Ilhas
Virgens Americanas, o território no Caribe que a Dinamarca aceitou vender aos
EUA há mais de 100 anos
Donald
Trump quer que os Estados Unidos se apoderem da Groenlândia e, no sábado
(17/1), anunciou tarifas contra oito países europeus que se opuseram às suas
ambições e enviaram tropas para a ilha ártica nos últimos dias.
O
presidente americano insiste que seu país precisa da Groenlândia por razões de
"segurança nacional" e não descartou a possibilidade de tomá-la com
uso da força.
Esta
não é a primeira vez que os Estados Unidos tentam anexar um território
dinamarquês.
Há mais
de 100 anos, longe do frio polar da Groenlândia, no calor do Caribe, algumas
pequenas ilhas passaram de propriedade da Dinamarca para possessão dos Estados
Unidos.
Naquela
época, o governo americano também citou razões estratégicas e de autodefesa.
Mas,
diferentemente de agora, os dinamarqueses concordaram e um acordo de compra foi
firmado.
A
Groenlândia também fazia parte da proposta, já que, no pacto assinado pelos
dois governos, os EUA se comprometeram a respeitar o controle dinamarquês sobre
a grande ilha no Ártico.
Esta é
a história de como as Índias Ocidentais Dinamarquesas se tornaram as Ilhas
Virgens Americanas — e de como uma potência europeia em declínio cedeu algumas
possessões ultramarinas à potência emergente da época.
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Onde ficam as Ilhas Virgens Americanas?
As
Ilhas Virgens Americanas são um pequeno arquipélago sob controle dos EUA no
Caribe, a leste de Porto Rico.
As
principais ilhas são Saint John, Saint Thomas e Saint Croix, mas também existem
cerca de cinquenta outros ilhéus e recifes.
Com uma
população estimada em 83 mil habitantes, as ilhas são um território não
incorporado dos Estados Unidos.
Os
nativos são cidadãos americanos, mas não podem votar nas eleições
presidenciais.
Altamente
vulneráveis a furacões devido à localização geográfica, na abertura leste do
Caribe para o Oceano Atlântico, as ilhas são cercadas por recifes de coral.
A
economia local é baseada no turismo, e três em cada quatro habitantes são de
ascendência africana.
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Por que esse território pertencia à Dinamarca?
Durante
séculos, as ilhas foram conhecidas como Índias Ocidentais Dinamarquesas.
Nos
séculos 16 e 17, espanhóis, ingleses, franceses e holandeses disputaram
periodicamente o controle dessa região, frequentemente usada como refúgio pelos
temidos piratas do Caribe.
Em
1684, a Dinamarca tomou o controle de Saint John e afirmou sua soberania sobre
a ilha. Pouco antes, havia feito o mesmo com Saint Thomas.
Os
dinamarqueses então começaram a desenvolver grandes plantações de
cana-de-açúcar no local, por meio da exploração de escravizados trazidos da
África por comerciantes europeus.
O
comércio de açúcar foi o que, durante séculos, manteve as ilhas e os colonos
dinamarqueses que obtiam os lucros dessa atividade.
A
memória dessa época permanece nos nomes de algumas cidades das ilhas, como
Christiansted e Frederiksted, dados em homenagem aos reis dinamarqueses da
época.
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Por que os EUA estavam interessados nas Ilhas Virgens?
Na
segunda metade do século 19, as coisas começaram a mudar.
O poder
dinamarquês estava em declínio, e os Estados Unidos emergiam da Guerra Civil
(1861-1865) convictos da necessidade de afirmar sua força no continente
americano e reduzir a influência das antigas potências europeias.
Em
consonância com a chamada Doutrina Monroe, formulada na década de 1820, os
líderes políticos americanos optaram pela expansão territorial e pelo
fortalecimento naval.
O
historiador dinamarquês Hans Christian Berg explica em um artigo que,
"após a Guerra Civil, era hora de considerar as condições estratégicas no
Caribe, e o Secretário de Estado W. H. Seward concentrou-se tanto na anexação
do México quanto em uma possível expansão americana no Caribe".
Para os
estrategistas americanos, o porto de Saint Thomas era de particular interesse.
Hoje um
centro para grandes navios de cruzeiro carregados de turistas, esse local era
então visto como uma base ideal para controlar o Caribe devido à excelente
proteção natural oferecida pela topografia local.
