sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Leandro Aguiar: Venezuela difere de outras invasões dos EUA por quebrar ordem liberal, dizem especialistas

O enredo não é novo: sob o pretexto de que é preciso salvar a população de uma ditadura e da espoliação econômica que ela promove, os Estados Unidos da América bombardeiam países, derrubam o governante da vez e passam a gerir o estado, sempre sob a promessa de redemocratização. Desde o fim da Guerra Fria, foi assim no Panamá (1989), Afeganistão (2001), Iraque (2003), Haiti (2004), Líbia (2011) e, agora, na Venezuela.

Para os analistas ouvidos pela Agência Pública, entretanto, o sequestro de Maduro demonstra uma característica singular: a forma explícita com que os EUA agora admitem seus interesses econômicos. E, se agora, Trump sequer se esforça em dissimulá-los, a ausência de um plano mínimo para a reestruturação da Venezuela – que, ao menos no papel, existiu nas guerras anteriores – aponta para o fim de uma era: a da ordem liberal internacional.

Estabelecida após o término da Segunda Guerra, sob a liderança dos próprios EUA, essa ordem baseou-se até poucos anos no livre comércio, no respeito aos acordos internacionais, às instituições globais como a ONU e na defesa da democracia e da paz – ainda que, em diversos momentos, tais elementos tenham sido defendidos apenas em discursos e não em atos.

“Existe um diagnóstico muito cru, muito duro por parte da elite política estadunidense, de que a ordem internacional liberal não serve mais aos interesses dos EUA. O país vai perdendo liderança, capacidade de ditar os rumos e, portanto, se fez necessário, no cálculo dos tomadores de decisão dos EUA, mudar a estratégia. É isso que vem sendo feito nos últimos anos e de forma muito acentuada na gestão do Trump”, explica Dawisson Belém Lopes, professor de Política Internacional na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

<><> Por que isso importa?

  • Donald Trump não esconde o interesse de seu governo de controlar o petróleo venezuelano e manter a América do Sul sob influência exclusiva dos EUA.
  • O presidente norte-americano tem afirmado que outros países da região, como a Colômbia, podem sofrer ações semelhantes a da Venezuela.

Já para Neusa Bojikian, que é professora de Ciências Políticas na Universidade Estadual de Campinas e pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos, os atos aparentemente ‘insanos’ da gestão do republicano são motivados por um sentido de urgência cultivado pelo grupo político de Trump frente à ascensão econômica da China e a retomada da influência da Rússia na Europa.

“No cálculo deles, não há mais tempo a perder. Daí esse gesto de explicitar força agora, para aplacar um pouco esses movimentos [de aproximação de outras nações junto à China e à Rússia], gerando um certo medo nos países da América do Sul, que até então não eram o foco direto da ação dos EUA”, avalia.

<><> Semelhanças com outras invasões norte-americanas no mundo

Segundo Belém Lopes, se os Estados Unidos utilizam com certa frequência o poder militar para garantir seus interesses, os países que são invadidos, na maior parte das vezes, saem perdendo. “Os resultados, eu diria que quase invariavelmente, são muito negativos para as sociedades que sofrem essas intervenções. Gera-se desestabilização política e econômica e certas desigualdades costumam se aprofundar”.

A avaliação de Lopes está baseada em fatos: no Iraque, de 2003 a 2010, a invasão norte-americana deixou mais de 100 mil mortos. No Haiti e na Líbia, a derrubada dos governos, patrocinada pelos EUA, resultou em conflitos civis que prolongam-se até hoje. Já a suposta “democratização” do Afeganistão foi um vento passageiro: tropas estadunidenses permaneceram 20 anos no país, e tão logo bateram em retirada, em agosto de 2021, o Talibã, movimento político e militar fundamentalista que havia sido expulso da região pelos EUA, retomou o controle do estado.

Bojikian concorda que as promessas norte-americanas de mais democracia, liberdade e pujança econômica, que beneficiariam as populações dos países invadidos justamente sob essas premissas, historicamente não se concretizaram. “Todos esses projetos fracassaram estruturalmente. As economias tornaram-se dependentes da ajuda externa e não desenvolveram uma base produtiva sustentável”.

Para os professores, o que a história aponta é que quando os EUA se aventuraram a tensionar os limites do direito internacional, chegando mesmo a violá-lo, como na guerra do Iraque, que aconteceu sem o respaldo da Organização das Nações Unidas (ONU), e no sequestro de Nicolás Maduro, estão em busca de se distanciar dos demais países com os quais disputam a hegemonia global.

