'Comer
bem, dormir e fazer exercício é mais eficaz do que remédio contra
envelhecimento', diz Nobel de Química
Envelhecer
e morrer, isso acontece com todos nós e também causa medo em (quase) todo
mundo.
Mas por
que envelhecemos e morremos? É possível retardar a velhice ou mesmo alcançar a
imortalidade?
Estas
questões ocuparam grande parte da carreira do biólogo molecular indiano Venki
Ramakrishnan, de 71 anos.
Em
2009, juntamente com Thomas A. Steitz e Ada E. Yonath, ele recebeu o Prêmio
Nobel de Química pela sua investigação sobre ribossomos, a estrutura celular
responsável pela produção de proteínas, que são as moléculas que tornam
possível a vida de todos os organismos.
Ramakrishnan
é autor do livro Why We Die: The New Science of Aging and The Quest for
Immortality (em tradução livre, "Por que Morremos: A Nova Ciência do
Envelhecimento e a Busca pela Imortalidade"), que será publicado em março.
A BBC
News Mundo, o serviço em espanhol da BBC, conversou com o cientista sobre essas
questões, desde as reações químicas que causam a deterioração das células até
as enormes implicações que vidas mais longas têm para a humanidade.
Ramakrishnan
foi um dos convidados do Hay Festival Cartagena, realizado em janeiro na
Colômbia.
• O que é o envelhecimento? Em que
consiste esse processo no ser humano?
Venki
Ramakrishnan - Uma das principais causas do envelhecimento é o acúmulo de danos
aos genes do nosso DNA.
A
informação mais valiosa que os genes carregam é como produzir proteínas.
Em
nível celular, as proteínas realizam milhares de reações químicas que tornam a
vida possível. Elas dão forma e força ao nosso corpo, mas também permitem a
comunicação entre as células.
Graças
a elas temos nossos sentidos. E nosso sistema nervoso depende delas para
transmitir sinais e armazenar nossa memória.
Nossos
anticorpos são proteínas, e são elas que permitem à célula produzir as
moléculas de que necessita, incluindo gorduras, carboidratos, vitaminas,
hormônios e os próprios genes.
Portanto,
o envelhecimento tem muito a ver com a perda da capacidade do nosso corpo de
regular a produção e destruição de proteínas nas células.
Podemos
ver isso como um acúmulo de danos químicos nas nossas moléculas, células,
tecidos e, finalmente, em todo o nosso corpo.
É um
processo gradual, desde o momento em que nascemos. Antes mesmo já estamos
envelhecendo, mas desde cedo não sentimos isso porque estamos crescendo,
estamos nos desenvolvendo.
Depois,
com o passar dos anos, os sintomas tornam-se mais evidentes e quando os
sistemas críticos começam a falhar, o corpo não consegue funcionar como um todo
unificado… E é isso que leva à morte.
O
interessante da morte é que, quando morremos, a maior parte das nossas células
ainda está viva — razão pela qual os nossos órgãos podem ser doados — mas já
não são capazes de funcionar como um todo. Isso é a morte.
• No seu livro o senhor menciona que na
biologia tudo é explicado à luz da evolução. Do ponto de vista evolutivo, por
que envelhecemos e morremos?
Ramakrishnan
- Porque a evolução não se preocupa conosco como indivíduos.
A
evolução trata basicamente da capacidade de transmitir genes. E esses genes não
residem no vácuo, residem em um indivíduo.
Portanto,
desde que você seja capaz de crescer, procriar e garantir que sua prole atinja
a idade reprodutiva, a evolução não se importa com o que acontecerá a você,
porque você já transmitiu seus genes.
É
verdade que os nossos organismos poderiam investir mais esforços na prevenção
do envelhecimento, ou em ter melhores mecanismos para se repararem, mas do
ponto de vista evolutivo é mais eficiente garantir que cresçamos mais
rapidamente e possamos nos reproduzir para transmitir os nossos genes.
É um
equilíbrio que varia em cada espécie.
Por
exemplo, em uma espécie que vive sob alto risco de ser comida por um predador,
não faz sentido que o seu organismo evolua para viver muitos anos, porque é
muito provável que seja comido a qualquer momento.
Nos
mamíferos, as espécies maiores tendem a ter um ciclo de vida mais longo do que
as menores.
