Aldo
Moro: o caso silenciado
No dia
16 de março de 1978, a Itália foi palco de um dos episódios mais marcantes da
década, mas que caiu no esquecimento: o sequestro do então presidente do
Partido Democrata Cristão, à época partido hegemônico na Itália, e
ex-primeiro-ministro Aldo Moro.
No dia
em questão, Moro saiu de sua casa, em Roma, com destino ao Parlamento. No
entanto, o trajeto nunca chegou a ser completado, pois o líder político acabou
sequestrado pelas Brigadas Vermelhas – organização paramilitar de guerrilha
comunista italiana.
À
época, o jornalista Leonardo Sciascia (1921-1989) cobriu o acontecimento e
ainda no ano de 1978 lançou a obra O caso moro, que acaba de ganhar uma edição
brasileira, com tradução de Federico Carotti e pelos esforços editoriais do
Selo Manjuba, selo de não-ficção da Editora Mundaréu.
Durante
os 55 dias em que esteve em cativeiro, Moro enviou uma série de cartas à sua
família e seus correligionários. O livro parte dessas missivas para analisar o
que realmente estava em jogo e se outra saída era possível.
O líder
político seria o homem que levaria a frente uma ampla coalizão política,
contudo, ele não chegou a ser resgatado e acabou por ser assassinado.
O
curioso do caso é que o governo italiano se recusou a negociar a libertação,
elemento que gera até hoje diversas teorias. Um estudo intitulado “Chi ha
ucciso Aldo Moro?” (Quem matou Aldo Moro?), empreendido pelo historiador
Webster Tarpley, buscou esclarecer a ligação entre as Brigadas Vermelhas e a
loja neofascista P2 – uma loja maçônica que operou entre 1945 e 1976 de maneira
legal e até 1981 ilegalmente. O autor chega à conclusão de que toda ação foi,
na realidade, orquestrada pela OTAN, por meio da Operação Gladio, com o
objetivo de enfraquecer a opinião pública em relação aos comunistas e sua
influência no poder.
Sobrou
até para o filósofo Antonio Negri, que chegou a ser preso sob a acusação de ser
o inspirador da ação e do consequente assassinato do parlamentar – a relação
foi desmentida anos depois.
Além do
terrível caso de sequestro, Moro é lembrado por implementar uma série de
reformas sociais e econômicas que modernizaram o país – além de ser considerado
um dos pais da centro-esquerda moderna.
O caso
Moro revela as entranhas podres do poder, seu assassinato foi o triste fim do
sonho de transformações sociais institucionais pela via democrática.
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Leia, logo abaixo, um trecho da obra. Boa leitura!
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[O
trecho abaixo inicia-se com uma carta de Aldo Moro, publicada no dia 27 de
abril de 1978, em um jornal romano, seguida pela análise sobre o poder, de
Leonardo Sciascia. Moro estava sob o cárcere das Brigadas Vermelhas desde o mês
anterior e tentava, frustradamente, como veríamos, negociar sua liberdade.]
Depois
de minha carta surgida em resposta a algumas posições ambíguas, incoerentes,
mas essencialmente negativas da DC sobre meu caso, não aconteceu nada. Não que
não houvesse matéria a ser discutida. Havia, e muita. Porém faltava ao partido,
a seu secretário, a seus expoentes a coragem civil de abrir um debate sobre o
tema proposto, que é o da salvação de minha vida e das condições para
realizá-la dentro de um quadro equilibrado. É verdade: sou prisioneiro e não
estou de ânimo alegre. Mas não sofri nenhuma coerção, não estou drogado,
escrevo com meu estilo, por mais feio que seja, tenho minha caligrafia
habitual. Mas sou, diz-se, um outro e não mereço ser levado a sério. Assim, a
meus argumentos nem se responde. E se faço o honesto pedido para que a direção
ou outro órgão constitucional do partido se reúna, porque estão em jogo a vida
de um homem e a sorte de sua família, em vez disso continua-se em degradantes
conciliábulos, que significam medo do debate, medo da verdade, medo de assinar
com o próprio nome uma condenação à morte.
E devo
dizer que me entristeceu profundamente o fato (não o acreditaria possível) de
que alguns amigos, desde o mons. Zama ao adv. Veronese, a G. B. Scaglia e
outros, sem conhecer nem imaginar meu sofrimento, não desvinculado da lucidez e
liberdade de espírito, tenham duvidado da autenticidade daquilo que eu estava
sustentando, como se escrevesse sob ditado das Brigadas Vermelhas. Por que esse
aval à minha pretensa não autenticidade? Mas entre as Brigadas Vermelhas e mim
não há a mínima comunhão de visões. E com certeza não se configura como
identidade de visões a circunstância de que eu tenha sustentado desde o início
(e, como demonstrei, muitos anos atrás) que considerava aceitável, como ocorre
na guerra, uma troca de prisioneiros políticos. E tanto mais que, não havendo
troca, um continua em grave sofrimento, mas vivo, e o outro é morto. Na
prática, a troca beneficia (e é um ponto que com humildade me permito submeter
ao S. Padre) não só quem está do outro lado, mas também quem corre o risco de
ser morto, o lado não combatente, essencialmente o homem comum como eu.
Disso
se pode deduzir que o Estado cairá em ruínas se, por uma vez, um inocente
sobrevive e, em compensação, outra pessoa, em lugar da prisão, vai para o
exílio? É disso que se trata. Nessa posição, que condena à morte todos os
prisioneiros das Brigadas Vermelhas (e é previsível que os haja), encastela-se
o governo, encastela-se obstinadamente a DC, encastelam-se os partidos em
geral, com alguma reserva do Partido Socialista, reserva esta que é desejável
ser esclarecida com urgência e positivamente, visto que não há tempo a perder.
Numa situação desse tipo, os socialistas poderiam ter função decisiva. Mas
quando? Uma desgraça, caro Craxi, se uma iniciativa sua fracassasse. Gostaria
agora de voltar um momento atrás com esse raciocínio que se desenrola como se
desenrolavam meus raciocínios de outrora. É preciso mesmo voltar a dizer para
esses obstinados imobilistas da DC que, no passado, em inúmeros casos foram
feitas trocas, em toda parte, para salvaguardar reféns, para salvar vítimas
inocentes. Mas é hora de acrescentar que, sem que a DC pelo menos ignorasse,
concedeu-se a liberdade (com a expatriação) a palestinos numa quantidade
razoável de casos, a fim de deter a grave ameaça de retaliações e represálias
capazes de trazer dano relevante à comunidade. E, note-se, eram ameaças sérias,
temíveis, mas não com o grau de imanência das que hoje nos ocupam. Mas então o
princípio fora aceito. A necessidade de abrir uma brecha na regra da legalidade
formal (em troca havia o exílio) fora reconhecida. Há testemunhos irrepreensíveis
que permitiriam dizer uma palavra esclarecedora. E fique bem claro que,
procedendo desse modo, como a necessidade comportava, certamente não se
pretendia faltar com a consideração pelos países amigos interessados, os quais,
de fato, continuaram sempre em suas relações amistosas e confiantes.
Todas
essas coisas, onde e por quem foram ditas no seio da DC? É na DC que não se
enfrentam os problemas com coragem. E, no caso que me diz respeito, é minha
condenação à morte, essencialmente endossada pela DC, a qual, encastelada em
seus discutíveis princípios, nada faz para evitar que um homem, quem quer que
seja, mas mesmo um expoente seu de prestígio, um militante fiel, seja levado à
morte. Um homem que havia encerrado sua carreira com a sincera renúncia a
presidir ao governo, e foi literalmente arrancado por Zaccagnini (e por seus
amigos tão habilmente calculistas) de seu lugar de pura reflexão e estudo, para
assumir o equívoco manto de presidente do partido, para o qual não existia um
gabinete adequado no contexto da Piazza del Gesù. São várias vezes que peço a
Zaccagnini para se pôr idealmente no lugar que ele me obrigou a ocupar. Mas ele
se limita a dar garantias ao presidente do Conselho de que tudo será feito como
ele deseja.
E o que
dizer do deputado Piccoli, o qual declarou, segundo o que leio em algum lugar,
que, se eu estivesse no lugar dele (por assim dizer livre, confortável, na
Piazza, por exemplo, del Gesù), diria as coisas que ele diz e não as que digo
estando aqui. Se a situação não fosse (e me limito a dizer) tão difícil, tão
dramática como é esta, gostaria mesmo de ver o que o deputado Piccoli diria em
meu lugar. De minha parte, eu disse e documentei que as coisas que digo hoje já
disse no passado em condições totalmente objetivas. É possível que não se faça
uma reunião estatutária e formal, qualquer que seja o desfecho? Será possível
que não haja corajosos que a peçam, como eu a peço com plena lucidez mental?
Centenas de parlamentares queriam votar contra o Governo. E agora ninguém tem
um problema de consciência? E isso com a cômoda desculpa de que sou um
prisioneiro.
Lamentam-se
os campos de concentração, mas como se trata civilizadamente um prisioneiro,
que tem apenas um vínculo externo, mas o intelecto lúcido? Pergunto a Craxi se
isso é correto. Pergunto a meu partido, aos tantos fidelíssimos das horas
alegres, se isso é admissível. Se não se quiserem fazer outras reuniões
formais, pois bem, tenho o poder de convocar para data conveniente e urgente o
Conselho Nacional, tendo como objeto o tema sobre as maneiras de remover os
impedimentos de seu presidente. Assim estabelecendo, delego a presidência ao
deputado Riccardo Misasi.
Sabe-se
que os gravíssimos problemas de minha família são a razão fundamental de minha
luta contra a morte. Em tantos anos e em tantos acontecimentos, os desejos
cessaram e o espírito se purificou. E, mesmo com minhas inúmeras culpas, creio
ter vivido com generosidades ocultas e intenções delicadas. Morro, se assim
decidir meu partido, na plenitude de minha fé cristã e no amor imenso por uma
família exemplar que adoro e espero velar do alto dos céus. Ainda ontem li a
carinhosa carta de amor de minha mulher, de meus filhos, do amadíssimo netinho,
do outro que não verei. A piedade de quem me trazia a carta excluiu os
paratextos que citavam minha condenação, se não ocorrer o milagre do retorno da
DC a si mesma e à sua tomada de responsabilidade. Mas esse banho de sangue não
acabará bem para Zaccagnini, nem para Andreotti, nem para a DC, nem para o
país: cada um carregará sua responsabilidade.
Não
desejo, repito, os homens do poder a meu redor. Quero perto de mim os que
realmente me amaram e continuarão a me amar e rezar por mim. Se tudo isso está
decidido, seja feita a vontade de Deus. Mas nenhum responsável se esconda por
trás do cumprimento de um pretenso dever. As coisas ficarão claras, ficarão
claras logo.
Há
nessa carta muitas coisas a assinalar, e sobre as quais refletir. E a decifrar.
Por ora, esta frase: “não havendo troca, alguém continua em grave sofrimento,
mas vivo, e o outro é morto”. Alguém: “pronome indicando qualidade, aplica-se
bem quando se trata de concentrar a atenção na qualidade de uma ou mais
pessoas, mas normalmente não muitas”. (Ainda o Tommaseo: estou escrevendo essas
páginas sobre o caso Moro entre uma enxurrada de recortes de jornal e com o
dicionário Tommaseo sólido no meio, como um quebra-mar). De maneira
inquestionável, Moro quer chamar a atenção dos destinatários da carta, e que se
detenham sobre a qualidade de uma ou mais pessoas que o Estado deveria ceder: e
que, portanto, é possível negociar o número, isto é, ficar abaixo dos treze
cuja libertação foi pedida pelas Brigadas. E reitera: “O Estado cairá em ruínas
se, por uma vez, um inocente sobrevive e, em compensação, outra pessoa, em
lugar da prisão, vai para o exílio?”. O alguém se tornou um alguém: não há
dúvida. E ainda mais, como que dizendo: uma só pessoa, entenderam bem,
acrescenta: “É disso que se trata”. E parece também ser possível interpretar
que essa “outra pessoa” ainda não está na prisão, mas deveria ir.
As
Brigadas Vermelhas, portanto, ou pelo menos a célula que o mantém no cativeiro,
escolheram-no como mediador de uma possível negociação e lhe confiaram o preço
final — simbólico ou, para eles, efetivamente importante — que querem que o
Estado pague. Moro faz a esse respeito uma avance bastante explícita: mas não
foi entendida por quem deveria entendê-la. Agora é o 31 e 47 que, na cabala
siciliana do jogo de loto, corresponde ao “morto que fala”. Que fala nos sonhos
ou nos pesadelos dos “amigos”. Que continuará a falar.
Caberia
assinalar muitas outras coisas: desde a advertência a Craxi e aos socialistas,
à qual se pode conferir um sentido que vai além da iniciativa de lhe salvar a
vida, àquela retomada do nome de Misasi para lhe delegar a presidência do
Conselho Nacional da Democracia Cristã: nome que as crônicas até então nunca
haviam citado como alguém que, nas reuniões secretas do partido, tivesse se
manifestado propenso à negociação: a não ser que tenha sido uma intuição quase
divinatória, alguém deve tê-lo mencionado a Moro. Hipótese inquietante: isto é,
deixá-la, como Moro a deixou, para a inquietação dos “amigos”. E há, por fim,
aquele “leio em algum lugar”, a ser visto como elemento comprovador daquilo que
chamei de ética carcerária das Brigadas Vermelhas: davam-lhe o jornal, e talvez
mais de um, para ler. Ou lhe prestavam uma espécie de serviço de imprensa,
recortando para ele, com critérios variáveis, aquilo que consideravam que ele
deveria saber. Mas o fato é que estava informado; e, ao dizer que o fato de lhe
ser entregue, do jornal Il Giorno de 26 de abril, apenas a carta dos filhos,
recortada para excluir “os paratextos que citavam [sua] condenação”, foi ditado
pela piedade, pode também significar que até aquele momento ele recebia os
jornais completos.
E
então, por fim, há a palavra que escreve pela primeira vez em sua mais atroz
nudez; a palavra que finalmente se revelou a ele em seu verdadeiro, profundo e
pútrido significado: a palavra “poder”. “Não desejo, repito, os homens do poder
a meu redor.” Mas, na carta anterior, ele falara de “autoridades do Estado” e
“homens de partido”: apenas agora chegou à denominação correta, à assustadora
palavra.
Ele
tinha vivido para o poder e do poder até as nove da manhã daquele 16 de março.
Esperava ainda tê-lo: talvez para voltar e assumi-lo de forma plena, certamente
para evitar enfrentar aquela morte. Mas agora sabe que são os outros que o têm:
reconhece nos outros a face feia, obtusa, feroz do poder. Nos “amigos”, nos
“fidelíssimos das horas alegres”: das macabras, obscenas horas alegres do
poder.
Fonte:
Por Raíssa Araújo Pacheco, em Outras Palavras

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