Erick
Kayser: Donald Trump – geopolítica da barbárie
O ano
de 2026 começou com uma agressão militar dos EUA contra a Venezuela, fato
inédito no continente sul-americano. O imperialismo, palavra que teve
jornalista liberal viralizando tempos atrás afirmando que era um termo “cafona”
da esquerda brasileira, volta a ordem do dia e reaparece no debate público.
Ainda é cedo para apontar quais os possíveis desdobramentos desta violação da
soberania venezuelana pelos EUA, mas é certo que seu desfecho significará
mudanças profundas na Venezuela.
Antes
de tentar esboçar algumas respostas para estas questões, convém advertir que
não trataremos aqui de uma avaliação do que é – ou melhor, foi – o governo de
Nicolás Maduro ou de uma caracterização do bolivarianismo, estes temas ficarão
para um futuro artigo. Nossa discussão se centrará no que impulsionou a
agressão dos EUA contra a nação sul-americana. Partimos conceitualmente do
pressuposto que, para se buscar uma compreensão dos processos históricos em sua
efetiva complexidade, devemos assumir uma postura crítica de desconfiar de
respostas fáceis ou monocausais.
A
gravidade do ataque militar dos EUA à Venezuela é evidente. Na madrugada de 3
de janeiro de 2026, forças especiais dos Estados Unidos realizaram uma operação
em Caracas que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua
esposa, Cilia Flores. Ambos foram transferidos para solo estadunidense e
passaram a responder a acusações federais nos EUA, incluindo acusações
(descaradamente fantasiosas) relacionadas a narcoterrorismo. O ataque deixou
dezenas de mortos (nenhum deles norte-americanos) e grandes danos materiais, o
que reforça a caracterização do episódio como uma ação de alto custo
humanitário e político.
A
operação – amplamente contestada por especialistas em direito internacional e
objeto de condenações de vários governos e organismos multilaterais – quebrou
um jejum de décadas quanto ao tipo de intervenção direta e em larga escala no
território de um Estado soberano da América Latina, sendo primeiro episódio
dessa natureza no século XXI. Situando historicamente essa ruptura, cabe
lembrar a extensa cronologia de intervenções americanas na região.
Em
pesquisa fartamente documentada, Lindsey O’Rourke (2021) reporta dezenas de
casos de tentativas de mudança de regime promovidas pelos EUA durante a Guerra
Fria – um conjunto de ações que incluiu apoio encoberto a golpes em países como
Brasil e Chile, repetidas conspirações contra Fidel Castro e mesmo a invasão do
Panamá em 1989 para depor Manuel Noriega – e mostra como essas práticas, longe
de serem acidentes da Guerra Fria, constituem parte de uma estratégia
geopolítica contínua que frequentemente gerou instabilidade nos países-alvo.
Esse repertório de intervenções voltaram à tona, sendo necessário ler o
episódio venezuelano à luz dessa tradição.
Ainda
que seja um tanto chocante escutar o presidente Donald Trump anunciar
explicitamente que o petróleo foi o motivo central desta invasão, postura que,
em si, possui implicações graves, talvez devêssemos desconfiar um pouco e fazer
uma pergunta anterior: o que tornaria possível que um mentiroso contumaz como
Donald Trump, justamente em uma ação desta magnitude, não estivesse uma vez
mais mentindo?
Muitas
evidências apontam que é mentirosa a alegação que a invasão da Venezuela foi
por causa do petróleo. Afinal, se realmente o objetivo era obter o petróleo,
eles tinham apenas que suspender as sanções que eles próprios impuseram ao
regime de Niclás Maduro, ainda mais porque, aparentemente, vão comprar a preço
de mercado e o mesmo dispositivo de poder chavista, que era considerado um
empecilho, está sendo mantido intacto.
Se
analisarmos esta questão sob o ângulo do funcionamento do mercado internacional
do petróleo, fica ainda menos crível a versão oficial dos EUA. Embora seja
verdade que a Venezuela possui as maiores reservas de petróleo bruto do
planeta, estimadas em 303 bilhões de barris (17% do total global), ela
produziu, contudo, somente 900 mil barris por dia em 2025 (1% do total global).
A
consultoria norueguesa Rystad Energy calcula que, para triplicar o volume
atual, a Venezuela precisaria de US$ 183 bilhões. Cifras astronômicas que, até
o momento, não parece haver investidores interessados em aplicar na aventura
trumpista. A própria empresa petrolífera norte-americana Exxon, tida como
potencialmente a principal beneficiária, já manifestou não ter interesse em
ampliar seus investimentos na região, provocando a fúria pública do bufão que
comanda a Casa Branca.
