Violência
de gênero: além do binarismo e das narrativas gastas
A
violência direcionada e proposital contra a mulher continua. É um fenômeno
mundial. Países pobres e ricos passam por situações semelhantes, ainda que em
alguns lugares tudo seja pior, quando o vandalismo resulta em impunidade.
Quatro mulheres são assassinadas por dia no Brasil. Os assassinos são
parceiros, ex-parceiros ou pessoas conhecidas. A população LGBT+ é ainda mais
atingida. A mulher trans, então, nem se fala, se tornou a bruxa do momento,
sendo o alvo da máxima desqualificação verbal. Torna-se alvo real, físico, de
indivíduos que se autodenominam “cidadãos de bem”.
Tenho
dito já faz algum tempo que as denúncias sobre esse assunto, pautadas nas
palavras “machismo” e “misoginia”, não ajudam muito. Essas palavras tiveram sua
semântica ampliada em demasia, e há várias indicações que perderam força
explicativa. Não é difícil vê-las sendo usadas em contextos em que funcionam de
maneira conformista. Por exemplo: “O Brasil é um país machista”. “O brasileiro
é misógino”. Essas duas frases aparecem nas denúncias e criam a ideia de que o
problema está mapeado e explicado, e que resta sabe-se lá o que para resolver
isso, talvez medidas punitivas mais duras, talvez educação, talvez ação de
propaganda governamental. Não raro essas frases parecem consolidar um dado que
diz respeito a características intrínsecas de nossa sociedade, algo tão
arraigado que não é possível ser alterado. Muitos acham que tais palavras
evidenciam uma força cultural inexorável, e que essa força se apodera do
indivíduo agressor e conduz a sua mão, e eis que o próprio agressor,
individualmente, tem de ser inocentado. (Fazem serviço igual ao “racismo
estrutural” – tese errada que, felizmente, está desaparecendo.)
Quando
observamos as entrevistas feitas com os que praticam violência contra a mulher
e a população LGBT+, encontramos frases diretamente retiradas das bocas de
“influencers” de tipo redpill e de porta-vozes de grupos conservadores. Uma
leitura mais atenta desse material nos leva a admitir a necessidade de
experimentar outras hipóteses de trabalho. Minha sugestão é prestar mais
atenção no elemento de liberdade contido na vida das vítimas, seja ele
verdadeiro ou simplesmente uma fantasia do algoz.
Entre
várias acusações à vítima, o algoz diz uma que é comum:“ela não tem direito de
fazer o que faz”. As vítimas, segundo os agressores, praticam uma ruptura com o
que “normal”. A violência é posta como uma necessidade para que a normalidade
volte a funcionar, que o diferente saia de cena e devolva ao mundo o igual. Por
que o diferente não pode existir? Uma pergunta assim, constrange o algoz, mas
se forçamos o questionamento, ele acaba por revelar que aquilo que o incomoda é
a “vagabundagem” da vítima, ou seja, a liberdade. Não demora muito para que
venha a frase: “todo mundo tá aí, trabalhando, e ela vivendo na boa, na
perversão, a puta”. “Todos vivem honestamente, e esse veado sem vergonha faz o
que quer”. “Faz o que quer” — devemos notar como essa frase aparece, nesses
termos ou em termos semelhantes. E a expressão “sem vergonha” também deve ser
observada e vem no contexto de uma acusação recorrente: a vítima é uma pessoa
que se dá o direito de contrariar o que seria a regra, uma pessoa que tem tempo
para fazer o que não se deve fazer. Exatamente isso: tem tempo!
Venho
acompanhando o que pesquisadores perguntam para os algozes de mulheres e
população LGBT+. A observação do ataque às mulheres trans é algo elucidativo,
nesse caso. A hipótese que tenho é que estamos com um problema mais básico do
que aquele que a literatura sobre o assunto ressalta: não nos acostumamos de
maneira alguma com o passo que temos dado nos últimos anos, que é o de irmos
além do binarismo de gênero (e sexo). “Mulher tem que ser mulher”, “homem tem
que ser homem”, e para isso há um único padrão, dito pelo redpill e reverberado
em vários tons nas igrejas, especialmente as evangélicas, e nos partidos de
direita. Boa parte das pessoas escolarizadas e que se acreditam de mente
aberta, rejeitam esse discurso, pois desconfiam que o binarismo está com os
dias contados, mas não conseguem deixar de considerar o “heterossexual” como o
“normal” e o “homem” (o macho) como o primordial e a “mulher” como o derivado.
