Cannabrava:
A Câmara mais controvertida da história da República
Acompanhei
a política brasileira por mais de sete décadas como repórter. Conheci Câmaras
boas, péssimas, medíocres — mas nunca vi uma como esta. A atual legislatura se
distancia de sua missão constitucional, flerta com o autoritarismo e
protagoniza episódios que expõem o país a crises sucessivas. O que deveria ser
a Casa do Povo se converteu num palco de constrangimentos institucionais e de
flagrante desrespeito à ordem democrática.
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Afronta direta à Constituição e ao STF
O
artigo 55 da Constituição é taxativo: perderá o mandato o parlamentar condenado
por crime em sentença transitada em julgado. Ainda assim, a maioria da Câmara
decidiu manter o mandato da deputada Carla Zambelli (PL-SP), condenada pelo
Supremo Tribunal Federal a dez anos de prisão por se associar a um hacker para
invadir o sistema do Conselho Nacional de Justiça e tentar forjar um mandado de
prisão contra Alexandre de Moraes, então presidente do TSE. Soma-se a isso a
condenação por porte ilegal de arma e o episódio em que correu pelas ruas de
São Paulo apontando uma pistola contra um cidadão.
Continua
após o anúncio
Zambelli
está presa em Roma aguardando extradição. Mesmo assim, a Câmara se recusou a
cumprir a Constituição. No dia seguinte, o ministro Alexandre de Moraes anulou
a decisão e determinou a posse do suplente em 48 horas — uma demonstração de
que o Legislativo estava, mais uma vez, em rebelião aberta contra a ordem
constitucional.
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Violência, tumultos e seletividade política
O
comportamento recente da Câmara ultrapassa qualquer parâmetro de normalidade
democrática. O caso do deputado Glauber Braga, retirado à força pela Polícia
Legislativa após sentar na cadeira da presidência em protesto contra sua
cassação, expõe o uso arbitrário da força interna. Por esse gesto, ele recebeu
seis meses de suspensão.
Enquanto
isso, os parlamentares que ocuparam a mesa diretora e paralisaram os trabalhos
da Casa por quase dois dias continuam impunes — um claro sinal de seletividade
política, que protege baderneiros quando eles servem aos interesses da extrema
direita.
Sessões
têm sido marcadas por empurra-empurra, acusações, interrupções sucessivas e
degradação do debate público.
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Medidas legislativas contra o interesse nacional
Nos
últimos meses, a Câmara aprovou um conjunto de iniciativas com forte potencial
de retrocesso:
• O marco temporal, que nega direitos
originários e ameaça a sobrevivência dos povos indígenas.
• A derrubada de 52 vetos de Lula na Lei
Geral de Licenciamento Ambiental, abrindo caminho para a devastação em plena
crise climática.
• A aprovação de um projeto que reduz
penas de condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro, incluindo o
ex-presidente Jair Bolsonaro — um gesto que desmoraliza a Justiça e envia
sinais preocupantes a grupos antidemocráticos.
Essas
decisões, somadas, reforçam a percepção de que o Legislativo opera não como
poder de equilíbrio, mas como instrumento de sabotagem política.
Não por
acaso, a revista CartaCapital, em sua edição de 17 de dezembro de 2025,
estampou na capa: “Congresso inimigo do povo”.
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Crise de legitimidade e tensão entre Poderes
O
conflito com o Executivo se agravou com a derrubada de decretos presidenciais e
a resistência sistemática a políticas públicas essenciais. A relação com o
Judiciário azedou após sucessivas tentativas de desautorização do Supremo. O
resultado é um cenário de instabilidade permanente, no qual a Câmara funciona
como fator de desagregação, não de governabilidade.
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O futuro está próximo — e a escolha é do povo
O ano
que vem está logo aí, e teremos eleição. Será a oportunidade de o povo
brasileiro redefinir a correlação de forças no Congresso, tirar da Câmara
aqueles que trabalham contra o país e renovar o compromisso do Legislativo com
a democracia, a soberania e o interesse público.
A
responsabilidade histórica é grande. A decisão estará nas mãos do eleitorado —
que poderá, finalmente, iniciar a reconstrução institucional de que o Brasil
tanto precisa.
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Conflito entre os Poderes prejudicou o país
O país
vive um conflito aberto entre o Executivo e o Legislativo, um impasse que está
paralisando a máquina pública e comprometendo decisões estratégicas para o
futuro imediato do Brasil. São picuinhas elevadas à categoria de chantagem
política, colocando o Legislativo em rota de colisão com o Executivo. Essa
postura tem imposto derrotas sucessivas ao governo, prejudicando não apenas a
agenda presidencial, mas principalmente a nação.
Para o
jornal O Estado de S. Paulo, porta-voz tradicional das oligarquias, o Congresso
oferece hoje um “festival de mediocridade”. A crítica coincide com fatos
concretos: a derrubada dos 52 vetos presidenciais ao chamado projeto da
devastação, liberando geral mecanismos que fragilizam a proteção ambiental.
Essa decisão vale por um crime político contra o país, especialmente porque
acontece menos de uma semana após o encerramento da COP30, convocada justamente
para frear o aquecimento global.
O
confronto avança também sobre prerrogativas constitucionais. A indicação de
ministros do Supremo Tribunal Federal, atribuição exclusiva do presidente da
República, está sendo colocada em xeque. Davi Alcolumbre marcou a sabatina do
procurador Jorge Messias para o dia 10 de dezembro, mas avisou publicamente que
o presidente verá “o que é não ter o presidente do Senado como aliado”,
alimentando a narrativa de que ele próprio será o “novo Davi”. É mais um lance
explícito de disputa de poder, que busca constranger o Executivo e tensionar a
institucionalidade.
Esses
movimentos, somados, constroem um cenário de instabilidade que afeta
diretamente a governabilidade e a capacidade de o país enfrentar desafios
urgentes — da reconstrução ambiental ao crescimento econômico, da transição
ecológica às políticas sociais. O Brasil não pode ficar refém de chantagens,
nem ter seu futuro condicionado a disputas miúdas que servem a interesses
imediatos de grupos específicos.
• Emenda de senador financiou obra sem
licença ambiental e invasora de terra indígena
O
trecho de 14 km já aberto da rodovia estadual AM-366 no município de Tapauá
(AM) é pequeno, mas concentra irregularidades que são comuns à maioria das
localidades da Amazônia Legal.
Os
efeitos da falta de licenciamento ambiental, da invasão de território indígena,
de um lixão ilegal e do assoreamento de rios estão pelo caminho da via no
interior do Amazonas, percorrido pela reportagem da Folha em novembro.
A
situação em Tapauá mostra como o poder público e seus representantes em
diferentes níveis de governo podem ser agentes de degradação ambiental.
A verba
pública para pavimentação do segmento da rodovia dentro do município veio de
emenda parlamentar do senador Omar Aziz (PSD-AM) por meio do programa federal
Calha Norte, à época sob o Ministério da Defesa.
Porém,
a prefeitura local conseguiu os recursos apesar de não ter autorização dos
órgão estaduais, inclusive dos de meio ambiente, e jogou concreto em um trecho
que invadiu uma terra indígena homologada, segundo relatório de técnicos do
governo amazonense.
A via
tem ainda um trecho em terra batida que leva a um lixão irregular da prefeitura
municipal. A parte ainda sem pavimentação também bloqueia riachos da região,
comprometendo a segurança hídrica de várias comunidades, alertam organizações
indígenas.
Tapauá
é o quinto maior município em extensão territorial do país, com aproximadamente
85.000 km². O núcleo urbano da localidade fica na área em que os rio Purus e
Ipixuna se encontram e não tem ligação por terra com outros municípios. A
distância para Manaus é de cerca de 1.200 km pela rota de navegação fluvial e
de 450 km em linha reta.
Agentes
de fiscalização, autoridades, ambientalistas e lideranças indígenas ouvidos
pela Folha associam a farta execução de obras de abertura e pavimentação de
estradas ao desmatamento ilegal e outros tipos de degradação ambiental, como o
assoreamento dos pequenos e médios leitos d’água conhecidos na Amazônia como
igarapés.
Essas
obras em geral são acompanhadas de discursos desenvolvimentistas e violações da
lei por parte de prefeituras e órgãos públicos estaduais e federais, alertam os
especialistas.
Em
agosto de 2021, o prefeito de Tapauá, Gamaliel Andrade (União Brasil), publicou
foto ao lado do senador Aziz e anunciou em seu perfil de rede social a obtenção
de verbas públicas para a pavimentação da via.
