sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Como Motta, Lira e líderes da base e da oposição gastaram a cota parlamentar em 2025

Um levantamento realizado pelo Correio Braziliense com base nos dados da Câmara dos Deputados mostra que o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), o ex-presidente Arthur Lira (PP-AL) e líderes partidários gastaram, juntos, mais de R$ 2,8 milhões em cota para o exercício da atividade parlamentar ao longo de 2025. As despesas incluem gastos com passagens aéreas, divulgação da atividade parlamentar, combustíveis, locação de veículos, telefonia e manutenção de escritórios.

Entre os parlamentares analisados, o presidente da Câmara foi o que registrou o maior volume de despesas no ano, seguido pelos líderes do PL e do governo na Câmara. Ao todo, o chefe da mesa-diretora gastou R$ 527.752,69 em cota parlamentar ao longo de 2025.

O mês com maior despesa foi fevereiro, quando os gastos somaram R$ 56.995,89. Nesse período, o maior desembolso foi com divulgação da atividade parlamentar, que alcançou R$ 27.950, seguido por locação ou fretamento de veículos (R$ 12 mil) e combustíveis (R$ 9.392). As despesas com passagens aéreas chegaram a R$ 7.049,07.

Já o ex-presidente da Casa Legislativa, deputado Arthur Lira, teve despesas menores no acumulado do ano, totalizando R$ 301.908,38. O pico ocorreu em março, quando os gastos chegaram a R$ 96.903,38, valor próximo de R$ 100 mil. Nesse mês, as passagens aéreas concentraram quase toda a despesa, somando mais de R$ 91 mil, entre reembolsos e gastos via sistema da Câmara. Os demais custos incluíram combustíveis, telefonia e manutenção de escritório.

<><> Panorama entre base e oposição

O Correio também fez um comparativo entre as lideranças da base do governo federal e da oposição que representa a ala bolsonarista no Parlamento. O líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (RJ), por exemplo, registrou R$ 283.464,99 em despesas ao longo de 2025. O mês de maior gasto foi setembro, com R$ 41.652,70. As principais despesas nesse período foram passagens aéreas (R$ 21.466,42) e divulgação da atividade parlamentar (R$ 13 mil), além de gastos com manutenção de escritório e telefonia.

Já o líder do PL, Sóstenes Cavalcante (RJ), gastou R$ 453.851,91 em cota parlamentar no ano de 2025, R$ 170.386,92 a mais que o líder da sigla petista. O mês de maior despesa foi maio, quando os gastos chegaram a R$ 55.948,64, cujo os principais custos foram com passagens aéreas (R$ 22.190,59), divulgação da atividade parlamentar (R$ 15 mil), locação de veículos (R$ 12,7 mil) e combustíveis.

No comparativo entre a liderança da oposição e do governo Lula na Casa, os maiores gastos mudam de lado, apesar de pouca diferença, com o líder do Executivo no Parlamento tendo um gasto anual que ultrapassou R$ 450 mil.

Ao todo, José Guimarães (PT-CE) gastou R$ 453.790,15 em cota parlamentar ao longo do ano. O mês de maior despesa foi julho, quando os gastos chegaram a R$ 61.473,25. Nesse período, os principais custos foram com passagens aéreas (R$ 26.803,88), manutenção de escritório (R$ 13.564,14) e divulgação da atividade parlamentar (R$ 12.396).

Já o líder da oposição na Câmara, Zucco (PL-RS), teve despesas totais de R$ 419.669,70 em 2025. O maior gasto mensal ocorreu em abril, com R$ 53.836,80. As despesas foram puxadas principalmente por passagens aéreas, que somaram R$ 27.240,37, além de manutenção de escritório, locação de veículos, combustíveis e divulgação da atividade parlamentar.

<><> Cota parlamentar

A cota para o exercício da atividade parlamentar é um recurso público destinado a custear despesas relacionadas ao mandato, como transporte, comunicação, aluguel de veículos, manutenção de escritórios e divulgação das atividades do deputado. Os valores variam de acordo com o estado de origem do parlamentar e são divulgados mensalmente no Portal da Transparência da Câmara dos Deputados.

•        Motta procura Dino após STF barrar emendas retroativas

Sob pressão de uma crise que expõe o choque entre Congresso e Judiciário, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), foi ao Supremo Tribunal Federal (STF) tentar conter o desgaste político após a decisão do ministro Flávio Dino que suspendeu a retomada de emendas parlamentares canceladas entre 2019 e 2023. A ofensiva do Congresso para reativar esses recursos, vista como tentativa de “ressuscitar” despesas já barradas, abriu uma nova disputa sobre legalidade, transparência e responsabilidade fiscal.

Motta procurou Dino para explicar os bastidores da medida aprovada pelo Parlamento que permitiria a liberação dos valores. A decisão do ministro, tomada no último domingo (21/12), congelou os efeitos do dispositivo antes mesmo de ele ser sancionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O texto havia sido aprovado no dia 17 de dezembro e estava na fase final de tramitação.

Ao derrubar o dispositivo, Flávio Dino lembrou que o Supremo já havia tratado do tema no julgamento do “orçamento secreto” e estabelecido limites claros: não seria possível reativar restos a pagar vinculados às antigas emendas de relator — mecanismo considerado inconstitucional pela Corte. Para o ministro, a nova tentativa do Congresso ultrapassa “balizas institucionais” definidas anteriormente pelos Três Poderes.

