sábado, 10 de janeiro de 2026

Emir Sader: 2025 foi um ano ruim para a direita

A direita não tem muito o que comemorar em 2025, apesar da vitória que teve no Chile, já perto do fim do ano.

Foi, antes de tudo, mais um ano no processo de decadência ou declínio da hegemonia norte-americana no mundo. O país, que é a referência central da direita no mundo, foi perdendo, ao longo deste século, seu poderio econômico e político, mesmo mantendo sua força militar.

A presidência de um tipo como Donald Trump é um suicídio para os Estados Unidos. O fechamento do país sobre si mesmo, sob a suposta razão de que o país haveria sido prejudicado pelos intercâmbios comerciais com os outros países.

Ao fazer esses movimentos, deixou o espaço internacional ainda mais livre para que a China se expandisse e ocupasse os espaços deixados vazios pelos Estados Unidos.

Além disso, a política de punir outros países com tarifas altas terminou funcionando como um bumerangue, elevando os preços nos próprios Estados Unidos, fazendo com que o governo Trump tivesse que voltar atrás.

Foi ruim também pelo fortalecimento dos Brics no mundo, a nova modalidade de organização do Sul do mundo. Pela primeira vez, os Estados Unidos tiveram que se enfrentar com a temida aliança da Rússia com a China.

Seus principais aliados tampouco se deram bem. A Europa, penetrada pela ultradireita, tornou-se um continente inexpressivo em escala mundial.

Na América Latina, por sua vez, nunca os Estados Unidos estiveram tão isolados, ficando apenas com a Argentina de Javier Milei como aliado. Enquanto os outros países, liderados pelo Brasil e pelo México, mantêm forte oposição ao governo norte-americano.

Ao mesmo tempo, o modelo neoliberal se enfraqueceu, conforme se revelou uma política recessiva, sem capacidade de expandir a economia.

Para a direita brasileira, o ano tampouco foi positivo. O bolsonarismo sofreu duros golpes, com a prisão do seu líder e sua fracassada tentativa de romper a tornozeleira.

Se o Lula se consagrou ao longo do ano e os Brics se consolidaram em escala mundial, a direita só pode lamentar o que transcorreu ao longo de 2025.

O mundo se tornou mais progressista, a direita viveu grandes retrocessos. O destino trágico da família Bolsonaro é um roteiro do que a direita brasileira está condenada.

Bolsonaro foi preso e não houve nenhum tipo de manifestação de solidariedade com ele. O lançamento da candidatura de um dos seus filhos não conseguiu nem o apoio da direita organizada, que prefere o Tarcísio.

Este, por sua vez, cometeu a maior quantidade de erros que um político pode cometer, entre eles, solidarizar-se e reafirmar seus vínculos indissolúveis com o Bolsonaro, mesmo depois de condenado à prisão.

Em suma, o mundo caminha para a esquerda, assim como a maioria da América Latina e o próprio Brasil. E 2026 não se anuncia diferente. Os Brics tendem a se consolidar e se ampliar no mundo, enquanto o Lula tem tudo para se reeleger e o Brasil para seguir a via do crescimento econômico, do pleno emprego e da distribuição de renda. Tudo na contramão do que pensa e pratica a direita.

•        Lula lidera. Na política. Por Oliveiros Marques

Enquanto parte da oposição ainda debate se o país deveria existir ou não fora das redes sociais, o governo Lula segue fazendo aquilo que, em política, costuma gerar resultados concretos: governar para a maioria. As medidas anunciadas e implementadas nos últimos meses não são apenas ações de impacto imediato, mas compõem uma estratégia clara de reposicionamento do Estado ao lado da maioria da população. Colocar o pobre no orçamento foi a promessa de campanha. E é justamente essa combinação de pragmatismo, sensibilidade social e leitura do tempo político que coloca Lula em posição de peça forte no tabuleiro eleitoral.

Ao contrário do que tentam vender seus críticos - dentro de partidos ou não -, sempre buscando pintar de “eleitoralismo” onde há política pública, o que se observa é um governo que compreendeu algo básico: pessoas votam com base na vida real. Alívio no orçamento doméstico, facilitação do acesso a direitos, políticas que chegam antes do discurso. Nada muito sofisticado, é verdade. Apenas o velho e aparentemente esquecido princípio de que governar é melhorar a vida das pessoas.