Na
Dinamarca, devido à queda dos preços do açúcar, as ilhas passaram a ser vistas
cada vez mais como um fardo — uma visão que as sucessivas revoltas dos
escravizados negros que cultivavam a cana-de-açúcar só reforçariam.
Segundo
Berg, "para os dinamarqueses, era principalmente uma questão
econômica".
Assim,
ambos os governos começaram a negociar uma possível venda das ilhas e, em 1867,
assinaram um tratado pelo qual os Estados Unidos as adquiriram em troca de US$
7,5 milhões em ouro.
Mas
essa primeira tentativa de transação não se concretizou.
Em
1868, os EUA finalizaram a aquisição de outro território ártico, o Alasca,
comprado da Rússia czarista por aproximadamente US$ 7 milhões, uma aposta de
Seward que provocou críticas e até mesmo piadas por parte daqueles que, nos
Estados Unidos, consideravam esse território apenas um pedaço de terra
congelado, sem valor econômico ou estratégico.
A
controvérsia em torno da compra do Alasca contribuiu para que o Congresso dos
Estados Unidos, em última instância, não ratificasse o tratado de aquisição das
Índias Ocidentais Dinamarquesas.
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Primeira Guerra Mundial e a compra das Ilhas Virgens Americanas
A
eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) acabou por inclinar a balança a
favor da compra da ilha pelos Estados Unidos.
A
Europa estava se exaurindo em uma longa guerra de trincheiras, e os Aliados
estavam ansiosos para que os Estados Unidos entrassem no conflito para derrotar
a Alemanha e o resto das chamadas Potências Centrais.
O
presidente Woodrow Wilson não conseguiu convencer o Congresso ou o público
americano sobre o motivo de se envolver no conflito, mas a crescente frustração
com os ataques de submarinos alemães, os temidos U-boats, contra navios
mercantes americanos e até mesmo navios de passageiros, estava prestes a mudar
tudo.
Segundo
Astrid Andersen, do Instituto Dinamarquês de Estudos Internacionais, "a
Dinamarca manteve-se neutra na guerra, e o temor em Washington era de que a
Alemanha pudesse invadir o país e, assim, tomar o controle das ilhas e do porto
de Saint Thomas".
Se
caísse em mãos alemãs, o local poderia se tornar o esconderijo perfeito para
submarinos inimigos lançarem ataques contra navios americanos ou mesmo contra
território americano — o pior pesadelo para os estrategistas dos EUA.
Com a
expulsão da Espanha de Cuba e Porto Rico na Guerra Hispano-Americana de 1898,
as ilhas eram um dos poucos vestígios da presença europeia no Caribe.
A
construção do Canal do Panamá em 1914 aumentou ainda mais o interesse dos EUA
na região e na segurança de suas rotas marítimas.
Nesse
contexto, os governos de Washington e Copenhague iniciaram negociações nas
quais, segundo Andersen, a posição dos EUA se assemelhava à que Trump adota
atualmente em relação à Groenlândia.
"Há
ecos do que estamos ouvindo agora, porque o que os Estados Unidos vieram dizer
foi: 'Ou vocês nos vendem ou vamos invadir'", compara Andersen.
Finalmente,
em agosto de 1916, os dois países concordaram com a venda das ilhas aos Estados
Unidos por US$ 25 milhões em ouro — o equivalente a cerca de US$ 630 milhões
(R$ 3,3 bi) hoje, segundo estimativa da Bloomberg.
Como
parte do acordo, os Estados Unidos prometeram não se opor à "extensão dos
interesses políticos e econômicos da Dinamarca em toda a Groenlândia" —
algo que o governo Trump talvez prefira esquecer.
O
acordo foi ratificado pelos dois países desta vez. Os dinamarqueses também
aceitaram a ideia, ao votar a favor da venda de forma esmagadora em um
referendo.
Na
realidade, acredita Andersen, "a maioria dos dinamarqueses não considerava
aquelas ilhas como parte da Dinamarca".
O
historiador recorda que população das ilhas não teve qualquer voz nessas
decisões
Finalmente,
em 31 de março de 1917, a bandeira dos Estados Unidos foi hasteada pela
primeira vez sobre os edifícios governamentais das ilhas, numa cerimônia
solene.
Na
mesma ocasião, uma guarda de honra dinamarquesa baixou a bandeira da Dinamarca
pela última vez e levou-a para sempre num navio.
Esta é
provavelmente a cena que Trump sonha se repetir na Gronelândia, mais de um
século depois — o problema é que, desta vez, a Dinamarca não quer vender.
Fonte:
BBC News Mundo

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