Na decisão, o magistrado afirmou que a medida parece incompatível com o regime jurídico vigente, por tentar devolver validade a uma modalidade já declarada inconstitucional. Dino também chamou atenção para o cenário fiscal do país, defendendo que todos os Poderes têm a obrigação constitucional de zelar pelo equilíbrio das contas públicas.

O trecho questionado foi incluído em um projeto originalmente voltado ao corte de benefícios fiscais — prática conhecida no meio legislativo como “jabuti”. A medida permitiria ao Executivo pagar valores antigos indicados em emendas de relator e em emendas de comissão. Técnicos da Câmara estimam que cerca de R$ 3 bilhões poderiam ser liberados.

Paralelamente, o Congresso aprovou, na última sexta-feira (19), o Orçamento de 2026, prevendo R$ 61 bilhões em emendas parlamentares.

Mesmo com as acusações de articulação conjunta, o governo tenta se afastar da crise. A Secretaria de Relações Institucionais, comandada pela ministra Gleisi Hoffmann, afirmou que não participou do acordo para incluir o dispositivo no texto.

Mesmo assim, o artigo passou pela Câmara e depois foi mantido no Senado, sob relatoria do líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AC), que preservou a previsão de pagamento das emendas, agora suspensa por decisão judicial.

Enquanto isso, Hugo Motta tenta reduzir o desgaste político e institucional, em meio a um cenário em que Executivo e Legislativo avaliam os próximos passos diante de mais um confronto envolvendo a liberação de recursos públicos e o alcance do poder das emendas parlamentares.

•        Velha mídia ataca o STF para blindar o poder financeiro. Por Esmael Morais

A velha mídia voltou a vestir a fantasia da moralidade para apontar o dedo ao Supremo Tribunal Federal. Em editoriais recentes, Folha e Estadão falam em “ruptura do pacto da impunidade” e em “ligações perigosas”, sugerindo um conluio estrutural entre ministros do STF e investigados. O discurso soa firme. O contexto, porém, revela o velho moralismo seletivo de quem nunca abriu mão dos próprios interesses.

Não se trata de absolver ministros, blindar autoridades ou relativizar suspeitas. A crítica aqui é outra. Quem cobra virtude pública precisa, antes, olhar o próprio espelho.

Folha e Estadão não são observadores neutros. Integram o consórcio informal da velha mídia corporativa, alinhada historicamente aos interesses do sistema financeiro da Faria Lima. Um bloco que defendeu o arrocho fiscal permanente, naturalizou privatizações predatórias e jamais questionou com a mesma veemência a maior taxa de juros real do planeta, hoje em torno de 15%, que sangra a economia popular e esteriliza o orçamento público.

Esse é o ponto central que os editoriais silenciam.

Quando falam em corrupção como mal absoluto, evitam tocar na corrupção estrutural que opera por meios legais. O rentismo não precisa de malas de dinheiro. Vive de resoluções técnicas, atas do Copom, spreads bancários e títulos da dívida pública. Tudo dentro da lei. Tudo longe das manchetes moralistas.

A pergunta incômoda segue atual. Quem é mais ladrão, quem assalta um banco ou quem funda um banco para extrair renda do Estado e da sociedade por décadas?

Os jornais que hoje posam de fiscais do galinheiro sempre conviveram confortavelmente com fundos de investimento, bancos e interesses cruzados. Defenderam reformas que transferiram renda do trabalho para o capital financeiro. Aplaudiram o desmonte de políticas públicas. Naturalizaram a financeirização extrema da economia brasileira. Nunca chamaram isso de “pacto da impunidade”.

Ao mirar o STF, a velha mídia desloca o foco. Constrói uma narrativa de degradação moral das instituições para preparar o terreno político. Em ano pré-eleitoral, o objetivo não é a ética pública. É preservar o modelo que garante rendimentos pornográficos ao topo da pirâmide.

Isso não significa negar a necessidade de apuração rigorosa sobre contratos, viagens, relações pessoais ou eventuais conflitos de interesse envolvendo ministros do Supremo. Transparência e controle são exigências republicanas. Mas não podem ser instrumentalizadas por quem nunca foi rigoroso consigo mesmo.

A crítica seletiva é uma forma sofisticada de manipulação.

Ao atacar o Judiciário, Folha, Estadão, Globo, Veja, et caterva, tentam recuperar o papel de árbitros morais que perderam ao longo dos anos. Fazem isso sem admitir que também são parte interessada na disputa pelo poder, pela narrativa e pelo modelo econômico que asfixia o país.

O brasileiro comum, vítima diária do rentismo, sabe quem paga a conta. Não são os editoriais indignados. É o trabalhador, o aposentado, o pequeno empresário, todos esmagados por juros extorsivos e serviços públicos estrangulados.

Em 2026, os barões da velha mídia tentarão se vender como cordeiros. Convém lembrar que esta raposa do rabo felpudo continua no galinheiro.

A democracia exige vigilância sobre todos os poderes, inclusive o Judiciário. Mas exige, sobretudo, honestidade intelectual. Moralidade sem autocrítica é só propaganda.

 

Fonte: Correio Braziliense/Brasil 247

 

Nenhum comentário: