Entre
sombras e permanências: quando a pobreza cai, mas permanece
Quase
25 anos após o início do século XXI, os indicadores sociais sugerem avanços
importantes: a pobreza recua em certos períodos, o acesso à educação se amplia
e políticas públicas produzem efeitos mensuráveis. Ainda assim, algo resiste.
Quando o foco se desloca para as desigualdades raciais e de gênero, as
hierarquias sociais revelam uma notável estabilidade. Os números se movem, mas
as estruturas permanecem.
Graças
a Amartya Sen, economista indiano, ganhador do prêmio Nobel de economia em
1998, é reconhecido que a pobreza é um fenômeno multidimensional: o problema
não está apenas no valor do dinheiro, mas no que ele permite fazer na vida
real. Sen afirma que não basta olhar para a renda; é preciso observar o que a
pessoa consegue, de fato, fazer com ela, o que ele chama de “funcionamentos”,
como se alimentar bem, ter saúde e morar com dignidade.
No
entanto, em sociedades atravessadas por desigualdades históricas, a pobreza não
se manifesta como falha de capacidades individuais, mas como resultado de
estruturas de dominação que limitam a conversão de recursos em liberdade real.
Tratar a pobreza apenas como insuficiência de meios corre o risco de
naturalizar políticas paliativas que não interrogam as bases excludentes da
sociedade.
Ao
longo das últimas três décadas, o Brasil registrou movimentos significativos de
redução da pobreza, alcançando, em 2024, os níveis mais baixos desde meados da
década de 1990. A extrema pobreza diminuiu de patamares próximos a 25% para
níveis inferiores a 5%, impulsionada pelo aquecimento do mercado de trabalho e
pela expansão de políticas como o Bolsa Família.
Contudo,
emerge uma questão central: quem permanece pobre quando a pobreza muda? A
desagregação dos indicadores por sexo e pertencimento étnico-racial revela que
homens e mulheres afrodescendentes apresentam, de forma sistemática, taxas de
pobreza superiores, sendo as mulheres negras as últimas a se beneficiarem dos
ciclos de recuperação.
No
Brasil, pessoas pretas e pardas representam 57% da população, mas concentram
mais de 70% dos pobres e extremamente pobres. Em 2024, enquanto pouco mais de
2% da população branca vivia em extrema pobreza, esse percentual era de
aproximadamente 5% entre pessoas pardas, evidenciando que a pobreza está
associada a hierarquias que limitam o acesso a oportunidades.
Essas
desigualdades de rendimento permanecem marcantes: em 2024, trabalhadores
brancos apresentavam rendimentos por hora superiores aos de pretos ou pardos em
todos os níveis de instrução. A maior disparidade ocorre no ensino superior
completo: enquanto brancos recebiam, em média, R$ 43,20 por hora, pessoas
pretas ocupadas recebiam cerca de R$ 29,90. Entre 2012 e 2024, a renda
domiciliar per capita da população negra manteve-se em torno da metade daquela
observada para a população branca. Embora a renda de todos os grupos tenha
crescido, o avanço não foi suficiente para alterar a posição relativa de cada
grupo; em termos analíticos, todos melhoraram, mas a distância entre eles
permanece.
O
sistema tributário brasileiro é caracterizado pela forte incidência de impostos
indiretos sobre o consumo, que recaem proporcionalmente mais sobre os grupos de
menor renda. Como a população negra está sobrerepresentada nos estratos mais
baixos da distribuição de renda, esse modelo fiscal produz um efeito regressivo
racializado. No interior desse grupo, as mulheres negras são particularmente
afetadas, pois concentram rendimentos mais baixos, inserção ocupacional
precária e responsabilidade quase exclusiva pela reprodução material dos
domicílios, o que faz com que uma parcela maior de sua renda seja absorvida por
tributos embutidos em bens essenciais.
Apesar
dos avanços observados nas últimas décadas – como a ampliação do acesso à
educação superior, a consolidação de políticas de ação afirmativa, o aumento da
presença de pessoas negras nas universidades públicas e no serviço público, bem
como melhorias graduais nos indicadores de escolarização e renda – persistem
desigualdades raciais profundas. Essas desigualdades se expressam, sobretudo,
na pós-graduação, na produção científica, nos cargos de prestígio e no mercado
de trabalho qualificado. O racismo sistêmico restringe a conversão dos ganhos
educacionais em mobilidade social duradoura, evidenciando que o acesso, por si
só, não garante a conversão de recursos em capacidades efetivas.
Para
compreender essa persistência, o conceito de lócus fraturado da pobreza
evidencia que o empobrecimento é uma experiência social situada que escapa
unicamente à lógica da mensuração monetária. Problematizar a pobreza a partir
desse lugar significa reconhecer que ela é atravessada simultaneamente pela
privação material e pela produção de práticas de vida que os números
convencionais não conseguem capturar.
A
leitura da pobreza oscila, assim, entre a intuição do filósofo Heráclito de
Éfeso (tudo muda: as taxas caem) e a de seu opositor Parmênides de Eléia (nada
essencial se transforma: as hierarquias ficam). Como na Alegoria da Caverna de
Platão, presente no livro VII do diálogo A República, as estatísticas registram
o movimento das sombras, mas as formas que geram essas imagens persistem. O
desafio é transcender a gestão técnica da escassez para confrontar as
estruturas de dominação e as hierarquias que sustentam a economia política das
desigualdades.
Fonte:
Por Yoná dos Santos, no Le Monde

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