Nisto,
porém, há uma curiosa exceção: ratos e morcegos pesam quase o mesmo, mas os
morcegos têm um ciclo de vida muito mais longo que os ratos.
Por
quê? Porque eles podem voar; portanto, eles são menos vulneráveis aos
predadores.
• Nos últimos 150 anos, a expectativa de
vida humana duplicou. Um dos grandes debates entre os cientistas é se esta
esperança de vida pode continuar a aumentar ou se já atingimos o limite de vida
dos nossos organismos. Qual é a sua posição nesse debate?
Ramakrishnan
- (...) Com o conhecimento atual, 120 anos é o tempo mais longo que poderíamos
viver razoavelmente, e é improvável que vivamos além dessa idade.
O
curioso é que, por exemplo, Tom Perls, cientista que estuda longevidade em
Boston, nos EUA, observou que embora aumente o número de pessoas que chegam a
100 anos, o número de quem chega a 110 não aumenta.
A
sensação dele é de que, depois dos 110 anos, enfrentamos limites biológicos
naturais.
Sim, há
pessoas que, graças a uma combinação de fatores genéticos e estilo de vida,
vivem mais de 110 anos, mas esse número de pessoas não está aumentando.
Então,
sim, parece que existe um limite natural.
Também
foram feitos cálculos que mostram que, mesmo que conseguíssemos eliminar
doenças como o câncer, apenas aumentaríamos a expectativa média de vida em
alguns anos.
Agora,
se conseguirmos de alguma forma tratar as causas do envelhecimento, talvez
possamos ultrapassar esse limite, mas não tenho certeza de quão fácil seria e
nem sei se é desejável. É algo em que temos de pensar, porque pode haver
enormes consequências sociais.
Alguns
otimistas dizem que já nasceu a primeira pessoa que viverá até aos 150 anos,
mas penso que são otimistas demais, porque o envelhecimento é altamente
multifatorial e não está claro se existirão algumas soluções definitivas que
interrompam isso e nos mantenham saudáveis.
• Outro grande debate é se a velhice é
uma doença…
Ramakrishnan
- O câncer, a demência, a inflamação, a artrose, as doenças cardíacas estão
todos relacionados à idade, razão pela qual há quem afirme que a idade é a
causa subjacente destas doenças e, portanto, o envelhecimento é uma doença.
Outros
apontam que o envelhecimento é algo que acontece com todos nós. Então, como
pode algo inevitável e universal ser chamado de doença?
A
Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou recentemente sua posição de que o
envelhecimento não é uma doença.
O que
existe é muita pressão para que o envelhecimento seja considerado uma doença
porque há muito dinheiro investido em pesquisas relacionadas a isso.
Para
fazer estudos clínicos e obter aprovação das autoridades é necessária a
existência de uma doença.
• Em que áreas você acha que veremos
maiores progressos nos tratamentos antienvelhecimento nos próximos anos?
Ramakrishnan
- Como diz a piada atribuída ao jogador de beisebol Yogi Berra: “É difícil
fazer previsões, especialmente sobre o futuro”.
Não
tenho certeza de quão avançados eles são, mas existem várias abordagens que
tentam retardar o envelhecimento.
Por
exemplo, os pesquisadores descobriram que restringir calorias muitas vezes
ajuda a retardar o envelhecimento, com a ressalva de que, entre os mais jovens,
isso pode causar problemas.
Então,
a busca é por criar um medicamento que tenha efeito semelhante à restrição
calórica.
Eu digo
brincando que é como se você pudesse comer um bolo com sorvete sem se preocupar
com as calorias, porque você toma um comprimido e pronto. É o que muitas
pessoas gostariam.
Há
muito interesse em um medicamento chamado rapamicina, que segue essa abordagem,
mas em altas doses pode ser imunossupressor e causar sérios danos.
Outro
campo interessante é a parabiose, na qual se faz transfusão de sangue de um
animal jovem para um mais velho.
O que
acontece aí é que o animal que recebe o sangue fica rejuvenescido em vários
aspectos, o que significa que existem fatores no sangue que são responsáveis
pelo envelhecimento, e há estudos para identificá-los.
Existe
também uma abordagem relacionada à senescência, que é o estado em que as
células param de funcionar normalmente e param de se dividir.
Com a
idade, acumulamos mais células senescentes, e a inflamação que produzem como
sinal de que algo não está bem é uma causa adicional do envelhecimento.
Então
há pesquisadores se perguntando: é possível destruir seletivamente células
senescentes? Há evidências de que, se isto for alcançado, alguns dos efeitos do
envelhecimento podem ser revertidos.
E há
uma área muito interessante da reprogramação celular, que consiste em levar uma
célula ao seu estado inicial, revertendo as alterações que nela ocorreram.
É claro
que esse processo é arriscado porque muitas vezes pode causar tumores
cancerígenos.
Estamos
longe de poder aplicá-lo em humanos, mas foram realizados experimentos em
animais que mostram resultados promissores.
• Além desses avanços, você também chamou
a atenção para outras abordagens que parecem mais ficção científica e que
ganham muita atenção midiática…
Ramakrishnan
- Sim, há coisas que são completamente ficção científica neste momento.
Há
pessoas que acreditam na criogenia, o que significa que quando alguém morre
congela o corpo em nitrogênio líquido na esperança de que, não sabemos como, no
futuro exista tecnologia para reanimá-lo.
Acho
que por enquanto é apenas exagero. É uma forma de capitalizar o medo que as
pessoas têm de morrer.
Além
disso, acho que é um problema de primeiro mundo. Quem aposta na criogenia são
pessoas com muito dinheiro, que podem comprar tudo, menos juventude.
Cresci
na Índia e conheço muita gente da África. E ninguém nesses lugares pensa em
criogenia.
• O medo do envelhecimento é generalizado.
Por isso usamos Botox, tingimos os cabelos grisalhos, esse tipo de coisa...
Você acha que os esforços para retardar o envelhecimento contribuem para que
esse medo da velhice continue a crescer?
Ramakrishnan
- Há muita pressão para não envelhecer, e essa pressão recai principalmente
sobre as mulheres. É horrível.
Mas não
creio que a pesquisa para retardar o envelhecimento alimente o medo da velhice.
Pelo contrário, acredito que sejam resultado desse medo.
É um
medo que tivemos durante grande parte da nossa história porque não temos
conhecimentos suficientes da medicina.
• Há muito esforço e muito dinheiro em
ciência e tecnologia que visa retardar o envelhecimento, mas no seu livro você
deixa claro que existem outras formas de se manter saudável que estão muito
mais ao nosso alcance...
Ramakrishnan
- Comer bem, dormir bem e fazer exercício são atualmente mais eficazes do que
qualquer medicamento antienvelhecimento existente no mercado.
E não
têm efeitos colaterais, além de terem uma base biológica sólida contra o
envelhecimento.
O ser
humano não evoluiu para comer em abundância, sobremesas e coisas assim.
Nossa
espécie começou como caçadores e coletores. Comíamos esporadicamente,
jejuávamos naturalmente e tínhamos a restrição calórica que mencionei antes.
Mas
agora comemos mesmo quando não temos fome, e no Ocidente vemos um enorme
aumento da obesidade.
Hoje
vivemos uma vida sedentária em relação aos nossos antepassados, que eram
agricultores, caçadores, trabalhadores manuais.
E sobre
o sono, muitas vezes subestimamos a sua importância, mas ele é extremamente
valioso para os mecanismos de reparação do nosso corpo.
Colocar
em prática essas dicas antigas nos ajuda a manter a massa muscular, regular a
função mitocondrial, a pressão arterial, o estresse e a reduzir o risco de
demência.
O
problema é que nem sempre é fácil segui-los. Às vezes, as pessoas preferem
apenas tomar uma pílula e viver suas vidas da maneira que desejam. Essa é a
parte que temos que superar.
• Você gosta daquela frase popular que diz
que não importa quantos anos você vive, mas sim a vida que você teve nesses
anos?
Ramakrishnan
- É uma frase muito bonita e concordo com ela. É disso que se trata, ter um
propósito, tirar o máximo proveito da sua vida.
Há
muitas evidências de que ter um propósito na vida reduz o risco de ataques
cardíacos e declínio cognitivo.
Mas
também é verdade que todos nós queremos instintivamente viver o máximo que
pudermos, e isso cria um paradoxo, porque o que queremos como indivíduos não é
necessariamente bom para a sociedade ou para o planeta.
E vemos
isso no uso de energia, no aquecimento global, na perda de biodiversidade...
Estamos tomando decisões individuais que são prejudiciais à sociedade como um
todo e reverter isso requer um verdadeiro esforço consciente.
Fonte:
BBC News Mundo

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