Uma das
razões de fundo para este baixo interesse das petrolíferas, para além de
inseguranças jurídicas inerentes a esta situação, se dá pela própria dinâmica
do mercado. Como aponta o geógrafo Matthew T. Huber, o interesse maior das companhias reside em
manter e reproduzir a escassez necessária para que os preços se mantenham
suficientemente altos para uma acumulação lucrativa. No contexto atual de
preços baixos, elas estariam mais interessadas em extrair o petróleo que já
possuem e recuperar investimentos anteriores, do que de perfurar novos poços.
Quando
Donald Trump afirma que esta ação bélica foi para se apropriar do petróleo
venezuelano, assistimos muito mais que um falso ato de sinceridade. Foi, na
verdade, um ato performático para encobrir as reais motivações, que podem ser
resumidas em uma curta palavra: poder. O mais importante nas declarações de
Donald Trump e de seu governo, é menos o conteúdo e muito mais seus aspectos
simbólicos, com implicações políticas profundas.
Ao
abdicar de quaisquer justificativas sobre questões humanitárias ou
democráticas, sempre um tanto hipócritas, como seus antecessores comumente
faziam para justificar as guerras dos EUA, o governo Donald Trump promove uma
significativa (e grave) mudança na gramática das relações políticas globais.
Esta retórica trumpista, não por acaso, guarda muitas semelhanças com o
conceito alemão de lebensraum (espaço vital), utilizado pelo
nazismo para a conquista de terras na Europa central e oriental.
Com
esta ação unilateral, o país que foi um dos principais fiadores do
multilateralismo neoliberal estabelecido com a globalização, escancarou sua
obsolescência e proclamou, simbolicamente, o seu efetivo fim. Este seria mais
um capítulo de uma emergente geopolítica da barbárie, onde a diplomacia e a
política cedem espaço ao imperativo da força bruta direta. Essa guinada da
geopolítica, tem o seu por assim dizer “marco fundador”, na guerra de Israel em
Gaza, onde uma ação genocida contra o povo palestino foi perpetrada.
Como
aponta Francesca Albanese, relatora da ONU para os territórios da Palestina, o
número de mortos palestinos pode superar os 680 mil. Contando com apoio direto
dos EUA e Europa, as tropas israelenses promoveram uma guerra com objetivos
colonialistas mal disfarçados. Um massacre explícito, transmitido quase que em
tempo real para todo mundo, não havendo espaço para as máscaras da hipocrisia
ocidental justificarem o injustificável.
Despudorado
e sem rivais, esta demonstração de poder imperialista pelos EUA é muito menos
sobre o futuro da Venezuela, e muito mais uma espécie de declaração de uma
guerra ideológica contra todos no mundo que sejam não-alinhados aos novos
ditames de Washington.
Afirmar
que foi por causa do petróleo foi a forma de tentar expor alguma racionalidade,
num ato, completamente irracional no todo. Foi influenciada por uma tentativa
de levar adiante as ideias do filósofo Nick Land, defensor do que ele chama
de Dark Enlightenment (Iluminismo das Trevas), que hoje
ostenta muita influência nas hordas trumpistas. Os princípios igualitários
contidos no iluminismo, como o de que todas as pessoas possuem direitos iguais,
passam a ser combatidos, em nome de uma desigualdade não apenas real, mas que
deverá agora também ser formal.
Diante
desse horizonte de uma geopolítica da barbárie, em que a força bruta substitui
a diplomacia e o “iluminismo das trevas” busca sepultar definitivamente os
princípios igualitários, a contenção desse projeto imperialista não virá das
instâncias burocráticas ou de um direito internacional já declarado obsoleto na
prática. Se o poder imperialista agora se move sem véus, também se expõe à
rejeição frontal dos povos, não apenas na Venezuela, mas em todos os cantos
onde a soberania e a dignidade são atacadas.
A
solidariedade internacionalista, a mobilização das ruas e a denúncia incansável
tornam-se, assim, os instrumentos urgentes de defesa. Enquanto as máquinas de
guerra avançam, é na resistência organizada, nas trincheiras da sociedade civil
e na recusa em aceitar a normalização da barbárie que se encontrará o freio, e
talvez o ponto de reversão, deste projeto de dominação que, ao descartar até
mesmo a hipocrisia, revela sua face mais frágil: o medo da união dos que nada
têm a perder, senão seus próprios grilhões.
Fonte:
A Terra é Redonda

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