A
dolorosa jornada de quem decide aceitar a ideia de não ter filhos
Costuma-se
dizer que, se você se esforçar o suficiente, você acabará conseguindo o que
deseja.
Mas, às
vezes, a coisa mais difícil e corajosa a se fazer é parar de tentar.
Depois
de anos tentando formar uma família, incluindo a dolorosa montanha-russa dos
tratamentos de fertilidade e um aborto espontâneo devastador no dia de Natal,
Caroline Stafford descobriu que a única maneira de encontrar alguma paz
novamente era aceitar que isso não iria acontecer e construir um futuro
diferente.
Mas
isso significava superar o que ela chama de narrativa do "nunca
desista".
Como
muitas pessoas, Caroline e seu marido Gareth, que ela conheceu na escola, quase
davam como certo que teriam filhos no tempo certo.
"Passamos
toda a vida tentando não engravidar. Eu simplesmente presumi que, assim que
parasse de tentar não engravidar, isso aconteceria", diz Caroline.
Quase 1
em cada 5 mulheres no Reino Unido não tem filhos. No Brasil, o casal sem filhos
foi a composição familiar que mais cresceu neste século, saltando de 13,0% em
2000 para 24,1% (ou 13,9 milhões) em 2022, segundo dados dos censos realizados
pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Já a proporção de
mulheres no Brasil sem cônjuge e com filhos no total de unidades domésticas
subiu de 11,6% em 2000 para 13,5% (ou 7,8 milhões) em 2022.
Isso
pode ocorrer por diversos motivos, incluindo escolha pessoal. Mas algumas
simplesmente descobrem que a vida familiar que haviam imaginado não acontece.
Após um
ano tentando engravidar sem sucesso, Caroline e Gareth consultaram um clínico
geral. Uma rodada de fertilização in vitro (FIV) no Reino Unido foi seguida por
outras rodadas no exterior, um processo repleto de consultas ansiosas,
medicamentos e injeções.
Ao
mesmo tempo, Caroline via suas amigas engravidarem e terem seus próprios bebês.
"Ficamos
absolutamente felizes por elas, mas a verdade é que era a pior coisa de
ouvir", Caroline conta ao programa Ready to Talk with Emma Barnett, da
BBC.
Para
quem está na situação de Caroline, simplesmente ver um pai ou uma mãe com um
carrinho de bebê pode ser doloroso, e às vezes gerar uma inveja constante.
Esse
sentimento a corroía, mudando quem Caroline era.
"Sua
visão de mundo fica menor e muitas vezes mais negativa. Comecei a não gostar
muito de como estava me sentindo em relação às outras pessoas", diz
Caroline.
As
amigas diziam para não se preocupar, que acabaria acontecendo, ou que ela
deveria parar de tentar, porque aí sim ela engravidaria.
Então,
em um mês de novembro, há seis anos, do nada, suas amigas se mostraram certas.
Parar de tentar parecia ter funcionado. Ela engravidou.
Caroline
e Gareth moravam em uma grande fazenda, em Rutland (Reino Unido). Eles haviam
acabado de se mudar para um pequeno chalé em uma vila, uma espécie de
aceitação, em algum nível, de que a grande família com a qual sonhavam não
aconteceria.
À
medida que a época festiva de final de ano se aproximava, começaram a
compartilhar a boa notícia com amigos e familiares.
Então,
na manhã de Natal, Gareth saiu para cuidar do rebanho de leite. Quando ele
voltou, ela já havia perdido o bebê.
"Foi
o momento, a forma como aconteceu. Simplesmente pareceu tão cruel", disse.
As
lembranças daquele dia são vagas para ela.
Mas
ambos sentem que aquele foi o ponto de virada.
"Parecia
que ambos sabíamos que era hora de começar a tentar deixar ir", diz ela,
mas isso por si só exigiu um enorme esforço.
"Naquele
momento, eu não sabia se estava certa. Mas simplesmente começamos a seguir em
frente", conta.
Caroline
se dedicou totalmente ao trabalho. Durante a segunda rodada de fertilização in
vitro, ela havia iniciado seu negócio, vendendo biscoitos com mensagens
personalizadas.
No
começo, quando as pessoas diziam que o negócio era seu "bebê", ela se
irritava. Hoje, encontra conforto nisso. Afinal, é algo que ela tem cuidado e
desenvolvido por uma década.
Atualmente,
Caroline tem uma equipe de 14 pessoas na padaria, envia seus biscoitos para
todo o país e firmou parceria com uma empresa de flores por encomenda.
Para
Gareth, deixar a ideia de ter filhos ir significou repensar também totalmente
seu trabalho. Ele está prestes a começar um novo emprego fazendo manutenção no
campo de golfe em seu clube.
As
pessoas perguntam se Caroline considerou adoção, mas ela diz que "não era
o caminho que escolhemos".
"A
adoção não é apenas outra forma de se tornar pai ou mãe. É uma decisão
importante."
Uma
década de fertilização in vitro também mudou a relação de Caroline com o
próprio corpo.
"Eu
estava focada nessa única coisa que ele não conseguia fazer", diz.
Ela
começou a correr longas distâncias e, em vez de se culpar pelo que seu corpo
não conseguia, passou a celebrar o que ele podia fazer. Hoje, já completou
quatro maratonas, inteiras e meia, enquanto Gareth está na sexta.
"Eu
amo a vida que tenho. Não sinto mais aquela perda direta. É uma tristeza
diferente, mais suave agora."
Ela
encontrou uma sensação maior de paz com o passar do tempo. Mesmo assim, ainda
sente pontadas de culpa, perguntando-se se aceitar sua condição de não ter
filhos significava que ela não queria o suficiente ou não se esforçou o
bastante.
Ela
sabe que essa ainda é a mensagem do "não desista", cutucando sua
consciência.
"Nos
ensinam, ao crescer, que esforço é igual a resultado, mas muitas vezes não é
assim que funciona. A vida ainda pode ter significado e propósito, mesmo quando
parece drasticamente diferente do que você esperava."
Fonte:
BBC News

Nenhum comentário:
Postar um comentário