Jorge
Folena: Seria Toffoli o novo Moro?
Os
recentes acontecimentos levam a crer que o ministro Dias Toffoli está querendo
tomar a lamentável posição do ex-juiz suspeito, parcial e incompetente Sérgio
Moro, que interferiu e comandou as investigações promovidas de forma
tendenciosa pela operação lava jato, cujos integrantes até hoje não foram
efetivamente responsabilizados pelas autoridades brasileiras.
Até o
momento, não está claro para a opinião pública por que as investigações
criminais do caso do Banco Master, conduzidas pela Polícia Federal, saíram da
Justiça Federal e passaram ao acompanhamento e supervisão do Supremo Tribunal
Federal; isto porque o suposto deputado federal (que teria foro privilegiado
para ser processado e julgado naquela Corte Excelsa, de acordo com a
Constituição) não constou diretamente nas apurações em andamento, de modo a
fornecer a justificativa plausível para a superação do juízo natural de
primeira instância na questão.
É
importante afirmar que constitui atribuição da Polícia Judiciária (Civil ou
Federal) fazer a apuração das infrações penais e da sua autoria, por meio de
inquérito policial; que podem ser apuradas também pelo Ministério Público,
segundo entendimento do STF, através do procedimento de investigação criminal
(PIC).
Assim,
a responsabilidade para conduzir as investigações do caso Banco Master pertence
à Polícia Federal ou ao Ministério Público Federal, não havendo qualquer
possibilidade de ser conferida à autoridade judiciária (o juiz). Ressalte-se
que, no caso, como é do conhecimento público, o inquérito policial ainda não
foi concluído e o titular da ação penal (o Ministério Público) sequer recebeu
da polícia qualquer relatório para possibilitar a propositura, ou não, de
denúncia criminal contra os investigados.
Pelo
que vem sendo amplamente noticiado, durante o recesso de final do ano de 2025,
o ministro Toffoli, sem que os investigadores policiais ou o Ministério Público
tenham solicitado, determinou a realização de uma acareação entre os
investigados (o ex-dono do Banco Master e o ex-presidente do BRB) e um diretor
do Banco Central (testemunha), numa nítida interferência sobre o trabalho
realizado e conduzido pela polícia, deixando a impressão de uma abusiva
intimidação sobre as autoridades que atuam no caso, tanto em sede policial
quanto junto ao Banco Central (autoridade administrativa fiscalizadora), que
decretaram a intervenção e a liquidação extrajudicial do banco.
Além
disso, ao tentar acautelar junto ao Supremo Tribunal Federal as provas obtidas
nos desdobramentos da operação policial e interferir, inclusive, no modo de
realização da perícia dos bens apreendidos, a determinação do ministro
constitui mais uma grave ingerência sobre o trabalho realizado pela Polícia
Federal, o que poderá levar ao questionamento da quebra da cadeia de custódia,
prejudicando o resultado da investigação em favor dos investigados.
De
acordo com o princípio acusatório, que prevalece no processo penal brasileiro,
o juiz não deve fazer papel de investigador nem tem o poder de dizer o que a
autoridade policial ou o Ministério Público devem ou não fazer. O papel do
juiz, durante o acompanhamento da investigação, é o de ser o garantidor dos
direitos fundamentais do investigado, a fim de evitar abusos e ilegalidades
como os promovidos pela força tarefa da lava jato e pelo ex-juiz parcial e
suspeito Moro, como decidido pelo STF.
Sendo
assim, a cada interferência indevida que realiza no caso do Banco Master, o
ministro Toffoli expõe uma parcialidade desnecessária, que desgasta a imagem
que o STF construiu nos últimos anos na defesa da Constituição e do Estado
Democrático de Direito, especialmente depois da tragédia promovido pela
operação lava jato contra o sistema de justiça no Brasil e dos inúmeros ataques
contra a democracia, promovidos pela organização criminosa fascista, de 01 de
janeiro de 2019 a 8 de janeiro de 2023.
Diante
dessas considerações, acredito que já passou da hora de o ministro Toffoli
dar-se por impedido ou suspeito e se afastar imediatamente do acompanhamento do
caso Master, sob pena de tornar-se o novo Moro no Poder Judiciário brasileiro.
• Toffoli, uma toga de alto risco. Por
Francisco Calmon
O
ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli encontra-se no centro
de uma crescente controvérsia, pressionado por diferentes frentes, ao utilizar
prerrogativas do cargo na Suprema Corte para romper paradigmas e relativizar
regras consolidadas da instituição em decisões que beneficiam familiares
ligados ao caso do Banco Master. A condução desses episódios tem provocado
perplexidade no meio jurídico, político e na imprensa em geral, não apenas pelo
teor das medidas adotadas, mas sobretudo pelo impacto institucional que
produzem.
As
decisões atribuídas a Toffoli tensionam os limites das atribuições do cargo e
levantam questionamentos sobre o uso dessas prerrogativas em benefício de
interesses privados. O que causa ainda maior estranheza é o silêncio de seus
pares que, ao evitarem um posicionamento público, acabam por absorver
coletivamente o desgaste imposto à instituição. O episódio se desenrola em um
momento particularmente sensível para o Supremo Tribunal Federal, que, após ter
sido protagonista na defesa da ordem democrática diante da tentativa de golpe
de 8 de janeiro de 2023, vê agora sua credibilidade colocada em xeque por
decisões internas que alimentam um processo contínuo de desgaste e
deslegitimação.
A crise
ganhou novo capítulo com a deflagração, na última semana, da segunda fase da
Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal (PF) para apurar
fraudes bilionárias envolvendo o Banco Master. A investigação teve origem em
alertas do Banco Central, que identificou irregularidades na venda de títulos
sem respaldo financeiro junto ao Banco Regional de Brasília (BRB), operação
estimada em mais de R$ 12 bilhões. Em novembro do ano passado, diante da
gravidade das inconsistências, o BC decretou a liquidação extrajudicial da
instituição financeira.
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Centralização do inquérito e restrições à PF
Embora
a apuração tenha começado na primeira instância da Justiça Federal em Brasília,
o caso foi levado ao STF sob o argumento de envolver autoridades com foro
privilegiado. Desde então, Toffoli avocou o inquérito para si, decretou sigilo
elevado e passou a condicionar novas diligências da Polícia Federal à sua
autorização prévia — uma medida que, embora não impeça formalmente o trabalho
da corporação, submete a investigação a um controle incomum para esse tipo de
apuração.
Segundo
apuração da Gazeta do Povo, investigadores relatam dificuldades de acesso ao
conjunto das provas já coletadas, inclusive materiais apreendidos na primeira
fase da operação. O principal entrave seria o celular de Daniel Vorcaro,
controlador e dono do Banco Master, considerado peça-chave para esclarecer
relações empresariais e políticas. O aparelho permanece sob custódia da PF,
mas, protegido por múltiplas camadas de criptografia, ainda não teve todo o seu
conteúdo acessado.
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Disputa pela custódia das provas
O
episódio que acentuou o mal-estar institucional ocorreu no dia da segunda fase
da operação, quando a PF cumpriu 42 mandados de busca e apreensão em cinco
estados, além de bloquear R$ 5,7 bilhões em bens. Foram apreendidos 39
celulares, 31 computadores, armas, dinheiro em espécie e veículos avaliados em
cerca de R$ 16 milhões.
Inicialmente,
Toffoli determinou que todo o material fosse lacrado e mantido sob guarda do
STF, impedindo a perícia imediata por parte da Polícia Federal. A decisão
surpreendeu a corporação, que alertou para o risco de frustração da operação,
já que dados armazenados em nuvem poderiam ser apagados remotamente. Diante da
reação, o ministro divulgou nota afirmando que a medida visava preservar as
provas.
Horas
depois, em nova decisão, Toffoli alterou o procedimento e determinou que o
material fosse encaminhado diretamente à Procuradoria-Geral da República (PGR),
apesar de a própria PGR ter se manifestado pela manutenção das provas sob
custódia da PF. Por fim, em um terceiro despacho, o ministro nomeou quatro
peritos específicos da Polícia Federal para analisar os dados apreendidos,
contrariando o rito habitual, no qual a própria corporação define suas equipes
técnicas.
De
acordo com informações divulgadas pela CNN Brasil e repercutidas pelo Brasil
247, a sequência de decisões foi classificada internamente na PF como
"estranha" e "arbitrária". Integrantes da corporação
avaliam que a medida representa ingerência direta no trabalho policial e pode
atrasar a investigação, já que os peritos indicados não participaram das fases
anteriores da apuração.
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Depoimentos, prazos e novas tensões
O
atrito se aprofundou quando Toffoli reduziu de cinco para dois dias o prazo
previsto para a realização dos depoimentos dos investigados, exigindo ainda a
apresentação de um novo cronograma. A justificativa apresentada foi a limitação
de pessoal e de salas disponíveis no STF. Entre os convocados para depor estão
Daniel Vorcaro; Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB; Augusto Lima,
ex-sócio do Banco Master; e Luiz Antônio Bull, ex-diretor da instituição.
Paradoxalmente,
poucos dias depois, o próprio ministro deferiu pedido da Polícia Federal para
prorrogar por mais 60 dias o prazo de conclusão do inquérito, citando a
complexidade do caso e o volume de documentos apreendidos. A decisão, noticiada
por O Globo e confirmada por outras fontes, ampliou o contraste entre as
restrições operacionais impostas à PF e o reconhecimento formal das
dificuldades da investigação.
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Ligações familiares e conflitos de interesse
A
controvérsia ganhou contornos ainda mais sensíveis com a revelação de vínculos
familiares entre investigados e o entorno do ministro. Entre os alvos da
segunda fase da operação está Fabiano Campos Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro.
Reportagens apontam que o investigado teve ligação com um resort administrado
por familiares de Toffoli, informação que passou a ser citada por críticos como
potencial conflito de interesses.
Além
disso, Toffoli impediu, em dezembro, que a CPMI do INSS tivesse acesso a
materiais relacionados a suspeitas de fraude envolvendo o Banco Master em
descontos de aposentadorias. Embora a comissão tenha aprovado a quebra de
sigilos bancário, fiscal e telemático de Vorcaro, o ministro determinou que os
dados permanecessem sob guarda da Presidência do Senado, sem acesso dos
parlamentares ao conteúdo.
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STF sob pressão institucional
Com a
retirada das provas da Polícia Federal e a centralização das decisões no
gabinete do relator, o caso passou a projetar desgaste não apenas sobre
Toffoli, mas sobre o próprio Supremo Tribunal Federal. Especialistas em Direito
Constitucional lembram que o sigilo judicial tem como finalidade proteger a
eficácia das diligências, não inviabilizá-las. A Corte pode restringir o acesso
externo aos autos, mas não impedir que os órgãos responsáveis pela apuração
tenham pleno acesso às provas que produziram.
Em
análise publicada no UOL, o jornalista José Fucs avaliou que o recuo parcial de
Toffoli — ao transferir a custódia do material à PGR após forte reação pública
— expôs contradições internas e evidenciou uma crise de confiança
institucional.
O
episódio ocorre em um momento particularmente sensível para o STF. Após ter
desempenhado papel central na defesa da ordem democrática diante da tentativa
de golpe de 8 de janeiro de 2023, a Corte vê agora sua credibilidade ser
tensionada por decisões internas que alimentam críticas sobre transparência,
imparcialidade e respeito aos limites institucionais. No caso Banco Master, o
desfecho da investigação não dirá respeito apenas a crimes financeiros, mas
também ao grau de confiança que a sociedade deposita em suas instituições de
controle e justiça.
Tendo
parentes diretos, como irmãos, envolvidos no imbróglio, a ética impõe a Toffoli
o dever de se declarar impedido.
Fonte:
Brasil 247

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