O
que se sabe sobre comprimido que pode ser alternativa às canetas emagrecedoras
do Wegovy
A
agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês)
aprovou uma versão em comprimido do remédio para emagrecimento Wegovy, segundo
informou a farmacêutica Novo Nordisk.
É a
primeira pílula desse tipo a receber aprovação do órgão regulador, marcando uma
nova era para os medicamentos voltados à perda de peso.
A
fabricante dinamarquesa do Wegovy, a Novo Nordisk, afirmou que o comprimido de
uso diário é uma opção "conveniente" em relação à versão injetável e
que deve proporcionar a mesma perda de peso obtida com a aplicação.
A
aprovação ocorre após o Wegovy já ter sido autorizado pela FDA especificamente
para o tratamento da obesidade. Outros medicamentos, como o Ozempic, que têm
efeitos semelhantes na perda de peso, foram aprovados inicialmente para o
tratamento do diabetes tipo 2.
Outras
empresas também disputam esse espaço: a farmacêutica americana Eli Lilly, por
exemplo, está no processo de desenvolver pílulas com mecanismos semelhantes.
No
Brasil, medicamentos usados para emagrecimento à base de agonistas do GLP-1 já
contam com registro da Anvisa e podem ser prescritos por médicos — mas em suas
versões injetáveis. Entre eles estão Wegovy e Ozempic, ambos com semaglutida,
além do Mounjaro, que contém tirzepatida.
Enquanto
Wegovy tem indicação específica para obesidade, Ozempic e Mounjaro foram
aprovados inicialmente para diabetes tipo 2 e são usados também com foco em
perda de peso sob prescrição médica.
Essas
medicações exigem receita com retenção e acompanhamento clínico, e a Anvisa
reforça que produtos sem registro sanitário não podem ser comercializados ou
importados legalmente no país.
A BBC
entrou em contato com a agência reguladora dos Estados Unidos (FDA) para
comentar a aprovação da nova versão do remédio, mas não recebeu resposta até o
momento.
A
reportagem também questionou a Anvisa sobre a existência de pedidos de registro
em análise no Brasil para pílulas orais voltadas ao tratamento da obesidade e
sobre eventuais prazos para uma decisão, mas aguardava retorno até a publicação
deste texto.
Segundo
a Novo Nordisk, a versão em comprimido do Wegovy apresentou uma perda média de
peso de 16,6% durante os testes clínicos da empresa, informou a farmacêutica
nesta segunda-feira.
Cerca
de um terço dos aproximadamente 1.300 participantes do mesmo estudo perdeu 20%
ou mais do peso corporal, acrescentou a companhia.
A
expectativa é que o comprimido seja lançado nos Estados Unidos no início de
janeiro de 2026.
"Os
pacientes terão um comprimido de uso diário, conveniente, que pode ajudá-los a
perder tanto peso quanto a injeção original do Wegovy", afirmou Mike
Doustdar, diretor-executivo da empresa.
A
versão em comprimido do Wegovy pode impulsionar as vendas da Novo Nordisk após
um ano desafiador, no qual as ações da empresa caíram depois que a companhia
alertou sobre seus lucros.
A
farmacêutica vem enfrentando forte concorrência no mercado de medicamentos para
emagrecimento de rivais como a Eli Lilly, fabricante do Mounjaro.
Após o
anúncio, as ações da Novo Nordisk subiram quase 10% no pregão estendido em Nova
York.
• Canetas emagrecedoras: o que acontece
quando você para de usar?
"É
como se um interruptor fosse ligado e você instantaneamente começasse a sentir
fome."
Tanya
Hall tentou parar de tomar medicamentos para emagrecer várias vezes. Mas toda
vez que ela interrompe as injeções, o desejo incontrolável por comida volta.
Alto e forte.
As
injeções para emagrecer, ou GLP-1, fizeram por muitos o que as dietas jamais
conseguiram. Aquele zumbido constante, que os incentivava a comer mesmo quando
estavam satisfeitos, foi desligado.
