sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

'Grande grupo brasileiro': o elo do caso Jeffrey Epstein com o Brasil 

Um "grande grupo brasileiro" é mencionado em um depoimento ao FBI, a polícia federal americana, que integra dezenas de milhares de documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos sobre o caso do bilionário Jeffrey Epstein, criminoso sexual condenado nos Estados Unidos e morto em 2019.

Os arquivos foram tornados públicos na sexta-feira (19/12), após determinação do Congresso americano, e reúnem materiais de investigações sobre abusos sexuais e tráfico de mulheres e meninas atribuídos a Epstein.

A referência identificada pela BBC News Brasil aparece em anotações manuscritas baseadas em uma entrevista do FBI, de 2 de maio de 2019. O conteúdo trata de pessoas que podem ter sido levadas como possíveis vítimas para encontros sexuais, inclusive menores de idade.

Grande parte do material está tarjada, o que impede a identificação de pessoas envolvidas ou a compreensão integral do contexto.

O arquivo leva o título de "Entrevista de [informação tarjada]". A seguir, no campo da descrição, é possível ler "notas originais da entrevista de [informação tarjada]. Fotos fornecidas por [informação tarjada]."

"Amigos de amigos [informação tarjada]. Grande grupo brasileiro", diz o texto da entrevista, anotado à mão.

Os registros fazem parte de um conjunto maior de milhares de arquivos que inclui fotos, vídeos e documentos de investigação reunidos por autoridades americanas ao longo de anos.

<><> 'Ele não queria garotas escuras'

Segundo o documento do depoimento, uma pessoa que é citada como "JE" (possivelmente Jeffrey Epstein) teria imposto critérios sobre as meninas que lhe eram apresentadas, afirmando que não queria "spanish or dark girls" (pelo contexto, aparentemente referindo-se a latinas/hispânicas).

Em um trecho, as anotações descrevem características físicas de uma pessoa citada como de "pele mais escura" e "aparência amazônica", que teria sido "trazida no final, em momento de desespero", quando os envolvidos estariam "ficando sem garotas".

Em outra parte do relato manuscrito há uma menção a alguém que "teria acabado de vir do Brasil" e "era modelo".

O documento diz que JE "realmente estava apaixonado por ela" e que "talvez tenha falado em fazer um esboço ou pintura".

Uma anotação lateral diz "vivendo com a mãe aos 13, saiu de casa aos 14".

O mesmo documento traz ainda fotos cujas legendas falam sobre uma "festa brasileira" e um "desfile brasileiro", mas tarjas impedem a identificação do local ou das pessoas envolvidas.

O relato fala também sobre a idade das meninas, com uma preferência de Epstein por menores.

"Em certo momento, [tarja] o viu pedindo documento de identidade para as meninas. Ele queria se certificar de que tinham menos de 18 anos porque não estava acreditando nelas, já que [tarja] tinha bagunçado tudo ao levar garotas mais velhas."

<><> Parceiro de Epstein buscou modelos em agência brasileira em 2019

Além do relato envolvendo brasileiros agora divulgado, reportagens publicadas nos últimos anos no Brasil e em outros países afirmam que um conhecido parceiro de Epstein esteve no Brasil em 2019, o ex-agente de modelos francês Jean-Luc Brunel, também acusado de ter traficado mulheres.

Brunel foi encontrado morto na prisão em Paris, na França, em 2022. Estava detido desde o início de uma investigação formal, após ser acusado de assédio sexual e estupro contra jovens com idades entre 15 e 18 anos na França. Ele negava as acusações.

O agente era cofundador da agência de modelos francesa Karin Models, criada em 1977, e da MC2 Models Management, nos Estados Unidos, e contava com financiamento de Epstein.

Documentos da Justiça dos Estados Unidos apontaram que Brunel recrutava garotas para Epstein, prometia contratos no mundo da moda para elas e as levava em um avião da França para os Estados Unidos.

Uma reportagem do jornal britânico The Guardian, publicada em agosto de 2019, relata que enquanto aliados de Epstein desapareceram da vida pública nos anos seguintes ao seu acordo judicial, "Brunel continuou a viajar pelo mundo em busca de mulheres jovens e meninas para transformá-las em modelos".

