Pepe
Escobar: O Império do Caos, Pilhagem e Ataques em pânico, temendo ser expulso
da Eurásia
O
planeta inteiro, de uma forma ou de outra, vê-se convulsionado pela última
falcatrua do neo-Calígula: por não ter ganho da Noruega seu Nobel da “paz”,
parte de sua vingança megalomaníaco-narcisista é abocanhar a Groenlândia da
Dinamarca (na língua do Império, quem se importa? Esses escandinavos são todos
a mesma coisa).
Nas
palavras do próprio neo-Calígula: “O Mundo não estará seguro se não tivermos
Controle Total e Completo sobre a Groenlândia”.
Isso
sela o fato de que o Império do Caos se metamorfoseou no Império da Pilhagem e
dos Ataques Permanentes.
Euro-chihuahuas
de várias procedências ousaram despachar um grupelho de condutores de trenós
puxados por cachorros para defender a Groenlândia do neo-Calígula. Não
adiantou nada. Instantaneamente, eles foram golpeados com tarifas. O ataque continua
em vigor até “a compra da Groenlândia em sua totalidade”.
Os
Euro-chihuahuas – a exemplo do Sul Global – talvez tenham por fim acordado para
o novo paradigma: a Geopolítica do Ataque.
O
Neo-Caligula não conseguiu mudança de regime em Caracas – e sua miragem
petroleira foi refutada até mesmo pelas grandes empresas de energia dos Estados
Unidos. Ele não conseguiu mudança de regime em Teerã – mesmo que a CIA, o
Mossad e uma variedade de ONGs tenham trabalhado em tempo integral para
entregar a encomenda.
O
Plano C, portanto, é a Groenlândia, essencial para os propósitos imperiais de
lebensraum, ser usada como garantia para a dívida impagável – e
sempre crescente – de 38 trilhões de dólares.
O
que, de modo algum, significa desistir da obsessão com o Irã. O porta-aviões
USS Abraham Lincoln está se posicionando no Mar de Omã/Golfo Pérsico, de onde
poderia atacar o Irã antes do final da semana. Todos os cenários de ataque
continuam em vigor.
Supondo-se
que as portas do inferno se abram, esse pode vir a se tornar um replay ainda
mais humilhante da guerra de doze dias de junho do ano passado, que o culto da
morte do Oeste Asiático passou quatorze meses planejando.
A
guerra de doze dias falhou não apenas como uma operação de mudança de regime,
ela engendrou uma amostra de uma retaliação iraniana tão barra-pesada que
Tel Aviv ainda não se recuperou. Teerã, repetidamente, vem expressando de forma
explícita que o mesmo destino aguarda as forças do neo-Calígula no Irã e por
todo o Golfo Pérsico, caso novos ataques venham a acontecer.
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O porquê da persistente obsessão com mudança de regime
Quanto
à miserável e igualmente fracassada operação de mudança de regime das últimas
semanas, tivemos a participação do patético palhaço Príncipe Reza
Pahlavi, seguro em seu confortável exílio em Maryland e maciçamente promovido
pela mídia estadunidense como uma “figura política unificadora”, capaz de
reavaliar a “catástrofe vivida do domínio clerical”.
O
neo-Calígula estava ocupado demais para se preocupar com esses detalhes
ideológicos. O que ele queria era acelerar os procedimentos – de que outra
forma seria? – aplicando a lógica do Império dos Ataques Permanentes:
bombardeando o Irã.
A
narrativa diversionista, como seria de se prever, pirou. O culto da morte
no Oeste Asiático pode ter pedido a Moscou que dissesse a Teerã que não
atacaria se o Irã não atacasse primeiro. Como se Teerã – e Moscou –
confiassem em qualquer coisa vinda de Tel Aviv.
A
turminha do Golfo – Arábia Saudita, Qatar e Omã – pode ter pedido ao
neo-Calígula que não atacasse, porque isso incendiaria todo o Golfo e geraria
repercussões negativas graves”.
Mas
a verdade – aqui também – foi o TACO. Simplesmente não havia um cenário de
ataque que permitisse uma mudança de regime rápida, o único resultado
aceitável. Então, voltamos de novo à Groenlândia a presa a ser abocanhada.
Bastaram
uns poucos dias para desmascarar a maciça campanha de propaganda que grassou
por todo o OTANistão sobre o “enorme número de mortes” entre os
manifestantes iranianos.
Os
números – falsos – vieram do Centro de Direitos Humanos no Irã, sediado, onde
mais seria, em Nova York, e financiado pelo National Endowment for
Democracy (NED), em Washington, infestado de agentes da CIA e de diversas
outras entidades de desinformação.
Da
lista das razões urgentes para a mudança de regime no Irã constam, entre
outros, esses quatro elementos principais:
- Teerã
tem que abandonar o Eixo da Resistência que apoia a Palestina por todo o
Oeste Asiático.
- O
Irã, por se situar na privilegiada encruzilhada eurasiana de
corredores de conectividade comercial e de energia, precisa ter cortadas
suas conexões com o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul
(CITNS), bem como com as Novas Rotas da Seda chinesas. O que significa
implodir de dentro para fora a cooperação orgânica interna aos BRICS,
entre Rússia, Irã, Índia e China.
- O
fato de que 90% das exportações iranianas de petróleo vão para a China –
sendo pagas em yuan – representa uma grave ameaça ao petrodólar: o anátema
supremo. É aí que, em termos do Império dos Ataques Permanentes, o Irã se
alinha à Venezuela. É o nosso petrodólar ou nada.
- O
poder de permanência do eterno sonho de um Irã governado por uma remixagem
do Xá – com uma polícia secreta como a SAVAK -, laços estreitos com
o Mossad para conter aqueles árabes bárbaros e uma vasta rede de centros
de vigilância gerida pela CIA tendo como alvos Rússia e China.
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Como enfrentar uma “guerra de mudança de regime”
Teerã
não se apavora com sanções – ela suportou mais de seis mil delas ao longo de
quatro décadas, cujo propósito era estrangular por completo a sua economia e
até mesmo levar as exportações de petróleo, na terminologia imperial, a “zero”.
Mesmo
sobre pressão máxima, o Irã foi capaz de construir a mais ampla base industrial
de todo o Oeste Asiático e de investir incansavelmente em autossuficiência e em
equipamento militar estado da arte. O Irã, além disso, filiou-se à Organização
de Cooperação de Xangai em 2023 e aos BRICS em 2024 e, para todos os fins
práticos, desenvolveu uma economia de conhecimento de primeira linha no Sul
Global.
Tsunamis
de tinta – digital – foram gastos na questão de por que razão a China, até
agora, não prestou ajuda suficiente ao Irã contra a pressão máxima colocada
pelo Império, por exemplo, apoiando Teerã contra os ataques especulativos ao
rial. Isso não teria custado praticamente nada a Pequim, tendo em vista seu
nível de reservas externas.
O
ataque especulativo ao rial talvez tenha sido o gatilho para os protestos
surgidos por todo o Irã. É essencial lembrar que os salários de fome foram um
dos principais fatores que contribuíram para o colapso da Síria.
Cabe
a Pequim responder – diplomaticamente – a essa desconfortável pergunta. O
espírito dos BRICS Plus – podem chamá-lo de Bandung 1955 Plus – talvez
não sobreviva quando todos sabemos que essa guerra mundial atualmente em curso
é, essencialmente, uma questão de recursos e finanças, que têm que ser
mobilizadas e empregadas da maneira correta.
O
que nos leva ao fato de a liderança da China estar examinando seriamente a
questão de se vale a pena continuar como uma versão ampliada da Alemanha:
embrionicamente autocentrada, fomentando medo e fundamentalmente egoísta em
termos econômicos e financeiros. A alternativa – auspiciosa – seria a China
criar, dentro dos BRICS, facilidades de crédito de dimensões suficientes para
um grupo de nações amigas.
O
que quer que aconteça a seguir, está claro que o Império dos Ataques
Permanentes não apenas continuará sendo ativamente hostil” a um mundo
multipolar e multimodal e que essa hostilidade será marinada em uma borra
tóxica de ira e vingança, e subordinada ao medo, ao pânico supremo: o Império
ser lenta, mas inexoravelmente expulso da Eurásia.
Entra
em cena o Representante Especial da Casa Branca Witkoff – o Bismarck dos
negócios imobiliários – proclamando as ordens imperiais para o Irã:
- Parem
de enriquecer urânio. Fora de questão.
- Reduzam
seu estoque de mísseis. Fora de questão.
- Reduzam
aproximadamente 2.000 kg de material nuclear enriquecido (3.67–60 %).
Aberto a negociações.
- Parem
de apoiar “representantes regionais” – como no Eixo da Resistência.
Fora de questão.
Teerã
jamais irá se curvar a ditames. Mas mesmo que isso viesse a acontecer, o prêmio
– prometido – pelo Império seria a retirada das sanções (o Congresso dos
Estados Unidos jamais permitirá isso) e um “retorno à comunidade
internacional”. O Irã já é parte da comunidade internacional na ONU, e nos
BRICS, OCX e União Econômica Eurasiana, entre outras instituições.
De
modo que a obsessão do neo-Calígula com mudanças de regime – refletida como uma
obsessão do OTANistão – continuará existindo. Teerã não se intimida. Entra em
cena o consultor estratégico do presidente do Parlamento Iraniano, Mahdi
Mohammadi:
“Sabemos
que estamos enfrentando uma guerra de mudança de regime, na qual a única
maneira de alcançar vitória é tornar verossímil a ameaça que, no decorrer da
guerra dos 12 dias, embora pronta para o uso, não teve a oportunidade de ser
posta em prática: uma guerra de atrito expansiva, focada nos mercados de
energia do Golfo Pérsico, com base em um constante aumento do poder de fogo dos
mísseis, prolongando-se por pelo menos vários meses”.
¨
Trump e Projeto Paleoconservador de poder. Por Marina
Basso Lacerda
Ao
contrário do que circula na memética da internet, em seu pronunciamento de 3 de
janeiro sobre a captura de Nicolás Maduro, Donald Trump não mencionou uma
única vez a palavra “democracia“. Essa omissão marca diferenciação com o
paradigma neoconservador, cujas intervenções — Iraque, Afeganistão e Líbia, por
exemplo — justificavam-se precisamente pela retórica de exportar direitos
individuais.
Trump,
no entanto, é um paleoconservador. E, como tal, inaugurou com a ação na
Venezuela um novo modelo de intervenção externa: vendido como de risco zero
(“nenhum americano foi morto”), justificado por um cálculo de retorno
financeiro (“vamos receber recompensas” pelo petróleo) e, sobretudo, ancorado
inteiramente na e pela política interna dos Estados Unidos.
Para
decifrar essa mudança de paradigma, é necessário recuar às raízes da
fragmentação da direita americana pós-Reagan e ao surgimento de duas correntes
rivais: o neoconservadorismo e o paleoconservadorismo.
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A cisão: neoconservadores vs. paleoconservadores
O
neoconservadorismo emergiu como uma coalizão de intelectuais, empresários,
direita cristã e setores da classe média, que elegeu Ronald Reagan em 1980. Sua
plataforma fundia valores morais tradicionais ao neoliberalismo econômico,
defendendo uma projeção externa dos EUA como potência dominante no combate à
União Soviética.
Com o
fim da era Reagan e a queda do Muro de Berlim, essa coalizão perdeu seu líder
agregador e seu inimigo externo primordial. Com isso, ocorreu uma cisão
que marcou o início de uma disputa pela alma da direita americana.
Os
neoconservadores, de um lado, passaram a advogar pela liderança global; os
paleoconservadores, por sua vez, defendiam uma visão de país voltada para
dentro, centrada na suposta homogeneidade étnico-cultural e no cristianismo —
uma reação ao que viam como um globalismo desenraizante.
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A consolidação do neoconservadorismo intervencionista
Os
atentados de 11 de setembro deram impulso definitivo à “política externa
com fins morais”, justificada com base em uma suposta missão
civilizatória. Sob George W. Bush, figuras como Elliott Abrams e Paul Wolfowitz
colocaram a “guerra ao terror” e a promoção ativa da democracia no
centro da ação dos EUA — o que foi criticado como um imperialismo
messiânico.
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O retorno da “velha direita”: raízes e princípios do paleoconservadorismo
Do
outro lado da cisão, os paleoconservadores se reivindicam herdeiros
do “conservadorismo tradicionalista” ou da “Velha Direita” do
pré-Segunda Guerra, inspirada em figuras como Russell Kirk e Robert Nisbet.
Para
pensadores dessa corrente, o multiculturalismo e o “politicamente correto”
seriam expressões de uma “teocracia secular”, do globalismo e do marxismo
cultural, hostis à dita identidade Ocidental americana. Essa visão se traduz em
um anti-intervencionismo geopolítico e um nacionalismo
cultural radical no plano doméstico.
Pat
Buchanan, outro pilar do movimento, direcionou sua crítica à elite
transnacional e ao livre-comércio, que teriam sacrificado a soberania
nacional e deixado para trás os “americanos esquecidos” — a classe
trabalhadora cujos empregos e comunidades foram erodidos pela globalização. Sua
resposta era um nacionalismo econômico que restabelecesse a
centralidade do trabalho americano.
É
precisamente dessa tradição, como argumenta Gottfried (2020), que brota a
genealogia intelectual do trumpismo e seu slogan “America First”. Trump
dialoga diretamente com os “esquecidos” de Buchanan. Suas tarifas
comerciais e sua retórica de recuperação industrial são a expressão prática do
nacionalismo econômico paleoconservador.
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O sequestro de Maduro: a máquina jurídica e a lógica do negócio
A
intervenção não se justificou por um proselitismo democrático, mas pela
primazia da política interna, expressa em três vetores: a rejeição do
custo humano das guerras tradicionais, o combate a ameaças
domésticas e a lógica do retorno financeiro.
O
primeiro vetor foi marcado pela ênfase obsessiva em que “nenhum americano
foi morto” — a operação foi vendida como um ato de força sem risco. O segundo
vetor definiu o modus operandi: não uma declaração de guerra, mas a
captura de um “narcoterrorista”, enquadrado como criminoso comum em um
processo do Distrito Sul de Nova York. A justificativa foi ancorada em índices
domésticos de violência, conectando o inimigo externo às “gangues” que
aterrorizam cidades americanas.
O
terceiro vetor, porém, desnudou o cerne da intervenção paleoconservadora. Trump
foi direto ao ponto: “Nós vamos administrar o petróleo”. Ao prometer que
as riquezas venezuelanas trarão “recompensas” aos EUA, apresentou a
ação como a recuperação de um patrimônio “roubado” e a gestão de um
empreendimento lucrativo.
Dessa
forma, Trump buscou legitimidade não perante uma comunidade internacional, mas
perante um eleitorado definido por ressentimentos e inseguranças
materiais. Sua linguagem falou diretamente aos que se sentem traídos pelo
globalismo, transformando uma operação militar distante em uma resposta
concreta — e potencialmente rentável — para suas aflições domésticas.
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A criação de Trump
O
sequestro de Maduro revela um aparente paradoxo: como um movimento de raízes
anti-intervencionistas como o paleoconservadorismo pode protagonizar uma ação
militar tão ousada? A resposta é que Donald Trump não renegou a
intervenção; reengenheou-a. Ele criou o modelo paleoconservador de
projeção de poder: uma operação de “polícia global” conduzida pelo Departamento
de Justiça, justificada por uma narrativa estritamente doméstica e
transacional.
Essa
reinvenção, porém, também se insere numa tradição histórica que vai além da
mera Doutrina Monroe. Coerente com a reapropriação da “Velha Direita” pelos
paleoconservadores — Trump resgata o intervencionismo hemisférico da era
pré-Guerra Fria: é uma certa volta à “Diplomacia do Dólar” de William
H. Taft — a defesa agressiva de interesses econômicos — e ao “Big Stick” de
Theodore Roosevelt, agora executado com helicópteros de assalto e supremacia
cibernética.
A
operação consolida a paleoconservadorização da política externa dos
Estados Unidos. O “America First” se converte no manual operacional de um
novo (e antigo) paradigma. Trump não encontrou uma fórmula para acabar com as
intervenções norte-americanas; encontrou, talvez, a fórmula para fazê-las,
novamente, populares.
Fonte:
Brasil 247/Outras Palavras

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