quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Pepe Escobar: O Império do Caos, Pilhagem e Ataques em pânico, temendo ser expulso da Eurásia

O planeta inteiro, de uma forma ou de outra, vê-se convulsionado pela última falcatrua do neo-Calígula: por não ter ganho da Noruega seu Nobel da “paz”, parte de sua vingança megalomaníaco-narcisista é abocanhar a Groenlândia da Dinamarca (na língua do Império, quem se importa? Esses escandinavos são todos a mesma coisa).   

 Nas palavras do próprio neo-Calígula: “O Mundo não estará seguro se não tivermos Controle Total e Completo sobre a Groenlândia”.  

 Isso sela o fato de que o Império do Caos se metamorfoseou no Império da Pilhagem e dos Ataques Permanentes.  

 Euro-chihuahuas de várias procedências ousaram despachar um grupelho de condutores de trenós puxados por cachorros para defender a Groenlândia do neo-Calígula.  Não adiantou nada. Instantaneamente, eles foram golpeados com tarifas. O ataque continua em vigor até “a compra da Groenlândia em sua totalidade”.  

 Os Euro-chihuahuas – a exemplo do Sul Global – talvez tenham por fim acordado para o novo paradigma: a Geopolítica do Ataque.  

 O Neo-Caligula não conseguiu mudança de regime em Caracas – e sua miragem petroleira foi refutada até mesmo pelas grandes empresas de energia dos Estados Unidos. Ele não conseguiu mudança de regime em Teerã – mesmo que a CIA, o Mossad e uma variedade de ONGs tenham trabalhado em tempo integral para entregar a encomenda.  

 O Plano C, portanto, é a Groenlândia, essencial para os propósitos imperiais de  lebensraum, ser usada como garantia para a dívida impagável – e sempre crescente – de 38 trilhões de dólares.   

 O que, de modo algum, significa desistir da obsessão com o Irã. O porta-aviões USS Abraham Lincoln está se posicionando no Mar de Omã/Golfo Pérsico, de onde poderia atacar o Irã antes do final da semana. Todos os cenários de ataque continuam em vigor.  

 Supondo-se que as portas do inferno se abram, esse pode vir a se tornar um replay ainda mais humilhante da guerra de doze dias de junho do ano passado, que o culto da morte do Oeste Asiático passou quatorze meses planejando.  

 A guerra de doze dias falhou não apenas como uma operação de mudança de regime, ela engendrou uma amostra  de uma retaliação iraniana tão barra-pesada que Tel Aviv ainda não se recuperou. Teerã, repetidamente, vem expressando de forma explícita que o mesmo destino aguarda as forças do neo-Calígula no Irã e por todo o Golfo Pérsico, caso novos ataques venham a acontecer.   

<><>  O porquê da persistente obsessão com mudança de regime  

 Quanto à miserável e igualmente fracassada operação de mudança de regime das últimas semanas, tivemos a participação do patético palhaço Príncipe  Reza Pahlavi, seguro em seu confortável exílio em Maryland e maciçamente promovido pela mídia estadunidense como uma “figura política unificadora”,  capaz de reavaliar a “catástrofe vivida do domínio clerical”.  

 O neo-Calígula estava ocupado demais para se preocupar com esses detalhes ideológicos. O que ele queria era acelerar os procedimentos – de que outra forma seria? – aplicando a lógica do Império dos Ataques Permanentes: bombardeando o Irã.  

 A narrativa  diversionista, como seria de se prever, pirou. O culto da morte no Oeste Asiático pode ter pedido a Moscou que dissesse a Teerã que não atacaria se o Irã não atacasse primeiro. Como se Teerã  – e Moscou – confiassem em qualquer coisa vinda de Tel Aviv.

 A turminha do Golfo – Arábia Saudita, Qatar e Omã – pode ter pedido ao neo-Calígula que não atacasse, porque isso incendiaria todo o Golfo e geraria repercussões negativas graves”.  

 Mas a verdade – aqui também – foi o TACO. Simplesmente não havia um cenário de ataque que permitisse uma mudança de regime rápida, o único resultado aceitável. Então, voltamos de novo à Groenlândia a presa a ser abocanhada.  

 Bastaram uns poucos dias para desmascarar a maciça campanha de propaganda que grassou por todo o OTANistão sobre  o “enorme número de mortes” entre os manifestantes iranianos.   

 Os números – falsos – vieram do Centro de Direitos Humanos no Irã, sediado, onde  mais seria, em Nova York, e financiado pelo  National Endowment for Democracy (NED), em Washington, infestado de agentes da CIA e de diversas outras entidades de desinformação.  

 Da lista das razões urgentes para a mudança de regime no Irã constam, entre outros, esses quatro elementos principais:  

  1.   Teerã tem que abandonar o Eixo da Resistência que apoia a Palestina por todo o Oeste Asiático.
  2.   O Irã, por se situar  na privilegiada encruzilhada eurasiana de corredores de conectividade comercial e de energia, precisa ter cortadas suas conexões com o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (CITNS), bem como com as Novas Rotas da Seda chinesas. O que significa implodir de dentro para fora a cooperação orgânica interna aos BRICS, entre Rússia, Irã, Índia e China.  
  3.   O fato de que 90% das exportações iranianas de petróleo vão para a China – sendo pagas em yuan – representa uma grave ameaça ao petrodólar: o anátema supremo. É aí que, em termos do Império dos Ataques Permanentes, o Irã se alinha à Venezuela. É o nosso petrodólar ou nada.  
  4.   O poder de permanência do eterno sonho de um Irã governado por uma remixagem do Xá – com uma polícia secreta como a SAVAK -,  laços estreitos com o Mossad para conter aqueles árabes bárbaros e uma vasta rede de centros de vigilância  gerida pela CIA tendo como alvos Rússia e China.   

<><>  Como enfrentar uma “guerra de mudança de regime”  

 Teerã não se apavora com sanções – ela suportou mais de seis mil delas ao longo de quatro décadas, cujo propósito era estrangular por completo a sua economia e até mesmo levar as exportações de petróleo, na terminologia imperial, a “zero”.  

 Mesmo sobre pressão máxima, o Irã foi capaz de construir a mais ampla base industrial de todo o Oeste Asiático e de investir incansavelmente em autossuficiência e em equipamento militar estado da arte. O Irã, além disso, filiou-se à Organização de Cooperação de Xangai  em 2023 e aos BRICS em 2024 e, para todos os fins práticos, desenvolveu uma economia de conhecimento de primeira linha no Sul Global.  

 Tsunamis de tinta – digital – foram gastos na questão de por que razão a China, até agora, não prestou ajuda suficiente ao Irã contra a pressão máxima colocada pelo Império, por exemplo, apoiando Teerã contra os ataques especulativos ao rial. Isso não teria custado praticamente nada a Pequim, tendo em vista seu nível de reservas externas.   

 O ataque especulativo ao rial talvez tenha sido o gatilho para os protestos surgidos por todo o Irã. É essencial lembrar que os salários de fome foram um dos principais fatores que contribuíram para o colapso da Síria.  

 Cabe a Pequim responder – diplomaticamente – a essa desconfortável pergunta. O espírito dos  BRICS Plus – podem chamá-lo de Bandung 1955 Plus – talvez não sobreviva quando todos sabemos que essa guerra mundial atualmente em curso é, essencialmente, uma questão de recursos e finanças, que têm que ser mobilizadas e empregadas da maneira correta.  

 O que nos leva ao fato de a liderança da China estar examinando seriamente a questão de se vale a pena continuar como uma versão ampliada da Alemanha: embrionicamente autocentrada, fomentando medo e fundamentalmente egoísta em termos econômicos e financeiros. A alternativa – auspiciosa – seria a China criar, dentro dos BRICS, facilidades de crédito de dimensões suficientes para um grupo de nações amigas.  

 O que quer que aconteça a seguir, está claro que o Império dos Ataques Permanentes não apenas continuará sendo ativamente hostil” a um mundo multipolar e multimodal e que essa hostilidade será marinada em uma borra tóxica de ira e vingança, e subordinada ao medo, ao pânico supremo: o Império ser lenta, mas inexoravelmente expulso da Eurásia.

 Entra em cena o Representante Especial da Casa Branca Witkoff – o Bismarck dos negócios imobiliários  – proclamando as ordens imperiais para o Irã:   

  1.   Parem de enriquecer urânio. Fora de questão.  
  2.   Reduzam seu estoque de mísseis. Fora de questão.
  3.   Reduzam aproximadamente 2.000 kg de material nuclear enriquecido (3.67–60 %). Aberto a negociações.  
  4.   Parem de apoiar “representantes regionais”  – como no Eixo da Resistência. Fora de questão.

 Teerã jamais irá se curvar a ditames. Mas mesmo que isso viesse a acontecer, o prêmio – prometido – pelo Império seria a retirada das sanções (o Congresso dos Estados Unidos jamais permitirá isso) e um “retorno à comunidade internacional”. O Irã já é parte da comunidade internacional na ONU, e nos BRICS, OCX e União Econômica Eurasiana, entre outras instituições.  

  De modo que a obsessão do neo-Calígula com mudanças de regime – refletida como uma obsessão do OTANistão – continuará existindo. Teerã não se intimida. Entra em cena o consultor estratégico do presidente do Parlamento Iraniano, Mahdi Mohammadi:

 “Sabemos que estamos enfrentando uma guerra de mudança de regime, na qual a única maneira de alcançar vitória é tornar verossímil a ameaça que, no decorrer da guerra dos 12 dias, embora pronta para o uso, não teve a oportunidade de ser posta em prática: uma guerra de atrito expansiva, focada nos mercados de energia do Golfo Pérsico, com base em um constante aumento do poder de fogo dos mísseis, prolongando-se por pelo menos vários meses”.

¨      Trump e Projeto Paleoconservador de poder. Por Marina Basso Lacerda

Ao contrário do que circula na memética da internet, em seu pronunciamento de 3 de janeiro sobre a captura de Nicolás Maduro, Donald Trump não mencionou uma única vez a palavra “democracia. Essa omissão marca diferenciação com o paradigma neoconservador, cujas intervenções — Iraque, Afeganistão e Líbia, por exemplo — justificavam-se precisamente pela retórica de exportar direitos individuais.

Trump, no entanto, é um paleoconservador. E, como tal, inaugurou com a ação na Venezuela um novo modelo de intervenção externa: vendido como de risco zero (“nenhum americano foi morto”), justificado por um cálculo de retorno financeiro (“vamos receber recompensas” pelo petróleo) e, sobretudo, ancorado inteiramente na e pela política interna dos Estados Unidos.

Para decifrar essa mudança de paradigma, é necessário recuar às raízes da fragmentação da direita americana pós-Reagan e ao surgimento de duas correntes rivais: o neoconservadorismo e o paleoconservadorismo.

<><> A cisão: neoconservadores vs. paleoconservadores

O neoconservadorismo emergiu como uma coalizão de intelectuais, empresários, direita cristã e setores da classe média, que elegeu Ronald Reagan em 1980. Sua plataforma fundia valores morais tradicionais ao neoliberalismo econômico, defendendo uma projeção externa dos EUA como potência dominante no combate à União Soviética.

Com o fim da era Reagan e a queda do Muro de Berlim, essa coalizão perdeu seu líder agregador e seu inimigo externo primordial. Com isso, ocorreu uma cisão que marcou o início de uma disputa pela alma da direita americana.

Os neoconservadores, de um lado, passaram a advogar pela liderança global; os paleoconservadores, por sua vez, defendiam uma visão de país voltada para dentro, centrada na suposta homogeneidade étnico-cultural e no cristianismo — uma reação ao que viam como um globalismo desenraizante.

<><> A consolidação do neoconservadorismo intervencionista

Os atentados de 11 de setembro deram impulso definitivo à “política externa com fins morais”, justificada com base em uma suposta missão civilizatória. Sob George W. Bush, figuras como Elliott Abrams e Paul Wolfowitz colocaram a “guerra ao terror” e a promoção ativa da democracia no centro da ação dos EUA — o que foi criticado como um imperialismo messiânico.

<><> O retorno da “velha direita”: raízes e princípios do paleoconservadorismo

Do outro lado da cisão, os paleoconservadores se reivindicam herdeiros do “conservadorismo tradicionalista” ou da “Velha Direita” do pré-Segunda Guerra, inspirada em figuras como Russell Kirk e Robert Nisbet.

Para pensadores dessa corrente, o multiculturalismo e o “politicamente correto” seriam expressões de uma “teocracia secular”, do globalismo e do marxismo cultural, hostis à dita identidade Ocidental americana. Essa visão se traduz em um anti-intervencionismo geopolítico e um nacionalismo cultural radical no plano doméstico.

Pat Buchanan, outro pilar do movimento, direcionou sua crítica à elite transnacional e ao livre-comércio, que teriam sacrificado a soberania nacional e deixado para trás os “americanos esquecidos” — a classe trabalhadora cujos empregos e comunidades foram erodidos pela globalização. Sua resposta era um nacionalismo econômico que restabelecesse a centralidade do trabalho americano.

É precisamente dessa tradição, como argumenta Gottfried (2020), que brota a genealogia intelectual do trumpismo e seu slogan “America First”. Trump dialoga diretamente com os “esquecidos” de Buchanan. Suas tarifas comerciais e sua retórica de recuperação industrial são a expressão prática do nacionalismo econômico paleoconservador.

<><> O sequestro de Maduro: a máquina jurídica e a lógica do negócio

A intervenção não se justificou por um proselitismo democrático, mas pela primazia da política interna, expressa em três vetores: a rejeição do custo humano das guerras tradicionais, o combate a ameaças domésticas e a lógica do retorno financeiro.

O primeiro vetor foi marcado pela ênfase obsessiva em que “nenhum americano foi morto” — a operação foi vendida como um ato de força sem risco. O segundo vetor definiu o modus operandi: não uma declaração de guerra, mas a captura de um “narcoterrorista”, enquadrado como criminoso comum em um processo do Distrito Sul de Nova York. A justificativa foi ancorada em índices domésticos de violência, conectando o inimigo externo às “gangues” que aterrorizam cidades americanas.

O terceiro vetor, porém, desnudou o cerne da intervenção paleoconservadora. Trump foi direto ao ponto: “Nós vamos administrar o petróleo”. Ao prometer que as riquezas venezuelanas trarão “recompensas” aos EUA, apresentou a ação como a recuperação de um patrimônio “roubado” e a gestão de um empreendimento lucrativo.

Dessa forma, Trump buscou legitimidade não perante uma comunidade internacional, mas perante um eleitorado definido por ressentimentos e inseguranças materiais. Sua linguagem falou diretamente aos que se sentem traídos pelo globalismo, transformando uma operação militar distante em uma resposta concreta — e potencialmente rentável — para suas aflições domésticas.

<><> A criação de Trump

O sequestro de Maduro revela um aparente paradoxo: como um movimento de raízes anti-intervencionistas como o paleoconservadorismo pode protagonizar uma ação militar tão ousada? A resposta é que Donald Trump não renegou a intervenção; reengenheou-a. Ele criou o modelo paleoconservador de projeção de poder: uma operação de “polícia global” conduzida pelo Departamento de Justiça, justificada por uma narrativa estritamente doméstica e transacional.

Essa reinvenção, porém, também se insere numa tradição histórica que vai além da mera Doutrina Monroe. Coerente com a reapropriação da “Velha Direita” pelos paleoconservadores — Trump resgata o intervencionismo hemisférico da era pré-Guerra Fria: é uma certa volta à “Diplomacia do Dólar” de William H. Taft — a defesa agressiva de interesses econômicos — e ao “Big Stick” de Theodore Roosevelt, agora executado com helicópteros de assalto e supremacia cibernética. 

A operação consolida a paleoconservadorização da política externa dos Estados Unidos. O “America First” se converte no manual operacional de um novo (e antigo) paradigma. Trump não encontrou uma fórmula para acabar com as intervenções norte-americanas; encontrou, talvez, a fórmula para fazê-las, novamente, populares.

 

Fonte: Brasil 247/Outras Palavras

 

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