sábado, 10 de janeiro de 2026

Uma nova teologização da política chilena

José Antonio Kast será o próximo presidente do Chile. “Um retorno ao pinochetismo”, “um ultraconservador ganha as eleições” e “o filho de um militante nazista” são algumas das manchetes que se encontram nas mídias internacionais. Javier Milei comemora com grande alegria pelas redes sociais e cumprimenta ao seu amigo da ultradireita chilena. Rodrigo Paz felicita ao povo chileno e ao novo presidente, celebrando que poda se fortalecer a relação entre o Chile e a Bolívia no próximo mandato para retomar as relações diplomáticas. Finalmente, e como podia se esperar, desde os EUA., Marco Rubio, o Secretário de Estado, foi um dos primeiros em felicitar ao Kast, comentado pelas redes que os EUA vão colaborar com o governo chileno para melhorar a segurança regional. Não à toa, o presidente Gustavo Petro, da Colômbia, falou que as direitas estão encurralando o continente, avançado com força tanto desde o norte quanto o sul.

Kast ganhou com mais do 58% dos votos frente a Jeannette Jara que conseguiu quase o 42%. De qualquer jeito, e apesar da grande diferencia, é importante dizer que a candidata Jara conseguiu quase 500 mil votos a mais que os que obteve o Boric para ser presidente, só que nestas últimas eleições o padrão eleitoral aumentou quase em dobro por causa do voto obrigatório – uma vitória das direitas no primeiro processo constituinte. Por isso, vale destacar que essas eleições foram as com mais votos na história do Chile, o que fizeram que Kast seja o presidente mais votado da história chilena. Isto é, um nostálgico da ditadura, que defende a figura do ditador Pinochet e seu governo neoliberal, só que pela via democrática com um alto nível de legitimidade. Uma situação que, além de todas as complexidades que representa o seu projeto, deixa uma altíssima expectativa no futuro mandatário de parte dos seus apoiadores. 

O binômio continuidade e mudança foi o elemento mais relevante da campanha. O governo de Boric não conseguiu cumprir as expectativas populares e a candidata Jara desde o começo foi a “continuidade”, e mesmo tentando, não foi possível superar essa “mensagem”. Desde o começo quase todo mundo sabia que a candidatura “oficialista” que fosse para o pleito iria perder. 

A aparição do Johannes Kaiser no primeiro turno serviu ao Kast para ficar em uma espécie de “centro” das direitas. Isto, porque embora seja ultraconservador, tentou não falar dos princípios morais nem das disputas da batalha cultural, papel que jogou o Kaiser como a figura “verdadeiramente extremista”. Por isso, foi chave a complementariedade dos seus discursos. E ontem o Kaiser estava feliz comemorando “a vitória contra o comunismo”.

A partir das candidaturas presidenciais, há meses que vem se discutindo sobre quantas direitas existem no Chile, o que hoje virou, praticamente, um trending topic nas mídias. Linhas ideológicas diversas, intelectuais das direitas brigando entre elas sobre as diferencias dos seus projetos. Porém, quando começou o segundo turno essa disputa praticamente se apagou, o que permitiu ao candidato Kast unir grande parte das diferenças em torno de sua figura. 

Talvez, com o Jaime Guzmán vivo as direitas chilenas não tivessem se diversificado tanto. No entanto, com a sua ausência, a disputa pela hegemonia do setor ainda não tem solução, porque embora o Kast seja o próximo presidente, claramente precisa da direita mainstream – e no Parlamento do “novo centrão” – para compor seu governo e levar adiante as suas ideias. Portanto, o líder do Partido Republicano venceu, mas ainda não conquistou a hegemonia do setor. Porém, pode se dizer que o projeto do Kast representa de boa maneira a continuidade, não só do projeto económico da ditadura civil-militar chilena, senão especialmente do projeto teológico-político do Guzmán. Vamos analisar brevemente porquê.

<><> Quem é Kast

José Antonio Kast, o futuro presidente do Chile e representante do bloco das direitas chilenas, vem das fileiras do gremialismo. Desde os anos oitenta quando era estudante de Direito na PUC de Santiago era próximo do movimento criado pelo Jaime Guzmán, o principal ideólogo da ditadura chilena, mas apesar de ter estudado na época que aquele era professor, Kast não foi aluno dele. Porém, foi aluno do Gonzalo Rojas Sánchez, um dos mais fiéis militantes gremialistas e um grande amigo de Guzmán e, além de militante da Opus Dei, foi o tutor da tese do Kast. 

Além disso, cresceu em uma família colaboracionista da ditadura. Por uma parte, o seu irmão mais velho, Miguel, foi chave na implementação do neoliberalismo no Chile e um dos principais membros dos Chicago Boys. Por outro lado, o pai dele – ex-militante nazista e, naquela época, dono da loja Bavaria – foi cúmplice ativo no desaparecimento e assassinato de 70 pessoas na localidade de Paine, no sul da região metropolitana do Chile.

Enfim, após passar pelos negócios familiares, criar empresas e virar multimilionário, entrou num cargo público através da Unión Demócrata Independiente (UDI) nos anos noventa. Depois foi secretário geral do Partido e, após tentar durante alguns anos a presidência, renunciou à UDI em 2016. Aí começou a sua concorrência como candidato presidencial, criou o movimento Ação Republicana e logo o Partido Republicano, mas sempre seguindo as principais linhas ideológicas do gremialismo: conservadorismo moral e neoliberalismo económico.

Por outro lado, vale a pena lembrar que Kast já tinha dito em 2017 que se estivesse vivo o Pinochet, ele votaria nele. E ontem, entre as comemorações da sua vitória, tremulavam algumas bandeiras com a foto do ditador. Além disso, temos ouvido muitíssimas frases de louvor ao ditador durante as diferentes campanhas do líder do Partido Republicano, tal como dizer que não tem problema em defender com orgulho o governo de Pinochet. Não por acaso, ainda hoje defende os perpetradores de violações de direitos humanos que estão na cadeia especial de Punta Peuco, embora este ponto ficou de fora da campanha dele, porque foi tomado principalmente pelo Johannes Kaiser, o qual funcionou como um complemento do Kast, tal como mostramos no artigo anterior.

Finalmente, e como a maioria já deve supor ou saber, Kast é próximo de Jair Bolsonaro e a comparação entre eles é recorrente. Desde o 2018, o candidato chileno fazia esforços por se reunir tanto com o Bolsonaro quanto com os filhos dele, se convertendo no “Bolsonaro chileno”, ficando na sombra dele. Várias análises falam do Kast com aquele apelido, o qual até podemos compartilhar, embora tenha linhas ideológicas às vezes bem diferentes. Aliás, dizem que no começo, a família Bolsonaro não gostou muito dele pelo forte conservadorismo religioso do chileno. Por isso, temos que revisar à proximidade com a teologia política guzmaniana e compreender a sua militância.

<><> A família Kast e o Movimento Apostólico Schönstatt

Asua irmã Bárbara Kast Rist é um dos exemplos de entrega e amor à Virgem Maria da Juventude Feminina de Schönstatt e encontra-se no processo de beatificação na Igreja Católica. Por outro lado, o Miguel, o ex-ministro de Pinochet e seu irmão mais velho, ingressou no Movimento Apostólico de Schönstatt no ano 1967. Aliás, durante os seus estudos em Chicago, visitava o santuário de Milwaukee, a mesma cidade onde o líder José Kentenich tinha sido exilado, acusado de abuso sexual, em 1951 e até 1965 pelo decreto do Santo Ofício. 

Além disso, outro dos irmãos, o Hans, é sacerdote, e a Gabriela, outra das irmãs, é professora e dedica-se a escrever livros infantis de religião. Deste modo, demostra-se até que ponto a teologia católica é chave na vida familiar dos Kast Rist, especialmente, ao movimento schönstattiano, proximidade que teria sido fomentada pela mãe deles: Olga Rist Hagspiel. O Chile é um dos países com mais santuários deste movimento.

Vale a pena lembrar que o Kast, o mais novo do clã, como ele mesmo tem declarado várias vezes, é um católico praticante e um membro do movimento schönstattiano, o que configura parte importante do seu jeito de ser no mundo: a condução da vida a partir dos preceitos divinos, tal como descreve-se no próprio movimento. Não por acaso, no discurso de vitória declarava que sem Deus do seu lado isto não teria sido possível.

Em grande parte, como diz o padre e historiador do movimento Engelbert Monnerjahn, um dos principais objetivos de Schönstatt é formar uma nova personalidade e um tipo de comunidade cristã que contribua à Igreja católica, agindo para uma nova ordem social; ou seja, penetrar com o Espírito de Cristo em todos os níveis da vida.

Sob estes termos, a “Mãe de Deus” apresenta-se como uma arma contra os poderes das trevas, contra os inimigos da alma, como dizia o líder Kentenich em relação à Virgem de Fátima em 1944. Plínio Corrêa de Oliveira e, logo, Jaime Guzmán Errázuriz tinham a Virgem de Fátima como o principal símbolo da luta anticomunista. 

<><> A relação com a teologia política do Guzmán

Para compreender o eixo desta breve genealogia temos que lembrar que em 1961, dois brasileiros chegaram a Santiago para fazer duas palestras. Uma delas foi na Escola dos Sagrados Corações de Alameda e a outra na sede da Juventude do Partido Conservador. Mas quem eram aqueles senhores? Tanto o Fernando Furquim de Almeida quanto o Paulo Corrêa de Brito Filho eram membros da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), aquela organização anticomunista fundada e presidida por Plínio Corrêa de Oliveira, um dos “principais soldados da contra-revolução” do século XX no Ocidente, e visavam propagar sua missão na juventude católica chilena. 

Ora, o que às vezes se esquece é que um dos seus ouvintes no estabelecimento dos Sagrados Corações, foi o aluno Jaime Guzmán Errázuriz, logo o cérebro da renovação das direitas e do regime ditatorial chileno, que naquele momento na Revista Escolar destacou o ímpeto contrarrevolucionário como uma necessidade urgente da juventude católica. Após estes encontros, os conservadores chilenos continuaram se comunicando com os brasileiros, até que o ano seguinte surgia no Chile a revista Fiducia – um símil da catolicismo que dirigia aquele paulistano.

Mas por que isto tem relevância na trajetória do Kast? Por enquanto dizer que naquele período as direitas chilenas estavam em uma grande crise tanto ideológica quanto eleitoral, produto da ascensão política das classes subalternas como também pelo crescimento do Partido da Democracia Cristã. Enfim, a vitória do Frei Montalva, primeiro, e mais claramente do Salvador Allende nas eleições presidenciais seguintes, expuseram a catastrófica situação ideológica das direitas. Por isso, somado a outros aspectos, iniciou-se a renovação das direitas chilenas, que teria o Guzmán como peça-chave, e que culminaria com a consumação do Golpe de Estado de 1973

Naquela época, precisamente após sair da revista Fiducia, Guzmán começa a constituir o gremialismo, um movimento que se tornou um partido durante a ditadura. E os primeiros militantes vinham tanto da Escola dos Sagrados Corações de Alameda quanto da PUC de Santiago. Guzmán estudava, e logo ensinava, Direito naquela universidade. Não à toa, justamente aí começava depois uma das principais forças reacionárias ao governo da Unidade Popular. E depois, através do aggiornamento com os Chicago Boys, veria desde aquela própria faculdade onde o Kast estudou a criação da UDI.

Guzmán foi o principal teólogo político das direitas da época, foi ele que conseguiu, em grande parte, materializar parte dos conceitos plinianos na política chilena após o golpe. Ainda quando o advogado deixou de colaborar explicitamente na revista para criar o gremialismo, as cartas e os arquivos demonstram que continuou próximo ao grupo, e entre ambas propostas têm vários eixos ideológicos comuns. Não por acaso, tanto o seu marianismo quanto a sua idolatria do Luís María Gringnion de Montfort continuou firme até a sua morte; e é aqui que a “contra-revolução pliniana” começa.

No entanto, a ressonância dessa doutrina do tradicionalismo católico através de seus militantes, claramente, não termina com a morte do Guzmán em 1991. Aliás, ainda hoje têm militantes plinianos que continuam a “contra-revolução cultural”, influenciando a opinião pública chilena com discursos contra o divórcio nos anos noventa, contra o aborto nos dois mil e contra qualquer política que esteja ligada ao que eles chamam de “ideologia de gênero” hoje em dia. Em grande parte, os plinianos e o Guzmán buscavam restaurar uma “ordem natural”, que teria sido destruída pelas diferentes revoluções da história, e que seguindo a doutrina pliniana estaria na sua última etapa: o comunismo, devido “revolução cultural” elaborada pela esquerda.

Por isso, estabeleceu-se uma verdadeira cruzada contra o comunismo que optou por uma caracterização do marxismo como a verdadeira catástrofe civilizacional, descrita como um mal espiritual, de uma suposta perversidade intrínseca. Em outros termos, um processo que temos definido como uma teologização da política, provocado pela difusão das noções plinianas através da revista Fiducia, projeto que permitiu uma ressonância ideológica dentro das camadas conservadoras chilenas e influenciou a produção de uma retórica catastrófica e de confronto nas direitas da época. Assim, eles conseguiram difundir a demonização do inimigo político que hoje é atualizada pelo futuro presidente ultradireitista chileno: José Antonio Kast.

Conclusões

Anarrativa da “batalha cultural” promovida pelas “novas direitas”, entre as quais está o próprio Kast, tem raízes teológicas e usam aquela retórica, ou seja, a luta contra os movimentos feministas e a cultura woke, usando argumentos cujas bases encontramos no tradicionalismo pliniano.

Enfim, toda a trajetória política do Kast, durante os mais de quinze anos no Parlamento chileno, girou em torno destas temáticas e da sua férrea oposição ao divórcio, à legislação sobre o aborto, ao casamento igualitário, à pílula do dia seguinte, à educação sexual e uma longa lista de outros temas que se evidenciaram em seu ativismo católico na plataforma Political Network for Values. Aliás, foi presidente desta organização nos últimos anos, além de participar ativamente nos diferentes encontros da CPAC tanto na Europa quanto na América Latina. Isto é, uma estratégia com redes de financiamento transnacional pela promoção da “família tradicional” e pela proibição do aborto, entre outras causas que defendem os conservadores.

Em grande parte, porque a promoção de um senso comum conservador através da difusão de uma visão de mundo teologizada tem sido o alvo principal do futuro presidente chileno. Não por acaso, quando votava contra o divórcio, em 2004, citou ao Guzmán e a perda de terreno frente àqueles que pensam o mundo à margem de Deus. E apesar de que Kast ter dito naquela época que não se intrometeria na cama de ninguém, acrescentou que recomendaria o que fazer sim – e tem feito isso constantemente –, porque um dos seus principais objetivos é retornar aos princípios do tradicionalismo católico.

Por fim, no atual Programa Presidencial, Kast propôs que no Ocidente estaria se vivendo uma batalha cultural, a qual estaria ganhando – segundo a definição deles – o marxismo cultural, ou seja, pelos movimentos identitários: feministas, indígenas e outros. Desta maneira, o papel do Partido Republicano e da sua liderança seria lutar pela restauração dos princípios fundamentais da liberdade, da família e contra o Estado subsidiário no Chile. 

Consequentemente, o Kast durante a campanha toda tem exposto que o Chile estaria passando por uma crise absoluta. Portanto, ele vai se encarregar da verdadeira luta pelas ideias através desta “nova direita republicana”. Deste jeito, descrevem-se elementos da conexão com aquela contra-revolução que procura restaurar uma suposta “ordem natural”.

Para encerrar esta reflexão, vamos expor um dos princípios fundamentais da UDI, o partido criado e liderado pelo Guzmán até a sua morte, e onde o Kast militou a grande parte da sua trajetória política. Não por acaso, ele falou que se o Guzmán estivesse vivo estaria militando no Partido Republicano e teria votado nele, porque aí teria ficado o verdadeiro espírito ideológico do líder gremialista.

Na Declaração de Princípios (1983) da UDI diz o seguinte: “existe uma ordem moral objetiva, a qual está inscrita na natureza humana. A essa ordem moral, fundamento da civilização ocidental e cristã, deve ajustar-se a organização da sociedade e deve subordinar-se todo o seu desenvolvimento cultural, institucional e econômico. Da dignidade espiritual e transcendente do ser humano emanam direitos inerentes à sua natureza, anteriores e superiores ao Estado”. 

Deste modo, se evidencia a relação dos preceitos tomistas, aquela prioridade ontológica do indivíduo frente ao coletivo, certa essência humana e a existência de uma suposta “ordem moral objetiva”. Isto é, um mundo totalmente teologizado: o horizonte defendido pelo Kast e a sua militância. Por isso, a eleição do Kast representa a vitória de um novo processo de teologização da política chilena, e a denominada “batalha cultural”, que não é senão uma “contra-revolução cultural”, representada pela figura do futuro presidente ultradireitista. 

Há algumas semanas, ele reafirmou que “não mudei minhas convicções”, embora tenha enfatizado que sabia quais seriam as atuais urgências do país. Em outros termos, ele sabe como falar ao seu público hoje, mas o horizonte não mudou nem um pouco. Portanto, com o Kast no governo, corremos o risco evidente de ver uma subordinação mais profunda do Estado à Igreja Católica e ver o Chile se transformar numa nova fronteira da cruzada civilizatória na contra-revolução mariana, ou seja, que a política seja mais uma vez guiada pelos preceitos teológicos que levou tantos séculos para serem questionados. Por isso, a construção do Kast como figura messiânica foi a parte mais relevante da campanha e, portanto, hoje temos a tarefa novamente de desmembrar os fundamentos dogmáticos dsta teologia política, para que possamos dialogar sobre questões humanas e não tenhamos que retroceder para ter um Estado guiado por crenças transcendentais que nada deveriam influenciar na política laica do Estado moderno.

 

Fonte: Por Javier Molina, em Jacobin Brasil

 

Nenhum comentário: