Uma
nova teologização da política chilena
José
Antonio Kast será o próximo presidente do Chile. “Um retorno ao pinochetismo”,
“um ultraconservador ganha as eleições” e “o filho de um militante nazista” são
algumas das manchetes que se encontram nas mídias internacionais. Javier Milei
comemora com grande alegria pelas redes sociais e cumprimenta ao seu amigo da
ultradireita chilena. Rodrigo Paz felicita ao povo chileno e ao novo
presidente, celebrando que poda se fortalecer a relação entre o Chile e a
Bolívia no próximo mandato para retomar as relações diplomáticas. Finalmente, e
como podia se esperar, desde os EUA., Marco Rubio, o Secretário de Estado, foi
um dos primeiros em felicitar ao Kast, comentado pelas redes que os EUA vão
colaborar com o governo chileno para melhorar a segurança regional. Não à toa,
o presidente Gustavo Petro, da Colômbia, falou que as direitas estão
encurralando o continente, avançado com força tanto desde o norte quanto o sul.
Kast
ganhou com mais do 58% dos votos frente a Jeannette Jara que conseguiu
quase o 42%. De qualquer jeito, e apesar da grande diferencia, é importante
dizer que a candidata Jara conseguiu quase 500 mil votos a mais que os que
obteve o Boric para ser presidente, só que nestas últimas eleições o padrão
eleitoral aumentou quase em dobro por causa do voto obrigatório – uma vitória
das direitas no primeiro processo constituinte. Por isso, vale destacar que
essas eleições foram as com mais votos na história do Chile, o que fizeram que
Kast seja o presidente mais votado da história chilena. Isto é, um nostálgico
da ditadura, que defende a figura do ditador Pinochet e seu governo neoliberal,
só que pela via democrática com um alto nível de legitimidade. Uma situação
que, além de todas as complexidades que representa o seu projeto, deixa uma
altíssima expectativa no futuro mandatário de parte dos seus apoiadores.
O
binômio continuidade e mudança foi o elemento mais relevante da campanha. O
governo de Boric não conseguiu cumprir as expectativas populares e a candidata
Jara desde o começo foi a “continuidade”, e mesmo tentando, não foi possível
superar essa “mensagem”. Desde o começo quase todo mundo sabia que a
candidatura “oficialista” que fosse para o pleito iria perder.
A
aparição do Johannes Kaiser no primeiro turno serviu ao Kast para ficar em uma
espécie de “centro” das direitas. Isto, porque embora seja ultraconservador,
tentou não falar dos princípios morais nem das disputas da batalha
cultural, papel que jogou o Kaiser como a figura “verdadeiramente
extremista”. Por isso, foi chave a complementariedade dos seus discursos. E
ontem o Kaiser estava feliz comemorando “a vitória contra o comunismo”.
A
partir das candidaturas presidenciais, há meses que vem se discutindo sobre
quantas direitas existem no Chile, o que hoje virou, praticamente, um trending
topic nas mídias. Linhas ideológicas diversas, intelectuais das
direitas brigando entre elas sobre as diferencias dos seus projetos. Porém,
quando começou o segundo turno essa disputa praticamente se apagou, o que
permitiu ao candidato Kast unir grande parte das diferenças em torno de sua
figura.
Talvez,
com o Jaime Guzmán vivo as direitas chilenas não tivessem se diversificado
tanto. No entanto, com a sua ausência, a disputa pela hegemonia do setor ainda
não tem solução, porque embora o Kast seja o próximo presidente, claramente
precisa da direita mainstream – e no Parlamento do
“novo centrão” – para compor seu governo e levar adiante as suas ideias.
Portanto, o líder do Partido Republicano venceu, mas ainda não conquistou a
hegemonia do setor. Porém, pode se dizer que o projeto do Kast representa de
boa maneira a continuidade, não só do projeto económico da ditadura
civil-militar chilena, senão especialmente do projeto teológico-político do
Guzmán. Vamos analisar brevemente porquê.
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Quem é Kast
José
Antonio Kast, o futuro presidente do Chile e representante do bloco das
direitas chilenas, vem das fileiras do gremialismo. Desde os anos
oitenta quando era estudante de Direito na PUC de Santiago era próximo do
movimento criado pelo Jaime Guzmán, o principal ideólogo da ditadura chilena,
mas apesar de ter estudado na época que aquele era professor, Kast não foi
aluno dele. Porém, foi aluno do Gonzalo Rojas Sánchez, um dos mais fiéis
militantes gremialistas e um grande amigo de Guzmán e, além de
militante da Opus Dei, foi o tutor da tese do Kast.
