terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Por dentro da briga de Malafaia e Damares: candidatura de Flávio Bolsonaro e afago à Michelle divide evangélicos

 que levou a pastora e senadora damares alves, do Republicanos do Distrito Federal, a causar um rebuliço no meio evangélico e na direita decidindo denunciar igrejas evangélicas e pastores por envolvimento no esquema de fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social, o INSS?

Damares, aliada de primeira hora de Jair Bolsonaro e uma das principais líderes neopentecostais do país identificadas com o bolsonarismo, surpreendeu os aliados ao fazer tais declarações ao SBT News. As falas da senadora provocaram um ataque furioso do pastor bolsonarista Silas Malafaia, líder da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, que a chamou de “leviana, linguaruda, cínica e mentirosa” e “indigna de ter o voto dos evangélicos”.

“Eu não acusei nenhuma igreja. Agora, se algum pastor cometeu algum erro, vai pagar, como também presidente de sindicato e presidente da associação. Ninguém vai passar a mão na cabeça”, disse Damares Alves ao Intercept Brasil.

Na avaliação de colegas de partido e religiosos, que falaram reservadamente ao Intercept, a ex-ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos está se afastando da família Bolsonaro. Mas Damares, eleita senadora em 2022 pelo partido ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, nega. “Não me afastei da família. Minha relação com eles ultrapassa a política. Eu tenho carinho por eles, pois conheço o capitão desde 1998 quando fui trabalhar na Câmara”.

O contexto é a disputa à presidência neste ano: enquanto Flávio Bolsonaro anunciou sua pré-candidatura, Damares, segundo relatos de pastores e políticos do Republicanos, gostaria de ver Michelle Bolsonaro, de quem é muito próxima, como uma alternativa para concorrer ao Planalto. Neste cenário estão duas opções: como cabeça de chapa ou, então, como candidata à vice de Tarcísio de Freitas, do Republicanos, atual governador de São Paulo e também cotado para a disputa.

Michelle, que não manifestou nenhum apoio público a Flávio, tem dado sinais favoráveis a Tarcísio: compartilhou um vídeo em que o governador de São Paulo atacou o PT e também curtiu um comentário da esposa dele, Cristiane, em que ela afirmava que o Brasil precisava de “um novo CEO, meu marido”, em alusão a uma possível candidatura dele à Presidência.

Ao Intercept, Damares Alves negou ser contra a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro. “Vamos seguir firmes apoiando o Flávio. Eu vou apoiar a decisão e escolha do capitão. E a Michelle não está resistente à candidatura dele”, garantiu.

Mas a atitude de Michelle gerou protestos do blogueiro bolsonarista Allan dos Santos, que cobrou publicações da ex-primeira-dama em apoio a Flávio Bolsonaro, lembrando que ele é o pré-candidato à presidência do grupo bolsonarista.

O próprio Bolsonaro e seus filhos, segundo religiosos evangélicos, não concordam com a empreitada de Michelle e Tarcísio à Presidência. “De jeito nenhum. Não confiam nela. O Silas Malafaia sabe disso e quer interferir nesse processo. Assim, atacou a Damares, que é ligada à Michelle. Malafaia também não gostou da indicação de Flávio como candidato, e gostaria de ser ele próprio o nome apoiado por Bolsonaro ou então que Bolsonaro desse a ele o direito de escolher o nome da direita e extrema direita”, diz o pastor evangélico Caio Fábio, do movimento Caminho da Graça, que já foi próximo de Malafaia e hoje é um crítico do líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo.

A movimentação política de Michelle causa incômodo na família Bolsonaro. Mas o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, a vê com bom potencial eleitoral e seria o seu maior incentivador. Michelle e Damares também estão juntas atualmente em uma missão: são as duas principais apoiadoras da candidatura da amiga Celina Leão, do PP, atual vice governadora do Distrito Federal, para a disputa ao governo local em outubro.

<><> O escândalo do INSS respinga nas igrejas evangélicas

Na entrevista ao SBT que motivou a reação furiosa de Malafaia, Damares Alves confirmou nomes de igrejas citadas nas investigações como a  Adoração Church e Assembleia de Deus Ministério Renovo, entre outras, além de figuras como André Valadão e Fabiano Zettel, da Igreja Batista da Lagoinha.

Zettel havia sido preso na manhã da quarta-feira, 14, pela Polícia Federal quando tentava embarcar para Dubai em um voo no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo. Acabou liberado mais tarde.

Outros três pastores completaram a relação da senadora: Cesar Belucci, da Sete Church; Péricles Albino Gonçalves, da Campo de Anatote; e André Fernandes, ex-Lagoinha e agora líder da igreja Celeiro – Casa de Oração.  

Damares disse ainda lamentar ter de fazer a denúncia contra colegas religiosos. “É algo que me machuca muito. Estamos identificando grandes igrejas e grandes líderes evangélicos. E os pastores orientam: não falem, não digam, não investiguem porque os fiéis vão ficar muito tristes. Mas grandes igrejas estão sendo apontadas”, havia afirmado.

 O pastor Silas Malafaia, então, reagiu, na sequência: “Ou a senhora dá os nomes ou a senhora é uma leviana linguaruda. Dê o nome de quem são os líderes que pediram para a senhora calar a boca”, esbravejou três dias depois das falas de Damares.

Não foi uma boa ideia de Malafaia, que patrocinou atos em favor de uma sonhada anistia a Bolsonaro nos últimos meses, cobrar publicamente a senadora. Logo em seguida, ela citou os nomes.

Segundo Damares, foram citadas na CPI por suposto envolvimento nas  fraudes as igrejas Adoração Church, Assembleia de Deus Ministério Renovo, Ministério Deus é Fiel Church e Igreja Evangélica Campo de Anatote, todas alvos de pedidos de quebras de sigilo pela CPMI do INSS.

Na avaliação de pessoas próximas à senadora, Damares realmente teria se surpreendido com o volume de denúncias envolvendo colegas religiosos.

Ao Intercept, a senadora disse que apenas relatou nomes citados na CPI. “Uma igreja, por exemplo [a Campo de Anatote], publicou uma nota e eles têm muita razão de estarem tristes e bravos. Eles disseram que foram citados na CPMI porque um investigado comprou uma casa que a igreja vendeu e era um único imóvel que essa igreja tinha. Estava vendendo, alguém foi lá e comprou. Quando quebrou o sigilo dessa pessoa, viram que ela comprou uma casa da igreja. Então, a citação foi isso”.

Damares é integrante da Igreja Batista da Lagoinha. Agora, ela enfrentará problemas internamente por ter citado os nomes dos pastores André Valadão e Fabiano Zettel, de sua igreja. “Eu amo a minha igreja. Quando o André começou a ser citado, eu fiz uma defesa dele. Eu disse que a citação foi apenas para arranhar a imagem do nosso pastor”, explicou.

A Lagoinha é concorrente do pastor Malafaia. O líder da Assembleia Vitória em Cristo tornou-se um crítico da igreja da família Valadão, segundo relatos de colegas evangélicos, ao ver ela crescer e ganhar fiéis nos últimos anos.

Para o colega pastor Caio Fábio, Malafaia também partiu para o ataque a Damares por concluir que “roupa suja” deve “ser lavada em casa”. A senadora, na avaliação dele, deveria tentar resolver o problema internamente, entre seus pares, e não citar colegas religiosos e do mesmo campo político.

“O Malafaia se sentiu atacado e respondeu, criticando Damares, porque quando se fala de grandes líderes evangélicos ele já acha que podem estar falando dele. E ele também passa a ser cobrado, pela mídia, pela população. Ele também se acha um porta-voz dos evangélicos, como se estivesse na praça do Vaticano evangélico. E num caso como esse, de denúncias no seu próprio campo, avalia que o correto é ficar quieto, para não causar problemas”, afirma o ex-líder presbiteriano.

“Ele esbravejou contra a Damares, contra tudo e contra todos, em nome de defender a reputação evangélica”, completa.

“O movimento desses segmentos é sempre na tentativa de abafar denúncias, para evitar o escândalo. Tem a ver com essa mentalidade evangélica de ‘amanhã sou eu’”, comenta o pastor Sergio Dusilek, da Igreja Batista de Marapendi, no Rio de Janeiro, ex-presidente da Convenção Batista Carioca. “A cisão no seio do bolsonarismo também está por trás de toda essa celeuma”.

Colegas de Damares no Republicanos também avaliaram que ela não teria como “segurar” ou tentar esconder nomes de igrejas e pastores citados na CPI. A senadora, segundo eles, foi cobrada por colegas parlamentares para emitir um posicionamento público.

•        Em briga com Damares, Malafaia quer provas de lobby evangélico na CPMI

O pastor Silas Malafaia disse nesta quarta-feira (21/1) que a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) precisa provar se houve lobby de igrejas evangélicas na CPMI que investiga as fraudes em descontos de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS).

A comissão foi instaurada após a Operação Sem Desconto, deflagrada pela Polícia Federal (PF) com base em reportagens do Metrópoles sobre as irregularidades. As investigações levaram às saídas do ex-ministro da Previdência Carlos Lupi (PDT) e do ex-presidente do INSS, Alessandro Stefanutto.

Após publicação do Metrópoles, o pastor procurou a reportagem para dizer que a briga com Damares vai além de uma “rusga” gerada durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), tendo como pano de fundo outro senador. Segundo ele, as acusações da senadora foram “levianas”.

“Ela [Damares] disse, no plural, que havia grandes igrejas. nessa porcaria da roubadeira do INSS, sem dar nome. Segundo, ela disse que recebeu lobby, pressão, para não dar os nomes das igrejas”, disse Malafaia. “Ela [Damares} quis capitanear e dar uma de paladina da moralidade no meio da igreja evangélica, mas deixando toda a liderança evangélica numa situação de suspeita. Eu recebi telefonema de vários líderes”, acrescentou.

Após o pastor desafiá-la nas redes sociais, a senadora publicou uma lista de igrejas e pastores que teriam envolvimento com a farra do INSS. Malafaia disse que a relação não mostra grandes igrejas e que a senadora não revelou quem fez lobby na comissão.

“Só tem o nome de um grande pastor. E que também ainda não tem nada provado contra ele, que é o pastor da Lagoinha [André Valadão]. Então ela foi leviana, mentirosa e linguaruda. E continua sendo. Porque não tem um nome. É só você olhar a tua lista. O desafio a Damares continua. Quem é que fez lobby para não dar nome de igrejas? Cadê as grandes igrejas? ”, contestou Malafaia.

O pastor disse ainda que conversou com o presidente da CPMI do INSS, o senador Carlos Viana (Podemos-MG), que é evangélico. Ele negou ter sido pressionado por igrejas durante as investigações.

<><> A briga de Malafaia e Damares

Damares disse, em entrevista ao SBT News, que igrejas evangélicas foram identificadas “nos esquemas de fraudes aos aposentados”, o que provocou um vídeo de Malafaia, nas redes sociais, em que ele se dirigiu à senadora.

“Ou a senhora dá os nomes, ou é uma leviana linguaruda. A acusação é grave e séria”, desfiou Malafaia. “Se não tem os nomes e as provas, cale a boca. Se tem, denuncie pelo bem da igreja evangélica”, acrescentou.

Como resposta, a senadora publicou uma lista com pastores, com requerimentos de convite ou convocação à CPMI, e igrejas que receberam transferências bancárias de investigados no esquema.

Veja lista divulgada por Damares:

<<<< Igrejas

•        Transferência de sigilo da Adoração Church;

•        Transferência de sigilo da Igreja Assembleia de Deus Ministério do Renovo;

•        Transferência de sigilo do Ministério Deus é Fiel Church (SeteChurch);

•        Transferência de sigilo da Igreja Evangélica Campo de Anatote.

<<<< Pastores

•        Convite a Fabiano Campos Zettel, empresário e líder religioso, para comparecer à CPMI;

•        Convite a Cesar Belucci do Nascimento, líder religioso;

•        Convocação de André Machado Valadão, líder religioso, para prestar depoimento;

•        Transferência de sigilo de André Machado Valadão;

•        Convite a Péricles Albino Gonçalves, líder religioso;

•        Convite a André Fernandes, líder religioso.

•        Pastor alvo de Damares é suspeito em esquema de pirâmide

Alvo de requerimento na CPMI do INSS, o apóstolo Cesar Belluci, da Sete Church, é réu em ação movida por pessoas lesadas em suposto esquema de pirâmide que pode ter desviado R$ 70 milhões mediante promessas não cumpridas de investimentos em criptomoedas.

