Há
50 anos, crise mundial do petróleo fez Brasil criar carro a álcool
Um
passeio de carro que o senador Teotônio Vilela (Arena-AL) fez em Maceió em
meados de 1976 foi tão fora do comum que o colega Arnon de Mello (Arena-AL)
insistiu que ele compartilhasse a experiência com todo o Senado. A grande
novidade foi combustível do veículo: o álcool.
— Um
carro Corcel movido com álcool e água correu a uma velocidade de 80 quilômetros
por hora sem que nada ocorresse de anormal ao motor — discursou Arnon. — O
nobre senador Teotônio Vilela, nosso companheiro aqui presente, foi um dos
passageiros nesse carro.
Teotônio
confirmou que era mesmo verdade e disse que, se alguém quisesse comprovar,
existiam filmagens feitas pela afiliada da TV Globo em Alagoas, que pertencia
justamente a Arnon.
—
Viajei ao lado do engenheiro, como um arriscado copiloto — relatou. — Andamos
cerca de 40 quilômetros, subimos e descemos ladeira e chegamos a desenvolver,
na verdade, 110 quilômetros por hora. Outros viajaram também. O carro rodou com
absoluta tranquilidade, e o rendimento por quilômetro foi ótimo. Andar num
carro em que se colocam álcool e água é, para mim, qualquer coisa de
fantástico.
O
senador destacou que, para não correr o risco de ser vítima de algum “embuste
grosseiro”, fez questão de examinar minuciosamente o combustível e o motor
antes de entrar no Corcel.
O test
drive em Maceió ocorreu nos primeiros momentos do Programa Nacional do Álcool
(Proálcool), iniciativa lançada há 50 anos pelo governo federal com a meta de
criar motores movidos a álcool. Àquela altura, os veículos do Brasil eram
abastecidos apenas com gasolina ou diesel. No máximo, adicionava-se uma pequena
dose de álcool à gasolina.
Assinado
em 14 de novembro de 1975 pelo general Ernesto Geisel, o quarto presidente da
ditadura militar, o decreto que lançou o Proálcool previu volumosas verbas
públicas para instituições de pesquisa tecnológica, cultivadores de
cana-de-açúcar e usinas produtoras de álcool. Os trabalhos foram coordenados
por diversos ministérios, como o da Agricultura, o da Indústria e Comércio e o
de Minas e Energia.
O
programa foi exitoso e resultou numa tecnologia 100% brasileira, uma das mais
importantes da história do país. Uma vez criado, o motor a álcool foi
rapidamente adotado pela indústria de automóveis.
Os
discursos de Teotônio Vilela e Arnon de Mello estão entre os documentos da
época guardados hoje no Arquivo do
Senado, em Brasília, que ajudam a reconstituir a trajetória do histórico
programa.
Numa
audiência pública no Senado, o secretário de Tecnologia Industrial do
Ministério da Indústria e do Comércio e um dos idealizadores do Proálcool, José
Walter Bautista Vidal, apresentou o projeto aos parlamentares:
—
Estabeleceu o ministério um programa de estudos visando à viabilização técnica
e econômica de alternativas energéticas nacionais, com ênfase em combustíveis
líquidos a serem obtidos de fontes renováveis que venham a se constituir em
sucedâneo para os combustíveis fósseis. A identificação do álcool etílico, o
etanol, como opção prioritária resultou clara, inquestionável.
O que
motivou a busca foi o primeiro choque mundial do petróleo. Em 1973, a
Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) decidiu reduzir a
extração e aumentar o preço. Os países que quisessem uma parte do escasso
petróleo disponível teriam que pagar caro por ele. O preço barril explodiu,
passando de US$ 3,50 para US$ 13 em apenas um ano.
Foi uma
estratégia geopolítica. Os países árabes da Opep tomaram a medida como forma de
pressionar as potências ocidentais, dependentes do petróleo do Oriente Médio,
em especial os Estados Unidos, a retirar o apoio militar dado a Israel na
Guerra do Yom Kippur, contra o Egito e a Síria.
Como
boa parte do planeta, o Brasil se viu em apuros. Uma preocupação do governo foi
com a disponibilidade e o preço da gasolina, um dos subprodutos do petróleo. De
todo o óleo bruto consumido pelo país, 70% vinham do exterior. Apenas 30% eram
extraídos no território nacional.
Outra
preocupação foi com a balança comercial, que se desequilibrou de forma
drástica, uma vez que o gasto com as importações ficou progressivamente mais
alto do que o ganho com as exportações, gerando prejuízos nas contas externas.
A
ditadura reagiu recorrendo a três estratégias para diminuir a necessidade de
compra do petróleo estrangeiro. A primeira delas, que provocou uma grande
insatisfação popular, foi forçar os brasileiros a consumirem menos gasolina.
Para
isso, elevou o preço do combustível, proibiu que os postos funcionassem nos
fins de semana, limitou a velocidade máxima nas rodovias a 80 quilômetros por
hora e veiculou campanhas educativas na televisão incentivando a carona
solidária e o uso do ônibus no lugar do carro.
A
segunda estratégia foi prospectar novas reservas de petróleo no território
nacional. A última, por fim, foi buscar algum substituto para essa
matéria-prima importada. Foi então que se pensou no álcool.
— O
álcool poderá ser produzido bem mais rapidamente do que a descoberta de jazidas
petrolíferas — prognosticou o senador João Cleofas (Arena-PE).
—
Bendita crise do petróleo, que nos despertou para os problemas nacionais —
afirmou o secretário do Ministério da Indústria e do Comércio naquela audiência
no Senado. — Que devemos procurar petróleo, não há dúvida. Mas, por mais
gigantescas que sejam as nossas reservas desconhecidas, elas são finitas,
acabam um dia. O álcool não, é eterno, perdurará enquanto existir o Sol.
— O
álcool não é outra coisa que energia solar líquida — explicou Teotônio Vilela.
— E nós temos um território excepcionalmente escolhido para o álcool, o que vai
redimir o Senhor Deus de não nos ter concedido o petróleo há 20 milhões de
anos.
Proprietário
de canaviais e produtor de açúcar e álcool em seu estado, o parlamentar
alagoano foi um dos maiores entusiastas do promissor combustível no Senado.
Entre
as diversas razões que tornavam o Brasil vocacionado para o álcool, os
senadores apontaram a grande extensão territorial, o clima tropical e a sólida
tradição de plantar cana-de-açúcar, que vinha desde os tempos em que era uma
colônia portuguesa.
Ainda
de acordo com os documentos do Arquivo do Senado, eles também enumeraram os
vários benefícios que os carros a álcool trariam ao país. Além de ajudar a
minimizar os problemas da falta de petróleo e da balança comercial
desfavorável, o novo combustível dinamizaria a agricultura e diferentes ramos
da indústria, geraria empregos e frearia a fuga de trabalhadores do campo para
a cidade.
Tomando
mais uma vez a palavra, Teotônio Vilela acrescentou à lista de benefícios a
redução da poluição do ar nas metrópoles.
—
Imaginemos que chegue alguém de Marte ao Brasil e pergunte por que não
utilizamos o álcool, mas só a gasolina, e se é só uma determinação nossa de
acabar com a vida humana. Isso porque, enquanto a gasolina é poluente, produz
milhões de doenças urbanas, o álcool é antisséptico, o seu escape não produz
nenhum elemento que provoque intoxicação. É um combustível limpo, saudável.
Então, nesta minha ficção, o homem vindo de Marte haveria de perguntar se nossa
vocação era mais para o setor de suínos ou realmente para o setor de humanos —
disse ele, rindo da própria piada.
Na
época, a emissão de dióxido de carbono preocupava apenas por causa dos efeitos
sobre a saúde humana. Ainda não estava cristalizado o entendimento científico
de que a emissão de certos gases é responsável pelas mudanças climáticas.
Nos
debates em torno do Proálcool, o senador Luís Cavalcante (Arena-AL) se disse
preocupado com a possibilidade de o governo acabar criando uma “Alcoolbrás”,
isto é, uma burocrática e pesada empresa estatal detentora do monopólio do
álcool brasileiro.
Apoiando
o colega, o senador Roberto Saturnino (MDB-RJ) afirmou que uma eventual
estatização da produção do álcool seria “absolutamente condenável”:
— Não
vejo razão para a intervenção direta do Estado. Não há nenhuma exigência em
termos de tecnologia e capital que a impeça a exploração desse campo pela
iniciativa privada. O papel do governo seria apenas o de padronizar a
composição química do álcool.
A ideia
do álcool como combustível não caiu do céu nem surgiu em 1975. O Brasil já
havia feito experimentos. Teotônio lembrou que, em 1923, o engenheiro Heraldo
de Souza Matos, numa prova automobilística no Rio de Janeiro, “correu com um
carro Ford alimentado exclusivamente com aguardente”. Esta última palavra
arrancou risadas dos senadores.
Embora
a “aguardente” não tenha vingado, o experimento serviu para que o governo
enxergasse o potencial do álcool e determinasse a adição de pequenas
porcentagens à gasolina vendida no país, para que ela rendesse mais. Medidas do
tipo foram tomadas especialmente em períodos de crise internacional, como a
quebra da Bolsa de Nova York (1929) e a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), que
fizeram o petróleo quase sumir do mercado internacional.
Para
argumentar que o álcool tão almejado pelo Brasil era, sim, viável, Teotônio
Vilela recorreu às memórias de sua juventude e citou aquele que pode ter sido o
pioneiro dos combustíveis nacionais:
—
Durante a Segunda Guerra, em Alagoas, a Usina Serra Grande produziu um
combustível que denominou “usga”, vendido nas bombas de Pernambuco, Alagoas e
Sergipe. Era álcool puro. A usina teve apenas que usar um estratagema para
evitar o consumo humano: colocou um ingrediente, mudou a cor e o nome e disse
que era veneno. Eu era jovem na época, mas me recordo muitíssimo bem. E desse
combustível nos utilizamos em caminhão e automóvel. Todo o tráfego naquela
região foi feito com a “usga”.
Quando
o Proálcool foi lançado, uma das apostas era que o combustível fosse produzido
não apenas da cana-de-açúcar, mas também da mandioca. Essa matéria-prima
aparece, inclusive, no decreto de criação do programa.
— O
Brasil tem uma tradição na obtenção do álcool a partir da cana-de-açúcar e
agora tenta obtê-lo através da mandioca. Alguns especialistas admitem que, por
hectare, teríamos 2,1 mil litros através da mandioca e 3,1 mil litros através
da cana — observou o senador Itamar Franco (MDB-MG), apontando o potencial do
tubérculo.
—
Importante para o Brasil e para a Bahia, o meu estado, será o rápido incremento
da implantação de usinas para a produção do álcool extraído da mandioca, de
modo a gradativamente ganharmos fontes de energia que possam até nos libertar
da importação de petróleo. Hoje isso não é uma utopia, mas uma palpável
realidade conquistada pela tecnologia — comemorou o senador Luís Viana
(Arena-BA).
— A
ênfase maior está sendo dada à produção de álcool extraído da cana, quando o
tratamento preferencial deveria ser destinado à mandioca. O álcool da cana pode
prejudicar a produção de açúcar, que é uma excelente fonte de divisas para o
país — opinou o senador João Calmon (Arena-ES).
—
Tivemos a notícia, que nos desagradou, de que, ao se dizer que a mandioca é boa
para álcool, isso ocasionou um aumento no preço da mandioca, que é produto de
subsistência das regiões pobres do país — criticou Bautista Vidal, o secretário
do Ministério da Indústria e do Comércio, na audiência no Senado. — Esse
entusiasmo de que a mandioca vai servir para álcool precisa ser qualificado.
Não é a plantação de fundo de quintal, que abastece as populações pobres, que
servirá como matéria-prima. São necessários empreendimentos de porte.
—
Perdoem-me dizer isto, mas sou também produtor de álcool e desde muito moço sei
que se fabrica álcool tanto da cana-de-açúcar quanto da batata-doce, da
mandioca, do milho, do sorgo. Então eu fico assombrado com os jornais a
noticiar sobre o álcool dizendo: é de mandioca, é de cana-de-açúcar etc. Parece
até uma torcida entre Flamengo e Fluminense. E o problema essencial, que é
produzir álcool, não chega nunca — criticou Teotônio Vilela.
Outra
opção cogitada foi o babaçu, fruto da palmeira de mesmo nome, comum nas regiões
Norte e Nordeste. Segundo um relatório do governo apresentado no Senado em
1980, das 303 usinas aprovadas desde 1976 para receber dinheiro do Proálcool,
somente 12 usariam a mandioca e uma única, o babaçu — a grande maioria
processaria a cana-de-açúcar.
No fim
das contas, os planos de que os postos de combustível oferecessem álcool de
mandioca e babaçu foram frustrados. Concluiu-se que as duas alternativas eram
comercialmente inviáveis, já que — ao contrário da cana-de-açúcar — não podiam
ser cultivadas em larga escala nem dispunham de uma estrutura de produção
profissional e consolidada.
Quando
afirmou que o prometido álcool não chegava nunca, Teotônio não exagerou. Aquele
carro que o senador testou em 1976, em Alagoas, não vingou. Diferentes
protótipos apareceriam ao longo dos anos seguintes.
— Não
entendo por que razão não se cuida do álcool. O presidente da República quer,
todo mundo quer, mas não se faz. É como a democracia — queixou-se ele,
referindo-se de forma jocosa à abertura política do Brasil planejada pelo
general Geisel, que parecia não avançar.
No
entender do senador Roberto Saturnino (MDB-RJ), o Proálcool demorava para
deslanchar porque vinha sendo sabotado por gente da própria ditadura:
—
Quando o governo lançou o programa, é fato notório que grande parte das
autoridades do governo duvidava. O ministro das Minas e Energia dizia
abertamente que álcool era coisa para indústria química, nunca para energia. O
ministro da Fazenda não perdia uma oportunidade para um chiste, para
ridicularizar o Programa do Álcool. O ministro do Planejamento, igualmente. E,
com isso, as autoridades iam sabotando o que a Comissão do Álcool aprovava, e
os projetos não recebiam os financiamentos do Banco do Brasil.
Os
parlamentares governistas, por sua vez, diziam que a nova tecnologia logo
surgiria porque Geisel estava pessoalmente empenhado. Eles lembravam que o
militar tinha profundo conhecimento do mundo dos combustíveis por já ter
presidido a estatal Petrobras.
A
partir do lançamento do Proálcool, foram necessários quase quatro anos até que
finalmente a tecnologia estivesse desenvolvida e a indústria automobilística
lançasse os carros com os novos motores.
O
primeiro modelo movido exclusivamente a álcool foi o Fiat 147, e sua produção
começou em julho de 1979, logo após o segundo choque mundial do petróleo. Para
marcar o feito, o general João Figueiredo, o quinto e último presidente da
ditadura militar, fez um test drive daquele carro inovador.
Como se
tratava de uma grande novidade, os jornais explicaram aos leitores que o álcool
seria oferecido em bombas de combustível idênticas às da gasolina. Nelas foram
afixados cartazes advertindo que aquele álcool não poderia ser misturado à
gasolina nem usado em motores não adaptados à tecnologia.
Os
senadores procuraram dar a sua contribuição para que os carros a álcool caíssem
no gosto popular. Eles apresentaram projetos de lei para, por exemplo,
isentá-los do pagamento anual da Taxa Rodoviária Única, reduzir em 50% o
Imposto sobre Produtos Industrializados incidente neles e garantir a taxistas e
condutores de lotação e transporte escolar e outros motoristas autônomos um
abatimento de pelo menos 20% no combustível comprado via cooperativas e
sindicatos.
Também
estudaram propostas para proibir a fabricação de veículos a gasolina com
potência superior a 180 cavalos (os mais potentes teriam que ser movidos a
álcool) e até obrigar as corridas esportivas nacionais a utilizar
exclusivamente carros equipados com a nova tecnologia.
Nenhum
dos projetos foi aprovado. Mesmo assim, o álcool ganhou o Brasil com rapidez.
Em 1980, um ano após o lançamento do primeiro carro, o senador Bernardino Viana
(PDS-PI), apresentou os resultados positivos e as boas perspectivas:
— Os
produtores de veículos automotores acreditam que não vai faltar álcool
carburante e alardeiam que um quarto dos carros vendidos neste ano, isto é, 250
mil, são movidos a álcool. A Volkswagen prevê que 80% de sua produção no
próximo ano, estimada em 550 mil unidades, será de carros a álcool.
O
slogan usado na época pela empresa de açúcar e álcool Copersucar se confirmava:
“Carro a álcool: você ainda vai ter um”.
Motoristas
que desejavam abandonar a gasolina, mas não podiam comprar um carro novo,
recorreram à adaptação dos motores para o uso de álcool — uma metamorfose
realizada nas oficinas mecânicas. O Senado chegou a estudar um projeto de lei
que autorizava a Caixa Econômica Federal a conceder empréstimos com boas
condições àqueles que desejassem converter seus carros.