Os objetivos são simples: manter-se na liderança global e não deixar nenhum competidor se aproximar”, pontua Bojikian. Com poucas variações, as finalidades das últimas guerras patrocinadas pelos EUA e da invasão da Venezuela são semelhantes. “A segurança internacional, mas basicamente neste caso [da Venezuela] a segurança regional, pois os EUA querem ter o domínio por aqui [na América do Sul], e o acesso a recursos estratégicos. Isso é muito claro”, completa a pesquisadora.

“O caso da Venezuela está aí para mostrar que existe um componente muito forte de interesse empresarial nas reservas de petróleo. Trump tem dito isso, não estou especulando aqui, estou repetindo o que foi dito pelo mandatário dos EUA”, analisa Lopes. “Isso ajuda a explicar muitas coisas que têm sido feitas e que parecem irracionais [da perspectiva do bem-estar da sociedade], mas que para determinados grupos de interesse são absolutamente consistentes e racionais”, prossegue.

Assim, enquanto as populações locais não enxergam os benefícios propagandeados antes das intervenções armadas – sejam elas sob a liderança de republicanos como George W. Bush e Donald Trump ou democratas como Barack Obama, que presidia o país durante a guerra na Líbia –, há, nos EUA, quem comemore o saldo desses conflitos. “As empresas americanas tomaram a frente [nos países invadidos], e o complexo industrial militar dos EUA foi sempre o grande vencedor, se a gente for pensar em termos materiais”, aponta Bojikian.

<><> Os riscos para os Estados Unidos também existem

Se os benefícios para as indústrias bélica e petroleira norte-americanas são evidentes, não é isenta de riscos a empreitada dos EUA na Venezuela, como, aliás, também não foram os outros exemplos citados até aqui.

A professora Neusa Bojikian pondera que, por ironia, o próprio imperialismo bélico trumpista pode acarretar em vantagens para seus adversários globais. “Involuntariamente, ele coloca a China no ‘papel de adulto na sala’. Como se a China dissesse: ‘olha, além do meu dinheiro, que é um saco sem fundo, eu tenho também ideias normativas, como, por exemplo, os Brics [aliança entre Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Etiópia, Irã e Indonésia], vocês querem me ouvir?’”, afirma.

Já para o presidente russo Vladimir Putin, a invasão da Venezuela também pode converter-se em ganhos políticos. “A Rússia vai buscar uma capitalização política, discursiva, em cima dessa intervenção dos EUA. Vai tratá-la como mais uma prova do lateralismo, da violação da soberania de outra nação por parte dos EUA. Para Moscou, ela reforça a narrativa de que os EUA operam fora da regra do jogo quando convém a Washington”, finaliza a professora.

O que virá no lugar da ordem liberal internacional não está claro, mas, para o professor Belém Lopes, escasseiam os motivos para otimismo. “Os contornos ainda não estão completamente definidos, estão sendo desenhados, mas tem a ver com o uso da força mais intensamente, menos do poder moral, do poder diplomático e da projeção pelo chamado soft power, e mais do poder duro, o poder que emana das canhoneiras e da dominação econômica, científica e tecnológica”, conclui.

¨      The Economist: Os muitos riscos dos planos de Donald Trump para ‘governar’ a Venezuela

Durante meses, ele tentou dar a impressão de que não tinha nenhuma preocupação no mundo. Seu truque mais recente, na televisão estatal, foi cantarolar “Imagine”, de John Lennon, em seu inglês infantil. Ele queria “paz, não guerra”, prometeu. Afirmou que sua única conversa telefônica com o presidente Donald Trump, em novembro, foi “cordial”. Ele costumava dizer à pessoas próximas que dormia “como um bebê”. Tudo isso foi um erro de cálculo monumental.

A queda do ex-ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, trouxe alegria a milhões de venezuelanos, especialmente aos que deixaram o país. Festas improvisadas nas ruas eclodiram de Santiago, no Chile, a Miami. Dentro do país, prevalece a cautela. Não está claro se a saída de Maduro significa o fim do regime.

Em uma coletiva de imprensa realizada em sua mansão na Flórida em 3 de janeiro, Trump minimizou a ideia de que María Corina Machado, a figura mais proeminente da oposição venezuelana e ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, deveria liderar o país. Em vez disso, ele afirmou que ela “não tem apoio nem respeito dentro do país”. O nome de Edmundo González, que com o apoio dela venceu a última eleição presidencial em 2024 (Machado foi impedida de concorrer), nem sequer foi mencionado.

Trump prometeu, em vez disso, que os Estados Unidos “governariam” a Venezuela. Ele disse que Delcy Rodríguez, vice-presidente de Maduro, estava “ disposta a fazer o que achamos necessário para tornar a Venezuela grande novamente”. Embora tenha prometido uma “transição” em algum momento, o que poderia abrir uma oportunidade para Machado, Trump parecia mais interessado em lucrar com o petróleo do país.

O plano de Trump, curto em detalhes e longo em otimismo, parece ser o de liberar o capitalismo americano nas reservas de petróleo venezuelanas com a ajuda de um novo governo flexível. Ele disse que as empresas petrolíferas investiriam “bilhões e bilhões” de dólares para rejuvenescer os campos petrolíferos da Venezuela e que o país seria reconstruído com base nas receitas resultantes, levando eventualmente a eleições. Isso depende da conformidade de Rodríguez. Trump parecia achar que isso estava garantido. “Acho que ela foi bastante gentil, mas ela realmente não tem escolha”, disse ele, ameaçando repetidamente com novos ataques caso seus desejos fossem ignorados.

<><> Trump diz que petroleiras americanas vão operar na Venezuela

Mas não foi assim que Rodríguez, que se autodenomina uma ideóloga de esquerda, resumiu os eventos de sábado. Aparecendo na televisão estatal logo após as declarações de Trump, ela disse que Maduro continuava sendo o único presidente do país, apesar de sua captura. “Nunca seremos colônia de nenhum império”, disse ela. “O que está sendo feito com a Venezuela é bárbaro.” O governo Trump pareceu ignorar esses comentários, tratando-os como uma sinalização interna necessária para manter o regime na linha.

Rodríguez, que atua como vice-presidente e ministra do Petróleo, é vista como economicamente instruída em comparação com a maioria dos membros do regime. Com parte de sua formação na França, ela ajudou a conduzir reformas pró-mercado e uma dolarização informal da economia em 2019, o que trouxe alguma estabilidade. Seu irmão é o líder da Assembleia Nacional. Seu pai era um revolucionário de esquerda que foi torturado e provavelmente assassinado pelas forças de segurança do Estado venezuelano em 1976. Nos círculos empresariais de Caracas, ela é vista como pragmática, embora tanto ela quanto seu irmão também sejam às vezes descritos como estando em uma “viagem de vingança” contra a antiga elite do país, incluindo Machado.

Mesmo que suas declarações na televisão sejam apenas uma postura e ela realmente esteja trabalhando com Trump em particular, ela enfrenta o desafio imediato de garantir que outras figuras poderosas do chavismo a apoiem. No início do dia 3 de janeiro, o ministro do Interior, o mercurial Diosdado Cabello, pediu calma e declarou que “aprendemos a sobreviver a todas essas circunstâncias”. O ministro da Defesa, Vladimir Padrino, prometeu que as forças venezuelanas “resistiriam” ao ataque americano.

A grande questão é se o exército venezuelano apoiará Rodríguez e, em consequência, o plano de Trump. Ele se rendeu diante do poderio militar americano e provavelmente teme desafiar o blefe de Trump. Muitos generais lucraram com o tráfico de drogas e a corrupção sob o regime. Se Rodríguez oferecer uma chance de ganhar mais dinheiro, ou pelo menos manter o que já têm, eles podem entrar na linha. Até agora, os altos escalões do exército pouco se pronunciaram publicamente.

No entanto, há o risco de o exército se dividir. Algumas facções podem apoiar Rodríguez; outras podem querer o poder para si mesmas ou para Padrino; algumas, talvez se unindo a soldados dissidentes que já fugiram para países vizinhos, podem pressionar pelo retorno de Machado. Um exército dividido aumentaria a perigosa mistura de homens armados na Venezuela e poderia desestabilizar o regime. Na manhã seguinte à invasão americana, alguns coletivos, gangues armadas pró-regime, foram vistos patrulhando as ruas de Caracas.

O Exército de Libertação Nacional, um grupo rebelde colombiano, e gangues de traficantes como o Tren de Aragua também operam na Venezuela. Trump parece acreditar que a ameaça de novos ataques pode manter todos esses diversos atores sob controle. Mas, se o conflito eclodir, pode ser necessário enviar soldados americanos em solo venezuelano para restaurar a ordem. Trump disse que “não tem medo” de enviar tropas.

