Chuvas
em SP: uma pessoa morre a cada 3 dias, entre dezembro e março, há 5 anos
Nas
últimas cinco estações chuvosas, uma pessoa morreu, em média, a cada três dias
em São Paulo durante os meses de verão, conforme a Agência Pública apurou junto
à Defesa Civil do Estado. O período analisado vai de 1 de dezembro a 31 de
março, quando o governo estadual mantém as operações emergenciais para
enfrentar os efeitos das tempestades. Foram 197 mortes no total nos últimos
cinco anos causadas por enchentes, deslizamentos de terras e raios.
Somente
nas oito primeiras semanas da Operação Chuvas de Verão do período 2025/2026, a
Defesa Civil contabilizou 12 vítimas. Duas delas ocorreram na tarde da última
sexta-feira, 16 de janeiro. Trata-se de um casal de idosos que trafegava pela
avenida Carlos Caldeira Filho, no Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo, quando
uma enxurrada os arrastou para o córrego “Morro do S”.
O corpo
de Marcos da Mata Ribeiro, de 68 anos, foi encontrado no dia seguinte, no rio
Pinheiros, cerca de um quilômetro de distância do local do desaparecimento.
Somente na manhã de segunda-feira, 19 de janeiro, a esposa, Maria Deusdete da
Mata Ribeiro, de 67 anos, foi localizada pelo Corpo de Bombeiros e reconhecida
pela família, às margens do rio Jurubatuba próximo ao Autódromo de Interlagos,
também na Zona Sul.
No
verão de 2022 para 2023, o número de mortes saltou, após deslizamentos de terra
matarem 64 pessoas em São Sebastião, durante o feriado do Carnaval, após a
região receber 624 milímetros de chuvas em 24 horas, volume quase três vezes
maior do que o esperado para todo o mês de fevereiro, que é de 230 milímetros.
Deslizamentos
de terra e enchentes também fizeram com que 24 pessoas morressem no Estado em
dois dias, entre elas 16 pessoas soterradas na Região Metropolitana de São
Paulo, após fortes temporais entre 28 e 30 de janeiro de 2022.
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“Protocolos precisam ser melhorados”, avaliam especialistas
Especialistas
ouvidos pela Pública disseram que as cidades precisam se adaptar aos grandes
volumes de chuvas, que têm sido acompanhados pelas emergências climáticas e
melhorar protocolos de emergência e prevenção aos desastres naturais.
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Por que isso importa?
• Segundo a Prefeitura de São Paulo,
enchentes e alagamentos aumentaram 47% na capital paulista em 2025 na
comparação com o ano anterior
• Ainda na capital, segundo relatório da
Defesa Civil do estado desta quarta-feira, 21 de janeiro, 124 pessoas foram
desalojadas em função das chuvas
O
professor Anderson Kazuo Nakano, do Instituto das Cidades da Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp), avalia que além das mudanças climáticas, outros
fatores que contribuem para as mortes ocasionadas pelas chuvas são as
“características da urbanização”.
Segundo
ele, o espaço urbano foi construído sobre sítios naturais, sem considerar a
topografia, geomorfologia e a hidrografia do local. “ Isso foi profundamente
alterado pela urbanização e a gente foi construindo o espaço urbano sem
respeitar e se adequar às características desse sítio”, argumenta.
Para
Eduardo Bulhões, professor do curso de Geografia da Universidade Federal
Fluminense (UFF), a chuva não é a culpada pela morte das pessoas, mas “sim a
nossa incapacidade de nos adaptar, adaptar as nossas cidades a esses grandes
acumulados [de chuvas].”
“Existem
várias formas de lidar, vários tipos de políticas públicas que têm o foco nesse
tipo de situação. Uma delas são os planos de redução de risco de desastres, que
incluem medidas não estruturais, como, por exemplo, sistemas de monitoramento,
normalmente operados pela defesa civil ou outro órgão público”, defende.
Quando
a chuva é intensa, a população paulista costuma receber alertas em seus
aparelhos que avisam sobre os riscos de exposição aos temporais. No entanto, o
professor da Unifesp avalia que a medida é importante, mas ainda é
insuficiente, porque “pode cair no descrédito”.
“A
pessoa recebe o sistema de alerta e o tempo é muito curto […] principalmente
nas áreas de enxurrada, onde é tudo muito repentino, pega a pessoa no carro ou
na calçada, desprevenida e não tem tempo para rota de fuga”, critica Nakano.
Bulhões
corrobora com o professor da Unifesp ao dizer que os protocolos de prevenção
precisam e devem ser aprimorados. “O investimento em tecnologia para aprimorar
esses protocolos, não só de detecção, mas de monitoramento e de alerta, são
essenciais”, acrescentou.
Os
docentes também apontaram a falta de abrigos adequados para quem precisa se
proteger das chuvas e eventos climáticos intensos, lugares pré-construídos para
abrigar vítimas de desastres naturais.
