quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Emir Sader: "Inundar a região de merda"

Estratégias da ultradireita para corroer o debate público, explorar o descontentamento social e enfraquecer a democracia liberal por meio da desinformação...

Outra das minhas leituras preferidas dos últimos tempos é o livro “Desquiciados – Los vertiginosos cambios que impulsa la ultraderecha”, coordenado por Alejandro Grimson.

Seu epílogo tem como título o que eu enunciei como nome deste artigo. Frase de Steve Bannon, que explicou desta maneira sua afirmação: “Os democratas não interessam. A verdadeira oposição são os meios de comunicação. E o modo de tratar com eles é inundar a região de merda”.

Os líderes da ultradireita de massas consideram que se trata do seguinte: canalizar o muito legítimo descontentamento social, desafiando os limites da democracia e estressando diariamente a população até que todos estejamos fora de juízo. Isto é chave, porque impede pensar estrategicamente.

Em quase todos os países da América e da Europa aconteceram duas coisas: ou o tradicional partido de direita se converteu em um de extrema direita, ou surgiu uma nova força de extrema direita.

Na América Latina, eles têm um programa econômico neoliberal radicalizado, que pode aceitar uma cota de políticas sociais com transferências monetárias aos setores mais desprotegidos, combinada com todo o conservadorismo cultural que a sociedade lhes permita.

A luta cultural é concebida como guerra, com inimigos a derrotar. Só há ganhadores e perdedores. Assim, se coloca em prática uma narrativa de complô e paranoica, que vê um inimigo em qualquer um que se atreva a expressar sua dissidência.

“A versão neoliberal de uma visão maniqueísta do mundo é a divisão entre trabalhadores e preguiçosos”, afirma Natascha Strobl em seu livro “A nova direita” (2022). Os líderes da extrema direita buscam não cumprir as regras da política, com a premissa de que é melhor ser mal-educado ou politicamente incorreto do que fazer parte do establishment.

Os líderes da extrema direita constroem para si mesmos o lugar de “salvadores” e, ao mesmo tempo, de “vítimas” das conspirações da velha política e dos meios de comunicação.

Na estratégia neoliberal confluem três instrumentos: a pós-verdade, as fake news e as teorias do complô. O Dicionário de Oxford definiu a pós-verdade como essa condição pela qual “os fatos objetivos influenciam menos na formação da opinião pública do que as referências a emoções e crenças pessoais”. As coordenadas básicas do debate público ficam corroídas.

Esses instrumentos buscam várias coisas: gerar um estado de ansiedade sem precedentes, mas também criar uma realidade paralela. Buscam que seus eleitores, ou a maioria deles, vivam mentalmente uma “realidade” que seja imune aos dados, aos argumentos e aos fatos.

Há três temas em que existem importantes diferenças entre essas forças: a economia, os valores e a geopolítica. Além disso, têm em comum o fato de que não negam formalmente a democracia, mas criticam a democracia liberal, qualificando-a como não democracia, isto é, como algo desvinculado da vontade do povo.

Já faz quase um século que a informação foi definida como o inverso da probabilidade. Não é notícia que não chova no Saara; não é notícia que a extrema direita insulte e estigmatize. Que meios de comunicação vão repetir cada um dos insultos que os governos de extrema direita proferem contra os que pensam diferente ou contra os opositores? A contribuição ao debate público é gerar informação (o contrário da probabilidade) e análise plural.

•        Identitarismo e Identidade Ideológica. Por Fernando Nogueira da Costa

Espera-se todo defensor da pauta identitária com reinvindicações de direitos na área de costumes, relacionados à anti homofobia, ao antirracismo e ao feminismo, ser de esquerda. Daí nasce a questão: por qual razão existe pobre, gay e negro de direita? O conservadorismo tem raízes religiosas?

Na realidade, defender direitos civis e pautas identitárias não implica, por si só, ser de esquerda, embora exista uma forte associação histórica entre essas agendas e tradições de esquerda. A relação é contingente, não necessária.

 Para entender isso, é preciso separar três dimensões distintas: economia política, cultural/moral e formas de pertencimento social.

Em primeiro lugar, a pauta identitária é distinta da posição econômica do indivíduo. As lutas contra racismo, homofobia e desigualdade de gênero dizem respeito a direitos civis, reconhecimento e cidadania, não automaticamente a regimes de propriedade, redistribuição ou organização da economia.

Por isso, é possível defender direitos LGBT+ e o livre mercado irrestrito. Há gente combatente contra o racismo, mas rejeita políticas redistributivas favoráveis aos mais pobres por achar ter saído da pobreza por conta própria. Outros apoiam a igualdade formal sem questionar desigualdades estruturais da sociedade.

A esquerda, em sua tradição combativa, tende a articular reconhecimento meritório e redistribuição de renda para quem se encontra na pobreza absoluta. Mas nada impede o reconhecimento de valor profissional ser desacoplado da redistribuição e isto abre espaço para posições neoliberais ou mesmo conservadoras em economia com discurso de direitos individuais.

Por qual razão existem pobres de direita? Não se trata de “falsa consciência” no sentido simplista. Há mecanismos sociais concretos capazes de explicarem isso.

O primeiro diz respeito à moralidade e à ordem conservadora. Para muitos grupos populares, a direita oferece valorização do trabalho, disciplina e esforço.

Por isso, é possível defender direitos LGBT+ e o livre mercado irrestrito. Há gente combatente contra o racismo, mas rejeita políticas redistributivas favoráveis aos mais pobres por achar ter saído da pobreza por conta própria. Outros apoiam a igualdade formal sem questionar desigualdades estruturais da sociedade.

A esquerda, em sua tradição combativa, tende a articular reconhecimento meritório e redistribuição de renda para quem se encontra na pobreza absoluta. Mas nada impede o reconhecimento de valor profissional ser desacoplado da redistribuição e isto abre espaço para posições neoliberais ou mesmo conservadoras em economia com discurso de direitos individuais.

Por qual razão existem pobres de direita? Não se trata de “falsa consciência” no sentido simplista. Há mecanismos sociais concretos capazes de explicarem isso.

O primeiro diz respeito à moralidade e à ordem conservadora. Para muitos grupos populares, a direita oferece valorização do trabalho, disciplina e esforço.

Muitos pobres, doutrinados pela Teologia da Prosperidade se veem como “empreendedores em potencial”, futuros proprietários, ou membros de uma classe média desejada por mobilidade social. A identidade política pode se basear mais na trajetória aspirada em vez de ser na condição presente.

Então, existem gays de direita e negros de direita porque identidade social não determina automaticamente identidade política. É possível ter prioridades diferentes: uma pessoa pode valorizar mais religião, família ou ordem moral diante políticas identitárias. Desse modo, rejeita a ideia de pertencimento a um “grupo político” definido pela identidade.

Há gays e negros defensores de igualdade jurídica estrita, mas com rejeição de políticas afirmativas e ênfase no mérito individual. Essa posição individualista é coerente dentro de uma visão neoliberal-conservadora.

A politização da identidade também é possível de ser vista como redutora da complexidade individual. Propiciaria a instrumentalização partidária e seria fonte de polarização social. Essa reação à politização da identidade geraria adesão reativa a discursos de direita.

O conservadorismo não é necessariamente religioso, mas historicamente se alimentou da religião como fonte de legitimidade moral.

O conservadorismo moral defende normas tradicionais de família, gênero e sexualidade, geralmente ancorado em religiões organizadas. Está muito presente no conservadorismo popular contemporâneo.

O conservadorismo institucional defende tradição, estabilidade e gradualismo. Ele pode até ser secular, isto é, quem não está sujeito a nenhuma ordem religiosa. Valoriza instituições como heranças históricas, não dogmas religiosos. O primeiro teórico político explicitamente conservador é geralmente considerado o irlandês Edmund Burke (1729-1797), membro do parlamento londrino pelo Partido Whig.

O conservadorismo econômico faz a defesa da propriedade, da hierarquia e do mercado. Coexiste com laicismo e até com liberalismo cultural limitado.

No Brasil atual, esses três elementos se fundem, sobretudo via religiões evangélicas atuantes como redes sociais e políticas. Há produção de sentido moral e pertencimento com a mediação concreta entre o fato de o Estado estar ausente e a vida cotidiana necessitada de apoio.

O ponto decisivo é como as dimensões se articulam. O cenário contemporâneo é marcado por desacoplamentos: direitos civis sem redistribuição; redistribuição sem ampliação de liberdades; moral conservadora com retórica antielitista; liberalismo somente econômico com diversidade simbólica.

Isso explica por qual razão a pauta identitária pode migrar para o centro ou até para a direita neoliberal. Infelizmente, grupos socialmente vulneráveis podem aderir à direita. A clivagem esquerda–direita já não explica tudo sozinha.

Em síntese, defender direitos identitários não define automaticamente alguém como de esquerda. Pobre, negro ou gay “de direita” não é paradoxo: é resultado de múltiplas dimensões de pertencimento. O conservadorismo pode ser religioso, mas não se reduz à religião.

A chave analítica é observar quais dimensões se combinam: economia, moral, identidade, Estado e poder. Ao fim e ao cabo, posições políticas emergem menos da identidade isolada e mais da forma como experiências sociais concretas são traduzidas em visões de mundo coerentes, embora tensionadas internamente.

•        A direita se movimenta, e nós? Por Pedro Benedito Maciel Neto

O PT segue como o partido preferido dos brasileiros, citado por 24% dos entrevistados, feito que mantém desde o final da década de 1990. O PT é um partido de práxis social-liberal ou social-democrata e discurso um pouco mais à esquerda — apenas discurso.

Ao longo de toda a série histórica do Datafolha, iniciada em 1989, o PT só perdeu a liderança da preferência partidária para o então PMDB, hoje MDB, no início da década de 1990. Desde o final dos anos 1990, o PT ocupa de forma ininterrupta a primeira posição.

O PL vem em segundo lugar, com 12%.

O MDB, que foi o terceiro colocado, registrou 2% da preferência do eleitorado.

Quem fez a pesquisa foi o Datafolha.

Contudo, 46% dos brasileiros dizem não ter preferência por nenhum partido político.

Paradoxalmente, o levantamento do Datafolha reforça o cenário de polarização política, pois — apesar de 46% não se identificarem com nenhum partido — 74% dos brasileiros se identificam com algum dos dois campos políticos que dominam o cenário nacional: 40% se alinham ao grupo associado ao PT, enquanto 34% se identificam com o campo político ligado a Bolsonaro.

Partidos tradicionais como o PSDB, que já chegou a figurar como principal oposição ao PT, perderam espaço ao longo dos anos, especialmente após o auge registrado em 2015, durante os protestos contra o governo Dilma Rousseff.

Todos os outros partidos, quer se apresentem de esquerda, centro ou de direita, têm apenas 16% da preferência do eleitorado (o meu PSB tem muito a caminhar ainda).

Isso é uma tragédia, pois, apesar da vitória de Lula em 2022, apesar da “folha de serviços” prestados pelos partidos chamados “de esquerda” desde a redemocratização, a direita cresceu muito e hoje tem um partido que atrai todos aqueles que se reconhecem de direita, seja porque são bilionários, seja porque lhes falta consciência de classe.

Continuo com a minha cantilena: (i) enquanto partidos de esquerda priorizarem as próximas eleições, em vez da militância política formativa; (ii) enquanto “mandatos” forem mais importantes que o partido; (iii) enquanto as fundações dos partidos de esquerda não passarem à vanguarda formativa da política, estaremos apenas jogando o jogo da direita, um jogo que eles inventaram e cujo campeonato eles sempre ganham.

A direita se movimenta, no Brasil e internacionalmente; enquanto isso, nós seguimos tristemente institucionalizados, imaginando que Lula e o governo resolverão tudo, o que não é verdade.

São comentários e reflexões sobre a pesquisa.

 

Fonte: Brasil 247

 

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