A ampliação de benefícios fiscais para trabalhadores, o controle inflacionário, a simplificação de processos que oneravam sobretudo os mais pobres, os investimentos em políticas sociais e a retomada de programas com comprovada eficácia não surgem do improviso. São fruto de uma leitura precisa do Brasil de hoje: desigual, cansado de promessas vazias e pouco disposto a embarcar em aventuras retóricas travestidas de projeto nacional.

Há também um elemento que incomoda profundamente os chamados “pretensos adversários”: a normalidade. Lula governa sem a estética do conflito permanente, sem a necessidade diária de inimigos imaginários e sem transformar a Presidência da República em palco de ressentimentos pessoais. Para quem apostou no caos como método político, a previsibilidade institucional e o diálogo amplo soam quase revolucionários.

É curioso notar que os críticos mais ruidosos dessas medidas são, em geral, os mesmos que passaram anos defendendo que o mercado resolveria tudo - inclusive a fome -, desde que o Estado ficasse quieto no seu canto. Agora, diante de um governo que combina responsabilidade fiscal com políticas sociais, restou-lhes o desconforto de ver que o país não entrou em colapso. Pelo contrário: segue avançando em qualidade de vida para a sua gente.

No campo político, o efeito é evidente. Ao ocupar o centro da agenda com entregas concretas, o governo força seus adversários a reagirem, quase sempre atrasados e sem propostas alternativas minimamente críveis. Falam em “populismo”, mas não apresentam soluções. Criticam o diálogo social, mas não conseguem dialogar nem entre si. Denunciam estratégias eleitorais enquanto ainda tentam descobrir qual será o próprio discurso.

Lula, por sua vez, parece compreender que eleição não se vence apenas com slogans, mas com memória social. As pessoas lembram quem esteve presente quando mais precisaram. Lembram quem governou para muitos e quem governou para poucos. E, sobretudo, lembram quem entregou resultados.

Assim, quando o calendário eleitoral começar oficialmente, o governo já terá feito o mais difícil: transformar política pública em experiência concreta na vida da população. Os demais concorrentes, se existirem para além das notas de rodapé, terão de explicar por que passaram tanto tempo falando de fantasmas enquanto o país seguia adiante.

No fim das contas, o governo Lula não se fortalece por marketing, mas por método. E, na política brasileira, isso costuma fazer toda a diferença.

•        Brasil segue polarizado, mas com paradoxos: Lula supera Bolsonaro, mas direita supera esquerda

O Brasil segue mergulhado em um ambiente de forte polarização política, mas os números revelam um quadro cheio de paradoxos. Segundo a mais recente pesquisa Datafolha, publicada em reportagem da Folha de S. Paulo, 74% dos brasileiros se identificam com algum dos dois principais polos políticos do país — o campo ligado ao presidente Lula e o grupo associado a Jair Bolsonaro. Nesse recorte, os petistas voltaram a ser maioria: 40%, contra 34% de bolsonaristas.

O levantamento foi realizado entre 2 e 4 de dezembro, com 2.002 entrevistas em 113 municípios, ouvindo eleitores com 16 anos ou mais. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. Além dos dois grupos polarizados, 18% se declararam neutros, 6% disseram não apoiar nenhum dos dois, e 1% não soube responder.

<><> Petistas voltam à dianteira após um período de empate técnico

Na rodada anterior, realizada no fim de julho, o cenário era de empate técnico: 39% se diziam mais próximos do partido de Lula e 37% alinhados a Bolsonaro. Agora, embora a variação também ocorra dentro da margem de erro, a distância deixou de configurar empate, e o grupo petista retoma a liderança numérica.

O Datafolha usa, desde dezembro de 2022, uma escala para medir essa identificação:

“considerando uma escala de 1 a 5, onde 1 é bolsonarista e 5 petista, em qual número você se encaixa?”

Quem responde 1 ou 2 é classificado como bolsonarista; quem marca 4 ou 5 entra no grupo petista; e os que respondem 3 são considerados neutros.

Segundo a própria série histórica citada na reportagem, os apoiadores de Lula foram maioria em 9 dos 11 levantamentos realizados desde então, o que reforça a estabilidade estrutural desse campo dentro da polarização.

<><> A pesquisa foi feita após a prisão e condenação de Bolsonaro

A reportagem da Folha destaca que o levantamento ocorreu em um momento politicamente decisivo: após a prisão e condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. O ex-presidente, ainda conforme o texto, já havia sido colocado em prisão domiciliar por descumprir medidas cautelares e, antes da condenação, chegou a ser preso preventivamente em Brasília após tentar violar a tornozeleira eletrônica.

Enquanto isso, o presidente Lula aparece em posição confortável no horizonte eleitoral. A pesquisa, segundo a reportagem, aponta que Lula lidera as intenções de voto para a eleição de 2026 tanto no primeiro quanto no segundo turno.

<><> Quem é mais petista e quem é mais bolsonarista

Os dados revelam que a polarização não é homogênea: ela se distribui com nitidez por gênero, renda, religião, escolaridade e região.

De acordo com o Datafolha, o petismo é mais concentrado:

•        Entre mulheres (42%)

•        Entre aposentados (45%)

•        Entre quem tem até o ensino fundamental (52%)

•        Na região Nordeste (49%)

•        Entre católicos (48%)

>>> Já o bolsonarismo prevalece:

•        Entre homens (37%)

•        Entre empresários (41%)

•        Entre quem ganha de cinco a dez salários mínimos (42%)

•        Na região Sul (41%)

•        Entre evangélicos (47%)

>>> Polarização cresce com a idade: 84% entre eleitores acima de 60 anos

A polarização também se intensifica entre os mais velhos. Entre pessoas com 60 anos ou mais, 84% se encaixam como petistas ou bolsonaristas, sendo 46% mais próximos de Lula e 38% inclinados a Bolsonaro. Esse dado indica que, para essa faixa etária, a disputa entre os dois líderes segue estruturando a forma como se percebe a política nacional.

<><> O paradoxo central: direita supera esquerda, apesar da vantagem de Lula na polarização

É nesse ponto que surge o principal paradoxo revelado pela pesquisa. Embora o campo petista seja numericamente maior do que o bolsonarista, a identificação ideológica mostra um país mais inclinado à direita do que à esquerda.

De acordo com o levantamento, 57% dos entrevistados se definem como de direita ou esquerda, sendo:

•        35% de direita

•        22% de esquerda

Outros segmentos se distribuem no centro:

•        7% centro-esquerda

•        17% centro

•        11% centro-direita

•        8% não souberam responder

Ou seja: o eleitorado que se vê como “de direita” é significativamente maior do que o que se vê como “de esquerda”, mesmo em um cenário em que o grupo identificado como petista é maior do que o bolsonarista.

<><> Trânsito de votos expõe contradições ideológicas

Outro dado destacado pela reportagem reforça essa complexidade: a autodeclaração ideológica não determina de forma automática o voto.

Entre os que se disseram de esquerda, 9% afirmaram ter votado em Bolsonaro em 2022. No grupo identificado como de direita, 22% declararam ter votado em Lula. Isso indica que parte relevante do eleitorado se move por fatores que não se reduzem à identidade ideológica.

Quando o recorte é feito dentro dos grupos polarizados, esse trânsito parece menor, mas ainda presente:

•        5% dos bolsonaristas disseram ter votado em Lula

•        7% dos petistas afirmaram ter votado em Bolsonaro

<><> O que a pesquisa sugere sobre o Brasil de 2026

O retrato traçado pelo Datafolha sugere um Brasil em que a polarização segue predominante, mas em que as identidades políticas convivem com contradições profundas. Lula lidera o polo mais numeroso, mas o país se declara majoritariamente de direita, o que tende a manter o ambiente de tensão política e disputa simbólica em alta.

A pesquisa indica também que, apesar da centralidade de Lula e Bolsonaro como polos estruturadores, há uma camada significativa que se vê como neutra, centrista ou sem alinhamento direto, e que pode voltar a ser decisiva no jogo eleitoral.