Em
fevereiro de 2025, os moradores do Jardim Pantanal, no extremo Leste da capital
paulista, passaram sete dias ilhados, sem que pudessem acessar suas casas e uma
escola municipal do bairro serviu de abrigo temporário às famílias afetadas.
“A
Defesa Civil, ela tem alguns planos de contingência, mas muito limitados, ainda
tem muita improvisação, se não tem abrigos, moradias provisórias,
pré-preparadas, os suprimentos de alimento, de vestuário, de remédio, são muito
limitados, por isso que a cada ocorrência, a gente sai buscando doação”, diz
Nakano.
Sobre
as questões levantadas pelos especialistas, a Defesa Civil enviou um
posicionamento, após a publicação da matéria. Segundo o órgão estadual, “desde
2023, o Governo do Estado de São Paulo intensificou de forma inédita os
investimentos na política estadual de proteção e defesa civil, com mais de R$
350 milhões aplicados em ações de prevenção, resposta e recuperação”.
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Governo Tarcísio cortou verba de segurança hídrica
No dia
em que o Estado de São Paulo contabilizada a sua 12ª morte em decorrência das
chuvas, a Pública revelou que o governo de Tarcísio de Freitas reduziu em 34,6%
os recursos do Orçamento de 2026 destinados à segurança hídrica no estado de
São Paulo.
O
orçamento da área caiu de R$ 2,1 bilhões em 2025 para cerca de R$ 1,37 bilhão
em 2026, com cortes significativos também em programas específicos como
proteção de mananciais e sistemas de drenagem e combate a enchentes.
A
medida ocorreu em um contexto marcado pela crise de água que pode ser a mais
grave da história local e por chuvas intensas que já causaram mortes neste
verão. A Secretaria do Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil)
respondeu que “tem os investimentos em resiliência hídrica e a eficiência no
uso de recursos públicos”.
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MPF atua para identificar e proteger comunidades quilombolas do Vale do Paraíba
(SP)
O
Ministério Público Federal (MPF) está atuando para identificar as comunidades
quilombolas do Vale do Paraíba, em São Paulo, e preservar seu patrimônio
material e imaterial. O órgão instaurou procedimentos para acompanhar a
situação de sítios e documentos remanescentes de antigos quilombos da região,
proteger tradições culturais e verificar os obstáculos enfrentados pelas
famílias para acessar direitos, como saúde, educação diferenciada e
regularização de terras.
Como
parte desse levantamento, o MPF se reuniu com representantes da comunidade
quilombola de Tamandaré, em Guaratinguetá. O local, cuja origem está ligada aos
negros alforriados de Aparecida, é famoso pelo jongo – expressão
afro-brasileira considerada patrimônio cultural imaterial pelo Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
A
comunidade tem enfrentado dificuldades para proteger suas tradições e locais de
memória. Apesar de reunir milhares de praticantes, as rodas de jongo do
Tamandaré ocorrem, atualmente, sob um viaduto e o espaço pode ser ameaçado por
obras de duplicação da Via Dutra. As famílias também relataram casos de
intolerância religiosa que associam o jongo e outras práticas culturais à
“feitiçaria”, impedindo inclusive atividades educativas e palestras sobre o
tema em escolas.
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Invisibilidade
O
Quilombo de Tamandaré é um dos três de que se tem notícia no Vale do Paraíba,
ao lado dos núcleos de Redenção da Serra e São Bento do Sapucaí. Porém, apesar
das referências históricas a esses sítios e populações, não há comunidades
quilombolas mapeadas e certificadas na região por parte dos órgãos
responsáveis: a Fundação Palmares e o Instituto de Terras do Estado de São
Paulo (Itesp).
Tal
invisibilidade dificulta a promoção de direitos e a preservação do patrimônio.
Por isso, o MPF solicitou a realização de perícia antropológica para
identificar elementos de tradicionalidade quilombola no Tamandaré e fundamentar
pedidos de certificação e proteção de bens históricos e culturais. O estudo
deverá, ainda, apurar os principais obstáculos que o grupo enfrenta para
acessar políticas públicas voltadas a comunidades tradicionais.
O
encontro com representantes do Tamandaré dá continuidade ao trabalho iniciado
em maio do ano passado, quando o MPF esteve na Comunidade do Quilombo, em São
Bento do Sapucaí. O órgão programa agora uma visita ao núcleo quilombola de
Redenção da Serra.
“As
populações quilombolas no Vale do Paraíba, e os sítios materiais remanescentes
de quilombos ou da cultura afro-brasileira em geral, foram bastante
invisibilizadas e apagadas, mesmo junto às instituições a quem caberia
identificar e apoiar essas populações. Tal circunstância reforça a necessidade
de atuação do MPF”, destaca a procuradora da República Ana Carolina Haliuc
Bragança, responsável pelos procedimentos.
Fonte:
Por Rafael Custódio, da Agencia Pública/MPF

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