou uma das melhores economias de 2025 e quais desafios enfrenta?

A economia da Colômbia superou as previsões mais otimistas.

O Produto Interno Bruto (PIB, soma de bens e serviços produzidos pelo país) colombiano cresceu 3,6% no terceiro trimestre de 2025, na comparação com igual trimestre do ano anterior, sua maior expansão desde o fim da pandemia e bem acima das projeções da maioria dos economistas.

Os analistas ouvidos pela agência Bloomberg esperavam um crescimento de, no máximo, 3,2%.

Segundo a revista britânica The Economist, a economia da Colômbia apresentou, em 2025, o melhor desempenho da América Latina e o quarto melhor do mundo.

A lista inclui 36 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE, organização conhecida como "clube dos países ricos"), do qual o Brasil ainda não se tornou membro.

A título de comparação, o PIB do Brasil cresceu 1,8% no terceiro trimestre, em relação a igual trimestre de 2024, metade do avanço colombiano em igual período.

Segundo José Antonio Ocampo, ex-ministro da Agricultura e da Fazenda da Colômbia e professor da Universidade Columbia (EUA), "a economia vai crescer mais do que o esperado, mesmo pelos mais otimistas, devido ao aumento do consumo público, mas também do consumo privado."

Juan Carlos Mora, presidente do Bancolombia, um dos principais bancos do país, explicou como sua instituição percebe a situação atual.

"A economia está muito melhor do que as pessoas pensam. Os empréstimos inadimplentes melhoraram substancialmente. As pessoas estão pagando mais, tanto as empresas quanto as pessoas físicas. O consumo está crescendo", resumiu.

O que está acontecendo? As coisas estão realmente indo tão bem na Colômbia? E por quanto tempo esse crescimento pode durar?

<><> O que está funcionando na economia colombiana

A retomada do crescimento após o fim da pandemia se acelerou no último ano.

"Se olharmos os números de crescimento, tudo parece estar indo bem, já que a Colômbia cresce muito perto de seu potencial, de 3%", afirmou Nicolás Barone, analista da Deloitte para a Região Andina, à BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC.

"O consumo privado registrou uma reação positiva após um desempenho um pouco mais fraco nos anos anteriores", diz Ocampo.

O emprego também apresenta números positivos.

A taxa de desemprego está em 8,2%, o menor nível histórico. "É um número mais do que bom para a Colômbia", avalia Barone.

Ocampo destaca que "a informalidade continua muito elevada, mas, quando se observa o crescimento do emprego neste ano, vê-se que três quartos dessa expansão foram de empregos formais".

Embora o retorno de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos e suas divergências com o presidente colombiano, Gustavo Petro, tenham gerado temor de que a Colômbia fosse um dos países mais afetados por tarifas, isso não se confirmou.

O país ficou sujeito à tarifa geral de 10% estabelecida para as exportações destinadas aos EUA, aplicada à maioria dos países da América Latina, e também se beneficiou da alta dos preços do café.

"O setor agropecuário tem ido bem e é um dos que empregam um número significativo de pessoas", afirma Barone.

Cultivos ilícitos, como a coca, podem ter exercido um efeito dinamizador sobre a economia, embora isso seja mais difícil de mensurar pela ausência de dados oficiais.

Os últimos meses também foram marcados pela valorização do peso frente ao dólar.

desvalorização do dólar — decorrente, entre outros fatores, das dúvidas relacionadas ao aumento da dívida pública dos EUA e à redução das taxas de juros pelo Fed (o Banco Central dos EUA) — elevou o valor relativo de várias moedas latino-americanas, entre elas o peso colombiano.

Para a Colômbia, os efeitos são ambivalentes.

"O setor agropecuário está passando por dificuldades, pois recebe menos dinheiro por suas exportações, mas também pode haver um efeito dinamizador em setores importadores", explica Barone.

<><> Os problemas da economia colombiana

Mas nem tudo são boas notícias.

"Quando se detalha um pouco o que está por trás desse crescimento da atividade, surgem sinais de alerta, porque um dos fatores que o impulsionam é um gasto público insustentável", afirma Marc Hoffstetter, da Universidade dos Andes (Colômbia).

"Os números do investimento estrangeiro estão totalmente deprimidos há vários anos, o que levanta sérias dúvidas sobre se podemos manter esse ritmo de crescimento."

Hoffstetter e outros economistas avaliam que o aumento do consumo privado pode estar ligado, em grande medida, ao elevado volume de emprego público.

Esse quadro, segundo eles, pode ser afetado quando avançar o processo de ajuste das contas públicas, considerado inadiável por muitos analistas.

As estimativas mais recentes indicam que as contas públicas da Colômbia devem fechar 2025 com um déficit em torno de 6,2% do PIB, um patamar que preocupa especialistas e autoridades.

A título de comparação, a Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado brasileiro estima que o Brasil encerre este ano com um déficit de 0,6% do PIB.

Para corrigir o déficit por meio do aumento da arrecadação, o governo de Gustavo Petro apresentou uma proposta de aumento de impostos que foi rejeitada pelo Congresso. Antes disso, ele já havia acionado a cláusula constitucional que lhe permite suspender a regra fiscal de controle do gasto público.

Ocampo alerta que "o déficit fiscal gerado pelo aumento do gasto público é o problema mais grave e, de fato, não foi enfrentado pelo governo".

O Banco da República, banco central da Colômbia, advertiu que o elevado déficit acumulado nos últimos dois anos pode contribuir para a alta dos preços e comprometer os objetivos de redução da dívida pública.

Outro ponto negativo da economia colombiana tem sido a retração da atividade e a queda dos investimentos nos setores de mineração e petróleo. Este último foi afetado tanto pela queda dos preços internacionais do petróleo quanto pelo aumento dos impostos sobre hidrocarbonetos promovido por Petro.

A inflação, cuja redução dá sinais de ter perdido fôlego, é outro dos desafios ainda pendentes da economia colombiana.

<><> Qual é a responsabilidade do governo Petro

Algumas vozes alertaram para um possível efeito catastrófico sobre a economia com a chegada ao poder de Gustavo Petro, o primeiro presidente de esquerda da história recente da Colômbia.

Mas os números não indicam um colapso da economia colombiana desde que Petro assumiu a Presidência, em 2022.

Nos últimos dois anos, seguiu uma trajetória "moderadamente positiva", segundo a consultoria Deloitte.

Petro lançou projetos de grande alcance, como a reforma trabalhista, que prevê melhorias salariais para trabalhadores formais e maiores encargos para as empresas.

Aprovada em junho de 2025, após uma tramitação tortuosa no Congresso, durante a qual o texto original foi substancialmente reduzido, a nova lei está em vigor há pouco tempo, o que dificulta a avaliação de seus efeitos.

Críticos afirmam que a medida pode prejudicar a economia ao elevar o custo do trabalho para os empregadores e destacam que ela não beneficia os trabalhadores informais do país, que formam a maioria da força de trabalho.

Para o governo, no entanto, "trata-se de uma reforma que não só protege o trabalhador, como também contribui para a consolidação do aparato produtivo do país", segundo afirmou o ministro do Trabalho, Antonio Sanguino.

Petro não conseguiu que o Congresso aprovasse várias de suas reformas tributárias, propostas com as quais pretendia ampliar a arrecadação e os recursos do Estado e que poderiam ter tido um impacto significativo sobre a economia.

Na prática, embora a economia não tenha sofrido o colapso previsto por alguns com a chegada de Petro ao poder, os economistas não atribuem ao presidente o mérito pelo bom momento.

Barone afirmou que "as bases foram lançadas muito antes, e a economia colombiana já vinha apresentando bom desempenho antes da pandemia. Embora precisasse de alguns estímulos, o investimento estava se comportando bem".

O especialista avalia que a chegada de Petro "gerou temor no empresariado e, nos últimos dois anos, o investimento diminuiu de forma considerável".

<><> O que pode acontecer a partir de agora

O futuro da Colômbia será decidido, em grande medida, nas urnas, para as quais os colombianos estão convocados em maio de 2026.

Quem quer que seja escolhido para suceder Petro, o novo presidente terá pela frente o desafio de reduzir o déficit fiscal e equilibrar as contas.

"O governo que sair eleito terá uma tarefa complexa, porque precisará fazer ajustes", afirma Ocampo.

A dimensão do corte de gastos e seu impacto potencial sobre os funcionários públicos será uma das primeiras questões incômodas que o próximo presidente colombiano terá que enfrentar.

Barone avalia que os ajustes podem ser "graduais" e que, por ora, não são necessárias "medidas drásticas".

