Pankaj
Mishra: Totalitarismo liberal
“O
Ocidente como o conhecíamos”, afirmou Ursula von der Leyen no início de 2025,
“já não existe”. Não é preciso se deter sobre o sentido que a presidente da
Comissão Europeia quis dar ao termo “Ocidente” para perceber que testemunhamos
o colapso extraordinário de uma ideia outrora potente. Essa ideia foi concebida
durante a Guerra Fria, em grande medida por políticos e comentaristas
americanos, sendo fundamentada nos valores da democracia, do estado de direito
e dos direitos humanos.
Nessa
narrativa, não apenas os Estados Unidos ajudaram a instalar constituições
antifascistas e antistalinistas na Alemanha, na Itália e no Japão; o seu
complexo intelectual-industrial também produziu uma visão otimista do mundo, em
que o arco moral do universo, pairando acima dos desvios dos totalitarismos
comunista e nazista, voltava-se para uma sociedade livre ao estilo americano.
Nesta
história moral, Auschwitz e o gulag soviético (mas com a ausência notável de
Hiroshima) representam os extremos do mal moderno que deveriam ser prevenidos
por meio da educação dos cidadãos a respeito dos horrores infligidos pela
direita e pela esquerda radicais, bem como por meio de instituições
internacionais encarregadas de defender a promessa do “nunca mais”. Porém, o
recente ressurgimento da barbárie no coração do Ocidente moderno expõe muitas
falhas nessa narrativa sobre o mundo livre.
“A
queda da civilização neste abismo de sangue e escuridão”, escreveu Henry James
enquanto os europeus marchavam entusiasticamente para o massacre mútuo em 1914,
“é algo que desmascara toda a longa era durante a qual supusemos que o mundo
estava, com quaisquer abrandamentos, gradualmente melhorando”.
Como
Sigmund Freud refletiu em 1916, uma guerra fratricida aplaudida por tantos
europeus ilustres havia “destruído o orgulho que temos pelas conquistas de
nossa civilização, o nosso respeito por tantos pensadores e artistas, as nossas
esperanças de finalmente superar as diferenças entre povos e raças… e nos
mostrou a fragilidade de grande parte do que considerávamos estável”.
Hoje,
mais uma vez, uma demonstração espetacular e premeditada de crueldade e ódio
organizados danificou nosso senso de identidade, que era sustentado, pelo menos
em parte, pela crença de que as sociedades se tornariam menos preconceituosas
com o passar do tempo. Agora, muitas ideias, indivíduos e instituições que
pareciam promover o progresso moral perderam seus halos.
Será
difícil ler Simon Schama novamente sem lembrar que este renomado intérprete da
história judaica repercutiu na rede X uma teoria em que os palestinos conspiram
para dominar o mundo, mesmo quando são massacrados diariamente; ou, depois,
como ele reproduziu a alegação israelense que nega a fome em Gaza.
As
lições de uma história de perseguição e vitimização eternas também não parecem
mais tão claras como antes, agora que o Estado construído como um baluarte
contra o antissemitismo genocida perpetrou ele próprio um genocídio, com a
ajuda de nacionalistas cristãos antissemitas nos Estados Unidos.
O
Holocausto foi planejado e fomentado em segredo por um regime despótico. A
frieza israelense diante do primeiro extermínio em massa televisionado e
assistido pela inteligência artificial – e o apoio remoto a esse extermínio
por, entre outros, um senador democrata de shorts e moletom – indica de forma
estupefante a potência, a ubiquidade e a banalidade do mal moderno, encorajado
por uma ressignificação da memória do Holocausto que justifica um
etnonacionalismo assassino em vez de alertar contra ele.
Muitas
certezas que definiram a identidade individual e coletiva na “ordem
internacional baseada em regras” do pós-guerra também começaram a se corroer.
Isso inclui até o discurso dos direitos humanos, que foi invocado com grande
convicção primeiramente contra o comunismo e, depois, contra países muçulmanos,
sendo consagrado por inúmeros relatórios americanos e empunhado para justificar
sanções econômicas.