Os
carros a álcool foram de vento em popa até 1989, quando faltou o combustível no
mercado, dando origem a uma crise nacional. Isso ocorreu porque o preço
internacional do açúcar disparou, o que motivou as usinas a priorizar esse
produto em detrimento do álcool. Para tentar contornar o problema, o governo
liberou a importação de metanol, uma substância tóxica, para ser misturada ao
álcool e à gasolina.
Com a
crise econômica, os brasileiros passaram a evitar os carros movidos a álcool, e
a década de 1990 ficou marcada pela volta em massa à gasolina. Um dos símbolos
do governo do presidente Itamar Franco foi o relançamento do Fusca, em 1993 —
os chamados “Fuscas do Itamar”, movidos a álcool, representavam uma tentativa
de reaquecer esse mercado. Como senador na época do Proálcool, Itamar havia
feito diversos pronunciamentos em defesa do combustível alternativo.
A
virada para valer, contudo, só ocorreria em 2003. O álcool voltou a ser usado
em grandes proporções quando a Volkswagen pôs no mercado o primeiro modelo flex
do Gol. A tecnologia flex, também 100% brasileira, permite que o mesmo veículo
seja movido a álcool, a gasolina e à mistura dos dois em qualquer proporção.
As
repercussões do Proálcool são sentidas até os dias de hoje. Nada menos que 85%
dos carros que atualmente circulam no Brasil são flex. A mais nova aposta do
mercado são os veículos híbridos flex, movidos tanto a álcool e gasolina quanto
a eletricidade.
A
cana-de-açúcar já não reina absoluta no mercado. Atualmente, perto de 25% do
álcool produzido no país é derivado do milho. Essa tecnologia, no entanto, é
norte-americana, e não brasileira.
No fim
de 2009, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) baixou uma resolução que obrigou
todos os postos de combustível a trocar o nome “álcool” por “etanol” nas bombas
e nos painéis com os preços, padronizando o nome em termos técnicos.
De
acordo com o economista Pedro Ramos, professor aposentado da Universidade de
Campinas (Unicamp), olhando em retrospectiva, é possível encontrar falhas no
Programa Nacional do Álcool:
— O
Proálcool se limitou a beneficiar os interesses econômicos do complexo
agroindustrial canavieiro. Dessa forma, ajudou a concentrar terra e renda. Foi
a principal causa da expansão da cana no estado de São Paulo, que levou à
superexploração dos boias-frias e até mesmo à morte de alguns desses
trabalhadores. A preocupação foi com os ricos, não com a classe mais baixa.
Isso não chega a ser surpreendente, já que a ditadura militar não tinha nenhuma
preocupação social.
Por sua
vez, o engenheiro agrícola Luis Agusto Cortez, também professor da Unicamp,
prefere ressaltar os impactos positivos:
— Além
de reduzir a dependência de petróleo do país, o Proálcool criou muitos
empregos, contribuiu com a redução das emissões brasileiras de gases do efeito
estufa e ensinou o país a fazer agricultura de larga escala. Se hoje temos um
setor chamado agronegócio e a soja como sustentáculo da economia, isso se deve
ao aprendizado trazido por aquelas plantações de cana. Em outras palavras, o
Proálcool foi importante tanto para nossa segurança energética quanto para a
nossa segurança alimentar.
Outro
impacto se vê no preço dos combustíveis, segundo ele. Além de o álcool custar
menos do que a gasolina, a própria gasolina ficou mais barata por causa do
álcool que passou a ser adicionado. Se não fosse essa adição, a gasolina
custaria o dobro do que custa hoje.
Cortez
defende que os brasileiros conheçam a história iniciada há 50 anos e,
consequentemente, passem a ter orgulho do Proálcool:
— O
álcool mostra que nós também somos capazes de grandes realizações. Criamos um
exitoso programa de energia renovável sozinhos, sem a ajuda de ninguém. Não
precisamos, portanto, sofrer daquele complexo de vira-lata que nos faz sentir
menores diante de outros países. Quando enfim tomarmos consciência do nosso
potencial, certamente vamos fazer inúmeras outras descobertas tão importantes
quanto o álcool.
Fonte:
Por Ricardo Westin – Agência Senado

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