Meta
e a censura algorítmica capilarizada
Na
tarde de terça-feira, dia 9 de dezembro de 2025, o presidente da Câmara,
deputado Hugo Motta (Rep-PB), mandou a polícia legislativa expulsar
violentamente do plenário o deputado Glauber Braga (PSOL-RJ). Glauber ocupava a
cadeira da presidência para denunciar o complô que clamava por sua cassação. Ao
mesmo tempo em que a polícia atacava o deputado de esquerda, o sinal da TV
Câmara foi desligado. Na madrugada seguinte, o Congresso votou o PL da
Dosimetria, que visa, nitidamente, diminuir a pena dos golpistas. O momento, de
ataques explícitos à democracia através da ampla difusão de desinformação,
exigia uma ampla mobilização social, sobretudo das forças progressistas,
informando a verdade à população. A disputa de narrativa nas chamadas redes
sociais, a nova arena política contemporânea, se impôs como fundamental. Mas
não contávamos com o fato de que a arena, a bola, o juiz, o algoritmo do VAR e
até a torcida… já estavam todos definidos em favor do adversário.
“Coincidentemente”,
no dia de disputarmos urgentemente a narrativa nas plataformas digitais, o
Instagram apresentou uma “falha” que tornou inacessível perfis como o do
presidente Lula, da bancada do PSOL, além de veículos midiáticos progressistas.
Simplesmente sumiram das buscas, não podiam ser marcados e tiveram restrição
algorítmica no alcance da entrega de conteúdos. As deputadas Fernanda
Melchionna (PSOL-RS) e Sâmia Bonfim (PSOL-SP) e o próprio deputado Glauber
Braga, além da grande maioria de perfis de esquerda, mídias progressistas e
perfis independentes, até mesmo nossos próprios perfis, com média de 20 mil
seguidores, sumiram dos resultados de pesquisa e não podiam ser marcados.
Coincidência?
Não é
de hoje que as grandes plataformas de interação social dirigidas pela Meta
(dona do Instagram, Facebook e Whatsapp) ou a xAI (dona do X, antigo Twitter)
vêm alterando as regras do jogo de modo a facilitar a circulação de informações
favoráveis à direita ou a discursos de ódio em detrimento de informações,
conteúdos e comunicadores críticos ao sistema capitalista e à sua
destrutibilidade. Não faz muito tempo que a Meta derrubou, sem justificativas,
os perfis de Jones Manoel, Chavoso da USP e Jeferson Tenório, suscitando grande
repúdio e descrédito por parte da população em geral. Mas agora a censura
alcançou um patamar mais sofisticado. Ao invés de simplesmente cancelar o
perfil, por que não os condenar ao ostracismo algorítmico, dificultando que a
ampla maioria dos seguidores acessem seu conteúdo? A técnica que permite esse
silenciamento chama-se shadowban. Ser banido para as sombras significa que você
não foi oficialmente punido pela rede proprietária em questão, mas seu conteúdo
perde alcance de entrega, você some das pesquisas e fica em uma espécie de
limbo cibernético, logo, político. É muito pior do que ter um perfil,
simplesmente, cancelado e poder provocar um debate público sobre essa
arbitrariedade.
Vivemos
uma ditadura algorítmica com grandes danos para qualquer projeto de democracia
e soberania. Esse colonialismo digital, cujo epicentro é o Vale do Silício
californiano, é viabilizado, em primeiro lugar por uma tendente monopolização
geopolítica dos meios sociotécnicos, infraestruturais, lógico-matemáticos e
simbólicos que estruturam a internet e as suas métricas de circulação de
informação. Mas é intensificado por um conjunto de experimentações
tecnopolíticas e de engenharia social, de controle da circulação de
informação/desinformação e predição de comportamento para interesses econômicos
e políticos dessas empresas. Quem controla a plataforma controla a forma, o
fluxo e a recepção de informações e ideologias decidindo qual usuário irá
receber ou não determinados conteúdos. Mas o shadowban acrescenta uma nova
camada de interferência no debate público, pois decide quem ou qual conteúdo
pode ser emitido. Nenhuma ditadura da história da humanidade teve um poder tão
pan-óptico.
Enquanto
se represa conteúdo crítico às injustiças sociais, escoa-se com facilidade e
ampla entrega os conteúdos masculinistas red pill, ideologias de ódio, golpes
de pix, tigrinho, bets, negacionismo científico, campanhas antivacina,
revisionismo histórico e negacionismo climático. Circulam livremente e são até
impulsionados porque geram lucros não apenas aos seus produtores e anunciantes,
mas às Big Techs proprietárias dessas plataformas. As chamadas “redes sociais”
são na verdade plataformas tendenciosas, que alteram intencionalmente as regras
do jogo político em benefício de seus próprios interesses econômicos e
ideológicos. As redes proprietárias colonizam a sociabilidade humana e a arena
pública tornando-os networking corporativo. Até a nossa linguagem é colonizada
pela linguagem do marketing e empreendedorismo, convertendo-nos todos em
espécies caricatas de CEOs-de-si, como defendido pela ideologia californiana
das Big Techs do Vale do Silício, com seus selfmade men e do it yourself.
A
plataformização e uberização das relações de trabalho — da vida cotidiana e da
política — tornou esse modelo de negócios esteticamente hegemônico. Não é
possível colonizar a política sem colonizar, ao mesmo tempo, a ética e
estética. Não há hoje um único político eleitoralmente viável que não seja,
independente das suas habilidades e causa política, um influencer com grande
desempenho — e muitos seguidores — nas grandes plataformas proprietárias. As
plenárias do Congresso ou do Senado se tornaram grandes estúdios solitários de
gravação de cortes lacradores e tendenciosos para respostas. A própria política
— que assim como a salsicha, é bem menos saudável do que dizem as propagandas —
se faz nos interstícios da arena. Os deputados já não debatem projetos de
sociedade ou de lei, discursam na tribuna para seu público no X, Instagram ou
YouTube. Talvez por isso, as bancadas políticas que representam o grande
capital são tão contrárias a projetos de democratização da informação ou mesmo
de uma mínima regulação e corresponsabilização dessas plataformas. Elas se
tornaram um grande e lucrativo palco vivo de um macabro reality show de BBB em
que o desavisado Truman somos nós!
Enquanto
isso, a captura (expropriação) de nossos dados, metadados e biodados para
processamento de big data e entrega de anúncios perfilados, segmentados com
microdirecionamento, segue a velocidade exponencialmente acelerada. Esse é o
coração gelado da big data, um modelo de negócios que vampiriza nossa atenção,
experiência, subjetividade, semblante, saberes, desejo, sensibilidade e
política, nos esfolando just in time. Nem a nossa infância ou o registro dos
nossos filhos escapam a essa acumulação primitiva de dados em prol da predição
e modulação de comportamentos para consumo e controle político.
Diante
das eleições de 2026, Meta e Google treinam — abertamente, como vimos na
reportagem de Sérgio de Souza, publicada pelo Intercept — milícias digitais de
extrema direita, instruídas em uso de inteligência artificial Gemini, Google
Deep Mind VEO3, otimização na entrega de conteúdos, oficinas de como azeitar os
algoritmos para intensa e massiva circulação de fake news, teorias da
conspiração e todo tipo de chorume internético usado pela direita para minar a
frágil, contraditória e racializada democracia que temos. Mas se Michael
Foucault converteu célebre frase ”A guerra nada mais é que a continuação da
política por outros meios”, de Carl von Clausewitz (1780-1831), em “A política
é guerra feita por outros meios”, Frantz Fanon (1925-1961) nos lembra incisivamente
que a “a guerra é um negócio comercial gigantesco e toda perspectiva deve levar
isso em conta”. Aqui reside, pois, a explicação para a “coincidentemente”
promiscua aliança entre as Big Techs e a extrema direita brasileira e mundial.
Por
falar em guerra, essas mesmas empresas são proativas e lucram bilhões com a
utilização de seu aparato predatório de vigilância no complexo
industrial-militar. O genocídio palestino, perpetrado pelo Estado colonial de
Israel, bem como a sua relação espúria com empresas como a Meta e o Google,
ofereceu fartos exemplos dessa simbiose entre capitalismo, colonialismo,
racismo e tecnologias algorítmicas da morte. As máscaras e filtros
embelezadores caíram! O envolvimento das Big Techs com o genocídio em Gaza e
seu alinhamento direto com a alt-right trumpista ficou explícito. Mas a
arbitrariedade não para por aí. Estamos assistindo à manipulação passiva da
opinião pública, que supera em muito aquilo que vimos nas eleições
presidenciais brasileiras de 1989, quando a Rede Globo difundiu desinformação
em favor de Collor de Mello. Trata-se agora da mensuração detalhada da
interação dos usuários para manipular o debate público. Os conteúdos e perfis
de esquerda ou progressistas perdem o poder de circulação até mesmo para os
seus correligionários com vistas ao sufocamento da crítica, em um momento de
crise política. Alguns poucos perfis de direita também foram atingidos,
provavelmente para depois dizer “não foram só os de esquerda, foi um erro do
algoritmo”. Muito conveniente este erro que capilarizou a censura algorítmica,
demonstrando o potencial de controle e modulação da infosfera.
Guerra,
política, economia, e algoritmo estão, cada vez mais, incontornavelmente
entrelaçados. Quando as Big Techs chegaram em solo nacional, prometeram
liberdade, descentralização midiática: com a Uber foi assim, com a Google,
Netflix e Spotify. Se diferenciavam dos serviços de transporte, informação e
entretenimento tradicionais, com sua centralização e controle explícito e
direto. Com a plataformização e consequente, algoritmização das redes, nossa
liberdade é explorada, inclusive nossas experiências psíquicas. Tudo é
datificado e serve de base para treinamento de modelos de machine learning,
deep learning, algoritmos de entrega de anúncios segmentados, marketing
político e digital. Sob a aparência de livre arbítrio, somos submetidos ao
tramado do poder algorítmico, que por baixo de uma fina camada de “liberdade”
esconde os códigos proprietários que controlam nossas vidas, nosso acesso a
moradia, crédito, até mesmo decidindo se um policial vai atirar ou não em seu
rosto, pois o reconhecimento facial racializado define quem pode ser
assassinado.
O seu
feed, timeline, os resultados de buscas on-line, IAs e plataformas de filmes e
música respondem a essa concatenação de algoritmos, não há liberdade possível
para o pensamento crítico, para as forças políticas e artísticas se
expressarem, mas sim a capilarização da censura algorítmica e o fortalecimento
da desinformação. Esta é o fogo fátuo da podridão exalada pela nefasta aliança
entre neofascismo, colonialismo, capitalismo, racismo, masculinismo. Todos
testemunhamos que os posts em defesa da Palestina foram constantemente
censurados1 nessas plataformas, mas agora os experimentos tecnopolíticos com a
Palestina e com militantes que denunciam o Genocídio em Gaza foram ampliados e
serão testados ao longo de 2026.
O
estranhamento tecnológico é retroalimentado pelo cinismo das Big Techs, que
moldaram e padronizaram as interfaces e ferramentas digitais, dando a impressão
de que não há alternativa aos seus produtos, outras concepções de software.
Nossa dependência de aplicativos das Big Techs é hoje uma materialidade: se os
governos e poderosas corporações se entregaram aos ditames do Vale do Silício,
o que sobra para o indivíduo? Como resistir? DataSUS rodando em servidores
Amazon Web Service, rede federal de institutos e universidades entregue ao
Google Alphabet… Nossa comunicação contra-hegemônica dependendo de Google
YouTube…
É
possível experimentar e adotar vários softwares alternativos como calendários,
motores de busca, nuvens e redes sociais. Os movimentos sociais precisam pensar
em autodefesa digital, agitprop, hackeamentos que possibilitem mídias livres.
Vamos dar alguns exemplos práticos: o serviço proton de e-mail, calendário,
nuvem, vpn, IA criptografada, wallet e docs, onde nos conectamos para escrever
este texto, é uma alternativa segura e criptografada, com código aberto, ao
monopólio Google. Existem plataformas livres como o disroot.org, com serviços
de nuvem, busca, hospedagem de imagens e paste bin criptografados. Como
substituto do Google Android em seu telefone, você pode experimentar o sistema
operacional LineageOs, além de poder instalar sistemas operacionais GNU Linux
como Debian, Ubuntu, Zorin e Mint. Em seu Android você pode baixar o F-DROID e
baixar apps livres e abertos (FOSS free open source software). Existem mais
alternativas: o motor de busca duckduckgo e sua IA anônima, o uso de navegador
TOR ou espetar um pen drive com TAILS em algum notebook, para ter segurança
extra, adequada a militantes, jornalistas e denunciantes de crimes
corporativos. Conheça o fediverso: o peertube, o Mastodon.Social, pixelfed,
conheça a comunicação segura por signal. Saiba que existem outros modelos de
software que são críticos a hegemonia das Big Techs e que sobrevivem graças ao
hacktivismo, com comunidades que desenvolvem coletivamente a tecnologia. Saber
que existem outros modos de produzir tecnologia é essencial para a cultura
revolucionária.
Fonte:
Por Deivison Faustino e Walter Lippold, no Blog da Boitempo

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