Em resumo, o Brasil segue polarizado — mas a fotografia é mais complexa do que o simples embate entre dois líderes. Ela revela um país onde a disputa entre petismo e bolsonarismo continua determinante, mas em que o eixo ideológico direita-esquerda aponta para uma inclinação conservadora, mesmo quando o petismo aparece numericamente à frente.

•        Governo Lula vê risco de interferência de Trump na eleição brasileira de 2026

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalia que a relação institucional com Washington não elimina o risco de uma eventual interferência externa no processo eleitoral brasileiro de 2026. Integrantes do Palácio do Planalto consideram que, mesmo diante de gestos recentes de distensão, os Estados Unidos podem adotar estratégias semelhantes às observadas em eleições de outros países da América Latina.

A análise foi revelada em reportagem da Folha de S.Paulo, que ouviu um alto funcionário do governo brasileiro. Segundo essa avaliação, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pode ter feito apenas um recuo tático ao retirar parte das tarifas sobre produtos brasileiros e suspender sanções baseadas na Lei Magnitsky, após a tentativa frustrada de impedir a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro.

No entendimento do governo brasileiro, a preocupação se baseia em precedentes recentes. Na eleição legislativa da Argentina, Trump condicionou a liberação de um pacote de ajuda financeira de US$ 20 bilhões a um bom desempenho eleitoral do partido do presidente Javier Milei. Já em Honduras, durante o pleito presidencial, Trump apoiou publicamente o candidato da ultradireita, Nasry “Tito” Asfura.

Nesse contexto, a presidente hondurenha, Xiomara Castro, afirmou que houve um “golpe eleitoral” motivado pela “interferência do presidente dos Estados Unidos”. Antes da votação, Trump declarou que a candidata governista, Rixi Moncada, era comunista e que sua eventual vitória entregaria o país à Venezuela.

Às vésperas da eleição em Honduras, Trump concedeu indulto ao ex-presidente Juan Orlando Hernández, aliado de Asfura, que havia sido condenado a 45 anos de prisão por tráfico de cocaína para os Estados Unidos. Passado quase um mês do pleito, o país ainda não tem um resultado oficial. Asfura lidera por margem estreita sobre o conservador Salvador Nasralla, enquanto uma apuração especial segue em andamento.

Na semana passada, o Departamento de Estado dos EUA revogou um visto e cassou outro de duas autoridades eleitorais hondurenhas ligadas ao partido de Xiomara Castro, sob a alegação de que estariam interferindo na apuração dos votos. Para o governo brasileiro, esse conjunto de ações reforça a necessidade de criar mecanismos de proteção contra possíveis interferências externas.

Entre essas medidas, autoridades citam a adoção de “vacinas”, como a ampliação da cooperação bilateral com os Estados Unidos no combate ao crime transnacional, anunciada recentemente. Segundo integrantes do governo, essa estratégia também teve caráter preventivo para bloquear tentativas de grupos bolsonaristas de solicitar uma intervenção americana no Brasil sob o argumento do combate ao crime organizado.

O Planalto avalia que a agenda internacional terá um peso inédito na disputa presidencial de 2026. A percepção interna é de que Trump deve apoiar abertamente o candidato da direita brasileira, alinhado ideologicamente ao atual governo dos Estados Unidos.

Em relação à Venezuela, o governo Lula mantém estado de alerta, inclusive durante o recesso, diante da possibilidade de uma intervenção militar americana. Autoridades admitem que Washington não tem se mostrado aberta a um papel mais ativo do Brasil ou de outros países nas conversas com o presidente venezuelano Nicolás Maduro. Ainda assim, evitar uma ação militar é considerada prioridade absoluta pelo governo brasileiro.

Segundo essa avaliação, uma eventual intervenção sob o pretexto do combate ao narcotráfico poderia criar um precedente perigoso, passível de ser utilizado futuramente em países como Colômbia e México.

No campo bilateral, Brasil e Estados Unidos continuam negociando a retirada do restante das tarifas sobre produtos brasileiros e a restituição de vistos revogados de ministros brasileiros e de seus familiares. Uma reunião ministerial prevista inicialmente para novembro foi adiada e deve ocorrer apenas em janeiro.

 

Fonte: Brasil 247

 

Nenhum comentário: