sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Por que mudança radical de Trump na política externa dos EUA preocupa Europa

A estratégia de segurança nacional do governo do presidente americano, Donald Trump, tem alarmado os aliados mais próximos dos Estados Unidos e representa um afastamento dramático dos princípios fundamentais de décadas da política externa americana.

O documento de 33 páginas, divulgado pelo governo há alguns dias, apresenta o mundo principalmente como um cenário econômico, destacando acordos bilaterais e nacionalismo econômico em detrimento do multilateralismo e da promoção da democracia.

A estratégia reflete as "vertentes mais ideológicas" do governo Trump, avaliou Tom Bateman, correspondente da BBC News no Departamento de Estado dos EUA, no podcast The Global Story, do Serviço Mundial da BBC.

Essa estratégia também tem implicações para a América Latina, tanto na forma como os EUA se relacionam com os governos de direita, cada vez mais numerosos, até a nova versão da Doutrina Monroe (em referência ao presidente americano James Monroe, no século 19, que afirmava a primazia dos EUA no continente americano e rejeitava a interferência europeia). Essa doutrina repaginada reafirmaria a região como o "quintal" dos EUA.

Igualmente impactante é o que o documento omite, sem praticamente crítica alguma a adversários tradicionais como a Rússia e a China.

Em vez disso, reserva a linguagem mais carregada para a Europa, o que gerou preocupação nas capitais europeias.

<><> 'Eliminação civilizacional'

Enquanto as estratégias de segurança nacional anteriores tendiam a reafirmar os valores e as prioridades compartilhados dos EUA com os países europeus, este documento segue por um caminho diferente.

A Europa será "irreconhecível em 20 anos ou menos", afirma o texto, em razão da adesão do continente às instituições multilaterais e de suas políticas migratórias, que teriam se tornado uma influência corruptora da "identidade ocidental".

Em sua seção dedicada ao tema, a estratégia declara de forma categórica que os Estados europeus enfrentam o que chama de "eliminação civilizacional".

Líderes europeus ficaram, ao menos em conversas privadas, "horrorizados" com o documento, disse Bateman, do Serviço Mundial da BBC. "Eles não se surpreendem com o fato de essa ser a posição ideológica de algumas partes do governo, mas vê-la articulada em um documento político formal é bastante preocupante para eles."

A reação ao documento na Europa, de ambos os lados do espectro político, não demorou.

O jornal francês de esquerda Le Monde descreveu o rompimento como um "divórcio", afirmando que ele marca uma ruptura histórica com o período pós-Segunda Guerra Mundial (1939-45).

"O divórcio está concluído, restando apenas a divisão de bens", escreveu o jornal em seu artigo.

Ainda mais revelador, em termos da imprensa francesa, disse Bateman, do Serviço Mundial da BBC, é o comentário do jornal francês conservador Le Figaro sobre a aparente contradição do documento ao sustentar, de um lado, o que chama de "pretensão do não intervencionismo" e, de outro, defender explicitamente o intervencionismo no caso dos países europeus.

A estratégia afirma textualmente a intenção dos EUA de estimular a resiliência de partidos de oposição nos países europeus. Isso implica apoio a partidos de extrema-direita, como a Alternative für Deutschland (AfD, na sigla em alemão) na Alemanha, o Partido Reformista no Reino Unido e o Reagrupamento Nacional, de Marine Le Pen, na França, entre outros.

Trata-se de um apoio explícito a movimentos políticos na Europa que defendem o nacionalismo econômico e uma oposição rígida à migração. Eles são descritos pelo documento como "partidos patrióticos".

<><> O paralelo com a América Latina

A estratégia em relação à Europa seria uma repetição da forma como o governo Trump atuou na América Latina, avaliou Bateman, do Serviço Mundial da BBC.

Na Argentina, por exemplo, ele menciona o socorro econômico aprovado por Trump ao governo de Javier Milei poucos dias antes de o partido do presidente argentino enfrentar eleições legislativas que definiriam o futuro de seu projeto político.

"Isso foi interpretado pelos opositores (de Milei) como uma evidente interferência dos EUA", afirmou Tom Bateman.

Esse apoio se repetiu antes das recentes eleições em Honduras, quando Trump concedeu indulto ao ex-presidente Juan Orlando Hernández, que cumpria pena de 45 anos nos EUA por narcotráfico, ao mesmo tempo em que manifestou apoio ao candidato de direita Nasry "Tito" Asfura.

O mesmo ocorreu no Brasil, com os ataques de Trump aos tribunais do país que condenaram o ex-presidente "trumpista" Jair Bolsonaro (PL) por sua tentativa de golpe após a derrota nas eleições de 2022.

<><> O 'corolário Trump' à Doutrina Monroe

A nova estratégia destaca o continente americano, referido como o "Hemisfério Ocidental", como um dos principais focos da política externa dos Estados Unidos.

O governo quer "assegurar… que a região permaneça estável e suficientemente bem governada para evitar e desencorajar a migração em massa para os EUA", segundo o documento.

A estratégia introduz a ideia de um "corolário Trump" à Doutrina Monroe, ao posicionar a tática do governo como uma continuação da política do presidente James Monroe (1817-1825), no século 19, que afirmava a primazia dos EUA no continente americano e repelia a interferência de potências coloniais europeias.

O governo considera essa atenção renovada necessária para contrabalançar a influência da China na América Latina, observa nosso correspondente, apesar de o país não ser mencionado diretamente no documento.

Segundo Trump, a China ganhou muita influência econômica na região, embora sua insinuação de que Pequim estaria "operando" o Canal do Panamá não seja literalmente verdadeira.

Os recentes esforços diplomáticos, incluindo a visita do Secretário de Estado, Marco Rubio, a países latino-americanos no início do ano, sinalizam a intenção dos EUA de reafirmar seu domínio tanto econômico quanto estratégico na região.

Embora a estratégia não se aprofunde na dimensão militar dessa política, a campanha de bombardeios aéreos contra supostos narcotraficantes no Caribe e a presença de múltiplos navios de guerra e de militares dos EUA diante da costa da Venezuela reforçam a ameaça do uso da força militar.

<><> Um desgaste anunciado

A deterioração das relações entre os EUA e a Europa vem sendo evidente há meses.

Um dos primeiros sinais da postura do governo Trump em relação à Europa ocorreu em janeiro, quando o vice-presidente dos EUA, JD Vance, fez um ataque mordaz às democracias europeias durante a Conferência de Segurança de Munique (Alemanha), repreendendo seus líderes por ignorarem as preocupações dos eleitores com migração e liberdade de expressão.

Na prática, porém, essa relação desconfortável tem se desenvolvido em outro cenário: a guerra na Ucrânia.

O documento sugere que a Europa não compreendeu as dinâmicas de poder em jogo e que os EUA precisam investir energia diplomática para estabilizar a região.

A União Europeia é acusada, segundo o texto, de dificultar os esforços dos EUA para encerrar a guerra na Ucrânia, e os EUA deveriam "restabelecer uma estabilidade estratégica em relação à Rússia", o que, por sua vez, "estabilizaria as economias europeias".

A mensagem central é que a Ucrânia deveria continuar sendo um Estado viável, mas isso exigiria o reconhecimento da posição dominante da Rússia.

Trump está "perdendo a paciência" com a Europa e com a Ucrânia, disse Bateman, do Serviço Mundial da BBC.

"Está claro que a pressão recai sobre os europeus para que aceitem uma posição que os ucranianos interpretam basicamente como uma capitulação", comentou Bateman.

A tensão em torno da Ucrânia já se manifestou em momentos de grande repercussão, incluindo a reunião no Salão Oval entre Trump e Vance com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, em fevereiro, na qual o líder ucraniano foi rotulado de "desrespeitoso" e "ingrato".

Os líderes europeus agora enfrentam a realidade de que os EUA podem pressionar por um desfecho muito mais favorável ao governo russo do que ao ucraniano.

A Rússia recebeu positivamente a Estratégia de Segurança Nacional, descrevendo-a como "amplamente consistente" com sua visão.

A nova Estratégia de Segurança Nacional já reconfigurou os debates em Washington D.C. (capital dos EUA) e em diversas capitais europeias.

As implicações para a Ucrânia, para as relações entre EUA e Europa e para a ordem global mais ampla ainda estão em evolução.

Mas o documento deixa uma coisa clara inequivocamente: o governo Trump pretende redefinir as prioridades da política externa dos EUA e espera que seus aliados se adaptem a essa nova realidade.

¨      Por que Donald Trump quer a Groenlândia? Por Paulo Ghiraldelli

Nem imperialismo ou neoimperialismo explicam o interesse de Donald Trump pela Groenlândia. Os sabichões vão dizer que se trata de reativação da Doutrina Monroe? Talvez, pois é possível que a sabedoria desse pessoal os levem a localizar a Groenlândia em alguma parte da América Central. Pior ainda quando inventarem um título como “novo ciclo do colonialismo americano”. Como já disse, essa prática de fazer a história ficar se repetindo é um modo de não querer pensar.

Os Estados Unidos não possuem qualquer interesse na Groenlândia. Donald Trump sim, ele tem interesse.

Novamente, é uma questão pessoal. E com Donald Trump no governo, tudo sempre será algo do âmbito pessoal. O mercado financeiro criou uma burguesia sem burgo, uma elite que se desinteressou dos Estados Unidos como nação, e relegou a política nacional a pessoas menores. Donald Trump é fruto disso.

Ele tem três anos pela frente como governante. Para se manter no poder e, depois, como ex-presidente, não ir para a cadeia, ele precisa oferecer algo que alimente os seus aliados de última hora, as companhias mais ricas do país. Elas não são queridas dos eleitores de Donald Trump. São as companhias de tecnologia de ponta, as Big Techs e correlatos, e que tradicionalmente giravam em torno do Partido Democrata, não do Republicano.

São as companhias que trabalham com o desenvolvimento de Inteligência Artificial, computação e aparato militar automatizado. Elas desenvolvem projetos e materiais que dependem de muita coisa que existe no subsolo da Groenlândia. Até pouco tempo, arrancar algo desse subsolo era um empreendimento caro demais, inviável. Agora, o serviço do capitalismo contra o planeta tem ajudado.

O aquecimento global está dando passos firmes, e a camada de gelo da Groenlândia vem diminuindo de espessura. Pegar material do subsolo, como os “terras raras”, tornou-se um empreendimento mais viável. Donald Trump quer poder oferecer isso aos seus novos amigos das Big Techs. É uma espécie de mimo.

Donald Trump poderia conseguir isso sem anexar a Groenlândia. Todos os países da Otan concordariam. Mas então tudo resultaria de um trabalho conjunto. Ora, Donald Trump não poderia oferecer o resultado para seus novos amigos do Vale do Silício como sendo um presente pessoal. Além do mais, para que negociar se é possível aparecer no cenário internacional como macho, que arranca as coisas dos outros e as entrega para amigos?

Foi isso que ele sempre fez quando garoto e jovem, pagava para aparecer como macho e humilhador de outros. Creio que vocês lembram dele nos programas de TV, fazendo das demissões um entretenimento. Não? Ele gosta de humilhar uns e, ao mesmo tempo, bajular poderosos. Adora dar presentes a amigos, exatamente para lhes mostrar seu poder. Aliás, é isso que ele está fazendo com Gaza.

O americano médio não melhorou sua vida durante o primeiro ano do governo de Donald Trump. Nem as empresas voltaram para os Estados Unidos por conta da política de tarifas. Nem o tal do narcotráfico está sofrendo derrotas pelo fato de Donald Trump perseguir cidadãos americanos com a sua “gestapo”, a ICE, e nada melhorou com o sequestro e prisão de Nicolás Maduro, o falso chefe do tráfico internacional. Donald Trump amarga a rejeição de mais de 56% do eleitorado! O melhor modo de se garantir no poder, portanto, é bajulando os acionistas das Big Techs e correlatos.

Não se trata de geopolítica. Não é o caso de conseguir ter material que a China tem. As Big Techs podem ter o material chinês. Empresas transacionais sabem negociar com Pequim, além disso, o Brasil está à mercê dessas empresas, sem oferecer resistência, e nosso país tem tudo aquilo que as Big Techs querem. Donald Trump não deseja que outros sirvam as Big Techs, ele quer ser ele próprio o presenteador, e a partir de um ato “heroico”.

Disso depende seu futuro não só como governante, mas também como pessoa que irá terminar o mandato com mais de oitenta anos, e sem a saúde do Lula. Um embate na justiça, sendo que ele já é um réu condenado, pode lhe dar uma aposentadoria conturbada. Ele sabe disso. Então, é bom presentear os CEOS jovens do Vale do Silício agora, justamente quando estes estão vendo que Donald Trump quer facilitar a vida deles perante as leis americanas, diferente do que fez Joe Biden.

No Brasil, as Big Techs estão já planejando enormes Data Centers. Aqui nunca haverá problema para as empresas – é o que consta no horizonte. Portanto, não há como oferecer o Brasil embrulhado prá presente. É algo já dado. Agora, oferecer a Groenlândia, com projetos estatais de perfuração do subsolo, sem que as Big Techs tenham que gastar, aí sim, Donald Trump sabe que isso é agradável.

Além do mais, isso amplia a capacidade dos acordos entre o Pentágono e as próprias Big Techs, o que é uma fonte de renda para todo tipo de acionista grande, além de movimentar o mercado financeiro de maneira a dar continuidade ao neoliberalismo, ainda que se fale aqui e ali de tarifas. Ora, a política de tarifas de Donald Trump se mostrou nada alheia ao neoliberalismo. Afinal, era só balão de ensaio para repor negociações e ao mesmo tempo fazer de Donald Trump o homem que pode estar na mídia mais que qualquer outro político.

Quem observar a amizade de Donald Trump com Jeffrey Epstein e puder ver a biografia dele em sua infância, saberá que ele é um fruto podre, nojento, e que jamais chegaria à presidência dos Estados Unidos se o país tivesse qualquer projeto unificado por parte de suas elites – o “combate ao comunismo”, a “corrida espacial”, a “defesa da liberdade e dos direitos humanos no mundo”. Esses projetos se foram. Faziam parte do imperialismo, que está morto e enterrado.

Há vários Donald Trumps mundo afora, que ocuparam as presidências de países importantes. Não os notamos, dado que cada um de nós tende a observar a política interna e, quando olhamos a política externa, vemos apenas a potência que emite o dinheiro do mundo, o dólar. Mas, mesmo procurando pouco, podemos encontrar outras figuras menores. Tivemos Jair Bolsonaro aqui.

Donald Trump é um Jair Bolsonaro com dinheiro e, pior, com o Pentágono e com um poderio militar que continua sendo o maior do mundo. Os Estados Unidos não estão cumprindo a sina de um país imperialista decadente. Quem diz isso estuda pouco. Há muitos anos que os Estados Unidos não possuem um projeto imperialista. Talvez tudo tenha terminado de vez na primeira guerra do Golfo, comandada pelo George Bush pai.

De lá para cá, a financeirização e sua simbiose com a internet deu o tom para o capitalismo e tirou as burguesias nacionais dos pés das terras de seus países. A disputa pelo estado, em termos de levá-lo adiante segundo um projeto de classe, deixou de ser algo primordial por parte das elites. Descuidaram. Veio a política em que há Donald Trumps e Bolsonaros.

 

Fonte: BBC News/A Terra é Redonda

 

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