A
natureza como ator político
Não
poderia ser mais oportuna a afirmação de Izabella Teixeira, em recente
entrevista a Daniela Chiaretti (Valor 7/05), de que a natureza é um ator
político. Independentemente de suas consequências imediatas para as discussões
que vão ocorrer na COP30, pensar a natureza como ator político traz à tona dois
temas fundamentais. O primeiro é de caráter ético-normativo e tem consequências
jurídicas importantes no que se refere aos “direitos da natureza”. O segundo
tem interesse prático e deve ser pensado à luz da pergunta essencial colocada
por Paul Hawken em seu fundamental e recém-lançado livro (Carbon: The Book of
Life): as atividades econômicas atuais resultam em mais ou em menos vida?
Por que
devemos preservar a coruja-pintada? Esta é a pergunta de Amartya Sen num artigo
publicado na London Review of Books em 2004. Este animal não traz nenhum
benefício aparente e imediato ao bem-estar humano, mas, ainda assim, não
deveríamos permitir sua extinção por razões que nada têm a ver com nossos
padrões de vida. Amartya Sen apoia-se em Gautama Buda para sustentar que, por
sermos tão mais poderosos que as demais espécies, faz parte de nossa
responsabilidade minorar essa assimetria.
Reconhecer
os direitos da natureza abre caminho para este objetivo. Até agosto de 2023 o
Eco Jurisprudence Monitor documentava 353 iniciativas nesta direção, das quais
229 tinham sido aceitas em 24 países. Vale a pena consultar a imensa quantidade
de documentos fornecidos pelo Eco Jurisprudence Monitor. Em 2024, por exemplo,
a Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a resolução “Harmonia com a
Natureza”, enfatizando a necessidade urgente de alinhar as atividades humanas
com os processos naturais.
More
Than Human Rights (MOTH) é um programa da New York University, liderado por
Cesar Garavito, professor e ativista que organizou, na Colômbia, seu país de
origem, o vitorioso movimento de crianças junto à Corte Suprema daquele país
para que as políticas públicas fossem norteadas pelo interesse em impedir que
as mudanças climáticas comprometessem a qualidade de vida no futuro. Sua
militância nos direitos humanos acabou por conduzi-lo à criação do MOTH,
juntamente com Merlin Sheldrake (jovem biólogo cujo livro, traduzido em
português como A Trama da Vida. Como os Fungos Constroem o Mundo, Ed. Fósforo,
vendeu globalmente mais de um milhão de exemplares), acadêmicos de diferentes
áreas, mas também músicos e lideranças indígenas.
E quem
imagina que este é um tema meio “bicho-grilo” e avesso ao progresso técnico
ficará surpreso ao conhecer os avanços científicos no conhecimento da natureza
que este movimento está estimulando. Cesar Garavito e David Gruber publicam na
revista Time Magazine artigo que relata o uso da aprendizagem de máquinas, da
robótica e da bioacústica para o estudo da comunicação animal não humana com
impressionante profundidade e precisão. O uso de nomes únicos pelos elefantes,
a capacidade das mariposas em escutar o estresse das plantas e a decodificação
dos complexos sons dos cachalotes, contendo um alfabeto fonético semelhante aos
blocos fundamentais da linguagem humana, são algumas das áreas que o respeito
pelos direitos mais que humanos tem incentivado os cientistas a estudar.
Outra
área em que tecnologias contemporâneas abrem caminho para o conhecimento da
natureza é na micorrízica arbuscular, ou seja, na formação de estruturas em
forma de arbusto (arbúsculos) dentro das células das raízes das plantas
hospedeiras, facilitando a troca de nutrientes. Esta é a mais importante
parceria simbiótica da natureza, a dos fungos com as raízes das plantas,
presente em 70% das espécies de plantas terrestres. Participantes do MOTH
acabam de publicar artigo na Nature mostrando o uso da inteligência artificial
para mapear globalmente esta relação simbiótica.
Galileu
Galilei afirmava que a linguagem da natureza era matemática e suas letras
triângulos, círculos e outras figuras geométricas. Os direitos mais que humanos
rompem com esta visão, reconhecem e respeitam a inteligência, as capacidades, a
criatividade da natureza e é com base nestes atributos que a natureza deve ser
considerada como ator político.
Mas é
óbvio que, além desta dimensão valorativa, tratar a natureza como ator político
tem consequências práticas. E estas consequências são especialmente importantes
para os países onde a vida é mais abundante e diversificada, ou seja, os países
tropicais. É fundamental, claro, ampliar as áreas protegidas dos diferentes
biomas, garantir a integridade dos rios e a vida dos oceanos.