Esse
discurso agora parece ter sido sempre altamente seletivo, definindo os direitos
humanos como civis e políticos, em vez de econômicos e sociais. Aqueles que
armaram os direitos humanos para coagir regimes antiamericanos no exterior
parecem, no entanto, ter ignorado o abismo cada vez maior entre ricos e pobres
em seu próprio país, juntamente com a ausência de direitos básicos à segurança
social e saúde, e a manipulação do processo democrático pelo dinheiro
corporativo.
E, no
entanto, nenhum pilar da ordem intelectual e moral ocidental do pós-guerra
parece tão frágil quanto o antitotalitarismo – a identidade liberal definida
negativamente e que ajudou a exaltar as democracias americana e israelense
sobre seus supostos inimigos enquanto, está claro agora, ocultava seus defeitos
históricos e estruturais. Tanto quanto aqueles que exploraram a memória do
Holocausto e o discurso dos direitos humanos para ganho potencial, os
antitotalitários são culpados pelo colapso quase total das normas políticas e
morais hoje.
Após a
exposição dos crimes de Hitler e Stalin, muitos pensadores ocidentais
concluíram que um tipo de pensamento inteiramente novo seria necessário para
compreender sua radical novidade. A fé iluminista na razão, na ciência e na
liberdade de expressão, já enfraquecida pela Primeira Guerra Mundial, havia
sido devastada por uma burocracia inédita da morte em massa, sustentada pela
tecnologia, pelo engano sistemático, pela credulidade generalizada e pela
aquiescência entusiástica.
Albert
Camus estava entre aqueles impelidos a compreender a “culpabilidade” de uma
“época que, no espaço de cinquenta anos, desenraiza, escraviza ou mata setenta
milhões de seres humanos”. Ele se perguntou por que o julgamento humano –
inabalado pelos “crimes descarados” no passado, quando “o tirano arrasava
cidades para sua própria glória” – havia também se tornado “paralisado” diante
das atrocidades muito mais graves do século XX.
Seria
porque muitos dos perpetradores eram quase-filósofos que alegavam estar
realizando suas próprias visões exaltadas da vida boa e da sociedade justa,
usando-as para defender seus crimes? Equipados com explicações perfeitamente
racionais para o assassinato em massa, esses ideólogos modernos foram, escreveu
Albert Camus, os primeiros a colocar “campos de escravos sob a bandeira da
liberdade” e a cometer “massacres justificados pela filantropia”.
Hannah
Arendt esteve igualmente atenta às inigualáveis perversões da linguagem e da
lógica que acompanharam a “produção em massa de cadáveres” em meados do século
XX. Ao traçar sistematicamente as origens do totalitarismo, ela examinou como
uma ideologia de engrandecimento infinito emergiu na Europa do século XIX e
seduziu suas melhores mentes, as quais ela chamou de “tolos trágicos e
quixotescos do imperialismo”.
É claro
que as vítimas do imperialismo na Ásia, África e América Latina há muito
possuíam uma intuição de oprimidos sobre como homens brancos poderosos
ocultavam seus piores excessos (genocídio, escravidão, despotismo),
apresentando-se como filantropos na vanguarda da marcha da humanidade em
direção a um futuro glorioso.
Tampouco
lhes passou despercebido que mesmo os escritores e filósofos ocidentais
modernos que exibiam uma autoconsciência liberal e cosmopolita sustentavam
hierarquias raciais. John Stuart Mill declarou categoricamente que povos
“bárbaros”, como os indianos, eram incapazes de se autogovernar. Charles
Dickens, famoso por sua solicitude com os brancos pobres, especialmente
crianças, exigiu o extermínio da “raça” indiana após uma violenta revolta em
1857 contra os senhores britânicos.
É
compreensível que muitos desses “bárbaros” tenham relutado em acreditar que as
democracias liberais ocidentais eram, por definição, antagônicas ao
totalitarismo. Gandhi afirmou que a democracia no Ocidente, tendo sido
capturada por interesses especiais, visava principalmente a dar cobertura moral
à violência extrema exigida pelo capitalismo; ele previu, em 1938, que mesmo as
democracias “nominais” do Ocidente provavelmente se tornariam “francamente
totalitárias”.