“Estive
visitando o Senador Omar Aziz para parabenizá-lo pelo seu aniversário, e quem
ganhou o presente foi o município de Tapauá. O senador irá disponibilizar
recurso para pavimentação de 10km da nossa estrada 366”, postou Andrade.
Dois
meses depois, foi a vez do senador usar a sua rede social para divulgar a
destinação de R$10 milhões a Tapauá para pavimentação e adequações de vias da
cidade, com uma foto em seu gabinete em Brasília na companhia do prefeito e de
vereadores de Tapauá.
Em
entrevista à Folha em novembro, o prefeito confirmou a obtenção da emenda de
Aziz para a pavimentação do trecho da AM-366.
“Consegui
uma emenda através do senador Omar [Aziz] e pavimentamos. A gente assumiu o
governo e procurou o senador em questão de pavimentar a nossa estrada para
nosso povo tanto branco como indígena ter o direito de ir e vir para a cidade”,
afirmou Andrade ao jornal em novembro.
No
final de 2021, a pavimentação em concreto de 2,4 km da via foi formalizada por
meio de convênio entre a prefeitura de Tapauá e o departamento do programa
Calha Norte, no montante de R$ 5 milhões.
O
primeiro repasse de R$ 1 milhão para a obra foi liberado por indicação do
senador em janeiro de 2023.
Enquanto
as obras estavam em andamento naquele ano, outro convênio para um novo trecho
no traçado da AM-366 foi assinado pela prefeitura de Tapauá, desta vez com o
Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, no valor de R$ 2,8
milhões.
Mais
uma vez o projeto contou com emenda do senador Aziz, por meio da Comissão de
Desenvolvimento Regional e Turismo do Senado. A primeira transferência desse
convênio para o município, no valor R$ 574 mil, foi feita no último dia 2 de
dezembro.
Em
novembro estava sendo realizado o trabalho de pintura de calçadas do traçado do
convênio com o programa Calha Norte.
A falta
de licenciamento ambiental e estudo de impacto ambiental causado pela obra
passaram a ser investigados no fim de 2023, quando o procurador do Ministério
Público de Contas do Amazonas (MPC-AM) Ruy Marcelo Alencar de Mendonça abriu
uma apuração com questionamentos ao prefeito de Tapauá e dirigentes de dois
órgãos estaduais do Amazonas, o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas
(IPAAM) e secretária estadual de Infraestrutura e Região Metropolitana
(Seinfra), estes últimos por uma suposta negligência na fiscalização da obra no
trajeto da rodovia estadual.
Após
eles serem notificados sobre as apurações em abril de 2024, no mês seguinte
engenheiros do IPAAM e da Seinfra do Amazonas foram a Tapauá inspecionar a
obra.
Segundo
o relatório da fiscalização, os técnicos constataram que além da falta de
licenciamento e estudo de impacto ambiental, a obra invadiu a Terra Indígena
Apurinã do Igarapé São João e continha uma série de irregularidades.
“A
inspeção da SEINFRA na Rodovia AM-366 evidenciou pontos de atenção na execução
da obra, caracterizando-a como irregular. A ausência de projeto básico, falhas
na drenagem e a impossibilidade de avaliar a estrutura da pista comprometem a
qualidade e segurança da obra”, segundo o relatório dos engenheiros.
Na
ocasião, o IPAAM aplicou uma multa de R$ 50 mil reais à prefeitura e determinou
a paralisação da obra até que fosse realizada a regularização do projeto.
O caso
foi julgado pelo colegiado do Tribunal de Contas do Amazonas (TCE-AM) um ano
depois, em abril passado. O tribunal julgou procedente a representação do
Ministério Público de Contas do Amazonas (MPC-AM), e aplicou uma multa de R$ 13
mil reais ao prefeito.
Os
órgãos estaduais foram absolvidos da acusação de negligência na fiscalização,
mas o tribunal determinou que eles realizassem em 60 dias “a apuração de danos
e degradação ambiental a saldar mediante plano de recuperação de área degradada
e instrumento de regularização da obra junto ao IPAAM”.
Em
dezembro, a Folha procurou as assessorias de imprensa do IPAAM, da Seinfra e do
governo do Amazonas para indagar se a obra já havia sido regularizada e se as
determinações do TCE-AM, como a apuração do dano ambiental, já haviam sido
atendidas, mas nenhum dos órgãos respondeu ao jornal.
Além
dos problemas constatados pelos órgãos estaduais do Amazonas, a reportagem da
Folha encontrou no trecho em terra da estrada um lixão a céu aberto onde havia
queima de materiais e muitos urubus.
O
cacique e agricultor José Raimundo Pereira Lima, o Zé Bajaga Apurinã, 59 anos,
coordenador-executivo da Federação das Organizações e Comunidades Indígenas do
Médio Purus (Focimp), diz que o lixão causa grande desconforto preocupação para
as comunidades indígenas que moram próximas ao local.
“No
verão, o lixão pega fogo 24h por dia, não tem condições de passar alí, é muita
fumaça. Ela invade as casas, não sei nem como as pessoas conseguem ficar alí
próximo. Fora o fedor, o tanto de urubu e de mosca que aparece. Para onde o
vento sopra, vai levando aquele mau cheiro”, afirmou
O
prefeito de Tapauá admitiu que o lixão não obteve licença ambiental e disse que
está procurando regularizar a situação.
“Aquele
lixão já é histórico, é um problema que existe há muito tempo. O lixão chegou
até a ficar no meio da estrada, e agora a gente já colocou um pouquinho para
dentro. A nossa intenção é fazer um aterro. Fomos a cidades de Santa Catarina
vendo modelos de usina de reciclagem para a gente fazer um projeto”.
O
cacique também diz que obras na AM-366 causaram prejuízos principalmente para
os leitos de água da região. “A estrada soterrou nascentes e cortou igarapés no
meio”, disse.
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O que diz o senador?
Quanto
à falta de licenciamento ambiental da obra e a invasão de terra indígena, Folha
contatou a assessoria de imprensa do senador Omar Aziz, que enviou nota na qual
afirma que o mandato do congressista “tem como premissa a viabilização de
recursos federais para atender às demandas da população do Amazonas,
especialmente em municípios do interior que enfrentam grandes desafios de
infraestrutura e logística”.
“É
importante ressaltar que a responsabilidade técnica de elaboração de plano de
trabalho e o projeto básico, fases em que se insere a licença ambiental, é do
ente beneficiário e a aprovação destes requisitos cabe a unidade orçamentária
ou mandatária responsável pela análise. A aprovação só ocorre no atendimento
integral das legislações pertinentes a execução de convênios”, segundo a nota.
Sobre o
tema, na entrevista à Folha, o prefeito de Tapauá disse: “chegou a questão
burocrática de documento, de multa. A nossa intenção quanto governo foi dar
direito ao cidadão de ir e vir, tanto branco quanto indígena”.
• O que o Centrão diz sobre votar a PEC
6×1 em 2026
Lideranças
do Centrão, aliadas do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), já
avisaram o governo de que, caso deseje avançar com suas pautas em 2026, também
terá de ceder em projetos do grupo.
O
principal aviso diz respeito à PEC 6×1, considerada por governistas a principal
pauta de Lula para 2026. Para caciques do Centrão, o tema será discutido, mas o
Planalto terá de apoiar outros projetos em troca.
As
propostas mais citadas pelo Centrão são as pautas de segurança pública, como o
PL Antifacção e a PEC da Segurança, ambas enviadas pelo Planalto, mas que
sofreram mudanças consideráveis na Câmara.
Deputados
querem que o governo seja mais flexível ao acatar alterações nos dois projetos,
considerados pautas importantes pelo Centrão para as eleições de 2026, e que
pare de expor parlamentares aos “leões” das redes sociais.
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Vantagem para o governo
A
principal vantagem para o Planalto em 2026 será a posição do presidente da
Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que, como mostrou a coluna, deverá adotar
uma postura mais “petista”, de olho nas eleições de outubro.
Em
conversa com jornalistas, Motta admitiu que a PEC 6×1, que acaba com a escala
de trabalho com apenas um dia de folga, deverá ser um dos temas debatidos. Ele
também deve pautar projetos como o PL Antifacção já na retomada dos trabalhos,
em fevereiro.
Fonte:
Diálogos do Sul Global/Metrópoles

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