sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Govan Mbeki foi um brilhante pioneiro do marxismo africano

A vida de Govan Mbeki teve muitas facetas. Ele foi um intelectual que escreveu sobre economia e política sul-africanas durante sessenta anos; um professor dedicado, que reconhecia com bom humor suas habilidades de mestre; e um jornalista, pesquisador e analista.

Mais notavelmente, ele foi um ativista político, membro do Congresso Nacional Africano (ANC) desde a década de 1930 e, posteriormente, do Partido Comunista Sul-Africano (SACP), emergindo como líder em ambas as organizações no final da década de 1950. Quando o ANC decidiu pegar em armas contra o regime do apartheid, ele se tornou parte de seu braço armado, o uMkhonto we Sizwe (MK), supervisionando um programa de mobilização clandestina em Port Elizabeth antes de chefiar uma unidade de sabotagem na mesma cidade.

Em julho de 1963, Mbeki foi preso juntamente com outros ativistas, como Walter Sisulu e Ahmed Kathrada, em uma fazenda em Rivonia. Ele foi um dos processados ​​no famoso julgamento de Rivonia no ano seguinte e passou vinte e quatro anos como prisioneiro político antes de ser libertado em 1987.

Foi a combinação dessas duas identidades que melhor captura a contribuição singular de Mbeki para a luta de libertação nacional. Ele era um ativista e um intelectual, uma figura para quem os papéis de prático e teórico não eram opostos, mas complementares.

<><> Tenacidade e consistência

Entre os principais aspectos da carreira política de Mbeki, destacam-se a tenacidade e a consistência. A partir de meados da década de 1930, ele se considerava um nacionalista africano e marxista. Essas duas vertentes permaneceram constantes, embora o equilíbrio entre elas tenha se alterado ao longo do tempo.

Historicamente, o aspecto mais distintivo da política de Mbeki foi sua insistência, ao longo de décadas, em que tanto o nacionalismo africano quanto o movimento comunista na África do Sul deviam se voltar aos camponeses e trabalhadores migrantes do país. Essa posição significava que ele nadava contra a corrente em ambas as correntes políticas. Os comunistas sul-africanos eram ortodoxos em sua ênfase no proletariado urbano, enquanto o ANC, por muito tempo, deu pouca atenção aos pobres rurais como base para a mobilização.

“A partir de meados da década de 1930, Govan Mbeki se considerava um nacionalista africano e marxista.”

Mbeki nasceu em 1910 em uma família pertencente à elite camponesa de posses modestas no oeste do Transkei. O Transkei era uma vasta área rural onde os chefes tradicionais exerciam considerável poder, embora estivessem sujeitos a magistrados brancos. Seu pai era um chefe de aldeia assalariado que também trabalhava na agricultura e administrava um negócio de transporte com carroças puxadas por bois; seus pais eram ambos metodistas devotos.

Após frequentar um internato missionário, Mbeki estudou em Fort Hare, a única universidade no sul da África que admitia estudantes africanos. Durante as décadas de 1930 e 40, a universidade tornou-se um berço do nacionalismo africano. Mbeki e muitos de seus contemporâneos foram radicalizados em 1936 por acontecimentos políticos internos, como a privação do direito de voto aos negros na Província do Cabo e as leis segregacionistas introduzidas pelo governo de J.B.M. Hertzog. Eventos internacionais, como a invasão da Abissínia pela Itália, também moldaram suas perspectivas.

Em sua jornada rumo ao nacionalismo africano, Mbeki foi acompanhado por muitos de seus pares. Mas ele também trilhou um caminho político bem menos convencional no mesmo período. Dois homens que conheceu em Fort Hare despertaram suas convicções socialistas: Eddie Roux, membro do Partido Comunista, e Max Yergan, um afro-estadunidense que trabalhava na universidade. O jovem Mbeki era um convertido fervoroso, distribuindo literatura comunista e devorando todo material marxista que conseguia encontrar.

Em suas visitas a Joanesburgo, ele se aproximou de Edwin Thabo Mofutsanyana, um membro proeminente do Partido Comunista. No entanto, ele só se filiou ao partido muito mais tarde, o que explicou posteriormente em termos de sua heterodoxia teórica. Ele acreditava que os esforços de organização deveriam ser direcionados principalmente para as áreas rurais, enquanto Mofutsanyana insistia que deveriam se concentrar nos trabalhadores urbanos. Como Mbeki me disse certa vez: “Costumávamos debater, debater e debater”.

<><> Despertando o Transkei

Seu primeiro emprego após sair da universidade em 1937 foi como professor do ensino médio em Durban. Paralelamente às suas funções em sala de aula, seus horizontes intelectuais continuaram a se expandir. Ele se matriculou em um curso de economia em uma universidade à distância, tendo considerado os escritos do líder soviético Nikolai Bukharin “interessantes, mas difíceis”.

Em 1938, ele publicou uma série de oito artigos que posteriormente apareceram na forma de um pequeno livro, Transkei in the Making [O Transkei em Formação]. A obra contestava a visão de que os africanos rurais eram atrasados ​​devido ao seu próprio conservadorismo cultural, argumentando que a pobreza do Transkei era produto da conquista colonial e de leis que forçavam os jovens a trabalhar nas cidades e nas minas.

Na escola em Durban, Mbeki conheceu Epainette (Piny) Moerane, que também vinha da zona rural do Transkei e havia se filiado ao Partido Comunista em 1938. Eles se casaram em 1940 e mudaram para o Transkei. Govan lecionou por dezoito meses antes de ser demitido por seu trabalho político e forte laicismo. Ele passou os dez anos seguintes trabalhando como comerciante, jornalista e organizador político.

“Mbeki contestou a visão de que os africanos rurais eram atrasados ​​devido ao seu próprio conservadorismo cultural.

De 1938 a 1943, ele editou o Inkundla ya Bantu, o único jornal de propriedade e administrado por africanos, e ao longo da década de 1940 também escreveu para jornais de esquerda alinhados ao Partido Comunista. Ele usou esses veículos para analisar a economia política de reservas africanas como o Transkei e, de forma mais geral, para compreender a sociedade africana em termos de sua composição de classes.

O prolífico jornalista também foi um organizador incansável. Em 1941, Mbeki escreveu ao presidente do ANC, Alfred Xuma, descrevendo o Transkei como estando “politicamente em sono profundo”. Ele dedicou suas energias a despertar a região. Lançou os Corpos Organizados do Transkei, uma tentativa de criar uma voz progressista única a partir de grupos locais e interesses díspares, e de conectar as questões locais às campanhas nacionais do ANC. De 1943 a 1948, Mbeki atuou incessantemente na política com base nessa abordagem.

Os anos de envolvimento político tiveram um preço em âmbito doméstico. Mbeki e Piny tiveram quatro filhos na década de 1940, mas o casamento era tenso. O ativismo de Piny era desgastado pela rotina diária, enquanto o marido estava frequentemente ausente. Ele deixou o Transkei em 1953 para assumir um cargo de professor em Ladysmith, Natal. Mais uma vez, seu envolvimento político fora do horário escolar levou à sua demissão pelo departamento responsável pela educação africana.

Mbeki recebeu então a oferta do cargo de editor local e gerente de escritório em Port Elizabeth para o New Age, um jornal que servia como publicação não oficial do SACP. Em julho de 1955, ele se mudou para a cidade portuária, entrando em um ambiente político completamente diferente tanto do Transkei rural quanto das Midlands de Natal, com os quais estava familiarizado anteriormente.

<><> Port Elizabeth

Port Elizabeth foi o berço da política africana organizada na África do Sul. Na década de 1940, os sindicatos locais vincularam uma série de greves às lutas comunitárias por preços de aluguéis e alimentos e as leis de passe que restringiam a circulação de pessoas negras. Em 1955, no entanto, o espaço para resistência política aberta foi severamente restringido e o ANC foi proibido de realizar reuniões na cidade.

O desafio era encontrar maneiras diferentes de engajar uma base popular fervorosa e sustentar o ativismo além da vigilância estatal. Anos mais tarde, Mbeki recordou que “foi durante esse período, de 1956 a 1960, que aperfeiçoamos os métodos de atuação clandestina”. Estruturas celulares embrionárias já operavam na cidade, às quais Mbeki acrescentou dois elementos: um programa de educação política sem paralelo em qualquer outra cidade sul-africana e uma ênfase no sigilo, na pontualidade e na disciplina para evitar a atenção da polícia.

“O desafio era encontrar maneiras diferentes de engajar uma base de apoio popular fervorosa e sustentar o ativismo para além da vigilância estatal.”

Mbeki procurou ativamente conectar as lutas urbanas e rurais. Viajou frequentemente para áreas rurais no Cabo Oriental e no Transkei, e em Port Elizabeth fez questão de organizar-se nos albergues que abrigavam trabalhadores migrantes rurais. Produziu um jornal mensal clandestino direcionado especificamente às comunidades rurais, imprimindo e distribuindo milhares de exemplares.

Ao mesmo tempo, ele estava profundamente envolvido em escrever sobre os desenvolvimentos nas Reservas e a importância da Lei das Autoridades Bantu: “Agora, todos os domingos eu ia ao escritório do [New Age], me trancava lá e me escondia”. Ele se “escondia” para conduzir pesquisas, vasculhando reportagens da imprensa, documentos oficiais e registros governamentais.

Com base nesse trabalho, ele publicou uma série de artigos, retomando temas que vinha abordando há vinte anos, além de descrever a resistência camponesa contra chefes e magistrados. Esses artigos prenunciaram a obra mais conhecida de Mbeki, The Peasants’ Revolt [A Revolta dos Camponeses].

<><> Rivonia

Durante o período entre março de 1960 e julho de 1963, do massacre de manifestantes em Sharpeville ao ataque a Rivonia, a vida de Mbeki mudou decisivamente. O contexto político impulsionou o professor e escritor para a política revolucionária e para posições de liderança no ANC, SACP e MK.

“Mbeki esteve diretamente envolvido na transição da resistência pacífica para a luta armada e presente na reunião em que o Partido Comunista Sul-Africano (SACP) aprovou formalmente essa mudança de política.”

Ele esteve diretamente envolvido na transição da resistência pacífica para a luta armada e presente na reunião em que o Partido Comunista Sul-Africano (SACP) aprovou formalmente essa mudança de política. O MK foi lançado em 1961 para implementar um programa de sabotagem direcionado a alvos selecionados e concebido para evitar baixas. Mbeki liderou uma célula do MK em Port Elizabeth.

Em setembro de 1962, ele se mudou para Joanesburgo e, em seguida, para a fazenda Liliesleaf em Rivonia, uma propriedade que o Partido Comunista Sul-Africano (SACP) havia adquirido para usar como esconderijo. No entanto, justamente quando a segurança deveria ter sido reforçada, ela se tornou ainda mais frágil. Uma batida da polícia do regime do apartheid resultou na prisão de dezessete pessoas no local, incluindo Mbeki.

Nelson Mandela foi o principal réu no julgamento que se seguiu. Mbeki foi um dos outros nove homens acusados ​​de organizar ou apoiar a campanha de sabotagem do MK acusações que potencialmente acarretariam a pena de morte. Ao final do julgamento, oito dos acusados ​​foram considerados culpados e condenados à prisão perpétua.

Denis Goldberg, o único camarada branco entre os considerados culpados, foi preso em Pretória. Os outros sete foram levados de avião para Robben Island, uma prisão de segurança máxima recém-construída para presos políticos, a seis quilômetros ao sul da Cidade do Cabo.

<><> Ilha Robben

Cada prisioneiro encontrou maneiras diferentes de lidar com as privações e indignidades da vida na prisão. Mbeki lidou com isso — ele sobreviveu —, mas a um custo físico e psicológico considerável. Outros prisioneiros se lembravam de “Oom Gov” (Tio Govan) como uma espécie de solitário, dado à solidão e que tendia a não se envolver nas formas de recreação disponíveis.

Duas características dos seus anos na prisão se destacam. Em primeiro lugar, quando surgiram grandes tensões dentro da liderança do ANC em Robben Island, elas se cristalizaram em torno da deterioração da relação entre Mbeki e Mandela. De 1969 a 1974, dois grupos hostis divergiram em questões de princípio e política, embora os choques de personalidade e temperamento, combinados com o contexto implacável da prisão, também tenham intensificado as tensões.

Em segundo lugar, Mbeki foi a figura central de um programa extraordinário de educação política, obrigatório para todos os homens do ANC na ilha. Foi uma resposta criativa dos veteranos de Rivonia à chegada de prisioneiros mais jovens e revoltados após o levante de Soweto em 1976 e a captura de soldados do MK. O currículo incluía história, política e economia. Mbeki escreveu bastante enquanto estava na prisão, e os frutos de seu trabalho foram publicados sob o título Learning from Robben Island [Aprendendo com a Ilha Robben].

“Cada prisioneiro encontrou maneiras diferentes de lidar com as privações e indignidades da vida na prisão.”

Mbeki foi libertado da Ilha Robben em novembro de 1987. Os outros homens de Rivonia seguiram o mesmo caminho em 1989, enquanto Mandela finalmente conquistou sua liberdade em fevereiro de 1990. As negociações formais entre o ANC e o regime do apartheid começaram em 1991. Três anos depois, um governo do ANC foi eleito na primeira eleição democrática, com Mandela como presidente.

Na prisão, Mbeki zombou da ideia de que “as forças libertadoras poderiam chegar a um acordo com a burguesia” e alertou que o resultado de qualquer acordo desse tipo “seria consolidar o capitalismo em detrimento dos oprimidos”. Agora, ele observava à margem enquanto o acordo negociado proporcionava mudanças políticas de longo alcance com ampla continuidade na esfera econômica: as grandes empresas sul-africanas e o ANC decidiram que precisavam um do outro.

<><> Lutando até o empate

Leal até o fim, Mbeki se conformou, ainda que a contragosto, com a nova ordem e aceitou um cargo essencialmente cerimonial como vice-presidente do Senado. A expressão mais próxima que ele teve de reservas sobre os termos em que o ANC chegou ao poder foi em um pequeno livro publicado em 1996, Sunset at Midday [Crepúsculo ao meio dia].

Para Mbeki, a luta de libertação provou ser “uma guerra sem vencedores absolutos”, na qual o nacionalismo africano e o nacionalismo afrikaner “chegaram a um empate”. Mas, como ele lembrou aos seus leitores, “as revoluções, mesmo as mais modestas, não se fazem em nossos sonhos, mas em circunstâncias históricas concretas. O que temos, embora longe da perfeição, é um ponto de partida”.

O tom está longe de ser triunfalista. Ele tira o melhor proveito de uma conquista que não chegou à vitória — o velho revolucionário se consolando com o fato de que, afinal, foi uma revolução modesta.

 

Fonte: Por Colin Bundy - Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

 

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