María Corina Machado se vê marginalizada no exato momento em que seu sonho de uma Venezuela sem Maduro se realiza. Ela certamente pressionará o governo Trump a mudar de rumo, embora meses de conversa fiada com Trump não tenham levado a lugar nenhum até agora. Se isso falhar, talvez ela tente incentivar manifestações na Venezuela a favor de uma transição rápida.

Mas organizar uma revolta popular seria difícil. O país está cansado após décadas de opressão e queda na renda. Cerca de 8 milhões de pessoas emigraram desde 2015, deixando relativamente poucos com idade para protestar. A repressão após a fraude eleitoral em 2024, quando Maduro se gabou de ter prendido milhares de pessoas, deixou a maioria com medo de expressar insatisfação. Após a ação de captura americana, os venezuelanos estavam mais focados em sobreviver do que em protestar.

O regime também enfrenta desafios existenciais. Os aliados da Venezuela ofereceram pouco apoio. Os oficiais da inteligência cubana, que há muito trabalham para proteger Maduro e purgar o exército de dissidentes, não conseguiram proteger seu cliente. As autoridades em Havana, que dependem do petróleo venezuelano, provavelmente apoiarão qualquer figura do regime que o substituir. Mas Cuba é um aliado enfraquecido, agora enfrentando sua própria luta pela sobrevivência.

Trump promete cortar o fornecimento de petróleo e ameaça tomar medidas diretas contra a ilha. As relações com Delcy Rodríguez parecem tensas. “Ela está irritada com os cubanos”, diz um diplomata ocidental em Caracas, que sugeriu que as autoridades cubanas eram ingratas por todo o petróleo barato enviado. A China, principal compradora do petróleo venezuelano, e a Rússia, que repetidamente forneceu armamento, há muito ajudam Maduro. Ambos condenaram a invasão com veemência, mas não disseram nada que sugerisse qualquer apoio prático iminente.

 Maduro nunca teve muitos amigos na região. Brasil, Colômbia e México, com líderes de esquerda, tendiam a ser os que mais o apoiavam. Esses laços agora também parecem fracos. Os três governos reagiram com indignação ao ataque americano e condenaram a violação da soberania. Mas é improvável que algum deles apoie qualquer resistência contra os Estados Unidos. Em vez disso, seu interesse é mais restrito: eles se preocupam com o caos e com os refugiados venezuelanos se espalhando pela região. O México e a Colômbia também temem ataques americanos em seu próprio território. Em sua coletiva de imprensa, Trump ameaçou o México e disse ao presidente Gustavo Petro, da Colômbia, para “tomar cuidado”.

Com poucos apoiadores estrangeiros, apoio incerto do exército e ameaças de Trump, Delcy Rodríguez pode muito bem ter escolhido, ou escolherá em breve, fazer um acordo. O regime para o qual ela trabalha é curiosamente resistente e adaptável. Ele sobreviveu à morte de Hugo Chávez, seu líder original. Agora, um pacto com seu suposto inimigo pode lhe dar outra chance de sobrevivência.

¨      Ataque à Venezuela é sinal de desespero do Império, diz José Arbex

A avaliação é do jornalista e analista geopolítico José Arbex Júnior, que vê na postura do governo de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, uma reação à perda de hegemonia global e à profunda crise social e política vivida internamente pelo país. As declarações foram feitas em entrevista ao programa Forças do Brasil, da TV 247, em conversa com o jornalista Mario Vitor Santos. Ao longo da entrevista, Arbex analisou o cerco à Venezuela, o papel do BRICS, a ascensão da China, o envolvimento da Rússia e o impacto desses movimentos sobre a geopolítica mundial.

Ao explicar por que considera a ofensiva contra Caracas um ato de fragilidade, Arbex foi categórico: “A pergunta é se o império está agindo dessa forma por uma posição de força, porque está muito forte, ou se está agindo por desespero. Na minha opinião, está fazendo isso por desespero”. Para ele, a agressividade de Washington revela que os Estados Unidos “estão perdendo o controle” da ordem internacional que ajudaram a construir.

<><> Nova Rota da Seda e erosão da hegemonia dos EUA

Segundo Arbex, o ponto de inflexão da hegemonia norte-americana ocorre a partir do avanço da China com a Iniciativa Cinturão e Rota, conhecida como Nova Rota da Seda. “Hoje você tem mais de 150 países que fazem parte da Nova Rota da Seda”, afirmou, destacando que “53 dos 54 países africanos” aderiram ao projeto e que “20 países da América Latina” também integram essa articulação. Na avaliação do analista, esse processo marginalizou os Estados Unidos dos principais fluxos comerciais e estratégicos do mundo, fortalecendo o BRICS e aprofundando a cooperação entre China, Rússia e países do Sul Global. “Os Estados Unidos foram ficando escanteados nessa história”, disse, acrescentando que, diante disso, Washington voltou seus olhos para a América Latina, historicamente tratada como área de influência exclusiva. Arbex lembrou que essa lógica remonta à Doutrina Monroe, formulada no século XIX, segundo a qual “a América é dos americanos”. Para ele, o governo Trump tenta resgatar esse princípio sob uma nova roupagem. “O Trump está revertendo o globalismo e dizendo que o problema agora é a segurança das fronteiras e do hemisfério ocidental”, explicou, ao se referir às novas diretrizes da política de segurança nacional dos EUA.

<><> Por que a Venezuela se tornou alvo central

O jornalista apontou razões estratégicas claras para o foco na Venezuela, começando pelo petróleo. “A Venezuela tem a maior reserva de petróleo do mundo, maior do que a da Arábia Saudita”, afirmou. Segundo ele, os Estados Unidos temem perder o controle do comércio global de energia, especialmente num contexto em que países produtores passam a negociar petróleo fora do dólar. Arbex destacou que esse controle sempre foi um pilar da hegemonia norte-americana. “A partir do momento em que o petróleo deixa de ser negociado em dólar, os Estados Unidos perdem o controle sobre o fluxo de energia mundial”, disse, ressaltando que isso afeta informações estratégicas sobre reservas e rotas de abastecimento.

Uma segunda razão envolve Cuba. Para o analista, Washington avalia que o enfraquecimento da Venezuela pode agravar ainda mais a situação cubana. “Os Estados Unidos sabem perfeitamente bem que, se acabarem os laços entre Venezuela e Cuba, a situação de Cuba vai se agravar ainda mais”, afirmou, observando que isso poderia levar ao colapso do governo herdeiro da Revolução Cubana.

A terceira razão, segundo Arbex, é política e interna. Ele criticou duramente o secretário de Estado Marco Rubio, a quem atribuiu uma agenda ideológica marcada pela hostilidade a Cuba e pela tentativa de capitalizar politicamente a ofensiva contra a Venezuela. Para o analista, essa combinação de fatores revela uma política externa “truculenta” e orientada mais por interesses internos do que por uma estratégia consistente.

<><> Crise interna e limites para uma guerra

Arbex também chamou atenção para a gravidade da crise social nos Estados Unidos, que, segundo ele, é subestimada inclusive por setores da esquerda brasileira. “Cerca de 40 milhões de pessoas nos Estados Unidos não sabem o que vão comer amanhã”, afirmou, acrescentando que mais de 60% das famílias vivem de salário em salário, sem margem para enfrentar imprevistos. Nesse contexto, o analista considera improvável que o governo Trump consiga sustentar uma guerra de médio ou longo prazo contra a Venezuela. “É muito difícil imaginar soldados dos Estados Unidos morrendo na Venezuela e a população aceitar isso numa boa”, disse, lembrando as grandes manifestações recentes no país e a impopularidade recorde do presidente.

Para Arbex, a ofensiva contra Caracas ocorre “numa posição de fraqueza do império, não de força”. Ele comparou a situação a uma “besta mortalmente ferida”, que reage de forma perigosa, atacando para todos os lados, mas com capacidade limitada de impor seus objetivos.

<><> BRICS, Rússia, China e o impacto global

Ao tratar do papel das grandes potências, Arbex afirmou que Rússia e China não podem recuar, pois o que está em jogo é estratégico. “O que está em jogo são o BRICS e a Nova Rota da Seda”, disse. Ele destacou que a Rússia já está profundamente envolvida, com armamentos e treinamento militar na Venezuela, enquanto a China atua de forma mais discreta, mas decisiva. Segundo o analista, qualquer escalada mais ampla contra a Venezuela teria repercussões globais, afetando o comércio mundial de petróleo e envolvendo diretamente países como China, Rússia e Irã. “O ataque à Venezuela tem repercussões que vão muito além das repercussões locais e regionais”, afirmou, alertando que o conflito pode desestabilizar cadeias estratégicas em escala planetária. Diante desse quadro, Arbex concluiu que a política de Trump não se sustenta no longo prazo. “Não é uma política externa com estratégia fundamentada e articulada. É um ato de desespero”, disse, avaliando que a ofensiva tende a acelerar, e não conter, o processo de desagregação do poder imperial dos Estados Unidos.

 

Fonte: Agencia Pública/BBC News

 

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