Por
que mudança radical de Trump na política externa dos EUA preocupa Europa
A
estratégia de segurança nacional do governo do presidente americano, Donald
Trump, tem alarmado os aliados mais próximos dos Estados Unidos e representa um
afastamento dramático dos princípios fundamentais de décadas da política
externa americana.
O
documento de 33 páginas, divulgado pelo governo há alguns dias, apresenta o
mundo principalmente como um cenário econômico, destacando acordos bilaterais e
nacionalismo econômico em detrimento do multilateralismo e da promoção da
democracia.
A
estratégia reflete as "vertentes mais ideológicas" do governo Trump,
avaliou Tom Bateman, correspondente da BBC News no Departamento de Estado dos
EUA, no podcast The Global Story, do Serviço Mundial da BBC.
Essa
estratégia também tem implicações para a América Latina, tanto na forma como os
EUA se relacionam com os governos de direita, cada vez mais numerosos, até a
nova versão da Doutrina Monroe (em referência ao presidente americano James
Monroe, no século 19, que afirmava a primazia dos EUA no continente americano e
rejeitava a interferência europeia). Essa doutrina repaginada reafirmaria a
região como o "quintal" dos EUA.
Igualmente
impactante é o que o documento omite, sem praticamente crítica alguma a
adversários tradicionais como a Rússia e a China.
Em vez
disso, reserva a linguagem mais carregada para a Europa, o que gerou
preocupação nas capitais europeias.
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'Eliminação civilizacional'
Enquanto
as estratégias de segurança nacional anteriores tendiam a reafirmar os valores
e as prioridades compartilhados dos EUA com os países europeus, este documento
segue por um caminho diferente.
A
Europa será "irreconhecível em 20 anos ou menos", afirma o texto, em
razão da adesão do continente às instituições multilaterais e de suas políticas
migratórias, que teriam se tornado uma influência corruptora da
"identidade ocidental".
Em sua
seção dedicada ao tema, a estratégia declara de forma categórica que os Estados
europeus enfrentam o que chama de "eliminação civilizacional".
Líderes
europeus ficaram, ao menos em conversas privadas, "horrorizados" com
o documento, disse Bateman, do Serviço Mundial da BBC. "Eles não se
surpreendem com o fato de essa ser a posição ideológica de algumas partes do
governo, mas vê-la articulada em um documento político formal é bastante
preocupante para eles."
A
reação ao documento na Europa, de ambos os lados do espectro político, não
demorou.
O
jornal francês de esquerda Le Monde descreveu o rompimento como um
"divórcio", afirmando que ele marca uma ruptura histórica com o
período pós-Segunda Guerra Mundial (1939-45).
"O
divórcio está concluído, restando apenas a divisão de bens", escreveu o
jornal em seu artigo.
Ainda
mais revelador, em termos da imprensa francesa, disse Bateman, do Serviço
Mundial da BBC, é o comentário do jornal francês conservador Le Figaro sobre a
aparente contradição do documento ao sustentar, de um lado, o que chama de
"pretensão do não intervencionismo" e, de outro, defender
explicitamente o intervencionismo no caso dos países europeus.
A
estratégia afirma textualmente a intenção dos EUA de estimular a resiliência de
partidos de oposição nos países europeus. Isso implica apoio a partidos de
extrema-direita, como a Alternative für Deutschland (AfD, na sigla em alemão)
na Alemanha, o Partido Reformista no Reino Unido e o Reagrupamento Nacional, de
Marine Le Pen, na França, entre outros.
Trata-se
de um apoio explícito a movimentos políticos na Europa que defendem o
nacionalismo econômico e uma oposição rígida à migração. Eles são descritos
pelo documento como "partidos patrióticos".
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O paralelo com a América Latina
A
estratégia em relação à Europa seria uma repetição da forma como o governo
Trump atuou na América Latina, avaliou Bateman, do Serviço Mundial da BBC.
Na
Argentina, por exemplo, ele menciona o socorro econômico aprovado por Trump ao
governo de Javier Milei poucos dias antes de o partido do presidente argentino
enfrentar eleições legislativas que definiriam o futuro de seu projeto
político.