Para
George Padmore, o ativista anticolonial nascido em Trinidad, o imperialismo
“democrático” e o imperialismo “fascista” são “meramente ideologias
intercambiáveis correspondentes às condições econômicas e políticas do
capitalismo”.
Análises
semelhantes, vindas de Simone Weil ou Aimé Césaire, deveriam ter desencorajado
uma consciência tranquila compartilhada entre os vencedores da Segunda Guerra
Mundial e aberto uma investigação mais ampla sobre a barbárie inerente à
modernidade política e econômica.
O
“veneno” do hitlerismo “não desapareceu”, argumentou Albert Camus em Nova York
em 1946. “Todos nós o carregamos em nossos próprios corações”. No ano anterior,
ele descrevera Hiroshima como “nossa civilização técnica” atingindo seu “maior
nível de selvageria”. Mas o autoquestionamento intelectual e a agônica
experimentação artística que começou no início do século XX, após a aniquilação
das antigas certezas da Europa, não encontraram terreno fértil nos Estados
Unidos, nem antes nem depois da guerra.
Tornando-se
mais ricos e poderosos enquanto guerras destrutivas e regimes despóticos
devastavam a Europa, os Estados Unidos não produziram figuras comparáveis a
Camus, Arendt, Weil, Paul Valéry, Robert Musil, José Ortega y Gasset ou Jacques
Maritain – europeus forçados por seus traumas a examinar uma confiança até
então incontestável nas prescrições ocidentais de democracia, ciência e livre
comércio.
Sem o
fardo da dúvida sobre si, os americanos envolvidos na formação das nações alemã
e japonesa, assim como outros soldados da Guerra Fria, acharam fácil, após
1945, estabelecer “o Ocidente” – uma ideia improvisada apenas no século XIX –
como uma identidade comum tanto para os desacreditados quanto para os
emergentes senhores brancos do universo.
O
“totalitarismo”, grosseiramente definido, juntou-se ao arsenal ideológico deste
novo Ocidente: uma forma de identificar os inimigos percebidos de seus
interesses, seja Mao ou Osama bin Laden, e de fornecer tanto aos Estados Unidos
globalmente ascendentes quanto aos impérios europeus em declínio uma autoimagem
lisonjeira e uma missão elevada.
Até a
Alemanha, com muitos nazistas de outrora reinando na vida pública, e a Espanha,
cujo fascismo era desinibido, puderam ser acomodadas na comunidade
antitotalitária do Ocidente, amparadas por historiadores como Ernst Nolte, que
argumentou que nazismo e fascismo eram simplesmente consequências do
bolchevismo.
A
defesa de uma civilização judaico-cristã (ideia popularizada durante a Guerra
Fria) foi promulgada pela nova narrativa do Plato to NATO – de
Platão à OTAN. Os relatos contundentes da brutal repressão no Leste comunista,
escritos por dissidentes – como A mente cativa (1953), de
Czesław Miłosz, e O Arquipélago Gulag (1973), de Aleksandr
Solzhenitsyn – contribuíram para a visão de que o capitalismo ocidental era
superior.
Pouca
atenção, contudo, foi dada ao fato de que os próprios dissidentes se mostravam
perturbados pelas semelhanças sinistras entre os dois sistemas ideológicos
opostos da Guerra Fria. Czesław Miłosz já havia notado, durante sua estadia
como diplomata nos Estados Unidos no final dos anos 1940, que “os meios que
moldavam a opinião pública em países como a Polônia eram brincadeira de criança
diante da arte que os americanos haviam desenvolvido”.
Para
Aleksandr Solzhenitsyn, chocado com a conformidade da imprensa americana, a
“divisão do mundo pela Guerra Fria é menos aterrorizante do que a similaridade
da doença que aflige suas principais partes”. Nos anos 1980, escrevendo logo
após ser libertado de uma prisão comunista, Václav Havel alertou os emergentes
vencedores da Guerra Fria de que eles se assemelhariam “a seus oponentes
derrotados muito mais do que qualquer um hoje está disposto a admitir ou é
capaz de imaginar” e que o Ocidente acabaria construindo seu próprio gulag “em
nome do país, da democracia, do progresso e da disciplina de guerra”.
Muitos
observadores mais próximos da cena americana também não se deixaram enganar. Em
meados do século, ao examinar filmes, romances, revistas e quadrinhos
americanos na Califórnia, o historiador trinitário C.L.R. James alertou contra
“as forças que favorecem o totalitarismo na vida americana moderna”.
Em uma
visita aos Estados Unidos uma década depois, Ítalo Calvino confirmou que “aqui
estamos em uma estrutura totalitária de tipo medieval, baseada no fato de que
nenhuma alternativa existe, nem mesmo qualquer consciência da possibilidade de
uma alternativa”. A ideia de uma alternativa tornou-se ainda mais implausível
após a aparente vitória dos Estados Unidos na Guerra Fria, quando a
própria história pareceu terminar na democracia e no capitalismo ao estilo
americano.
Escritores
e pensadores das classes privilegiadas dos EUA ressuscitaram, com algum lucro,
o messianismo político que seus homólogos europeus haviam abandonado. Quando a
Guerra Fria terminou, tornou-se quase imperativo para os
intelectuais americanos e americanizantes instalados nas universidades da Ivy
League e nos think tanks de Washington e Manhattan saudar os Estados
Unidos como o inimigo universal do totalitarismo assassino.
Foi
assim que Samantha Power pôde repreender os governos americanos por sua falha
em intervir em genocídios em todos os lugares. Quando a Al Qaeda e depois
Saddam Hussein surgiram abruptamente como encarnações de um novo totalitarismo,
Michael Ignatieff e Niall Ferguson, entre muitos outros, pressionaram
impacientemente os Estados Unidos a assumir suas obrigações imperiais e impor
democracia, direitos humanos e livre comércio por meio da guerra.
Ficou
claro, mesmo antes da abertura de um gulag em Guantánamo sob a bandeira da
“liberdade duradoura”, que o inimigo soviético, cruel e desajeitado como uma
caricatura, havia gerado uma terrível complacência intelectual no Ocidente. Os
tolos do imperialismo ocidental do século XXI dispunham de pouco letramento
histórico e ainda menos da sofisticação moral de Arendt, Weil e Camus.
Deslumbrados
pela sua autoimagem de guias filantrópicos da humanidade, estavam condenados a
repetir a lógica grotesca dos campos de escravos sob a bandeira da liberdade.
As principais publicações do cosmopolitismo liberal – Newsweek e The
Atlantic – não hesitaram em ponderar os usos da tortura no início dos
anos 2000; por sua parte, Michael Ignatieff, então professor de direitos
humanos em Harvard, ofereceu receitas de “coação permissível” nas páginas
do The New York Times Magazine.
Um
tirano do Queens, e não de Bagdá ou Kandahar, mostrou-se como o inimigo desses
humanitários militantes. Ele agora exerce descaradamente sua vontade de poder à
custa de povos mais fracos, muitas vezes de pele mais escura. A conquista
sinistra de Donald Trump é deslegitimar o antigo establishment intelectual
e político enquanto cimenta as hierarquias raciais e os regimes de repressão
que essa elite descartada explorou durante a guerra ao terror. Em mais uma
paródia da “responsabilidade de proteger” e de seus vendedores ambulantes, o
presidente supremacista branco também deseja ser visto como o salvador
autêntico de um mundo obscurecido e tomado pela guerra.
O
liberalismo ocidental, constantemente à procura de monstros no exterior, revela
ter sido uma máscara moral para uma classe serviçal de intelectuais – um
acessório de moda jogado fora por Donald Trump. Esse adorno não serve mais
àqueles que presidem a rápida e brutal reversão do progresso racial.
Não
deve nos surpreender a rapidez com que o preconceito do século XIX, de que
homens brancos deveriam dominar africanos, asiáticos e povos “inferiores” da
América Latina, tornou-se senso comum em grande parte da política e do
jornalismo ocidentais. “O fluxo subterrâneo da história ocidental finalmente
veio à superfície”, advertiu Hannah Arendt em 1950, depois que as ideologias de
engrandecimento racial do século XIX atingiram a culminação monstruosa no
coração da Europa. Esse fluxo subterrâneo veio novamente à tona em 2025, e está
varrendo a ideia outrora inabalável do Ocidente.
Fonte:
A Terra é Redonda

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