O jornal afirmou que Brunel esteve no Brasil em 2019 para "encontrar novas modelos para levar aos Estados Unidos" e que, quando um repórter visitou um apartamento em Miami de propriedade de Brunel, a porta foi atendida por uma jovem que disse ser uma modelo brasileira que estava lá para trabalhar para a MC2, sua agência, e que havia pelo menos outras três modelos hospedadas no apartamento.

Outra reportagem da Agência Pública, publicada em novembro, mostrou uma foto de Brunel divulgada em 2019 por uma agência de modelos, a Mega Model Brasília, com legenda afirmando que ele "esteve aqui [em Brasília] hoje para um casting para levar os nossos modelos para Nova Iorque".

Nivaldo Leite, diretor da agência, diz à BBC News Brasil que não houve qualquer contato com Brunel depois da visita e que nenhum modelo da agência brasileira teria viajado com ele.

Segundo a reportagem, Brunel também teria visitado cidades em outros Estados.

A BBC News Brasil encontrou a mesma imagem ainda disponível na rede social, com legenda em inglês, na página da agência na rede social Facebook.

Além da foto, há ao menos dois vídeos de modelos desfilando na mesma publicação, republicados pelo diretor da agência em seu perfil no Facebook, com o mesmo texto que diz que Brunel e sua equipe "sempre serão bem-vindos à nossa casa."

A reportagem perguntou ao governo brasileiro se há ou houve qualquer iniciativa no sentido de identificar brasileiros no caso Epstein.

O Ministério da Justiça e Segurança Pública e o Itamaraty informaram que a demanda deveria ser feita à Polícia Federal, que por sua vez respondeu que "não se manifesta sobre investigação em curso".

<><> 'Ele apenas foi na agência fazer uma visita e conhecer nossa estrutura', diz diretor

Nivaldo Leite, diretor da Mega Model, afirma à BBC News Brasil que Brunel "apenas foi na agência fazer uma visita e conhecer nossa estrutura", mas que nenhum modelo da agência viajou ou fez contato com ele depois.

"Certeza absoluta que nenhuma! Quem faz internacional da agência sou eu pessoalmente", diz. Ele afirmou que a empresa não foi contatada por nenhuma autoridade para dar informações sobre Brunel.

Leite diz que Brunel estava em Brasília visitando agências e perguntou se podia conhecer a Mega Model. "Havíamos acabado de inaugurar a estrutura física no shopping."

Leite afirma que não conhecia Brunel nem Epstein, nem mesmo de nome.

"A agência ficava no shopping aberta a todo mundo. Lembro que ele estava até apressado devido ao voo", afirma.

"Conheceu o espaço, me falou que era dono de uma agência internacional na Europa, se não me engano. Acho que deixou um cartão de visita dele, caso eu tivesse interesse em parcerias. Logo após veio a pandemia e nunca mais ouvi falar dele. Não sei nem se ele está vivo e tampouco sobre a agência dele", prossegue.

"Não sabia nem de relações dele e nem desta pessoa [Epstein] que está me perguntando. Não conversei absolutamente nada com ele com viés pessoal."

Foto de Trump é reinserida nos arquivos de Epstein após acusações de 'acobertamento'

Material dos arquivos de Epstein, incluindo uma fotografia mostrando o presidente americano, Donald Trump, foi retirado do website do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, devido a preocupações levantadas pelas vítimas, declarou no domingo (21/12) o vice-procurador-geral americano, Todd Blanche.

A imagem que mostra Trump foi restabelecida posteriormente após análise, segundo Blanche.

Ele rechaçou as críticas de que a retirada estivesse relacionada ao presidente americano e afirmou que a mesma foto que incluía Trump também mostrava imagens de mulheres não editadas.

Pelo menos 13 arquivos, dentre os milhares divulgados na sexta-feira (19/12), relativos ao milionário condenado por crimes sexuais Jeffrey Epstein (1953-2019), haviam desaparecido do website no sábado (20/12), sem explicação.

Democratas do Comitê de Supervisão da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos questionaram a remoção das imagens.

Em uma postagem nas redes sociais, eles perguntaram à procuradora-geral Pam Bondi: "O que mais está sendo acobertado?"

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DoJ, na sigla em inglês), afirmou no domingo, em uma postagem no X (antigo Twitter) que a imagem de Trump foi assinalada pelo Distrito Sul de Nova York "para possíveis ações adicionais para proteger as vítimas".