Além
disso, cresceu em uma família colaboracionista da ditadura. Por uma parte, o
seu irmão mais velho, Miguel, foi chave na implementação do neoliberalismo no
Chile e um dos principais membros dos Chicago Boys. Por outro lado, o
pai dele – ex-militante nazista e, naquela época, dono da loja Bavaria –
foi cúmplice ativo no desaparecimento e assassinato de 70 pessoas na localidade
de Paine, no sul da região metropolitana do Chile.
Enfim,
após passar pelos negócios familiares, criar empresas e virar multimilionário,
entrou num cargo público através da Unión Demócrata Independiente (UDI) nos
anos noventa. Depois foi secretário geral do Partido e, após tentar durante
alguns anos a presidência, renunciou à UDI em 2016. Aí começou a sua
concorrência como candidato presidencial, criou o movimento Ação Republicana e
logo o Partido Republicano, mas sempre seguindo as principais linhas
ideológicas do gremialismo: conservadorismo moral e neoliberalismo
económico.
Por
outro lado, vale a pena lembrar que Kast já tinha dito em 2017 que se estivesse
vivo o Pinochet, ele votaria nele. E ontem, entre as comemorações da sua
vitória, tremulavam algumas bandeiras com a foto do ditador. Além disso, temos
ouvido muitíssimas frases de louvor ao ditador durante as diferentes campanhas
do líder do Partido Republicano, tal como dizer que não tem problema em
defender com orgulho o governo de Pinochet. Não por acaso,
ainda hoje defende os perpetradores de violações de direitos humanos que estão
na cadeia especial de Punta Peuco, embora este ponto ficou de fora da campanha
dele, porque foi tomado principalmente pelo Johannes Kaiser, o qual funcionou
como um complemento do Kast, tal como mostramos no artigo anterior.
Finalmente,
e como a maioria já deve supor ou saber, Kast é próximo de Jair Bolsonaro e a
comparação entre eles é recorrente. Desde o 2018, o candidato chileno fazia
esforços por se reunir tanto com o Bolsonaro quanto com os filhos dele, se
convertendo no “Bolsonaro chileno”, ficando na sombra dele. Várias análises
falam do Kast com aquele apelido, o qual até podemos compartilhar, embora tenha
linhas ideológicas às vezes bem diferentes. Aliás, dizem que no começo, a
família Bolsonaro não gostou muito dele pelo forte conservadorismo religioso do
chileno. Por isso, temos que revisar à proximidade com a teologia política
guzmaniana e compreender a sua militância.
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A família Kast e o Movimento Apostólico Schönstatt
Asua
irmã Bárbara Kast Rist é um dos exemplos de entrega e amor à Virgem
Maria da Juventude Feminina de Schönstatt e encontra-se no processo de
beatificação na Igreja Católica. Por outro lado, o Miguel, o ex-ministro de
Pinochet e seu irmão mais velho, ingressou no Movimento Apostólico de
Schönstatt no ano 1967. Aliás, durante os seus estudos em Chicago, visitava o
santuário de Milwaukee, a mesma cidade onde o líder José Kentenich tinha sido
exilado, acusado de abuso sexual, em 1951 e até 1965 pelo decreto do Santo
Ofício.
Além
disso, outro dos irmãos, o Hans, é sacerdote, e a Gabriela, outra das irmãs, é
professora e dedica-se a escrever livros infantis de religião. Deste modo,
demostra-se até que ponto a teologia católica é chave na vida familiar dos Kast
Rist, especialmente, ao movimento schönstattiano, proximidade que teria sido
fomentada pela mãe deles: Olga Rist Hagspiel. O Chile é um dos países com mais
santuários deste movimento.
Vale a
pena lembrar que o Kast, o mais novo do clã, como ele mesmo tem declarado
várias vezes, é um católico praticante e um membro do movimento schönstattiano,
o que configura parte importante do seu jeito de ser no mundo: a condução da
vida a partir dos preceitos divinos, tal como descreve-se no próprio movimento.
Não por acaso, no discurso de vitória declarava que sem Deus do seu lado isto
não teria sido possível.
Em
grande parte, como diz o padre e historiador do movimento Engelbert Monnerjahn,
um dos principais objetivos de Schönstatt é formar uma nova personalidade e um
tipo de comunidade cristã que contribua à Igreja católica, agindo para uma
nova ordem social; ou seja, penetrar com o Espírito de Cristo em todos os
níveis da vida.
Sob
estes termos, a “Mãe de Deus” apresenta-se como uma arma contra os poderes das
trevas, contra os inimigos da alma, como dizia o líder Kentenich em relação à
Virgem de Fátima em 1944. Plínio Corrêa de Oliveira e, logo, Jaime Guzmán
Errázuriz tinham a Virgem de Fátima como o principal símbolo da luta
anticomunista.
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A relação com a teologia política do Guzmán
Para
compreender o eixo desta breve genealogia temos que lembrar que em 1961, dois
brasileiros chegaram a Santiago para fazer duas palestras. Uma delas foi na
Escola dos Sagrados Corações de Alameda e a outra na sede da Juventude do
Partido Conservador. Mas quem eram aqueles senhores? Tanto o Fernando Furquim
de Almeida quanto o Paulo Corrêa de Brito Filho eram membros da Sociedade
Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), aquela
organização anticomunista fundada e presidida por Plínio Corrêa de Oliveira, um
dos “principais soldados da contra-revolução” do século XX no Ocidente, e
visavam propagar sua missão na juventude católica chilena.
Ora, o
que às vezes se esquece é que um dos seus ouvintes no estabelecimento dos
Sagrados Corações, foi o aluno Jaime Guzmán Errázuriz, logo o cérebro da
renovação das direitas e do regime ditatorial chileno, que naquele momento
na Revista Escolar destacou o ímpeto contrarrevolucionário
como uma necessidade urgente da juventude católica. Após estes encontros, os
conservadores chilenos continuaram se comunicando com os brasileiros, até que o
ano seguinte surgia no Chile a revista Fiducia – um símil da
catolicismo que dirigia aquele paulistano.
Mas por
que isto tem relevância na trajetória do Kast? Por enquanto dizer que naquele
período as direitas chilenas estavam em uma grande crise tanto ideológica
quanto eleitoral, produto da ascensão política das classes subalternas como
também pelo crescimento do Partido da Democracia Cristã. Enfim, a vitória do
Frei Montalva, primeiro, e mais claramente do Salvador Allende nas eleições
presidenciais seguintes, expuseram a catastrófica situação ideológica das
direitas. Por isso, somado a outros aspectos, iniciou-se a renovação das
direitas chilenas, que teria o Guzmán como peça-chave, e que culminaria com a
consumação do Golpe de Estado de 1973.
Naquela
época, precisamente após sair da revista Fiducia, Guzmán começa a
constituir o gremialismo, um movimento que se tornou um partido
durante a ditadura. E os primeiros militantes vinham tanto da Escola dos
Sagrados Corações de Alameda quanto da PUC de Santiago. Guzmán estudava, e logo
ensinava, Direito naquela universidade. Não à toa, justamente aí começava
depois uma das principais forças reacionárias ao governo da
Unidade Popular. E depois, através do aggiornamento com
os Chicago Boys, veria desde aquela própria faculdade onde o Kast
estudou a criação da UDI.
Guzmán
foi o principal teólogo político das direitas da época, foi ele que conseguiu,
em grande parte, materializar parte dos conceitos plinianos na política chilena
após o golpe. Ainda quando o advogado deixou de colaborar explicitamente na
revista para criar o gremialismo, as cartas e os arquivos
demonstram que continuou próximo ao grupo, e entre ambas propostas têm vários
eixos ideológicos comuns. Não por acaso, tanto o seu marianismo quanto a sua
idolatria do Luís María Gringnion de Montfort continuou firme até a sua morte;
e é aqui que a “contra-revolução pliniana” começa.
No
entanto, a ressonância dessa doutrina do tradicionalismo católico através
de seus militantes, claramente, não termina com a morte do Guzmán em 1991.
Aliás, ainda hoje têm militantes plinianos que continuam a “contra-revolução
cultural”, influenciando a opinião pública chilena com discursos contra o
divórcio nos anos noventa, contra o aborto nos dois mil e contra qualquer
política que esteja ligada ao que eles chamam de “ideologia de gênero” hoje em
dia. Em grande parte, os plinianos e o Guzmán buscavam restaurar uma
“ordem natural”, que teria sido destruída pelas diferentes revoluções da
história, e que seguindo a doutrina pliniana estaria na sua última etapa:
o comunismo, devido “revolução cultural” elaborada pela esquerda.
Por
isso, estabeleceu-se uma verdadeira cruzada contra o comunismo que optou por
uma caracterização do marxismo como a verdadeira catástrofe civilizacional,
descrita como um mal espiritual, de uma suposta perversidade intrínseca. Em
outros termos, um processo que temos definido como uma teologização da
política, provocado pela difusão das noções plinianas através da revista Fiducia,
projeto que permitiu uma ressonância ideológica dentro das camadas
conservadoras chilenas e influenciou a produção de uma retórica catastrófica e
de confronto nas direitas da época. Assim, eles conseguiram difundir a demonização do
inimigo político que hoje é atualizada pelo futuro presidente ultradireitista
chileno: José Antonio Kast.
Conclusões
Anarrativa
da “batalha cultural” promovida pelas “novas direitas”, entre as quais está o
próprio Kast, tem raízes teológicas e usam aquela retórica, ou seja, a luta
contra os movimentos feministas e a cultura woke, usando argumentos cujas bases
encontramos no tradicionalismo pliniano.
Enfim,
toda a trajetória política do Kast, durante os mais de quinze anos no
Parlamento chileno, girou em torno destas temáticas e da sua férrea oposição ao
divórcio, à legislação sobre o aborto, ao casamento igualitário, à pílula do
dia seguinte, à educação sexual e uma longa lista de outros temas que se
evidenciaram em seu ativismo católico na plataforma Political Network for
Values. Aliás, foi presidente desta organização nos últimos anos, além de
participar ativamente nos diferentes encontros da CPAC tanto na Europa quanto
na América Latina. Isto é, uma estratégia com redes de financiamento
transnacional pela promoção da “família tradicional” e pela proibição do
aborto, entre outras causas que defendem os conservadores.
Em
grande parte, porque a promoção de um senso comum conservador através da
difusão de uma visão de mundo teologizada tem sido o alvo principal do futuro
presidente chileno. Não por acaso, quando votava contra o divórcio, em 2004,
citou ao Guzmán e a perda de terreno frente àqueles que pensam o mundo à margem
de Deus. E apesar de que Kast ter dito naquela época que não se intrometeria na
cama de ninguém, acrescentou que recomendaria o que fazer sim – e tem feito
isso constantemente –, porque um dos seus principais objetivos é retornar aos
princípios do tradicionalismo católico.
Por
fim, no atual Programa Presidencial, Kast propôs que no Ocidente estaria se
vivendo uma batalha cultural, a qual estaria ganhando – segundo a definição
deles – o marxismo cultural, ou seja, pelos movimentos
identitários: feministas, indígenas e outros. Desta maneira, o papel do Partido
Republicano e da sua liderança seria lutar pela restauração dos princípios
fundamentais da liberdade, da família e contra o Estado subsidiário no Chile.
Consequentemente,
o Kast durante a campanha toda tem exposto que o Chile estaria passando por uma
crise absoluta. Portanto, ele vai se encarregar da verdadeira luta pelas ideias
através desta “nova direita republicana”. Deste jeito, descrevem-se elementos
da conexão com aquela contra-revolução que procura restaurar uma suposta “ordem
natural”.
Para
encerrar esta reflexão, vamos expor um dos princípios fundamentais da UDI, o
partido criado e liderado pelo Guzmán até a sua morte, e onde o Kast militou a
grande parte da sua trajetória política. Não por acaso, ele falou que se o
Guzmán estivesse vivo estaria militando no Partido Republicano e teria votado
nele, porque aí teria ficado o verdadeiro espírito ideológico do líder
gremialista.
Na
Declaração de Princípios (1983) da UDI diz o seguinte: “existe uma ordem moral
objetiva, a qual está inscrita na natureza humana. A essa ordem moral,
fundamento da civilização ocidental e cristã, deve ajustar-se a organização da
sociedade e deve subordinar-se todo o seu desenvolvimento cultural,
institucional e econômico. Da dignidade espiritual e transcendente do ser
humano emanam direitos inerentes à sua natureza, anteriores e superiores ao
Estado”.
Deste
modo, se evidencia a relação dos preceitos tomistas, aquela prioridade
ontológica do indivíduo frente ao coletivo, certa essência humana e a
existência de uma suposta “ordem moral objetiva”. Isto é, um mundo totalmente
teologizado: o horizonte defendido pelo Kast e a sua militância. Por isso, a
eleição do Kast representa a vitória de um novo processo de teologização da
política chilena, e a denominada “batalha cultural”, que não é senão uma
“contra-revolução cultural”, representada pela figura do futuro presidente
ultradireitista.
Há
algumas semanas, ele reafirmou que “não mudei minhas convicções”, embora tenha
enfatizado que sabia quais seriam as atuais urgências do país. Em outros
termos, ele sabe como falar ao seu público hoje, mas o horizonte não mudou nem
um pouco. Portanto, com o Kast no governo, corremos o risco evidente de ver uma
subordinação mais profunda do Estado à Igreja Católica e ver o Chile se
transformar numa nova fronteira da cruzada civilizatória na contra-revolução
mariana, ou seja, que a política seja mais uma vez guiada pelos preceitos
teológicos que levou tantos séculos para serem questionados. Por isso, a
construção do Kast como figura messiânica foi a parte mais
relevante da campanha e, portanto, hoje temos a tarefa novamente de desmembrar
os fundamentos dogmáticos dsta teologia política, para que possamos dialogar
sobre questões humanas e não tenhamos que retroceder para ter um Estado guiado
por crenças transcendentais que nada deveriam influenciar na política laica do
Estado moderno.
Fonte:
Por Javier Molina, em Jacobin Brasil

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