Os
medicamentos deram àqueles que nunca pensaram que poderiam emagrecer uma nova
forma corporal, uma nova perspectiva e, em muitos casos, uma vida completamente
diferente.
Mas
você não pode continuar tomando-os para sempre, pode? Ou pode? Bem, essa é uma
das perguntas que ainda precisam ser respondidas, e que ninguém sabe ao certo a
resposta.
Conhecidas
por marcas como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, esses medicamentos são novos, e os
potenciais efeitos colaterais do seu uso a longo prazo estão apenas começando a
aparecer.
As
canetas injetáveis imitam um hormônio liberado após a alimentação, chamado
GLP-1, que ajuda a controlar o apetite e prolonga a sensação de saciedade. O
Mounjaro (tizerpatida) ainda atua em outro hormônio, o GIP.
No
Brasil, uma caneta de 4 doses de Mounjaro de 2,5 mg, a dose mais baixa, está à
venda nas farmácias por cerca de R$ 1.400. Ou seja, continuar o tratamento por
um longo período não é barato. Então, o que acontece quando você tenta parar?
Duas
mulheres britânicas, com histórias muito diferentes, mas com o mesmo objetivo —
perder peso e manter a forma — contaram à BBC como tem sido a experiência
delas.
"Foi
como se algo se abrisse na minha mente e dissesse: 'Coma tudo, vá em frente,
você merece porque não come nada há muito tempo'."
Tanya,
gerente de vendas de uma grande empresa de fitness, começou a tomar Wegovy
(semaglutida, o mesmo princípio ativo do Ozempic) para provar um ponto. Ela
estava acima do peso, se sentia uma "impostora" e achava que sua
opinião não era valorizada em seu setor por causa do seu tamanho.
Será
que ela seria levada mais a sério se fosse mais magra?
No fim,
ela diz que suas suspeitas se provaram corretas. Depois que começou a usar as
injeções, as pessoas vinham até ela e a parabenizavam pela perda de peso. Ela
sentiu que era tratada com mais respeito.
No
entanto, durante os primeiros meses de tratamento, Tanya teve dificuldades para
dormir, sentia-se enjoada o tempo todo, tinha dores de cabeça e até começou a
perder cabelo. Os sintomas podem não ter sido causados diretamente pela droga,
mas eles estão entre os possíveis efeitos colaterais da rápida perda de peso.
"Meu
cabelo estava caindo em tufos", ela lembra. Mas em termos de peso, ela
estava obtendo os resultados que esperava. "Eu tinha perdido cerca de 22
quilos."
Agora,
mais de 18 meses depois, o que começou como uma espécie de experimento se
transformou em uma mudança completa de vida. Ela perdeu 38 quilos e tentou
parar de tomar Wegovy várias vezes.
Mas, em
cada tentativa, em poucos dias, ela diz que come tanto que fica
"completamente horrorizada".
Ela
deveria continuar com a medicação e conviver com todos os efeitos colaterais
que a acompanham, ou se aventurar no desconhecido?
A
fabricante do Wegovy, Novo Nordisk, afirma que as decisões sobre o tratamento
devem ser tomadas em conjunto com um profissional de saúde e que "os
efeitos colaterais devem ser levados em consideração como parte desse
processo".
Interromper
o uso de medicamentos para emagrecer pode ser como "pular de um
penhasco", observa o clínico geral especializado em estilo de vida,
Hussain Al-Zubaidi.
"Frequentemente,
vejo pacientes que interrompem o tratamento quando estão na dose máxima, porque
atingiram seu objetivo e simplesmente param."
De
acordo com o Dr. Al-Zubaidi, o efeito pode ser semelhante a ser atingido por
uma "avalanche ou um tsunami". A vontade de comer volta já no dia
seguinte.
Ele
afirma que as evidências até o momento sugerem que, entre um e três anos após a
interrupção da medicação, as pessoas recuperam uma "proporção
significativa do peso perdido".
"Algo
entre 60% e 80% do peso perdido retorna."
Ellen
Ogley está determinada a não deixar isso acontecer. Ela decidiu começar a tomar
medicamentos para emagrecer porque havia chegado a um "momento
crucial" em sua vida. Ela estava tão acima do peso que teve que assinar um
termo de responsabilidade dizendo que poderia não sobreviver a uma cirurgia
vital.
Começar
no Mounjaro foi sua "última chance de acertar", diz ela. "Eu
comia compulsivamente por motivos emocionais", conta.
"Se
eu estivesse feliz, comia compulsivamente. Se eu estivesse triste, comia
compulsivamente. Não importava, eu não tinha filtro nenhum."
Mas
quando ela começou a usar as injeções, "tudo isso desapareceu".
A vida
sem o food noise (barulho da comida) deu a Ellen o espaço para redesenhar sua
relação com a alimentação. Ela começou a pesquisar sobre nutrição e a criar uma
dieta saudável que a ajudasse a nutrir seu corpo.
Ela
tomou a medicação por 16 semanas antes de começar a reduzir a dose
gradualmente, diminuindo ao longo de seis semanas. Ela perdeu 22 kg.
À
medida que perdia mais peso, ela descobriu que conseguia se exercitar mais e,
quando se sentia "para baixo", em vez de "ir até o armário e me
entupir de comida", ela saía para correr.
Mas
quando Ellen parou de tomar Mounjaro, ela começou a ver seu peso aumentar, o
que, segundo ela, "me deixou um pouco confusa".
É por
isso que o apoio adequado é crucial, diz o Dr. Al-Zubaidi. O órgão regulador de
medicamentos do Reino Unido, NICE, recomendou que os pacientes recebam pelo
menos um ano de aconselhamento contínuo e planos de ação personalizados após
interromperem o tratamento, ajudando-os a fazer mudanças práticas em suas vidas
para que possam manter o peso e, o mais importante, permanecer saudáveis.
Mas
para quem paga pelos medicamentos de forma particular, como Tanya e Ellen, esse
tipo de apoio nem sempre é garantido.
Nos
últimos meses, o peso de Tanya permaneceu o mesmo e ela sente que a medicação
está tendo pouco efeito. Mas ela não vai parar de tomá-la, diz.
Ela
finalmente chegou a um peso com o qual se sente confortável e, cada vez que
tenta parar, o medo de recuperar o peso rapidamente se torna muito grande e ela
encontra uma razão para voltar a tomar a medicação.
"Durante
os primeiros 38 anos da minha vida, eu estive acima do peso - agora estou 38 kg
mais magra", diz Tanya.
"Portanto,
há uma parte de mim que sente que existe um vício que me faz continuar porque
me faz sentir do jeito que me sinto, me faz sentir no controle."
Ela
para por um segundo. Talvez seja o contrário, reflete, talvez seja a droga que
a controla.
"Tudo
se resume a ter uma estratégia de saída", explica o Dr. Al-Zubaidi.
"A questão é: quais são as experiências dessas pessoas depois que param de
usar a injeção?"
Ele
está preocupado que, sem apoio adicional para as pessoas que fazem a transição,
a relação pouco saudável da sociedade com a comida signifique que pouca coisa
mudará.
"O
ambiente em que as pessoas vivem precisa ser um que promova a saúde, não o
ganho de peso."
"A
obesidade não é uma deficiência de GLP-1", diz ele.
De
certa forma, muitas pessoas entram em uma espécie de roleta russa da perda de
peso quando se trata de interromper o uso de medicamentos para emagrecer.
Fatores
como estilo de vida, apoio, mentalidade e momento certo influenciam como o
futuro pós-GLP-1 se desenrola.
Tanya
continua tomando a medicação e está plenamente ciente dos prós e contras dessa
decisão.
Ellen
sente que esse capítulo agora está encerrado. Ela já perdeu mais de 51 kg.
"Quero
que as pessoas saibam que a vida após o Mounjaro também pode ser
sustentável", diz ela.
A Eli
Lilly, empresa que fabrica o Mounjaro, afirma que "a segurança do paciente
é a principal prioridade da Lilly" e que "se envolve ativamente"
no monitoramento, avaliação e divulgação de informações aos órgãos reguladores
e prescritores.
Fonte:
BBC News

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