O DoJ acrescentou que a imagem foi retirada temporariamente para novas análises, "por excesso de cautela".

"Após a análise, foi determinado que não há evidências de que alguma das vítimas de Epstein esteja ilustrada na fotografia, que foi novamente postada, sem nenhuma alteração ou edição", afirmou o órgão, incluindo um link para a imagem em questão no seu website.

A foto foi tirada em uma das casas de Epstein, segundo autoridades americanas. Ela mostra um armário com uma série de fotografias em porta-retratos, muitas delas mostrando pessoas famosas.

Existe também uma gaveta aberta cheia de outras fotos. Uma delas mostra o presidente com Epstein, a primeira-dama Melania Trump e a associada de Epstein Ghislaine Maxwell, condenada pela Justiça.

Blanche chamou de "ridícula" a sugestão de que a foto tivesse sido removida por mostrar Trump.

"Não tem nada a ver com o presidente Trump", declarou ele à rede de TV americana NBC News.

"Já foram publicadas dezenas de fotos do presidente Trump com o sr. Einstein. Por isso, é um disparate dizer que iríamos retirar uma foto, uma única foto, porque o presidente Trump aparece nela. É ridículo."

Blanche justificou a retirada de alguns dos arquivos postados anteriormente, mencionando um juiz de Nova York, que "nos ordenou que ouvíssemos qualquer vítima ou grupo de defesa dos direitos das vítimas, se houvesse preocupações".

"Muitas fotografias foram removidas depois da publicação, na sexta-feira", afirmou ele.

Trump vem negando constantemente qualquer delito em relação a Epstein e não foi acusado de nenhum crime pelas vítimas do criminoso condenado. Não há indicação de que as fotos envolvidas indiquem qualquer irregularidade.

<><> Ação do Congresso

O DoJ já estava sob ataque por não ter publicado todos os arquivos até o prazo de sexta-feira passada, como manda a lei. Os documentos incluem fotos, vídeos e material investigativo relacionado a Epstein.

Havia grande expectativa pela sua publicação, depois que o Congresso americano aprovou uma lei ordenando sua divulgação integral até sexta-feira (19/12).

O congressista republicano Thomas Massie, do Estado de Kentucky, liderou os trabalhos para a publicação dos arquivos. Ele declarou estar decepcionado com a reação do governo Trump e que seu objetivo é conseguir justiça para as vítimas.

Massie afirma que está preparando acusações de descumprimento para apresentação contra a procuradora-geral americana, Pam Bondi.

"Eles estão desrespeitando o espírito e os termos da lei", declarou ele no domingo (21/12) à rede de TV CBS News, parceira da BBC nos Estados Unidos.

"A postura que eles tomaram é muito preocupante", lamentou Massie. "Não ficarei satisfeito até que os sobreviventes estejam satisfeitos."

Dez dos arquivos faltantes incluem imagens que, aparentemente, mostram o mesmo cômodo da casa de Epstein — uma pequena sala de massagens, com nuvens pintadas no teto e papel de parede estampado marrom, repleto de nudes. Algumas parecem ser fotos e outras, obras artísticas.

A maior parte das mulheres ilustradas na parede teve seus rostos editados. Mas um dos rostos está editado em uma imagem e claramente visível em três outras.

Outro rosto permanece sem ter sido editado em todas as imagens e é visível uma imagem pintada da mesma pessoa.

Os documentos foram publicados na sexta-feira, após uma ação do Congresso americano forçando o DoJ a publicá-los. O órgão afirmou que cumpriria com o pedido de liberação dos documentos pelo Congresso, com algumas ressalvas.

O Departamento de Justiça editou informações identificáveis sobre as vítimas de Epstein, materiais ilustrando abuso sexual de crianças ou abuso físico e eventuais registros que "prejudicassem a investigação federal em andamento", além de eventuais documentos sigilosos que devem permanecer em segredo para proteger a "defesa nacional ou política externa".

Mas muitos dos documentos publicados foram fortemente editados.

Havia poucas informações novas sobre os crimes de Epstein e itens como memorandos internos do DoJ com decisões sobre acusações não foram incluídos nos arquivos publicados.


Fonte: BBC News 


 

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