"Isso
foi interpretado pelos opositores (de Milei) como uma evidente interferência
dos EUA", afirmou Tom Bateman.
Esse
apoio se repetiu antes das recentes eleições em Honduras, quando Trump concedeu
indulto ao ex-presidente Juan Orlando Hernández, que cumpria pena de 45 anos
nos EUA por narcotráfico, ao mesmo tempo em que manifestou apoio ao candidato
de direita Nasry "Tito" Asfura.
O mesmo
ocorreu no Brasil, com os ataques de Trump aos tribunais do país que condenaram
o ex-presidente "trumpista" Jair Bolsonaro (PL) por sua tentativa de
golpe após a derrota nas eleições de 2022.
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O 'corolário Trump' à Doutrina Monroe
A nova
estratégia destaca o continente americano, referido como o "Hemisfério
Ocidental", como um dos principais focos da política externa dos Estados
Unidos.
O
governo quer "assegurar… que a região permaneça estável e suficientemente
bem governada para evitar e desencorajar a migração em massa para os EUA",
segundo o documento.
A
estratégia introduz a ideia de um "corolário Trump" à Doutrina
Monroe, ao posicionar a tática do governo como uma continuação da política do
presidente James Monroe (1817-1825), no século 19, que afirmava a primazia dos
EUA no continente americano e repelia a interferência de potências coloniais
europeias.
O
governo considera essa atenção renovada necessária para contrabalançar a
influência da China na América Latina, observa nosso correspondente, apesar de
o país não ser mencionado diretamente no documento.
Segundo
Trump, a China ganhou muita influência econômica na região, embora sua
insinuação de que Pequim estaria "operando" o Canal do Panamá não
seja literalmente verdadeira.
Os
recentes esforços diplomáticos, incluindo a visita do Secretário de Estado,
Marco Rubio, a países latino-americanos no início do ano, sinalizam a intenção
dos EUA de reafirmar seu domínio tanto econômico quanto estratégico na região.
Embora
a estratégia não se aprofunde na dimensão militar dessa política, a campanha de
bombardeios aéreos contra supostos narcotraficantes no Caribe e a presença de
múltiplos navios de guerra e de militares dos EUA diante da costa da Venezuela
reforçam a ameaça do uso da força militar.
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Um desgaste anunciado
A
deterioração das relações entre os EUA e a Europa vem sendo evidente há meses.
Um dos
primeiros sinais da postura do governo Trump em relação à Europa ocorreu em
janeiro, quando o vice-presidente dos EUA, JD Vance, fez um ataque mordaz às
democracias europeias durante a Conferência de Segurança de Munique (Alemanha),
repreendendo seus líderes por ignorarem as preocupações dos eleitores com
migração e liberdade de expressão.
Na
prática, porém, essa relação desconfortável tem se desenvolvido em outro
cenário: a guerra na Ucrânia.
O
documento sugere que a Europa não compreendeu as dinâmicas de poder em jogo e
que os EUA precisam investir energia diplomática para estabilizar a região.
A União
Europeia é acusada, segundo o texto, de dificultar os esforços dos EUA para
encerrar a guerra na Ucrânia, e os EUA deveriam "restabelecer uma
estabilidade estratégica em relação à Rússia", o que, por sua vez,
"estabilizaria as economias europeias".
A
mensagem central é que a Ucrânia deveria continuar sendo um Estado viável, mas
isso exigiria o reconhecimento da posição dominante da Rússia.
Trump
está "perdendo a paciência" com a Europa e com a Ucrânia, disse
Bateman, do Serviço Mundial da BBC.
"Está
claro que a pressão recai sobre os europeus para que aceitem uma posição que os
ucranianos interpretam basicamente como uma capitulação", comentou
Bateman.
A
tensão em torno da Ucrânia já se manifestou em momentos de grande repercussão,
incluindo a reunião no Salão Oval entre Trump e Vance com o presidente
ucraniano, Volodymyr Zelensky, em fevereiro, na qual o líder ucraniano foi
rotulado de "desrespeitoso" e "ingrato".
Os
líderes europeus agora enfrentam a realidade de que os EUA podem pressionar por
um desfecho muito mais favorável ao governo russo do que ao ucraniano.
A
Rússia recebeu positivamente a Estratégia de Segurança Nacional, descrevendo-a
como "amplamente consistente" com sua visão.
A nova
Estratégia de Segurança Nacional já reconfigurou os debates em Washington D.C.
(capital dos EUA) e em diversas capitais europeias.
As
implicações para a Ucrânia, para as relações entre EUA e Europa e para a ordem
global mais ampla ainda estão em evolução.
Mas o
documento deixa uma coisa clara inequivocamente: o governo Trump pretende
redefinir as prioridades da política externa dos EUA e espera que seus aliados
se adaptem a essa nova realidade.
¨
Por que Donald Trump quer a Groenlândia? Por Paulo
Ghiraldelli
Nem
imperialismo ou neoimperialismo explicam o interesse de Donald Trump pela
Groenlândia. Os sabichões vão dizer que se trata de reativação da Doutrina
Monroe? Talvez, pois é possível que a sabedoria desse pessoal os levem a
localizar a Groenlândia em alguma parte da América Central. Pior ainda quando
inventarem um título como “novo ciclo do colonialismo americano”. Como já
disse, essa prática de fazer a história ficar se repetindo é um modo de não
querer pensar.
Os
Estados Unidos não possuem qualquer interesse na Groenlândia. Donald Trump sim,
ele tem interesse.
Novamente,
é uma questão pessoal. E com Donald Trump no governo, tudo sempre será algo do
âmbito pessoal. O mercado financeiro criou uma burguesia sem burgo, uma elite
que se desinteressou dos Estados Unidos como nação, e relegou a política
nacional a pessoas menores. Donald Trump é fruto disso.
Ele tem
três anos pela frente como governante. Para se manter no poder e, depois, como
ex-presidente, não ir para a cadeia, ele precisa oferecer algo que alimente os
seus aliados de última hora, as companhias mais ricas do país. Elas não são
queridas dos eleitores de Donald Trump. São as companhias de tecnologia de
ponta, as Big Techs e correlatos, e que tradicionalmente giravam em torno do
Partido Democrata, não do Republicano.
São as
companhias que trabalham com o desenvolvimento de Inteligência Artificial,
computação e aparato militar automatizado. Elas desenvolvem projetos e
materiais que dependem de muita coisa que existe no subsolo da Groenlândia. Até
pouco tempo, arrancar algo desse subsolo era um empreendimento caro demais,
inviável. Agora, o serviço do capitalismo contra o planeta tem ajudado.
O
aquecimento global está dando passos firmes, e a camada de gelo da Groenlândia
vem diminuindo de espessura. Pegar material do subsolo, como os “terras raras”,
tornou-se um empreendimento mais viável. Donald Trump quer poder oferecer isso
aos seus novos amigos das Big Techs. É uma espécie de mimo.
Donald
Trump poderia conseguir isso sem anexar a Groenlândia. Todos os países da Otan
concordariam. Mas então tudo resultaria de um trabalho conjunto. Ora, Donald
Trump não poderia oferecer o resultado para seus novos amigos do Vale do
Silício como sendo um presente pessoal. Além do mais, para que negociar se é
possível aparecer no cenário internacional como macho, que arranca as coisas
dos outros e as entrega para amigos?
Foi
isso que ele sempre fez quando garoto e jovem, pagava para aparecer como macho
e humilhador de outros. Creio que vocês lembram dele nos programas de TV,
fazendo das demissões um entretenimento. Não? Ele gosta de humilhar uns e, ao
mesmo tempo, bajular poderosos. Adora dar presentes a amigos, exatamente para
lhes mostrar seu poder. Aliás, é isso que ele está fazendo com Gaza.
O
americano médio não melhorou sua vida durante o primeiro ano do governo de
Donald Trump. Nem as empresas voltaram para os Estados Unidos por conta da
política de tarifas. Nem o tal do narcotráfico está sofrendo derrotas pelo fato
de Donald Trump perseguir cidadãos americanos com a sua “gestapo”, a ICE, e
nada melhorou com o sequestro e prisão de Nicolás Maduro, o falso chefe do
tráfico internacional. Donald Trump amarga a rejeição de mais de 56% do
eleitorado! O melhor modo de se garantir no poder, portanto, é bajulando os
acionistas das Big Techs e correlatos.
Não se
trata de geopolítica. Não é o caso de conseguir ter material que a China tem.
As Big Techs podem ter o material chinês. Empresas transacionais sabem negociar
com Pequim, além disso, o Brasil está à mercê dessas empresas, sem oferecer
resistência, e nosso país tem tudo aquilo que as Big Techs querem. Donald Trump
não deseja que outros sirvam as Big Techs, ele quer ser ele próprio o
presenteador, e a partir de um ato “heroico”.
Disso
depende seu futuro não só como governante, mas também como pessoa que irá
terminar o mandato com mais de oitenta anos, e sem a saúde do Lula. Um embate
na justiça, sendo que ele já é um réu condenado, pode lhe dar uma aposentadoria
conturbada. Ele sabe disso. Então, é bom presentear os CEOS jovens do Vale do
Silício agora, justamente quando estes estão vendo que Donald Trump quer
facilitar a vida deles perante as leis americanas, diferente do que fez Joe
Biden.
No
Brasil, as Big Techs estão já planejando enormes Data Centers. Aqui nunca
haverá problema para as empresas – é o que consta no horizonte. Portanto, não
há como oferecer o Brasil embrulhado prá presente. É algo já dado. Agora,
oferecer a Groenlândia, com projetos estatais de perfuração do subsolo, sem que
as Big Techs tenham que gastar, aí sim, Donald Trump sabe que isso é agradável.
Além do
mais, isso amplia a capacidade dos acordos entre o Pentágono e as próprias Big
Techs, o que é uma fonte de renda para todo tipo de acionista grande, além de
movimentar o mercado financeiro de maneira a dar continuidade ao
neoliberalismo, ainda que se fale aqui e ali de tarifas. Ora, a política de
tarifas de Donald Trump se mostrou nada alheia ao neoliberalismo. Afinal, era
só balão de ensaio para repor negociações e ao mesmo tempo fazer de Donald
Trump o homem que pode estar na mídia mais que qualquer outro político.
Quem
observar a amizade de Donald Trump com Jeffrey Epstein e puder ver a biografia
dele em sua infância, saberá que ele é um fruto podre, nojento, e que jamais
chegaria à presidência dos Estados Unidos se o país tivesse qualquer projeto
unificado por parte de suas elites – o “combate ao comunismo”, a “corrida
espacial”, a “defesa da liberdade e dos direitos humanos no mundo”. Esses
projetos se foram. Faziam parte do imperialismo, que está morto e enterrado.
Há
vários Donald Trumps mundo afora, que ocuparam as presidências de países
importantes. Não os notamos, dado que cada um de nós tende a observar a
política interna e, quando olhamos a política externa, vemos apenas a potência
que emite o dinheiro do mundo, o dólar. Mas, mesmo procurando pouco, podemos
encontrar outras figuras menores. Tivemos Jair Bolsonaro aqui.
Donald
Trump é um Jair Bolsonaro com dinheiro e, pior, com o Pentágono e com um
poderio militar que continua sendo o maior do mundo. Os Estados Unidos não
estão cumprindo a sina de um país imperialista decadente. Quem diz isso estuda
pouco. Há muitos anos que os Estados Unidos não possuem um projeto
imperialista. Talvez tudo tenha terminado de vez na primeira guerra do Golfo,
comandada pelo George Bush pai.
De lá
para cá, a financeirização e sua simbiose com a internet deu o tom para o
capitalismo e tirou as burguesias nacionais dos pés das terras de seus países.
A disputa pelo estado, em termos de levá-lo adiante segundo um projeto de
classe, deixou de ser algo primordial por parte das elites. Descuidaram. Veio a
política em que há Donald Trumps e Bolsonaros.
Fonte:
BBC News/A Terra é Redonda

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