Mas
para países, como os da América Latina, em que a agropecuária ocupa parte tão
importante do território e tem tanta relevância econômica, o maior desafio está
em introduzir a biodiversidade no interior mesmo das superfícies produtivas. As
técnicas em que, até aqui, se apoiou o crescimento da agropecuária
latino-americana de grãos, por exemplo, dependem de fertilizantes sintéticos
cujos impactos sobre os ciclos geoquímicos do nitrogênio e do fósforo já
ultrapassaram as fronteiras planetárias. A dependência em que estas culturas se
encontram de agrotóxicos comprometem a vida no solo. Como esta destruição tem
efeito cumulativo, os agricultores são obrigados a usar cada vez mais insumos
para obter a mesma quantidade de produtos. Os custos sobem, a produtividade é
estagnada, o que representa ameaça tanto à segurança alimentar, quanto às
funções macroeconômicas que as exportações agrícolas desempenham.
O
Brasil é hoje líder mundial na pesquisa e, embora ainda de forma minoritária,
no uso não só de bioinsumos, mas de um conjunto de tecnologias voltadas
exatamente a reduzir drasticamente o uso dos vetores de morte (em benefício dos
vetores de vida) na produção agropecuária. Mas é fundamental que estes vetores
de morte sejam eliminados das paisagens produtivas o quanto antes.
O país
que liderou a mais importante revolução agrícola do mundo tropical, com a
ocupação agropecuária do Cerrado, tem hoje a missão e a responsabilidade global
de liderar a transição em direção a um sistema agroalimentar saudável e
sustentável. Isso é reconhecer a natureza como ator político.
• Setor da moda ignora transição justa
enquanto Brasil promete zerar emissões até 2040
Enquanto
o Brasil promete zerar as emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2040,
boa parte da indústria da moda segue sem divulgar informações sobre seu impacto
climático. Um relatório do Fashion Revolution Brasil mostra que 27 das 60
maiores marcas do país não publicam dados sobre emissões, metas de
descarbonização ou medidas de adaptação frente à crise do clima.
O
Índice de Transparência da Moda Brasil — edição Clima, lançado em novembro,
aponta que a média de transparência das empresas avaliadas é de apenas 24%.
Segundo o estudo, a falta de informações impede o acompanhamento público das
ações do setor para reduzir emissões e aumentar a eficiência energética.
“A
opacidade revelada pelo índice evidencia que o setor ainda se esquiva de suas
responsabilidades diante da emergência climática”, afirma Isabella Luglio,
coordenadora de pesquisa do Fashion Revolution Brasil. “Ignorar o papel da moda
na transição climática seria deixar de fora uma parte importante da cadeia de
valor do país”, acrescenta.
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Descompasso social
A baixa
adesão a medidas ambientais se repete na dimensão social. O critério Transição
Justa, que avalia ações com foco em trabalhadores e grupos vulneráveis, teve
média de 9%. Cerca de 65% das marcas não apresentaram nenhuma iniciativa
voltada à inclusão social em estratégias climáticas.
Somente
27% informaram mecanismos de compensação financeira para empregados afetados
por eventos extremos, e nenhuma marca descreveu investimentos em adaptação para
fornecedores. O relatório aponta que o modelo de produção terceirizada repassa
riscos e custos a segmentos mais frágeis da cadeia produtiva.
A Lojas
Renner S.A., uma das seis empresas com pontuação acima de 60%, informou manter
auditorias periódicas para verificar o cumprimento da legislação trabalhista e
normas de saúde e segurança. Segundo o
Fashion Revolution, no entanto, essas medidas ainda não permitem avaliar as
condições de trabalho diante do aumento de eventos climáticos como ondas de
calor.
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Energia e emissões
De
acordo com o estudo Brazil Net-Zero by 2040, do Instituto Amazônia 4.0, atingir
a neutralidade climática do país até 2040 exigirá mudanças profundas no uso da
terra e na matriz energética, com eliminação quase total de combustíveis
fósseis.
No
setor têxtil, 28% do consumo energético ainda depende de gás natural e
biomassa, fontes que o relatório classifica como soluções de transição, mas não
compatíveis com as metas de longo prazo. A pesquisa destaca que o setor tem
potencial para eletrificação, já que seus processos industriais demandam calor
de baixa temperatura. “O setor pode se eletrificar rapidamente, aproveitando a
matriz elétrica majoritariamente renovável do Brasil”, avalia Luglio.
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Falta de dados e risco de desmatamento
Mais de
60% das marcas analisadas não divulgam inventários completos de emissões.
Apenas 37% informam o chamado Escopo 3 — que inclui a pegada de carbono da
cadeia de fornecedores e representa 96% das emissões totais da moda.
O
relatório também indica que 80% das empresas não têm compromissos públicos de
desmatamento zero em matérias-primas como algodão e couro. Só 23% identificam
seus fornecedores de insumos, dificultando a rastreabilidade em biomas como
Cerrado e Amazônia.
“O
Brasil é o maior exportador de algodão e um dos três principais de couro cru. A
ausência de metas claras para zerar o desmatamento nessas cadeias pode
comprometer os compromissos do país”, afirma Luglio.
Apenas
7% das marcas informaram apoio financeiro a ações de mitigação climática. A
C&A, que apresentou aumento nas emissões do Escopo 3, foi procurada, mas
não respondeu.
Fonte:
Por Ricardo Abramovay, em Outras Palavras/Reporter Brasil

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