A regra
que em geral se segue, mesmo entre os que se acreditam como “avançados”, é que
o que se precisa explicar é a “homossexualidade”. Ela é o desvio. Até pessoas
atentas ao que falam deslizam para esse modo de pensar. Mas, e se tivéssemos a
coragem de perguntar: como é possível a “heterossexualidade”? E também: como é
possível o homem ser primordial se ele precisa nascer de uma mãe? Quando
estivermos colocando tais questões, talvez então estejamos um pouco melhor.
Quando isso ocorrer, teremos mais sorte no avanço da compreensão da violência
contra a mulher e a população LGBT+.
O
problema passa pelo modo que tratamos as narrativas epistemológicas e
ontológicas sobre a mulher e sobre a população LGBT+ e as narrativas sobre
prerrogativas éticas. São narrativas diferentes, e não deveriam ter as
implicações que têm, umas sobre as outras. A narrativa descritiva é dita
respeitadora da realidade, e então se põe no direito de fornecer rapidamente
elementos para a narrativa ética.
Se uma
narrativa nos é atrativa epistemologicamente ou ontologicamente falando, isso
não significa que automaticamente ela deva comandar a narrativa ética. A ideia
de definir o ser humano para, em seguida, encontrar o que seria seu melhor
comportamento, e então exigir dele o tal comportamento é uma forma de trabalhar
com a filosofia que já nos fez sofrer muito. Fazemos o mesmo com uma série de
outros conceitos. Definimos a sociedade e, então, temos de criá-la a qualquer
preço. Eis aí uma maneira complicada de viver.
No caso
em questão, a narrativa sobre o que é o homem e a mulher adquire autoridade
para dizer como que cada homem e cada mulher devem se comportar. Muita gente
pensa assim. Mas isso não dá certo.
A ideia
de uma identidade biológica mais legítima que qualquer outro tipo de identidade
é uma ideia sedutora, por conta do modo como lemos a palavra biologia. Esta
palavra atrai outra palavra com poder: ciência. Na consciência popular
escolarizada, a biologia como ciência aparece como podendo dizer tudo sobre
nós, dando o parâmetro para o nosso comportamento, que seria aquele
comportamento mais condizente com o que somos. A narrativa biológica extrapola
o uso médico e se põe como o que bate o martelo sobre a resposta à pergunta “o
que é o homem?” e o “que é a mulher?” em definitivo. Rapidamente se sobrepõe a
qualquer outra narrativa. Há um truque nisso, e ele não é bom do ponto de vista
da legitimidade. O truque é este: uma pergunta cuja resposta é médica, e deve
servir para a orientação médica, quando escorrega para o campo epistemológico e
ontológico, em termos filosóficos, eis que abre a porta para uma metafísica
escondida. Forma-se aí uma metafísica que não se reconhece como metafísica. O
dado médico esquece-se da medicina e se põe como um dado que adentra a disputa
“essência versus existência”, respondendo, é claro, pela essência. O parto é
feito por médicos. A narrativa médica se transmuta em narrativa metafísica sem
que admita isso. A narrativa médica se põe como legítima por superioridade
intelectual que não possui. A ciência e a tecnologia se unem para dar respostas
não sobre a criança que nasceu, mas sobre o que é o ser humano e, portanto, o
que deve fazer o ser humano. Isso se tornou natural para os médicos. Eles
realmente acreditam que todo saber que eles não abarcam não possui importância
alguma do ponto de vista de dizer o que é o homem e qual o seu destino.
Por que
uma narrativa exclusiva construída em situações epistemológicas ou ontológicas
não tão diferentes das outras, ou seja, a situação médica, teria a legitimidade
de nos colocar em uma caixa social da qual não podemos mais sair? O liberalismo
insiste em dizer que se venho a nascer pobre, posso, pelo meu esforço, ficar
rico. Esse mesmo liberalismo me diz que se venho a ser descrito como “homem” ou
“mulher”, não posso ser mais nada além disso, mesmo que eu não saiba o que isso
significa ao ser assim descrito, quando de meu nascimento. Você nasce com
órgãos sexuais descritos de uma maneira, e então o colocam para todo o sempre
dentro não só de um gênero ou sexo, mas em uma gaiola normativa que deverá
moldar comportamentos, e caso seu comportamento não obedeça ao molde, então
você deve perecer! É muito estranho que a descrição de determinados órgãos do
corpo tenha o poder de se transformar em caixas de aço nas quais você deverá
caber de qualquer maneira. Posso ler livros, ver filmes, viver com pessoas e animais,
amar pessoas e árvores, ter mil e uma experiências e, enfim, tudo isso que
dizem que irá me construir, na verdade, não poderá fazer nada comigo: eu serei
sempre o mesmo que aquele da descrição inicial. E tal descrição terá sido
feita, inclusive, também contra partes do meu corpo — hormonais, digamos. Serei
sempre aquilo que está na descrição inicial que é filosoficamente simplória,
pois elaborada a partir dos meus órgãos sexuais e adereços deles, internos.
Minha identidade, algo tão complexo, uma vez descrita pelo desenho de uma fenda
ou pelo desenho de uma barra, irá valer sobre toda a outra parte da cultura,
partes que são independentes da descrição da fenda e da barra. Isto é: a
palavra vagina (a fenda) e a palavra pênis (a barra) terão mais força sobre
quaisquer outras descrições que contenham muito mais palavras, e bem mais
sonoras. Não é estranho? Não é esquisito que nos tenhamos em alta conta, como
animais complexos, e ao mesmo tempo aceitemos a narrativa de que temos de ser o
que se espera de seres com barra ou fenda e seus adereços internos?
A
narrativa médica, tanto quanto a narrativa tecnológica, nunca conseguiu
entender a frase de Simone de Beauvoir “Não se nasce mulher, torna-se”. No
máximo eles a tomaram como algo metafórico, poético, alguma coisa no sentido de
ganhar feminilidade extra. Mas essa frase implicava em uma disputa ontológica
contra todas as outras narrativas que queriam se por como sabendo de antemão o
que é o bípede sem penas com fenda.
Alguns
médicos podem dizer que não se baseiam apenas nos órgãos externos, que
acompanharam o crescimento do embrião e possuem estudos sobre anatomia,
fisiologia e estados hormonais que podem caracterizar um indivíduo e, nesse
sentido, podem dizer que uma criança é “homem” e outra criança “é mulher”. Ora,
ninguém tem dúvida disso. A linguagem está aí para ser usada, para nos
entendermos. O alerta não é sobre isso. O que estou dizendo é o seguinte: como
que todos esses elementos dão um tipo de binarismo que poderia começar na sala
de parto e terminar nela mesma. Passar
daí para o primeiro atendimento do pediatra, quando este, então, inicia
expectativas binaristas, sem muito refletir sobre o que faz, é que é o
problema. Daí para diante, tudo funciona
dentro do senso comum sobre o que será aquele batizado como “menina” ou
“menino”, e as marcas fortes da fenda e da barra já estarão ditando regras
lacradoras a respeito do bípede sem penas. O gênero do ponto de vista médico
começa e termina na sala do médico — assim deveria ser. O gênero e o sexo, dali
para diante, vão ser construídos a partir do funcionamento da animação (do
possuir alma) dos garotos e garotas saídos da barriga da mamãe. Essa animação,
ou seja, a construção da alma, não possui regras tão rígidas como as que a
linguagem comum deseja.
A
narrativa médica não conhece seus limites, exatamente porque desconhece a sua
limitadora, a metafísica. “O conhece-te a ti mesmo” é regra socrática que a
medicina moderna jamais ouviu falar.
O
resultado é que o discurso médico alimenta o senso comum. A palavra pênis
descreve o homem e, de quebra, define tudo o que o homem deve fazer “como
homem”. A palavra “vagina” define a mulher e, então, determina os
comportamentos da mulher que possam garantir-lhe socialmente a condição de
mulher. A fenda e a barra, e seus pretensos parceiros internos ao corpo, ganham
poderes normativos que, por si mesmas, não podem possuir. Ganham prerrogativas
pouco legítimas. A vagina e o pênis, órgãos que não são de todo sexuais, mas
também de poluição, se tornam donos da linguagem a nosso respeito de um modo
geral. Sinceramente, isso não é esquisito?
A
linguagem pode manter a palavra homem e mulher. Talvez isso seja eterno. Mas
uma coisa é a linguagem, que nos dá condições conversacionais, outra coisa são
os comportamentos esperados – e não realizados – quando “homem” e “mulher” são
congelados segundo ordens comportamentais cuja justificativa é pouco racional.
“Menina veste rosa” e “menino veste azul” é como dizer que o cachorro após o
banho e a tosa tem de sair de gravata e a cachorra de sair de lacinho.
Mas,
sabemos, há mudanças vindo por aí. O poder da descrição binária, se notarmos
bem, está diminuindo. E as pessoas que não dão bola para tal descrição,
verdadeiramente, e passam a assumir identidades de gênero e sexo criativas,
desempenham um grau de liberdade que afronta os que não podem fazê-lo, e estes,
então, se notam como infelizes. O agressor das mulheres e da população LGBT+
diz isso claramente. Ele verbaliza. Na sua boca a mulher é “puta” como sinônimo
de “vagabunda”, e este último adjetivo é tomado de maneira literal. Outra
expressão comum: “Gente que se diverte”. Quando perguntado “qual a diversão?”,
o agressor responde prontamente: “ficam aí, tirando uma onda com a nossa cara”.
“Chegam a se beijar na frente do meu filho, esses sem-vergonhas”. Ou seja, há
um personagem na frente do agressor, que remete ao que este desejaria fazer,
mas não pode, não consegue. Não só lhe falta coragem, mas falta, mesmo,
criatividade. Ele se diz ocupado, e o seu Outro, que inclusive é parte de seu
desejo (e que não raro lhe cede o corpo), acaba lhe parecendo superior,
justamente pela criatividade, pelo exercício da liberdade. A agressão vem para
que a liberdade, a criatividade, a alegria, tudo aquilo que é superior à
tristeza do agressor, possa desaparecer de sua vista e da vista de outros. O
mundo tem de voltar a ser binário, segundo o desenho da fenda e da barra, sendo
que a barra fura a fenda e esta se acomoda. O parafuso atravessa a porca,
prende-a junto à parede. Então, tudo que é móvel ganha estabilidade. Há a normalidade
do corriqueiro.
A
mulher é agredida quando rejeita o parceiro. Não quer mais o marido ou o
namorado. Ela se mostra com mais tempo para si mesma, ela parece conseguir
fugir do biopoder, ela dá mostras repentinas de ter tempo para procurar
satisfação em outro parceiro ou em um trabalho etc. A visão da liberdade do
outro implica em felicidade que este outro resolveu usufruir, deixando o
ex-parceiro ou pretendente para trás. Ela, a rebelde que, então, é candidata a
vítima, não cumpre o destino do binarismo. Deve pagar, deve retroceder, deve
voltar para que o mundo se restabeleça em sua ordem natural. No caso da mulher
trans, o componente de prazer sexual acentua todos esses itens já ditos. Quando
é uma mulher com pênis, então é essa barra que surge como o que lhe dá
liberdade e que fornece liberdade, por alguns momentos, ao agressor. O algoz é
feliz quando aquele pênis o faz feliz. Terminado o ato sexual com, por exemplo,
a travesti, o algoz sente imensa culpa por ter colaborado com o aumento da
liberdade no mundo, liberdade que ele terá de restringir, logo que abotoa as
calças. A felicidade que sentiu não pode continuar, não pode ser ela a
testemunha do mundo, pois ela é fugaz, traiçoeira, uma vez que mostra para o
algoz o que ele deseja, e o que ele deseja é o proibido, ao menos no modo como
ele se vê no mundo. A agressão é logo desencadeada, ante que a vítima possa se
afastar como monumento de prazer que se ergue e impõe a verdade da vida livre.
É insuportável isso para o algoz. Não à toa o crime contra a mulher termina na morte
da mulher, mas o crime contra muitos da população LGBT+ se desenrola em cenas
de crueldade, inclusive em cenas que implicam na necessidade de destruição do
corpo da vítima, já morta!
A
sonoridade de “machismo” ou “misoginia” é vazia. São palavras que têm, claro,
poder semiótico, mas cuja semântica se perdeu. Funcionam no semiocapitalismo
dentro das imposições deste à infosfera, na inflação semiótica e deflação
semântica. Compreender a violência para além dessas palavras pode inverter esse
processo inflacionário. Não que possamos fazer “machismo” e “misoginia”
voltarem a dizer alguma coisa. Não! O que pode nos beneficiar é recorrer não a
palavras gastas, não a clichés, mas a um processo de reflexão sobre como a
violência ocorre. Só então começaremos a ter ideia de como evitá-la. Só então
teremos dimensão de como proteger melhor os potenciais vítimas para além do que
já temos feito em termos de ação e de leis.
Fonte:
Por Paulo Ghiraldelli, em A Terra é Redonda

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