Perfuração
na Foz do Amazonas começou sem regra sobre fluido
A
perfuração do solo marinho atrás de petróleo na bacia marítima da Foz do
Amazonas está paralisada. Desde o vazamento no mar de 15 mil litros de um
fluido usado na atividade, em 4 de janeiro, a Petrobras, autorizada a fazer a
busca na porção delimitada chamada de bloco FZA-M-59, investiga o que
aconteceu.
Fontes
ouvidas pela DW afirmam que os órgãos reguladores estão apurando os impactos no
ambiente e que a empresa poderá ser autuada. Mesmo que o fluido vazado seja
biodegradável, como afirmou a petroleira, suas moléculas podem causar poluição
a depender da quantidade, afirmam especialistas consultados pela reportagem.
Equipes
de fiscalização também avaliam se a empresa descumpriu alguma das exigências
estabelecidas na licença de operação para pesquisa exploratória nas águas
profundas no litoral do Amapá. A liberação veio do Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em 20 de outubro do ano
passado.
A
Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) informou que
está estabelecendo condicionantes para que a Petrobras retome a perfuração.
Segundo a nota enviada à DW, isso vai acontecer "somente após constatadas
as causas imediatas do incidente, bem como tomadas as devidas ações para sua
mitigação".
<><>
Sem regras?
Por
enquanto, não há uma norma em vigor que regule o uso de fluidos e como
descartar o que sai do fundo do mar durante a atividade. A única regra
brasileira que estipulava os limites para a descarga desses resíduos sólidos
das operações de perfuração de poços de petróleo está suspensa desde março de
2019.
A
instrução normativa havia sido criada um ano antes, em janeiro de 2018. Ela
estabelecia também as condições ambientais de uso e descarte de fluidos, além
de criar o Projeto de Monitoramento de Fluidos e Cascalhos. Algumas substâncias
eram vetadas na mistura do fluido, como óleo diesel, cromo hexavalente, ligas
de ferrocromo, brometo de zinco, entre outras.
A
adição de minerais ao fluido também precisava atender alguns requisitos.
Baritina, por exemplo, usado na mistura durante a perfuração para controlar a
pressão de poços, deveria se restringir a uma concentração máxima a depender da
combinação. O mineral é denso é dá um "peso" ao fluido, segundo
especialistas.
Em caso
do derramamento acidental no mar, dizia a norma, deverá ser coletada amostra
para análise de toxicidade aguda. "O resultado (...) deverá ser anexado ao
Relatório Detalhado de Incidente encaminhado para a Coordenação-Geral de
Emergências Ambientais", do Ibama, dizia a regra.
Suely
Araujo, especialista sênior em Políticas Públicas do Observatório do Clima, diz
se lembrar da fase de elaboração das normas. Ela comandava o Ibama à época,
assumiu o posto em junho de 2016 e o deixou em janeiro de 2019, quando Jair
Bolsonaro assumiu a Presidência da República.
"Eu
queria entender como o Ibama deixa isso suspenso temporariamente por tanto
tempo. Não faz sentido", critica Araujo em conversa com a DW.
<><>
Uma engenharia complexa
Antes
da perfuração, estudos geológicos e de sísmica são feitos para indicar
especificidades do solo, os tipos de rochas, camadas de sal e, a partir dos
resultados, uma estratégia de perfuração é traçada. Segundo profissionais da
engenharia de petróleo ouvidos pela DW, há algumas classes de fluidos que são
usados, normalmente à base d'água, de óleo e sintéticos. Rochas com minerais de
argilas que absorvem água e incham exigem fluidos à base de óleo, por exemplo.
"O
uso é definido a partir do tipo de rocha presente. Vão se adicionando aditivos
para mudar densidade e viscosidade do fluido, por exemplo, no decorrer da
perfuração", detalha Marcelo Castro, coordenador do Centro de Estudos de
Energia e Petróleo (Cepetro) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Nas
primeiras fases da perfuração, a própria água do mar pode ser usada nas brocas
que rasgam o solo marinho. Na sequência, o Blowout Preventer (BOP) é instalado.
O equipamento é vital para a segurança, pois controla a pressão no poço e
previne erupções inesperadas do que está armazenado lá no fundo.
Os
fluidos têm funções importantes. Eles mantêm a estabilidade do poço ao longo da
perfuração e são usados para carregar o cascalho que está sendo retirado
durante a perfuração. Ele volta para a superfície da plataforma por um tipo de
tubulação, é filtrado e reutilizado de acordo com a pressão e temperatura.
"Normalmente,
ele é reciclado, entra em recirculação porque traz o cascalho do fundo do poço.
Depois, o fluido é descartado em poços específicos, ou volta para o continente
para ser tratado e reutilizado, dependendo do tipo de fluido utilizado",
explica Castro.
<><>
A busca por novos poços
Questionada,
a Petrobras não informou a composição dos fluidos usados no bloco 59. Também
não confirmou se obteve novas evidências sobre a presença de petróleo no
subsolo onde está ocorrendo a perfuração.
Uma
análise recente publicada pelo Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo,
Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep) mostra que, entre 2000 e 2023, a taxa de
sucesso média global na perfuração de poços pioneiros foi de cerca de 45,9 % –
considerando terra firme e mar.
No
Brasil, dos 22 poços perfurados na fase de exploração em 2023, 14 tinham
indícios de combustível fóssil. Os dados, publicados em 2024, apontam para uma
taxa de sucesso de cerca de 63% no caso brasileiro.
"Em
áreas novas, essa busca é extremamente cara e arriscada. Os estudos ajudam a
aumentar as chances para perfurar um poço onde a probabilidade é maior",
afirma o pesquisador da Unicamp.
<><>
Uma nova norma
O Ibama
confirmou à DW que instaurou um processo administrativo interno para acompanhar
as ações da Petrobras e que as causas do incidente estão em apuração. O prazo
para a empresa apresentar um relatório detalhado é de trinta dias a partir do
término das ações de respostas.
Sobre a
suspensão da norma voltada para uso dos fluidos e descarte dos resíduos, o
instituto afirmou que o fato se deve à divergência jurídica entre os setores de
assessoramento jurídico do Ibama e a ANP.
Segundo
o Ibama, o processo de licenciamento ambiental estipulou as diretrizes para o
uso e descarte de fluidos de perfuração e cascalhos, fluidos complementares e
pastas de cimento dos empreendimentos de perfuração marítima de poços de
exploração e produção de petróleo e gás.
Uma
nova instrução normativa federal deve ser elaborada após o fim da consulta
pública, aberta até março.
• Petrobras ainda não explicou vazamento
na Foz do Amazonas
Depois
de notificar o vazamento de fluidos durante a perfuração do poço de pesquisa na
região da foz do rio Amazonas, a Petrobras ainda não deu explicações à Agência
Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) sobre o que teria
causado o vazamento. Assim, as operações da empresa no bloco FZA-M-59,
liberadas no final do ano passado, permanecerão temporariamente suspensas.
Segundo
a CNN Brasil, a Petrobras tem um prazo máximo de 90 dias, contados a partir da
data do vazamento, para encaminhar à ANP um relatório detalhado sobre o
incidente, com informações sobre as causas do vazamento. No entanto, até que o
relatório seja enviado e a ANP acolha ou não as justificativas apresentadas, a
empresa não poderá retomar a operação na região.
“A ANP
segue acompanhando o ocorrido e seus desdobramentos junto à Petrobras, que vem
enviando informações diárias sobre as ações adotadas na resposta ao incidente,
e junto à Marinha e ao IBAMA, no âmbito do Grupo de Acompanhamento e
Avaliação”, informou a agência.
O IBAMA
também pediu mais informações à Petrobras sobre o incidente, a fim de avaliar
as consequências ambientais e analisar possíveis mudanças no gerenciamento de
risco na região da Foz do Amazonas. Como o R7 assinalou, grupos ambientalistas
defendem a não retomada das operações e a suspensão definitiva da perfuração.
“Não
existe atividade de exploração de petróleo livre de riscos. A Petrobras, por
mais qualificada que seja, não está imune a falhas em suas operações, que,
neste caso, podem expor um ecossistema sensível e ainda pouco conhecido a danos
irreparáveis”, argumentaram o Observatório do Clima, Greenpeace Brasil e
WWF-Brasil em petição apresentada à Justiça Federal do Amapá.
Em
artigo no site The Conversation, o professor Nils Asp, da Universidade Federal
do Pará (UFPA), reforçou a necessidade de considerar os riscos do projeto da
Petrobras na Foz do Amazonas. “O recente acidente, com vazamento de
aproximadamente 18 mil litros de fluidos de perfuração, ocorrido menos de dois
meses após o início das operações, é um lembrete poderoso dos riscos. Embora o
acidente em si seja considerado de pequenas dimensões e baixo dano ambiental,
fica evidente que acidentes podem acontecer, e o risco de dano ambiental
precisa estar sempre em nossos radares”, defendeu.
IBAMA
cita “grande preocupação” com Foz do Amazonas e cobra reunião com Petrobras
Não
tardaram dois meses, desde a liberação da licença ambiental para a primeira
fase exploratória do bloco 59 na Foz do Amazonas, para a Petrobras anunciar um
acidente durante a perfuração. Segundo a Petrobras, o acidente ocorreu no
domingo (4/01), a 2.700 metros de profundidade, com perda de fluido em duas
linhas auxiliares, que ligam o navio-sonda ao poço Morpho. Assim que
identificado, o vazamento foi contido e isolado, e a operação foi suspensa. As
tubulações foram levadas à superfície, avaliadas e reparadas, detalha o g1.
Não
houve vazamento de petróleo, e sim de um fluido de perfuração chamado “lama”. O
material é usado para resfriar a broca, remover fragmentos de rocha e controlar
a pressão do poço. Apesar de informar que o fluido “atende aos limites de
toxicidade permitidos” e é biodegradável, sem risco ao meio ambiente ou à
população, a Petrobras também classificou o incidente como risco de dano à
saúde humana e ao meio ambiente à Agência Nacional do Petróleo (ANP).
Outra
informação destoante é a quantidade vazada. Como mostra o Valor, o documento
apresentado à ANP aponta 18,4 mil litros de fluido, enquanto o relatório
inicial do acidente estimava 15 mil.
Em
ofício, o IBAMA divulgou “grande preocupação […] acerca dos riscos e potenciais
impactos da atividade” na região, cobrou um relatório e uma reunião com a
petroleira, informa a Folha. O órgão ambiental ainda analisa o caso e
condicionou a retomada das atividades a uma explicação das causas do acidente.
No último dia 6, o Ministério Público Federal (MPF) no Amapá também exigiu
explicações. O órgão recebeu resposta no dia 8 e informou que a documentação
está em análise, conforme a CBN.
Diante
dos riscos socioambientais da exploração da Foz do Amazonas, entidades da
sociedade civil voltaram à Justiça Federal do Amapá para suspender a perfuração
do bloco 59, relata a VEJA.
“O
acidente evidencia que o risco não é remoto, mas concreto e atual, tornando
inadmissível a continuidade das atividades enquanto persistirem lacunas no
licenciamento”, diz o pedido de tutela antecipada enviado à 1ª Vara Cível do
Amapá. Entre as organizações que assinam a petição estão Greenpeace, WWF,
Instituto Arayara e a rede Observatório do Clima.
• Investidores ativistas pressionam BP e
Shell contra desmonte de projetos de energia renovável
O grupo
de investidores-ativistas Follow This se uniu a outros 20 investidores para
apresentar resoluções solicitando explicações às petroleiras BP e Shell sobre o
recuo recente em seus negócios de energia renovável. Eles querem saber como a
direção dessas empresas pretende gerar valor caso a demanda global por petróleo
e gás diminua, conforme projetado por especialistas do setor.
A
iniciativa representa uma mudança de estratégia para esses
investidores-ativistas. Na última década, com a assinatura do Acordo de Paris
em 2015, esses grupos atuaram para forçar as empresas de combustíveis fósseis a
alinhar seus modelos de negócio às metas globais de descarbonização e ao
objetivo de conter o aquecimento global em 1,5oC neste século. No entanto, após
a invasão russa da Ucrânia, a elevação dos preços dos combustíveis fósseis
resultou em lucros históricos para o setor, o que motivou um movimento recente
para ampliar os investimentos em energia suja, ao invés de diminuí-los.
Agora,
como pontuou a CNBC, a estratégia passará a se basear nos riscos financeiros
associados à queda na demanda por petróleo e gás. As propostas de resolução
para as Assembleias Gerais Ordinárias (AGM, em Inglês) da BP e da Shell
solicitam que as empresas divulguem como planejam continuar a gerar valor para
seus investidores nesse cenário de menor consumo de energia fóssil.
“Todo
investidor em sã consciência sabe – até mesmo a BlackRock – que as mudanças
climáticas estão ameaçando todo o seu portfólio. Todos sabem disso, mas não se
atrevem a agir”, afirmou Mark van Baal, fundador da Follow This. “Se quisermos
aumentar a pressão sobre as companhias petrolíferas para que mudem, precisamos
aumentar o número de votos e incluir um novo ponto de discussão no debate”. A
Reuters também repercutiu essa notícia.Enquanto isso, a direção da BP segue
desmontando seus negócios de energia renovável. Nesta semana, a empresa
britânica anunciou que espera reduzir o valor de suas operações de energia
renovável em até US$ 5 bilhões. Como o Guardian informou, a BP vem tentando
vender sua participação no negócio de energia solar Lightsource e cancelou
projetos de hidrogênio verde no Reino Unido, em Omã e na Austrália.
• Controle do petróleo venezuelano pelos
EUA desafia a transição energética
Ao
atacar a Venezuela, o negacionista Donald Trump não negou seus verdadeiros
interesses no país. Democracia? Que nada, segundo Trump, a Venezuela “roubou”
petróleo dos EUA. “Nós construímos a indústria petrolífera da Venezuela com
talento, motivação e habilidade americanos, e o regime socialista roubou isso
de nós durante esses governos anteriores”, alegou, em referência à ExxonMobil e
à ConocoPhillips, petrolíferas cujos ativos foram expropriados por Hugo Chávez.
Petróleo,
petróleo, petróleo, é só isso que consta na agenda de Trump. Para o cientista
político norte-americano Ian Bremmer, presidente da consultoria Eurasia, ouvido
pela Folha, os EUA cometeram um erro estratégico ao preterir a transição
energética, o que resultou em uma política externa unilateral, pouco coordenada
com aliados e uma diplomacia movida por impulsos pessoais. Ao contribuir para
um ambiente global instável, os EUA figuram na 1ª posição entre as ameaças à
ordem global, segundo o relatório do grupo Eurasia sobre os maiores riscos de
2026.
A
Deutsche Welle explica por que o petróleo venezuelano importa para os EUA:
apesar de ser um grande produtor de petróleo bruto, o país não produz o tipo
mais pesado e viscoso, que muitas de suas refinarias, em especial no Golfo do
México, são equipadas para refinar.
Esse é
o tipo de petróleo extraído da Venezuela. Apesar da indústria venezuelana estar
defasada, o país abriga as maiores reservas globais de petróleo pesado, tendo
abastecido a indústria americana por muitas décadas.
“Os
Estados Unidos estão cada vez mais retrocedendo na transição energética e, além
disso, estão muito dispostos e aptos a mobilizar forças militares para atingir
esse objetivo”, afirmou Li Shuo, diretor do centro de clima da China no
Instituto de Política da Sociedade Asiática, à CNN Brasil.
Enquanto
Washington trata a transição energética como ativismo “woke”, a China consolida
sua liderança em energia renovável, barata e em grande escala, sem muita
resistência de sua oponente no xadrez global. O governo Trump informou à
presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, que o país deve cortar laços
com a nação asiática e também com o Irã, a Rússia e Cuba e concordar em vender
seu petróleo exclusivamente para os EUA.
Além da
audácia descarada, o fanatismo de Trump o cega a uma informação óbvia: a China
não precisa do petróleo da Venezuela, enquanto a economia da Venezuela precisa
da China. A China é uma das maiores compradoras de petróleo venezuelano, mas os
investimentos na transição energética, em especial na eletrificação do setor de
transporte, estão distanciando o país da dependência de combustíveis fósseis. O
país liderou com folga a venda de veículos elétricos globalmente em 2025: dos
18,5 milhões, 11 milhões foram vendidos na China.
No
mesmo ano, o país também estava construindo 510 gigawatts de capacidade de
geração de eletricidade solar e eólica. A promessa era chegar a 3.600 gigawatts
implantados em energia solar e eólica, o que equivale a seis vezes mais do que
em 2020. Especialistas projetam que o país já atingiu, ou atingirá muito em
breve, seu pico de consumo de petróleo.
O
tabuleiro geopolítico ainda é incerto devido aos passos imprevisíveis de Trump.
Mas já sabemos quem perde: o povo venezuelano, que tem sua economia refém da
variabilidade dos preços internacionais dos combustíveis fósseis e atrelada à
concentração de renda, à guerra e às mudanças climáticas. Perde também o povo
estadunidense, que vê o país desmontar órgãos e políticas climáticas como nunca
antes, o multilateralismo e a política climática global.
Quanto
mais investimento em fósseis e guerras, menos espaço temos para avançar em
agendas como o Mapa do Caminho para o fim dos combustíveis fósseis, tão
necessárias para limitar o aquecimento global a 1,5°C.
Fonte:
DW Brasil/Climainfo

Nenhum comentário:
Postar um comentário