"Estamos em um momento de alerta inicial", resume o especialista.

Se corrigir o déficit fiscal e mantiver a confiança dos mercados, a Colômbia poderá seguir na trajetória de crescimento dos últimos anos, que lhe permitiu reduzir a informalidade e a desigualdade, dois de seus principais problemas estruturais.

Ocampo acredita que o país se beneficiou do fato de que, nos últimos anos, ficou claro que "na Colômbia, as instituições funcionam. Há uma separação de Poderes e, nesse sentido, estamos nos tornando mais parecidos com o Peru".

"A perspectiva para a Colômbia em 2026 é de otimismo cauteloso", conclui Barone.

¨      O que é e quanto poder tem o Clã do Golfo, maior grupo criminoso da Colômbia, incluído na lista de organizações terroristas pelos EUA

O Exército Gaitanista da Colômbia (EGC), mais conhecido como Clã do Golfo, foi designado como organização terrorista estrangeira pelo Departamento de Estado norte-americano.

"É uma organização violenta e poderosa, com milhares de integrantes. Sua principal fonte de renda é o tráfico de cocaína, usado para financiar suas atividades violentas", afirma um comunicado do órgão chefiado por Marco Rubio.

Originado de remanescentes do paramilitarismo dos anos 1990, o EGC, que afirma ter motivações políticas, é considerado o grupo criminoso mais poderoso da Colômbia.

É a quarta organização armada colombiana incluída pelos Estados Unidos na lista de organizações terroristas estrangeiras, ao lado do Exército de Libertação Nacional (ELN), das Farc-EP e da Segunda Marquetalia — essas duas últimas, dissidências das Farc que se desmobilizou após o acordo de paz de 2016.

A decisão de Washington ocorre em um momento de alta tensão na América Latina.

Desde setembro, militares norte-americanos têm atacado dezenas de embarcações supostamente ligadas ao narcotráfico no Caribe e no Pacífico sul-americano, deixando ao menos 95 mortos.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem reiterado que a campanha contra o narcotráfico em breve incluirá ações terrestres na Venezuela.

Trump acusa o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, de liderar uma organização criminosa chamada Cartel dos Sóis, o que Maduro nega.

O líder americano também não descartou a possibilidade de ataques em território colombiano — o que gerou fortes críticas do presidente Gustavo Petro, recentemente sancionado pelos EUA por supostos vínculos com o narcotráfico.

O Clã do Golfo, por sua vez, está em negociações com o governo Petro como parte da estratégia de "paz total".

A designação do grupo como organização terrorista por parte dos Estados Unidos parece colocar todo esse contexto em suspenso.

<><> O que é e como surgiu o Clã do Golfo

A extensa região do Urabá, na fronteira com o Panamá e em torno de um golfo com saída para o Caribe, foi dominada nos anos 1990 pelas guerrilhas do Exército Popular de Libertação (EPL) e das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).

Depois, entraram em cena as Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), o exército paramilitar que combatia a insurgência.

O EPL e as AUC estão na origem das Autodefesas Gaitanistas da Colômbia (AGC, hoje EGC), ou Clã do Golfo, já que ex-integrantes de ambos os lados — em tese opostos e desmobilizados — se articularam em uma nova organização que, segundo analistas e o Estado, assumiu um perfil mais criminoso do que político.

O EGC cresceu em poder e controle territorial.

Uma investigação da Fundação Pares, na Colômbia, estima que o grupo esteja presente em 302 dos cerca de 1.100 municípios do país.

Segundo especialistas, esse é o principal fator que explica por que hoje o grupo domina atividades ilegais como extorsão, narcotráfico, migração irregular e mineração ilegal.

Víctor Barrera, pesquisador do Centro de Pesquisa e Educação Popular (Cinep), em Bogotá, afirma que o grupo "tem grande capacidade de mobilidade no território, porque opera por meio da subcontratação de serviços específicos conforme a situação exige".

Esse sistema, semelhante ao de franquias empresariais e com integrantes assalariados, dificulta dimensionar sua extensão e facilita a rápida substituição de líderes capturados ou mortos.

"Hoje, estima-se que o EGC tenha cerca de 9 mil integrantes, segundo números oficiais, embora esteja em curso uma nova contagem que certamente elevará esse total", disse à BBC Mundo Gerson Arias, pesquisador associado da Fundação Ideias para a Paz (FIP).

Segundo Arias, cerca de um terço do grupo atua como um exército, enquanto o restante é formado por redes de apoio, "milícias e redes de inteligência", conhecidas internamente como "pontos urbanos, rurais ou militares".

Os tentáculos do Clã também já foram identificados em países como Brasil, Argentina, Peru, Espanha e Honduras, onde alguns de seus integrantes foram presos.

<><> Quem lidera a organização

Durante 15 anos, desde o início dos anos 2000, a organização foi controlada pelos irmãos Dairo Antonio (Otoniel) e Juan de Dios Úsuga.

O grupo também era conhecido como Clã Úsuga.

Otoniel tornou-se o líder máximo após a morte do irmão em uma operação da Polícia Nacional durante uma invasão a uma "narcofesta" de réveillon, em 1º de janeiro de 2012.

Ele foi o criminoso mais procurado da Colômbia até ser capturado e extraditado para os Estados Unidos em 2021. Atualmente, cumpre uma pena de 45 anos em uma prisão norte-americana.

Após sua queda, os nomes de seus sucessores rapidamente passaram a circular na imprensa colombiana.

Um deles, Wílmer Giraldo, conhecido como Siopas, foi assassinado em 2023, supostamente por integrantes da própria organização.

Outro, Jesús Ávila, conhecido como "Chiquito Malo", comanda o EGC e é um dos homens mais procurados do país sul-americano.

<><> Crescimento recente

Analistas da Fundação Pares indicam que o modelo de atuação do EGC, flexível e baseado em acordos com estruturas locais legais e ilegais, permite ao grupo crescer sem a necessidade de confrontos abertos.

Nos últimos anos, os também chamados de "urabenhos" ampliaram sua presença em territórios como o Bajo Cauca, Córdoba, o norte do Chocó e partes do Magdalena Medio.

"Esse crescimento se apoiou na capacidade de absorver quadrilhas locais, pressionar autoridades municipais e ocupar espaços onde a Força Pública não conseguiu manter uma presença suficiente e permanente", afirma um relatório da Pares.

O grupo também se destacou por sua flexibilidade e diversificação econômica.

Durante os confinamentos da pandemia, em 2020 e 2021, ofereceu bens e serviços; e, quando explodiu o êxodo migratório de venezuelanos e equatorianos rumo aos EUA pelo Darién (região de selva entre Colômbia e Panamá), aliou-se a comunidades locais para extrair rendas expressivas do fenômeno.

Assim como outros grupos armados na Colômbia, o EGC aproveitou com êxito os espaços deixados pela desmobilização das Farc.

Entre 2022 e 2025, segundo a Pares, os gaitanistas cresceram em ritmo mais lento, embora relatos de sua expansão para áreas de mineração no sul do departamento de Bolívar indiquem uma busca por ampliar ainda mais sua presença territorial.

<><> Negociações com o governo Petro

Quando Petro chegou ao governo, em agosto de 2022, prometeu negociar com vários grupos armados em sua busca pela "paz total".

A iniciativa de também dialogar com o EGC gerou críticas no país, já que especialistas e opositores políticos questionam como uma organização considerada criminosa pelo Estado colombiano renunciaria às armas e às rendas milionárias geradas por seu controle territorial.

O EGC se vê como um grupo político e reivindica receber um tratamento semelhante ao dado às guerrilhas e aos paramilitares nas negociações de paz.

Recentemente, em uma reunião em Doha, no Catar, representantes do EGC e do governo colombiano assinaram um acordo para avançar gradualmente rumo a um possível desarmamento e à pacificação de territórios.

O tempo corre contra Petro, cujo mandato termina em agosto deste ano.

As ações dos Estados Unidos — que não parecem ceder em sua ofensiva contra o narcotráfico na América Latina — acrescentam incerteza às negociações de paz na Colômbia, que não têm apresentado os resultados esperados.

Ao mesmo tempo, alimentam o temor de que ocorram ataques em território colombiano, como advertiu Trump.

Como afirmou o Departamento de Estado em seu anúncio: "Os Estados Unidos continuarão usando todas as ferramentas disponíveis para proteger nossa nação e deter as campanhas de violência e terror cometidas por cartéis internacionais e organizações criminosas transnacionais".

Petro afirmou que consideraria qualquer ameaça à soberania colombiana como uma "declaração de guerra".

 

Fonte: BBC News Mundo

 

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