sábado, 10 de janeiro de 2026

Rahila Gupta: A esperança do futuro ainda reside em Rojava

Como a esquerda progressista deve responder à experiência da revolucionária Rojava, liderada pelos curdos, no nordeste da Síria, com seu compromisso com a democracia direta, a sustentabilidade ecológica, os direitos das mulheres e a inclusão multiétnica? É uma questão que certamente já intrigou qualquer pessoa que tenha visitado Rojava, por qualquer período de tempo, e saído de lá impressionada e comovida por um povo que nada contra a corrente neoliberal que domina o mundo.

Eu também já me debati com essa questão. Embora nenhum modelo simples possa reproduzir a revolução em outros lugares, explorei possibilidades mais literais, inspirando-me na estratégia da diáspora curda — a criação de assembleias de cidadãos nos moldes do confederalismo democrático para lidar com questões locais, fortalecer a democracia e promover mudanças. Talvez isso possa se tornar tão eficaz quanto o experimento local em Porto Alegre, no Brasil. Criado em 1989, o projeto recebeu milhões em orçamento participativo e redirecionou serviços para as comunidades mais marginalizadas. Esse parece ser o limite do que pode ser alcançado sob Estados neoliberais; além disso, a imaginação política falha, recorrendo à ideia de preparação — como os curdos que, discretamente, criaram conselhos de cidadãos sem serem notados pelo regime de Assad na Síria, até que a Primavera Árabe, em 2011, criou um vácuo político no norte e no leste do país, permitindo-lhes realizar uma revolução quase sem derramamento de sangue. Assad estava ocupado demais esmagando a revolta no sul.

Matt Broomfield, que passou três anos em Rojava, aborda a questão de uma forma única e ponderada. Ele embarca em um profundo envolvimento filosófico e prático com a ideia e a realidade de Rojava para combater o derrotismo da esquerda após o fracasso da revolução operária no século XX. Ele quer gerar esse senso de urgência no que considera um movimento anarquista ocidental desorganizado e sobrecarregado por uma “melancolia de esquerda”. Ele analisa os filósofos pós-marxistas que não conseguiram identificar uma classe de pessoas que pudesse ser incumbida da tarefa de transformar a sociedade, descartando os “99%” de David Graeber, a “multidão” de Michael Hardt e Antonio Negri e a “ralé” de John Holloway, por serem conceitos demasiado vagos. Ele especula se o sujeito político deste século será o migrante climático. No entanto, é a identificação feita por Öcalan das mulheres como a vanguarda da mudança — uma força revolucionária teorizada como o primeiro grupo de pessoas a ser escravizado — que impulsiona a revolução de Rojava e incendiou a imaginação feminista em todo o mundo.

Em termos organizacionais, Broomfield analisa se o pragmatismo da luta pela liberdade curda tem alguma lição a oferecer à esquerda ocidental, particularmente à vertente anarquista com seu compromisso purista com o horizontalismo. Em Rojava, eles alcançaram uma “síntese inédita: uma organização militante e vertical [que] fortalece uma política comunitária e horizontal”. A organização verticalista é um resquício das raízes marxistas-leninistas do movimento curdo, que incentiva a disciplina, até mesmo a hierarquia, enquanto paradoxalmente facilita um desafio descentralizado a essa hierarquia. Ela é eficaz de uma maneira que os anarquistas não são, deixando-os vulneráveis ​​à subversão e à cooptação, ao caos e ao mal-estar.

Quando a batalha existencial pela cidade de Kobane, agressivamente sitiada pelo Estado Islâmico em 2014, parecia estar prestes a ser perdida, os curdos aceitaram a oferta de cobertura aérea da coalizão liderada pelos EUA, plenamente conscientes da natureza transacional dessa relação. Isso provou ser um ponto de virada decisivo em sua trajetória. A disposição de se aliar ao diabo imperialista em uma tentativa desesperada de sobrevivência desacreditou Rojava perante alguns setores da esquerda. Da mesma forma, eles se engajaram com a Rússia e exploraram as relações entre diversas potências regionais, incluindo as forças religiosas conservadoras do antigo califado do Estado Islâmico. Broomfield elogia essa “abordagem respeitosa e aberta à própria cultura que visa revolucionar” como uma estratégia que deveria ser implementada em nossos contextos.

A filosofia política é mobilizada para fortalecer o espírito dos ativistas, incentivando-os a persistir na árdua luta política por meio de um hino à esperança, enriquecido e paradoxalmente informado pela própria desesperança da luta. A educação cristã que recebeu de Broomfield o tornou receptivo ao ditado: “Eu acredito porque é impossível”. Ele iniciou o projeto para verificar se a esperança ainda era possível no século XXI, após o Holocausto, a pandemia, a era da derrota da esquerda e em meio a uma catástrofe climática. Com o auxílio de comentários filosóficos, literários e teológicos, principalmente ocidentais, Broomfield busca a esperança que foi extraída do desespero — a única que pode dar sustentação à resistência, onde até mesmo o suicídio pode ser interpretado como um ato de esperança por um mundo melhor. Esta não é a esperança vazia da ideologia neoliberal, “um recurso de igualdade de oportunidades”, onde cada um de nós poderia ter uma vida melhor se apenas nos dedicássemos a isso. Sem querer diminuir sua importância, o livro poderia até ser descrito como um manual de autoajuda para o aspirante a revolucionário.

Em um neologismo interessante, emprestado da internet, ele enumera as estratégias de “copium” (uma fusão de “coping” [enfrentamento] e “opium” [ópio]) que os ativistas podem usar para evitar o esgotamento e o fatalismo, além de lidar com dúvidas e inseguranças: um compromisso quase religioso com um futuro revolucionário; um salto de fé secular em direção a uma utopia socialista; uma dose saudável de autoengano; e uma transição do autocuidado individual para o autocuidado coletivo do movimento curdo, que desencoraja o individualismo.

Broomfield pergunta: se podemos nos enganar a serviço da hegemonia capitalista, por que não a serviço da revolução? É uma pergunta instigante. Ambos exigem sacrifício e privação, e apenas um oferece a perspectiva de uma mudança radical e um futuro possivelmente glorioso, mas as artimanhas e estratégias do capitalismo podem atrair até mesmo os melhores de nós para o caminho de menor resistência. O individualismo, turbinado pelos nossos tempos neoliberais, mina a luta coletiva que a mudança revolucionária necessariamente exige.

Embora Broomfield seja surpreendentemente honesto sobre as falhas da revolução de Rojava, sua visão de que os compromissos que ela teve de fazer nas áreas de maioria árabe geraram “os momentos mais revolucionários do movimento” é excessivamente otimista para um livro sobre esperança sem esperança. Muitos desses compromissos envolveram concessões em relação a compromissos feministas, incluindo a revogação da proibição da poligamia — um exemplo arrepiante de como a democracia pode se sobrepor aos direitos das mulheres.

¨      Jean Tible: Da sombra do Holocausto ao genocídio em Gaza

A notável coletânea de textos, organizada pela editora Contrabando, sobre o genocídio em curso na Palestina é parte de uma consistente e coletiva contribuição editorial (junto com Tabla, Elefante, Sundermann, Autonomia Literária e outras mais) sobre esse assunto urgente e sua história. Trata-se de um rico material com artigos de intervenção, jornalísticos e acadêmicos, entrevista e relatório, além de mapas de Gaza, Cisjordânia e região.

Abre-se com o belo e já clássico poema Se devo morrer… de Refaat al-Areer, professor de Gaza assassinado em 2023. O contundente prefácio, de Masha Gessen, dá ao livro seu título. A jornalista russa-estadunidense, judia e não binária, reflete sobre a memória em Berlim na qual o “nunca mais” é agora e o que significa para as instituições estatais alemães: apoiar a limpeza étnica na Palestina. Além disso, caracteriza Gaza como um gueto – não como o de Veneza nem no sentido que se usa essa palavra nos EUA, mas sim um gueto judeu na Europa Oriental ocupada pelos nazistas. Gueto esse sendo agora liquidado, desde outubro de 2023. Os palestinos como “judeus dos judeus”, como colocado pelo escritor libanês Elias Khoury.

<><> O livro

Aprimeira parte do livro porta sobre a questão carcerária. Um relatório da Addameer (decretada “organização terrorista” por Israel – uma pessoa palestina pode ser presa ao participar de alguma atividade sua ou simplesmente por elogiá-la), apresentando as sistemáticas violações dos direitos humanos após o 7 de outubro 2023 e as condições ainda mais duras de encarceramento (penas, acesso a advogados, interrogatórios, tortura), frequentemente com detenções administrativas (sem acusação nem julgamento), inclusive de crianças.

A entrevista com a militante Layan Kayed do Al-Qutub (pólo estudantil democrático-progressista), presa a caminho da Universidade de Birzeit, onde ia para retirar seu diploma, traz sua experiência (tanto estudantes quanto presos políticos possuem papel importante na luta palestina) e perspectivas de universidade e educação populares. Outro texto muito importante é da ativista brasileira (filha de palestinos) Soraya Misleh em que apresenta Islam Hamad, brasileiro-palestino encarcerado em Israel (um dos mais de nove mil) pela primeira vez ao 17 anos e depois novamente, dessa vez pela Autoridade Nacional Palestina. Ele chegou a cumprir pena e demorou para ser solto e daí pouco depois voltar para uma prisão israelense.

A segunda parte é composta por sete intervenções. Os intelectuais Gilbert Achcar e Rashid Khalidi analisam os impactos imediatos da nova fase da guerra contra a Palestina, na perspectiva das  lutas de libertação contra o imperialismo. A organização militante Daphan Trier, resgatando as contribuições do Matzpen, descarta as esperanças nos trabalhadores israelenses, por ser uma classe colonizadora se beneficiando da acumulação às custas da população nativa, numa limpeza étnica em seus primórdios dirigida pelo sionismo socialista, e de um mercado de trabalho altamente estratificado numa economia armamentista (um décimo da economia sendo diretamente ligada a essa indústria).

Já os professores Noura Erakat, Darryl Li e John Reynolds estudam as intersecções entre dominação racial, questão palestina e direito internacional. Jornalistas de luta, Lina Attalah, Yuval Abraham, Sarah Lazare e Maya Shenwar fecham a primeira edição. A egípcia trata dos planos de transferência da população de Gaza para o Sinai (em operação), enquanto o israelense (co-autor junto com Basel Adra do premiado documentário No other land) desvenda o macabro uso da inteligência artificial na matança, permitindo atingir 15 mil alvos em 35 dias – para a decisão de alvejar, basta a suspeita da presença de algum militante do Hamas (mesmo se centenas de pessoas estiverem no mesmo local); como já dizia James Baldwin, qualquer habitante de um bairro negro é pantera ou todo vietnamita é vietcongue. Por fim, as estadunidenses Sarah Lazare e Maya Shenwar, na trajetória da longa tradição da crítica da esquerda judaica ao sionismo, apontam a impossibilidade de haver segurança numa sociedade que tem seu pilar no etnonacionalismo.

Na segunda edição, agregam-se mais três artigos, dois (dos pesquisadores Adam Hanieh e Timothy Mitchell) sobre o petróleo. O primeiro, jordaniano radicado na Inglaterra, o toma como uma questão-chave para compreender as últimas décadas no chamado Oriente Médio e o apoio inabalável dos EUA a Israel, por ser o representante do imperialismo fóssil na região. O segundo, britânico que vive nos EUA, pensa seu papel central para as (im)possibilidades democráticas. E Avi Shlaim, da fundamental turma dos novos historiadores israelenses, discorre sobre o escolasticídio (onze universidades destruídas, além de um sem número de escolas e outros sítios afins) no que ele denomina de guerra contra crianças – 25 mil órfãs –, mencionando a sinistra sigla WCNSF (crianças feridas sem parentes sobreviventes).

Esse livro nos ajuda a nos situar numa das questões cruciais de nosso tempo: o que fazer frente a mais esse genocídio (com a funesta novidade de ser transmitido em tempo real)? O que clamam Gaza, Cisjordânia e Palestina para o planeta?

<><> Palestina lá, Palestina aqui

Um ângulo primordial se encontra na solidariedade internacional e na pressão necessária sobre os governos e empresas que apoiam ativamente o massacre em andamento. Num lugar onde os cães famintos já aprenderam que haverá defuntos e depois de cada bombardeio seguem os rastros das bombas assim como os tubarões seguiam os navios negreiros na passagem pelo mar. Colonialismo e tortura são indissociáveis como dizia Frantz Fanon e aqui vão se mostrando requintes maiores de crueldade (fome como arma de guerra e destruição de hospitais e campos de cultivo, de sítios arqueológicos e mesquitas, além das casas e toda infraestrutura da vida elementar).

Palestina lá, Palestina aqui. Israel como um posto avançado securitário, laboratório bélico, no Brasil e alhures. Globalize intifada. Not in our name. Um movimento precioso pelas vidas palestinas brotou em quase toda parte e é extremamente atacado, na Inglaterra, França, Polônia ou, principalmente, nos EUA. Mais uma vez, o sintoma palestina indicando a degradação da democracia “realmente existente”, num caminho firme e sustentado em direção cada vez mais tirânica e marcartista. Esses são terrenos decisivos, pois como Israel é colonial, os EUA e a Europa podem ser considerados suas metrópoles, insiste Khalid, apontando a linha de cor da parca importância das vidas pretas, árabes e muçulmanas. Isso se expressa na frase de um ministro israelense caracterizando os palestinos como “animais humanos”. O compasso ético nos coloca evidentemente sempre do lado dos animais.

O diplomata palestino Elias Sanbar, em conversa com Deleuze, cria um paralelo entre o povo palestino e os ameríndios, que ajuda a explicar a aliança EUA-Israel pela partilha de um destino manifesto, sionista-cristão, de destruição dos mundos nativos, confinados em reservas e campos de refugiados. Penso que a sacada de Sanbar ganha ainda mais intensidade ao levarmos em conta a força de resistência de ambos – os povos indígenas são, nas Américas, a força que mais se opõe à guerra capitalista, expondo sua incompatibilidade existencial com esse sistema político-econômico. Uma dignidade ancestral se manifesta nos mitos ameríndios e na literatura e poesia árabes além de serem são seu alicerce. A Palestina e nós. Lutar pela palestina, honrar esse martírio e sua reexistência (sumud) significa estar com os povos da terra, aqui e lá.

Pela vida e contra o massacre colonial-racial-capital. Nessa via, irrompe um possível encontro subversivo atravessando tempos e espaços, em três letras. Bento de Spinoza e a potência herética e dissidente da democracia da multidão. E Boicote, desinvestimento e sanções, em sua proposta de ação para a desejada derrubada do apartheid.

 

Fonte: Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

 

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