Na semana passada, Belluci foi citado, entre outros evangélicos, em meio a uma briga entre a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e o pastor Silas Malafaia. A parlamentar, integrante da comissão, divulgou lista de evangélicos envolvidos na investigação após ser desafiada por Malafaia.

A CPMI do INSS foi instalada após a Polícia Federal (PF) deflagrar a Operação Sem Desconto, em abril do ano passado, que teve como base a série de reportagens do Metrópoles que revelou fraudes em descontos na folha de pagamento de pensões e aposentadorias do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS).

Alguns dos investigados da Farra do INSS eram fiéis da Sete Church. Um deles fez um Pix de mais de R$ 120 mil à igreja — a transação aparece em um relatório de inteligência financeira (RIF) enviado à CPMI. Outro investigado teria pago dízimos recorrentes a partir de 2022 (ano em que o esquema de pirâmide com criptomoedas foi descoberto) e doado uma BMW e um Rolex à Sete Church.

<><> Como era o esquema

Em meados de 2021, a empresa Ever Operações e Investimentos vendeu bitcoins com promessa de retorno entre 4% e 8% ao mês. O contrato, de um ano, retinha o aporte nos primeiros seis meses.

Os primeiros rendimentos foram pagos para os investidores até que, em fevereiro de 2022, um comunicado menciona que a distribuição será paralisada por causa de uma “considerável instabilidade do mercado de criptoativos”.

Na época, dois sócios da Ever, Carlos Henrique de Camargo e Edson Lara, foram alvo de operação e prestaram depoimentos à Polícia Civil. Um terceiro sócio, Meldequias Vasconcelos, não foi encontrado.

Ao Metrópoles Camargo afirmou ter apresentado à Justiça mais de 500 documentos que provam sua inocência. Ele alega que a responsabilidade pelo prejuízo aos investidores é de Meldequias Vasconcelos.

“Edson e eu fomos presos em flagrante, humilhados, tivemos nossas contas congeladas, residências invadidas e bens sequestrados. Meldequias permaneceu solto, navegando entre suas operações fraudulentas sem sofrer qualquer prisão preventiva ou medida cautelar”, alegou Camargo.

Em depoimento à Polícia, Camargo e Lara disseram que Vasconcelos desviou R$ 6 milhões da Ever e que o homem contratado para auditar as contas, que encontrou o rombo provocado por Vasconcelos, roubou 120 dólares dos empresários.

<><> A denúncia contra o apóstolo

Segundo o advogado Ricardo Nacale, que entrou com ação para reaver os valores de ao menos duas vítimas, o apóstolo Belluci tinha uma empresa para blindar o patrimônio de Vasconcelos. Nacale diz que eles eram sócios na BVK Invest – Belluci Vasconcelos Invest Ltda.

De acordo com a denúncia, os demais sócios tinham aberto empresas com o mesmo objetivo e tinham as esposas como sócias.

“Por fim, é também nítida a participação dos Requeridos VIRGÍNIA, PENÉLOPE e CESAR no esquema, eis que ‘emprestaram’ o nome para a constituição das empresas MALU-VIGO, ROMALAR e BVK INVEST, em que foram distribuídos os bens adquiridos com os recursos de todos os consumidores lesados. Assim, na condição de partícipes do esquema, devem também ser responsabilizados”, diz o advogado.

Nos autos, a defesa de Belluci disse que o apóstolo conheceu Meldequias Vasconcelos na igreja e que eles abriram uma empresa juntos. Após abril de 2021, Vasconcelos se afastou, segundo os autos. O sócio diz que só ouviu falar novamente de Vasconcelos quando a imprensa começou a divulgar a participação dele no esquema fraudulento.

Ao Metrópoles o advogado de Belluci disse que o apóstolo também é vítima do esquema e que a empresa dele com Vasconcelos nunca foi usada.

“A Justiça já afastou a narrativa que busca associar César Belluci aos eventos questionados, reconhecendo sua total desvinculação das operações investigadas e a inexistência de qualquer benefício ou participação nos episódios narrados”, diz o advogado em nota.

A reportagem tentou entrar em contato com os advogados dos demais réus, mas não obteve resposta. O espaço segue aberto para manifestação.

 

Fonte: Por Gilberto Nascimento, em The Intercept/Metrópoles

 

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